TABELA 5- Porcentagem dos estudantes que afirmaram nunca haver pensado antes sobre a cor de sua pele5
Questões a serem respondidas Total de respostas Lembrança de já ter pensado
anteriormente sobre a cor de sua pele.
1 (3%)
Nunca tinha pensado sobre a sua própria cor de pele.
25 (84%)
Não dizem se pensaram ou não na própria cor antes.
4 (13%)
Total de relatos 30 (100%)
Fonte: Elaborada pela pesquisadora.
Conforme a tabela, tem-se uma ilustração confirmando que o branco geralmente não pensa sobre o seu papel na estruturação do racismo. O total de sujeitos que se autodeclaram brancos foi de trinta, desses, vinte e cinco, ou seja, 83%, revelaram não terem pensado sobre sua própria cor até o momento da pesquisa. Vinte perceberam que as (os) negras (os) são discriminados na sociedade e contam algum fato para ilustrar sua afirmação, no entanto, somente Realista afirmou já ter refletido sobre sua cor de pele:
“Eu comecei a pensar sobre esse assunto quando um conhecido meu ia dar carona para um negro. Ele colocou um pano no carro para o negro sentar, como se ele tivesse alguma doença ou coisa parecida” (Realista, branca,, relato autobiográfico, 04/10/2016).
Esse fato contado por Realista remete à questão do negro sujo, que veiculam na sociedade em expressões como: “quando não faz na entrada, faz na saída”. A fragilização da identidade negra é cotidiana.
O branco não olhar para si, ou seja, a invisibilidade no que se refere à autoatribuição de pertença racial, é uma característica da branquitude. Isso pode ocorrer por ignorância ou por interesse. (SCHUCMAN, 2012; CARDOSO, 2008), pois é comum que o sujeito branco não racionalize os efeitos da raça para si, nem mesmo se reconheça racializado; porém, se enxerga como branco pela diferença que encontra no “diferente”
5 Dados obtidos nos relatos autobiográficos.
dele.
Para revelar como se deram conta de que eram brancas, Julianny e Bárbara contam formas parecidas, pois, sendo brancas, mesmo quando são apelidadas, sentem que isso não traz a exclusão:
“Eu me sinto muito bem com minha cor porque todo mundo me chama de “polaca”. Eu gosto de ser branca (Julianny, relato autobiográfico). Para mim são até elogios, pois do que mais me chamavam era de “Polaca Azeda” e eu sou polaca e azeda. (…)” (Bárbara, branca, relato autobiográfico, 04/10/2016).
Ser chamada de Polaca ou Polaca Azeda as mantêm brancas. Não são diminuídas, não são desumanizadas, nem excluídas pela questão racial. Corossacz (2014, p. 206) explica como isso acontece: “a cor branca não funciona no plano da linguagem do mesmo modo que a cor preta”, ou seja, ser branca (o) não traz conotações negativas, é o que as meninas afirmam quando dizem que até gostam de serem chamadas de polacas, pois ser considerada(o) descendente de poloneses numa região como a que estão inseridas, onde historicamente se dá muito valor à descedência europeia, tem uma dimensão positiva, dando empoderamento a quem consegue ser considerada(o) “polaca(o)”, pois remete à localização europeia, a Polônia, assim, o termo as identifica positivamente com um lugar de referência social e poder aquisitivo do contexto europeu. No contexto local, é muito comum as pessoas se identificaem como poloneses, holandeses, alemães, mesmo sendo da terceira ou quarta geração, essa mesma referência não é feita aos negros. Os cidadãos negros, numa roda de conversa, nem sequer são perguntados sobre sua descendência.
Conforme Bento (2014, p. 30), a distorção, o silêncio, a omissão do lugar do branco “na situação das desigualdades raciais no Brasil têm um forte componente narcísico, de autopreservação, porque vem acompanhado de um pesado investimento na colocação desse grupo como de referência da condição humana”. Pertencer a um grupo que tem historicamente se mantido como norma, como modelo, é motivo de orgulho para as meninas. Bento (2014, p. 30) coloca que “quando precisam mostrar uma família, um jovem, uma criança, todos os meios de comunicação social brasileiros usam quase exclusivamente o modelo branco”. Inversamente, desde cedo aprendemos a associar o negro a um lugar de inferioridade por meio de apelidos voltados para as pessoas negras, piadinhas associando a sua aparência física a algo depreciativo, isso porque vivemos em um país de estrutura racista.
