Escolhi o diário de bordo como instrumento de coletas de dados porque, conforme Dias et al. (2003), o diário de bordo é um bom apoio à memória e, no caso desta pesquisa, ele foi um instrumento importante para não deixar de fora aspectos relevantes que podem ser esquecidos se não forem anotados na hora. Como se trata de uma pesquisa-intervenção com a aplicação de uma SD, compreender a experiência, o processo, refletir sobre a aplicação da SD, foi parte fundamental da pesquisa, e, nesse sentido, houve necessidade de replanejamento de ações, de lançar mão de novas estratégias, enfim, o diário de bordo possibilitou a reflexão sobre a ação.
Conforme Cañete (2010, p.107), “o que determina quando os registros serão feitos é uma exigência interna, pessoal. O desejo de registrar é marcado pela importância que as situações adquirem para as professoras”. Assim, a observação foi realizada durante a aplicação da
intervenção pedagógica. Foi observada a participação das(os) alunas(os) no processo de desenvolvimento das atividades com anotações no diário de bordo, que foram complementadas com as gravações e filmagens.
Fiz uma triangulação entre os dados coletados no diário de bordo, em que havia as falas das (os) alunas (os), apontamentos sobre as discussões e sobre as atividades que foram realizadas, se fizeram ou não, cruzei os dados do diário de bordo com os relatos escritos para fazer a análise, não baseada somente no relato escrito, mas levando em conta todo o processo percorrido até chegar à produção textual.
Dias et al. (2013) afirmam que o diário de bordo vem sendo muito utilizado como ferramenta na formação docente por muitos autores, pois ele proporciona uma reflexão sobre a prática; salientam também que, num primeiro momento, a escrita é mais descritiva, sem aspectos reflexivos. Para a autora, além de registar, o diário de bordo analisa, avalia, organiza e reavalia as práticas docentes. Nesse sentido, no processo de escrever, o professor seleciona o que vai ser escrito, organizando suas ideias focando no que é mais importante. Nesse processo, ele escreve, lê, relê, reestrutura, acrescenta, retira passagens, e, à medida que faz isso, torna seu fazer mais claro e próximo para si mesmo, instaurando-se, assim, uma reflexão crítica sobre o que foi realizado, esse processo pode esclarecer para o professor as teorias que fundamentam seu trabalho, gerando a ação- reflexão.
Lewgoy e Scavoni (2002, p. 06) também dissertam sobre diário de campo. Considerei interessante relevar suas contribuições uma vez que ambos, diário de bordo e diário de campo, têm as mesmas características. As autoras definem o diário de campo como “documento instrumental de caráter descritivo-analítico, investigativo, reflexivo e de síntese”. Segundo as autoras, o diário favorece a construção, desconstrução e reconstrução do conhecimento, pois através dele há a reflexão sobre a prática.
O diário de bordo, por meio da sistematização da ação profissional que se alia a um referencial teórico, viabiliza a construção do saber. Para as autoras, o diário promove a problematização da ação profissional, o questionamento conduz à investigação sobre o cotidiano e às questões apresentadas nele, também afirmam que a pesquisa leva ao conhecimento, às reflexões críticas e à compreensão do nosso processo de trabalho frente ao ato de construir e reelaborar o objeto de intervenção a ser desvelado durante a ação profissional. Segundo Lewgoy e Scavoni,
Este movimento nos conduz à sistematização, consequentemente, à análise e à síntese, sobre a ação que desenvolvemos cotidianamente. Capacita-nos a propor e a intervir na realidade. Entendemos que é também através da construção do diário que se apreende a ação ético-política, estabelecendo uma conexão entre teoria e prática, que leva à construção do próprio conhecimento. (LEWGOY; SCAVONI, 2002, p. 07).
Assim, o diário trouxe questões que se pretendiam explorar e outras que foram surgindo durante a aplicação da intervenção, como a Lei das cotas, que surgiu durante as discussões. Houve também, durante esta pesquisa, meu olhar avaliativo sobre minha prática, minha ação. Para as autoras, escrever sobre a própria prática leva à aprendizagem. Lima, Mioto e Prá (2007) salientam que é um primeiro passo para compreender e explicar a totalidade dos fenômenos em seu contexto, captando suas relações e dinamismo. As anotações analítico-reflexivas que advêm das observações dos processos e dos acontecimentos servem para que o pesquisador veja quais questões precisam de aprofundamento na busca de significados e explicações dos fenômenos apreendidos.
As situações de contato entre os sujeitos da pesquisa e do pesquisador são parte integrante do material analítico-reflexivo do diário, conforme as autoras, o registro sobre a forma como o contato foi estabelecido para pesquisa e a receptividade dos sujeitos da pesquisa é tão importante, pois fornecerão elementos para a leitura e interpretação, posteriormente, será importante também para a compreensão do universo do trabalho.
As autoras ainda explicam que, por meio do diário de bordo, há a evidenciação de subsídios para a intervenção crítica no real e para a orientação da ação. Assim, conforme elas, trata-se de um processo no qual as dificuldades e as dúvidas vão sendo registradas e consideradas, segundo Lima, Mioto e Prá (2007, p. 101), “como elementos importantes no cotidiano profissional porque conduzem à reflexão e análise que, por sua vez, potencializa a interlocução teórica e o encontro de novos caminhos para a resolução de um problema”. Ainda segundo as pesquisadoras, quando se faz essa documentação se realiza uma análise. Outro aspecto levantado por elas é relacionado ao que o diário deve trazer, o detalhamento da intervenção, pois isso possibilita a observação e a análise crítica do planejamento e da execução das ações, percebendo dificuldades e limitações do profissional, esse novo revisitar dos dados contribui para que se chegue aos objetivos da intervenção. O diário, para Lima, Mioto e Prá,
taduzir-se em avanços tanto na intervenção (estabelecimento de novas prioridades, por exemplo), quanto na teoria (alimentando-a com novos dados sobre a realidade, problematizando novas abordagens e ações). (LIMA; MIOTO; PRÁ, 2007, p. 103).
Quanto ao uso do instrumento de coleta de dados “diário de bordo”, Cañete (2010) afirma que na formação docente o uso do diário de bordo é comum; porém, chama a atenção o número reduzido de seu uso por professores atuantes na educação básica, analisando a própria prática docente, que é o caso desta pesquisa.
Alves (2004) destaca que quando se trata de pesquisa qualitativa, o diário aparece como um de seus instrumentos básicos; no entanto, não são muito frequentes o seu uso e quando aparece não há muita explicação de como foi usado e nem de como foram usadas as informações captadas através desse instrumento. Tendo em vista esta advertência de Alves (2004), procurei não incorrer nesse equívoco e, conforme a (o) leitor(a), poderá conferir nas análises desta pesquisa, os dados do diário de bordo foram utilizados.
3.3.4. As gravações e filmagens como complemento para anotações no