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No seu processo evolutivo o homem partiu de um tronco comum originariamente primata, que a certa altura se dividiu em dois ramos continuando os primatas num deles e, no outro, aparecendo o homem que passa por três níveis evolutivos. Os dois primeiros são essencialmente de desenvolvimento biológico (estruturas cerebrais) enquanto que no terceiro se verifica um desenvolvimento ao nível da cognição (capacidades cerebrais). Comparando a mente a um computador, nos dois primeiros níveis verificou-se um desenvolvimento de “hardware”, enquanto que no terceiro nível existiu um desenvolvimento do “software”.

A mente humana atual é o resultado da evolução sob o ponto de vista biológico e estrutural com base num processo unificador, integrador e contínuo, e que na opinião de Donald (p.14) “A mente moderna é, assim, uma estrutura híbrida que contém vestígios de estadios

anteriores da evolução humana, bem como novas capacidades simbólicas que alteraram radicalmente a sua organização.”165

. Sob esta perspetiva a mente é o resultado filogenético aliado ao binómio cognição/cultura em que a cultura pode ser entendida como “padrões

comuns de comportamentos adquiridos, característicos de uma espécie.”166 (p.20). O referido binómio assenta num processo dinâmico pois no homem as capacidades cognitivas interferem e condicionam de forma direta diferentes tipos de cultura e vice-versa, enquanto que nos animais esta relação é apenas unidirecional ou seja a cognição apenas permite a assimilação da cultura.

Inicialmente, o homem possuía uma cognição primata como resultado da sua ascendência e essa cognição permitiu-lhe estabelecer uma cultura episódica, ou seja, a possibilidade de reconhecer acontecimentos que proporcionam uma relação positiva ou negativa. Contudo, estes acontecimentos não eram evocáveis na medida em que o homem não possuía consciência reflexiva. Efetivamente, estes episódios apenas serviam como referencial para identificar as situações experienciadas como novas ou “déjà-vu”, o que facilitava o comportamento em termos de respostas e, consequentemente, a sobrevivência individual. Após este período surge a primeira fase de transição e ele passa para uma cultura mimética, isto é a “possibilidade de produzir atos representacionais conscientes, auto-iniciados que são

intencionais mas não linguísticos.” (Donald, p.208). Surge a linguagem gestual, o ritmo, a

165 Donald M. Origens do pensamento moderno. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999. 166 Idem.

emissão de sons e o uso do fogo, tendo esta cultura permitido uma adaptação, estruturação social e sobrevivência grupal.

Seguidamente dá-se a segunda transição e surge a cultura mítica e com ela o aparecimento da fala. O homem adquire consciência da sua existência relacional com o mundo e da sua transcendência ou seja o que ultrapassa a sua compreensão e, assim, cria o mito da origem do mundo, do homem e da morte, que partilha coletivamente.

Com a terceira transição surge a cultura exterior simbólica e a linguagem escrita que é o reflexo do desenvolvimento intrínseco da mente como resultado da dinâmica constante entre cognição e cultura, nas palavras de Merlin Donald “À medida que desenvolvemos novas

configurações simbólicas externas e novas modalidades, reconstruímos a nossa própria arquitetura mental de uma forma não trivial. A terceira transição levou a uma das maiores reconfigurações da estrutura cognitiva da história dos mamíferos sem grandes mudanças genéticas.”167

(p.456).

Esta evolução do homem traduz a evolução recíproca e simultânea da mente humana e da cultura, ao mesmo tempo que se afirma como património fundamental para a expressão e existência de um povo. O homem nasce “nu” culturalmente e a integração e assimilação da cultura exterior simbólica é que o vai caracterizar e permitir sobreviver ao mesmo tempo que se torna homem.

Hartmam, citado por Daniel Serrão168 concebe o homem como sendo constituído por quatro estádios: matéria (átomos e moléculas) que constitui a dimensão física, vida (células) que constitui a dimensão biológica, mente que constitui a dimensão ôntica e espírito que constitui a dimensão transcendental e que depende de todas as outras anteriores. A grosso modo podemos comparar a evolução do pensamento com base nos patamares culturais anteriormente referidos e os estratos de Hartmam e considerar que nos dois primeiros patamares o homem dependeu apenas da vertente biológica/genética (matéria, vida, mente), enquanto que nos últimos patamares se verifica o surgir de uma outra vertente até então não explícita e que é a espiritualidade. Esta dimensão espiritual que engloba em si a capacidade de transcendência do homem é a sede de valores tais como a tolerância, o respeito, o amor e onde

167

Ibidem.

