L'effet du débit sur l'identification des frontières lexicales 45
4.1.1. Identification des frontières lexicales
No Brasil e no mundo o espaço rural é marcado por grandes heterogeneidades. O
agribusiness, por exemplo, representa um rural. É o rural da grande empresa33 agrícola e é
marcada por uma outra lógica do rural. A lógica da empresa é a da produção intensiva, definida pelas necessidades do mercado. Nesse modelo, o mundo rural é um espaço produtivo, mas não é necessariamente um espaço de moradia34. Nele, muitas vezes, essas
duas funções, tradicionalmente características do mundo rural, se tornam incompatíveis. Um exemplo muito próximo disso são as fazendas de cana-de-açúcar do Nordeste brasileiro, mas elas e a região nordestina não são as únicas, essa é uma realidade presente nas mais diferentes regiões do país e está associada a outras culturas agrícolas.
Noutro extremo, podemos falar da agricultura familiar. Nos últimos tempos esse segmento se estabeleceu e vem ganhando importância social e política no universo rural brasileiro. A agricultura familiar é uma categoria essencialmente diferente da empresa moderna na medida em que não se caracteriza pela posse de extensas faixas de terra e pelo predomínio do trabalho assalariado. Ela “é fundamentalmente, o ‘lugar’ da família,
centrado em torno do patrimônio familiar, elemento de referência e de convergência, mesmo quando a família é pluriativa e seus membros vivem em locais diferentes” 35.
Dentro dessa heterogeneidade do universo rural brasileiro podemos encontrar várias outras configurações. A grande propriedade pode não eliminar o trabalho familiar e a agricultura familiar pode incorporar, de forma sistemática ou não, o trabalho assalariado em curtos ou longos períodos, por exemplo.
33 Para nós o que define o modelo empresa não é o nível de renda ou os recursos tecnológicos que utiliza
apenas, mas a sua relação com o mercado e as relações de produção que inspira.
34 Wanderley, 2000:4 35 Wanderley, 2000 (b): 2.
Noutra direção, mas como componentes dessa riqueza de formas que vem assumindo o mundo rural, os conceitos tradicionalmente estabelecidos que o definiam como centro de produção essencialmente agrícola perdem espaço na realidade. O rural tem assumido uma multiplicidade de formas e isso não quer dizer urbanização necessariamente36. Segmentos diferenciados da economia e diversos grupos sociais têm
transformado o rural num espaço de trabalho, moradia e lazer, dando-lhe uma nova dinâmica. Cada vez mais o rural é um “espaço diversificado”, mais dinâmico, alternativo até.
O espaço urbano tem sido fartamente caracterizado como plural e dinamizador da sociedade37. Seus signos, por essa concepção, fornecem os modelos preponderantes na
sociedade moderna. O urbano aparece como sinônimo da especialização e do universalismo. Ele concentra mais do que bens e serviços, em geral, precários na zona rural38, concentra poder. É o centro urbano, espaço privilegiado de tomada de decisões. As
principais instituições sociais, os representantes da sociedade, as instâncias decisórias estão localizadas no mundo urbano. As cidades, especialmente as mais desenvolvidas, são também centros de lazer, de bens e de serviços mais amplos. Compreendido dessa forma, o urbano exerce um poder de atração quase que fatal sobre o campo, em muitos casos, é
36 Neil Smith (In: Maia, Op. Cit. 35), partindo de uma previsão de Marx, nos diz que na época moderna a
urbanização do campo e a não ruralização da cidade, através da industrialização da agricultura, é uma realidade indiscutível. No nosso entender, a urbanização do campo, muitas vezes interpretada como totalizante, não é um fenômeno inexorável. A análise dialética das relações sociais não permite leis deterministas.
37 Mendras (1978:10) diz a esse respeito que a cidade é motor de progresso; que em seu seio, nascem as
invenções técnicas, as idéias revolucionárias, os novos modos de vida, difundidos em seguida pelas áreas rústicas circunvizinhas.
38 A precariedade da vida rural não é um fenômeno universal. Na Europa, por exemplo, é crescente a
existência de uma paridade nas condições de vida dos habitantes dos dois universos. No Brasil, apesar de alguns avanços ocorridos nos últimos tempos em algumas regiões, isso ainda não ocorreu.
capaz de provocar níveis de concentração populacional insuportáveis, levando à crise da vida urbana e provocando fortes implicações no mundo rural.
Nesse contexto, surgem as buscas de solução para o estrangulamento da vida nas cidades e a revalorização da vida no campo. Muitas vezes, o que se busca é a combinação das melhores condições de vida existentes nos dois ambientes. As casas de campo para fins de semana e feriados, são um bom exemplo disso. Outros mudam para o campo e o definem como lugar mais do que de descanso e lazer, mas como uma opção de vida39. Os
aposentados têm se destacado nesse sentido em várias partes do mundo. Há também os que deixam a vida e o trabalho na cidade e mudam para o campo – esse percurso muitas vezes é apenas um regresso -, assumindo-o como espaço de trabalho e de vida.
É verdade que, em muitos casos, o rural tem sido apropriado pelo urbano e transformado em espaço de consumo; noutra perspectiva, quando há a mudança efetiva de um espaço para o outro, o modo de vida dos que lá já estavam, das gentes do lugar, acaba afetado, mas também influencia os que chegam. Aliás, os modos de vida e até uma forma específica de produzir são fatores da atração exercida pelo campo40. No seu conjunto esse
fenômeno é portador de uma grande riqueza sociológica e política. Essa riqueza se afirma na singularidade de cada mundo, mas especialmente nas suas distinções que dialeticamente os separam e os aproximam num movimento que afirma as suas diferenças, mas não os faz antagônicos.
A expressão “renascimento rural”, que vem sendo usada para definir esse fenômeno de redimensionamento do rural, não significa, como inadvertidamente pode parecer, que um dia o rural esteve morto, nem que se dá porque há uma crise na vida da
39 Na verdade esse movimento não é simples e tranqüilo, ele envolve muitos conflitos entre os que chegam e
os ‘nativos’.
cidade, mesmo que isso seja em muitos casos uma realidade. O que há, acertadamente, é um processo de “ressignificação” do rural, que ocorre graças à sua especificidade de espaço, à sua capacidade de estabelecer uma relação mais harmônica com a natureza, de ter uma sociabilidade marcada pelas relações mais diretas, pela força das relações descritas como de interconhecimento e também porque o modelo produtivista passa por um processo de transformação. Se é verdade que o rural se esgotou para uma parcela da população como modelo de vida, é preciso também perceber que ele está na raiz de um novo rural que está integrado e guarda a essência do pequeno grupo e do contato com o meio natural.