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3. THE HARDWARE SOLUTION

3.2 HARDWARE VERIFICATION

O termo “poder” encontra muitas vezes um equivalente na palavra autoridade, e significa ter

“…capacidade de realizar uma ação ou processo ou produzir um efeito”181

(p.2887). Refere Cabral que uma noção comum a estes conceitos é a “capacidade de influir, graças a uma

superioridade reconhecida ou acatada”182

(p.17). A autoridade reveste-se, assim, do direito de mandar, encontrando correspondente no dever de obedecer, porém alguns aspetos têm que ser tidos em consideração para a sua aplicabilidade prática permitir uma relação equilibrada entre quem manda e quem obedece.

Cabral183, considera várias vertentes em torno da autoridade: a “origem”, a “legitimidade”, a “finalidade e âmbito” e a “obediência e resistência”.

A origem pode ser “natural” ou “divina”. A primeira caracteriza o poder estabelecido dentro da sociedade a grupos de membros, como, por exemplo, o poder político, a família, os tribunais; o segundo representa o poder atribuído ao místico e religioso que sempre teve um papel preponderante na vida do homem. Importa ainda referir um outro poder que de certa forma está relacionado com o natural e que é o “hierárquico”, reportando-se este a uma gradação de poder entre os membros de um grupo e que deriva direta ou indiretamente de quem ocupa o supremo lugar na escala.

A legitimidade é um aspeto de certa forma relacionado com o precedente e consiste em saber em que condições o poder foi adquirido, isto é, reconhecido ou não. Diz Cabral que “…não é

dado pela natureza, pois, segundo esta, todos os homens são fundamentalmente iguais…pode verificar-se por dois modos: só pelas circunstâncias, quando só haja um sujeito apto para governar…ou por escolha da sociedade”184

(p.101). Sem dúvida maioritariamente é por escolha da sociedade que o poder é legitimado, de forma mais lata as eleições são caso disso e como exemplo estrito podemos referir a retirada do poder paternal quando os pais não decidem com base nos melhores interesses dos filhos ou quando um representante legal é

181

Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Lisboa: Verbo, 2001.

182 Cabral R. Temas de ética. Braga: Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, 2000. 183Cf. Idem, (p.100-102).

determinado pelo tribunal como tutor de um incompetente. Podemos considerar que a autoridade é ilegítima quando se impõe contra vontade e como tal não é reconhecida, ou quando há abuso grave do poder como acontece com os tiranos.

A finalidade e âmbito são na opinião do referido autor, o cerne da problemática relativa à autoridade. A autoridade deve na sua base compatibilizar a liberdade e a igualdade dos homens, ao mesmo tempo que deve visar o bem dos que lhe estão subordinados.

A obediência e resistência reportam-se à relação que existe entre o direito de mandar e o dever de obedecer. Com efeito, em relação a quem manda, geralmente obedecemos porque reconhecemos a legitimidade da ordem, ou como diz Cabral “acatamos” 185(p.102) quando são ordens ilegítimas mas que visam um bem comum.

Benatar considera que existem diferentes formas de poder, o “poder-força” que corresponde ao poder militar e que é o que tem vigorado com importante papel na história e na aquisição de riqueza até aos dias de hoje, e duas forma brandas de poder mas não menos importantes: o “poder financeiro” e o “poder do conhecimento”. No poder financeiro, “tanto a maneira de

ganhar dinheiro como a de usá-lo podem ter um profundo impacto na vida e na segurança humanas”186

(p.30); no poder do conhecimento, “o sistema económico é movido cada vez

mais pelo uso de sofisticados conhecimentos” 187

(p.30); é do conhecimento geral que pessoas em posições de poder usam informações privilegiadas para obter ganhos fraudulentos. Frequentemente no dia-a-dia o poder financeiro e do conhecimento medem forças perante a sociedade. Veja-se o poder financeiro através da crise financeira que a Europa atravessa de forma transversal, e que começou num país, mas que neste momento alastra a países fora da zona Euro ameaçando economias consideradas fortes; veja-se o poder do conhecimento tecnológico na onda de violência que assolou o reino Unido em Agosto de 2011, tendo os motins sido convocados através das redes sociais na Internet. Estas formas de poder consideradas brandas por Benatar, estão latentes e num futuro próximo podem vir a tornar-se formas de poder forte que vão mudar o mundo naquilo que apenas o tempo poderá demonstrar. Benatar considera ainda uma outra forma de poder brando que é a “força moral”. Segundo ele o grau segundo o qual este poder pode mudar o mundo é revelado na luta contra práticas como a escravidão, o apartheid ou contra os efeitos adversos da globalização

185

Ibidem.

186 Benatar SR. Bioética: Poder e Injustiça. In Garrafa V, Pessini L. Bioética: Poder e Injustiça. 2ed. São Paulo:

Edições Loyola, 2004, (p.25-33).

económica, em sua opinião “o capital moral transcende o ser bom, ser respeitado e ter boas

intenções; abrange a capacidade politica de dar uso efetivo às boas intenções. Esse capital moral inspira a confiança, a crença e a adesão a valores e, quando usado por indivíduos, instituições e sociedades, proporciona valiosos retornos”188

(p.31). A título de exemplo

podemos citar nomes como Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Dalai Lama, Madre Teresa de Calcutá, entre muitos outros.

Não faz sentido falar do exercício do poder e não referir condicionantes, porque o poder não é ilimitado, ele também tem limites que não podem nem devem ser ocultados ou esquecidos. O homem como ser de relação que é por natureza e necessidade, tem que exercer o poder com base no relacionamento entre os homens e no respeito por aspetos inerentes à sua condição humana. A existência humana verifica-se em torno de dois polos fundamentais: o respeito pela vida em todas as suas dimensões e formas e o respeito pelo próprio homem, e o exercício do poder não pode ser indiferente a esta polaridade. O exercício do poder tem que se fundar numa dimensão única que é a dignidade humana.