168Cf. Serrão D. Para uma fundamentação biológica da ética humana. In Separata do Tomo XXIX das Memórias

se inclui a vertente religiosa assim como a ética, na medida em que esta, ao fundamentar o agir, não o vai poder fazer sem ser influenciada pelos próprios constituintes desta dimensão. Neste contexto, podemos considerar que o pensamento surge de uma dimensão biológica/genética, que de certa forma o condiciona, na medida em que ele se “origina” da espécie (o pensamento humano é apenas característico da espécie humana); tem também uma dimensão adquirida, na medida em que é influenciado pela cultura em que a pessoa está inserida e, tem uma dimensão inata, na medida em que se recria numa permanente liberdade que possibilita a transcendência.

Sendo a cultura, por definição, um “conjunto de costumes, práticas, comportamentos…, que

são adquiridos de geração em geração”, e também o “ património literário, artístico e científico de um grupo social, de um povo”169 (p.1042), podemos considerar que o património

científico do homem tem conhecido ao longo dos séculos avultado enriquecimento, o qual nas palavras de Gilbert Hottois170 (p.76) tem duas datas chave naquilo que se pode considerar um recente niilismo tecnocientífico: a primeira explosão nuclear e a primeira manipulação genética. Com efeito, a ciência sem a técnica não poderia ter atingido o desenvolvimento que se verifica atualmente, isto é, a técnica constitui-se de “Processos e instrumentos de que se

serve uma ciência ou uma arte”171

(p.3526) e assume um valor na vida do homem. A técnica

não pode apenas ser perspetivada na era mecanicista com a finalidade de conceber utensílios e máquinas. Ela viajou através do tempo, proveniente de eras imemoriais, e atinge toda a esfera da vida animal. Os animais vivem graças a técnicas172 que permitem cumprir a lei da natureza que é a sobrevivência e a manutenção da espécie; para o homem a técnica como é por si concebida, é uma expressão da sua existência que o faz tornar-se um Criador ao espalhar pelo mundo o resultado da sua invenção. Como refere Spengler “Existe uma diferença importante

entre o homem e todos os outros animais. A técnica destes últimos é inerente à sua espécie; não se aprende, não se aperfeiçoa, nem é inventiva”173

(p.56). Com efeito as técnicas das

169 Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Lisboa: Verbo, 2001.

170 Hottois G. Bioethique et nihilisme. Une approche philosophique. In II Seminário do Conselho Nacional de

Ética para as Ciências da Vida. Comissões de Ética. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1996, (p.73- 95).

171 Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Lisboa, Editorial Verbo, 2001.

172 A natureza animal é dotada de técnicas espantosas que desafiam algumas capacidades humanas. Tal é o

caso de procedimentos de caça, as lutas, a capacidade de camuflagem, o fabrico de ninhos ou construções de galerias e diques, montagem de sistemas de vigilância (caso dos cães da pradaria), o fabrico de mel ou seda, o tecer de uma teia, o bailado ou o canto como forma de atrair um(a) companheiro(a), utilização de métodos de defesa tais como os espinhos, os odores, os venenos e outros.

espécies animais são invariáveis, ao passo que as do homem são mutáveis, elas são a expressão da sua existência pessoal.

A existência pessoal não se esgota no pensamento, na técnica e na cultura, alicerça-se numa dualidade que é, simultaneamente, biológica e relacional, o que torna cada homem único e irrepetível, sendo este o verdadeiro valor da vida humana. Este valor remete-nos para a natureza da pessoa, ou seja a sua interioridade, pelo que o ser não é algo prescrito no sentido de que é ditado do exterior mas sim adstrito, no sentido de que se constitui e é constituído pelo próprio. E é precisamente nesta existência, num mundo com diferentes formas de vida, que se pretende num equilíbrio e harmonia de coexistência, que o homem como ser integrante desse mesmo mundo, com responsabilidade, inteligência e pensamento oriente todo esse potencial para uma criação e utilização da técnica em toda a sua magnitude e aplicação, um meio ao serviço da vida e não um fim em si mesma do qual resulte a vida ao serviço da técnica.

Na prática, esta complementaridade que existe na relação do homem com o mundo não é mais do que a constatação de que o homem existe situado, ou seja a circunstância determina o homem consoante o modo como ele age ou reage, os atos são resultado da sua ética. Como diz Ortega e Gasset “yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo” 174

(p.25). Segundo este autor o homem adquire o máximo da sua capacidade quando tem a plena consciência das suas circunstâncias, pois é com elas que comunica com o universo. A realidade quando o confronta e se manifesta na sua vida adquire um significado por ele atribuído, pelo que as escolhas feitas, os caminhos a seguir, são responsabilidade de cada um. É esta responsabilidade aliada a este poder de decisão que leva por vezes a questionar, se podemos fazer, até que ponto também o devemos fazer.

4. O EQUILIBRIO ENTRE O PODER E O DEVER COMO