A conceção apresenta-se como o primeiro passo do processo de ensino- aprendizagem. Toda a formação inicial forneceu-me as ferramentas necessárias para projetar um entendimento da disciplina de EF diferente daquele que detinha até então. Naturalmente que, enquanto fui aluna, experienciei determinadas vivências que me guiaram à construção de uma visão.
4 Normas Orientadoras do Estágio Profissional é um documento interno da unidade curricular
Estágio Profissional, do 2º ciclo em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, da FADEUP, elaborado pela doutora Zélia Matos.
Desta forma, na fase da conceção pretende-se que o professor seja capaz de projetar a atividade de ensino no quadro de uma conceção pedagógica referenciada às condições gerais e locais da educação, às condições imediatas da relação educativa, à especificidade da EF no currículo do aluno e às características dos alunos. Assim, a conceção do ensino surge como a base de todo o trabalho desenvolvido no que concerne à organização e gestão do processo de ensino-aprendizagem. Neste percurso, o professor deve, primeiramente, conhecer o contexto onde se irá desenrolar o processo de ensino, tanto numa perspetiva macro, referente à escola, como numa perspetiva micro, respeitante à turma. Para tal, é fulcral considerar algumas realidades, tais como as condições da escola, os alunos e os planos curriculares de EF, nomeadamente os conteúdos e os objetivos da disciplina.
Posto isto, após a aquisição de uma noção generalizada, o principal foco foi a realização da análise da turma. Esta revelou-se ser imprescindível para o conhecimento de diversas caraterísticas dos alunos, as quais eu não teria conhecimento unicamente através do diálogo com a turma. Esta análise foi realizada com base em inquéritos entregues aos alunos no início do ano letivo, não só para conhecer algumas particularidades deles, mas também o seu percurso académico na disciplina e as modalidades que praticaram e/ou praticam, visto que poderia ser vantajoso para o processo de planeamento das aulas.
Como término desta tarefa, após o conhecimento do contexto e dos sujeitos a quem se destina o processo de ensino, destaco a averiguação dos documentos disponíveis, a qual demonstrou grande relevância. Aqui, os primeiros diálogos com o PC e com os colegas do NE foram essenciais no processo de adaptação ao meio, ou seja, à verdadeira realidade escolar. Inicialmente, toda a análise centrou-se no Programa Nacional de EF, uma vez que este constitui “um guia para a acção do professor que, sendo motivado pelo desenvolvimento dos seus alunos, encontra aqui os indicadores para orientar a sua prática, em coordenação com os professores de Educação Física da Escola” (Jacinto et al., 2001, p. 8). Após a sua análise, verifiquei que o cumprimento dos programas escolares elaborados pelo Ministério da Educação é uma tarefa difícil para os professores, quer pelo elevado número de modalidades delineadas para cada ano letivo, como também pela grande diferença existente entre o nível de
desempenho esperado dos alunos e o nível realmente verificado. Por conseguinte, constata-se a necessidade de fazer uma adaptação face à informação disponibilizada no programa, não só no que diz respeito às modalidades propostas, mas também aos conteúdos que estão orientados para cada modalidade. Essas adaptações consumaram-se como estratégias fundamentais na minha atuação para alcançar o sucesso. Tal como apresentam Siedentop e Tannehill (2000), são estas estratégias que caraterizam os professores eficazes, uma vez que estes tendem a adaptar os currículos às necessidades do seu contexto particular.
Posto isto, os programas ilustram as exigências do nível central, ao invés dos restantes documentos, tais como o projeto educativo da escola e o regulamento interno, que correspondem ao nível das indicações locais (Bento, 2003). Por esta razão, foi importante atender, posteriormente, à conjugação e articulação destes documentos, para que fosse possível adaptar, com maior rigor, o processo à realidade da minha turma.
Iniciei pela análise do Projeto Educativo da Escola, onde estão implícitas as políticas educativas, metas e os princípios orientadores da instituição. De seguida, procedi à exploração do Regulamento Interno de EF da escola, que apresenta a estrutura, a organização e o funcionamento da escola, bem como os direitos e deveres da comunidade escolar.
A referida análise revelou-se bastante exaustiva dada a extensão dos documentos, no entanto, esta tarefa tornou-se crucial na aquisição de uma grande variedade de conhecimentos, que me auxiliaram na definição de objetivos, estratégias e tomadas de decisão na minha intervenção didático- pedagógica. Neste sentido, e corroborando com a perceção de Graça (2001), a forma como o professor analise/modifica o conhecimento é a forma que este tem de justificar e dar suporte à sua ação.
Em suma, verifica-se que a consulta destes documentos demonstrou uma grande importância em todo o processo de planeamento, na medida em que me possibilitou agir sempre dentro das conformidades estabelecidas, mas com decisões adequadas ao contexto e aos meus alunos. Desta forma, foi importante a complementaridade dos documentos centrais com os documentos locais em todo processo de planeamento, pois tal como afirma Bento (1987, p. 20), “a programação do ensino (a nível central) e planificação do ensino (pelo professor)
constituem um processo unitário, racional e complexo da concretização progressiva de indicações generalizadas. Envolve a consideração das condições locais e uma análise objetiva, desagua na realização do ensino e desencadeia uma retroação devida a reflexões posteriores e análises do produto e processos educativos”.