Infelizmente, a cor da pele de uma pessoa é mais determinante para seu destino social do que sua trajetória, sua história, seu caráter. Além disso, o histórico da escravidão ainda afeta negativamente a vida dos descendentes de africanos porque, após a abolição, não houve um posicionamento da sociedade brasileira contra o racismo, pelo contrário, optou-se por desconsiderar a desigualdade racial e a discriminação (GOMES, 2005). Isso se confirma no seguinte trecho:
“Eu representei a cor branca quando me falaram: Nossa, você é linda, tão branquinha! (…). Eu demorei a me dar conta que o racismo está em nosso dia a dia, em pequenos gestos” (Uma Loira, branca, relato autobiográfico, 04/10/2016).
O excerto apresentado coaduna-se ao que Silva (2014) declara sobre os indivíduos que se identificam como brancos tomando a si próprios como modelos, no caso dela, a beleza, e projetam sobre o outro as mazelas que não são capazes de assumir em si mesmos, visto que maculariam o modelo que tem de si. Isso seria o que Bento (2104) chama de Pacto Narcisíco.
Nogueira (2014) faz uma crítica de literatura sobre pertencimento étnico-racial, relacionando o conceito a processos de humanização e desumanização, numa perspectiva africana, para analisar o contexto brasileiro cujas relações sociais hegemônicas são baseadas na ideologia da supremacia racial branca e o impacto disso na subjetividade dos que são privilegiados por ela.
O excerto de Uma Loira também traz a concepção de beleza associada à brancura e traduz essa ideologia a partir do momento que se considera um modelo do belo. Ao dizer:
“Eu fui racista ao passar a rua porque na calçada eu iria encontrar um negro, então atravessei a rua, nesse momento eu representei a cor branca” (Uma Loira, relato autobiográfico, 04/10/2016).
Os que se consideram brancos ou são considerados como tal, vivem uma condição ilusória de supervalorização de sua estética e modos de ser, o que gera uma incapacidade ou dificuldade de reconhecer outras possibilidades de ser e viver no mundo, tão humanas quanto as suas. Dessa maneira, não reconhecem a humanidade do Outro e não podem reconhecer a sua própria, em outras palavras, não reconhecendo que o Outro pode ser diferente e tão humano quanto a si mesmo, não são capazes de compreender e respeitar que ambos podem ter pertencimentos raciais diferentes. (NOGUEIRA, 2014, p. 59).
historiarmos a vida social para o outro, estamos construindo nossas identidades sociais ao nos posicionarmos diante de nossos interlocutores e diante dos personagens que povoam nossas narrativas” (MOITA LOPES, 2002, p. 64). O autor afirma afirma que as narrativas são instrumentos usados para dar sentido ao mundo e a nós mesmos, tornamo-nos as narrativas autobiográficas que contamos.
Pensar a cor da pele negra associando-a com a negatividade é fruto das teorias racistas pregadas desde o século XIX. A atitude da menina de atravessar a rua para evitar o encontro com um negro foi fruto da disseminação dessas teorias ainda presentes no ideário da população brasileira. O primeiro passo para tratar uma doença é perceber os sintomas, então, ao perceber que foi racista, a menina deu o primeiro passo para a cura dessa doença chamada “racismo”.
O Letramento Racial Crítico atua no momento da reflexão sobre seus próprios atos e a coloca numa posição de desconstrução de conceitos raciais criados para ela e não por ela.
Conforme Nogueira (2014, p. 58), “todos os envolvidos em relações sociais baseadas na branquitude sofrem processos de desumanização, pois são impedidos de reconhecer a humanidade do Outro e a sua própria”. O medo demonstrado por Uma Loira foi apreendido na família, com amigos, ou na mídia, o objetivo, dentre outros. Segundo Bento (2014, p. 43), “é restringir a própria consciência das questões raciais e a interação com pessoas negras”. Por isso, a tendência do barnco ao isolamento.