Ao compreender a realização da escrita acadêmica como texto tecido a partir de compreensões interpretativas de leitura coletiva, e nesse ponto vamos ao encontro do entendimento de Chartier (2010), quanto à compreensão de que toda escrita é uma atividade interligada à prática indistinta de leitura de múltiplos discursos e o processo interpretativo a única forma de adquirir conhecimentos subjetivos variados e meio pelo qual os sujeitos conseguem atingir a capacidade de compreensão das leituras que realizam.
Para o historiador, ser letrado implica ultrapassar os aspectos relacionados a traduzir as palavras de um texto, “saber ler é outra coisa, que não é apenas poder decifrar um único livro, mas mobilizar, com utilidade ou por prazer, as múltiplas riquezas da cultura escrita” (CHARTIER, 1988, p.151). Nesse sentido, o ato de realização da leitura se configura em um exercício que implica e envolve os sujeitos leitores com uma variedade de textos, de gêneros diferenciados, com vista a familiariza- se com relações de diversas ordens (linguística, textual, discursiva), para que assim, adquira graus de conhecimento distintos e consiga aprender a atribuir sentidos às leituras que realiza.
Contudo, uma outra dimensão envolve as maneira de interpretar textos/obras. De acordo com Chartier (1988), as formas de construções interpretativas de atribuição de sentido em relação aos discursos lidos/ouvidos ocorrem, também, em meio a tensões, contradições e condicionamentos sociais. Nesse sentido, as compreensões por parte dos sujeitos leitores, dependem, principalmente, “das formas que o oferecem à leitura, dos dispositivos próprios da materialidade do escrito”, do tempo e do espaço em que as leituras são realizadas.
Desse modo, as diferentes interpretações, ou seja, as diversas atribuições de sentidos conferidos aos textos refletem, sobretudo, as práticas, os usos e as apropriações realizadas pelas comunidades leitoras que os utilizam. Essas comunidades, por serem diversas e, por muitas vezes, divergirem de pontos de vista com relação a uma mesma teoria impõem, por suas estratégias, ao seu público leitor, uma maneira de ler e compreender determinado texto. Fato que torna as compreensões de um mesmo escrito, por vezes, contraditórias com relação aos outros grupos que dividem um determinado espaço, por exemplo.
Há diversas tensões entre os posicionamentos leitores e as práticas de apropriação dos textos, em vista disso, são várias as formas como os grupos se apropriam de determinados conceitos, como atribuem crenças e valores aos discursos. Desse modo, as representações culturais se configuram em representações constitutivamente heterogêneas, resultantes de apropriações variadas e práticas discursivas diferentes, a partir da maneira como a sociedade lê determinado escrito.
As maneiras de realização de leitura, nessa perspectiva, dependem dos objetivos e dos posicionamentos assumidos pelos sujeitos diante dos textos, a partir das maneiras como foram orientados a realizarem as leituras. No caso em que às práticas de leitura visam ao aprendizado, é preciso saber quais são as técnicas de inculcação necessárias, sem as quais esse aprendizado não é possível.
Para Chartier (1988, p.17), não podemos considerar os “objetos intelectuais como objetos naturais”, pois as interpretações dadas para esses objetos não pode ser considerada em termos universais. Desse modo, os sentidos que são atribuídos aos textos mudam, conforme é feita sua leitura e conforme a forma como as comunidades leitoras se apropriam desses escritos. A compreensão de que, por vezes, há uma significação vocabular permanente, atribuída a um objeto intelectual ou cultural, pode ser explicada se entendermos que “é necessário reconhecer não objetos, mas objetivações que constroem de cada vez uma forma original” (CHARTIER, 1988, p. 65), ou seja, novas significações acontecem, porém, as regras que direcionam o jogo são as mesmas. Assim, os processos de construção que criam e dão sentido aos textos estão em consonância com:
1. O modo como os leitores, cujos juízos de valores são contraditórios, estão inscritos nos condicionamentos dos meios intelectuais em que estão inseridos. Em acordo com “as classificações, as divisões e as delimitações que organizam as apreensões do mundo social” (CHARTIER, 1988, p.11).
2. O modo como os agentes intelectuais orientam e esquematizam as maneiras pelas quais devem ser realizadas as leituras das obras, considerando, desse modo, “os esquemas geradores das classificações e das percepções próprios de cada grupo ou meio” (CHARTIER, 1988, p.18).
3. Conforme as expectativas previamente prescritas pelos agenciadores de leitura, em acordo com as visões que se constroem em relação às competências e às aptidões do público leitor. Expectativas que, embora não molde totalmente a mente dos leitores ou não determine um sentido único, “não há produção cultural que não empregue materiais impostos pela tradição, pela autoridade ou pelo mercado e que não esteja submetida às vigilâncias e às censuras de que tem poder sobre as palavras e os gestos” (CHARTIER, 1988, p.137).
O historiador defende a existência de diferentes maneiras de apropriação de textos. Logo, os processos de apropriação de discursos dependem das formas de recepção dadas a esses objetos, dependendo, sobretudo, dos valores sociais e culturais atribuídos à essas obras, nas práticas de utilização desses materiais, por determinados grupos ou sociedades. Isto porque:
a apropriação, tal qual nós a entendemos, visa a uma história social dos usos e das interpretações, remetidas às suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas específicas que constroem. Dar,
assim, atenção às condições e aos processos que, muito concretamente, fundamentam as operações de produção do sentido é reconhecer, contrariamente, a antiga história intelectual, que nem as ideias nem as inteligências são desencarnadas (CHARTIER, 2003, p.152).
Assim, as maneiras de realização de leitura resultam das determinações e das convenções que regem as recepções e às práticas de utilização dos textos, ou seja, é a partir dos modelos adotados no interior das comunidades para a circulação desses discursos, que se realizam as atividades de leitura. De acordo com Chartier (1988), é possível fazer uma análise das práticas de leitura em uma comunidade leitora, tomando por referência, o que o historiador denominou de “repertório de leitura”, posto em circulação, nos escritos de tal comunidade.
Compreende-se por repertório de leitura: as bibliografias utilizadas, os anos e as edições dos textos escolhidos para serem lidos e as citações mobilizadas nos escritos, por exemplo. Desvela-se, a partir do inventário repertorial de leitura, as maneiras como as comunidades utilizam e se apropriam dos textos, assim como, as formas como
manejam as obras. Este trabalho configura-se, portanto, em uma “genealogia dos textos que compõem”, revelando, desse modo, as imposições e os hábitos de uso e mobilização de escritos, próprios do universo dos indivíduos que estão produzindo.
Desse modo, o sentido dos discursos é produzido a partir das formas de utilização desses objetos. São os códigos orientadores de consumo que produzem as diversidades de apropriações, traduzidos pelos esquemas e pelos símbolos protocolares que são determinantes para visualização das estratégias que orientam as modalidades de apreensão e interpretação diferenciadas de leitura. Os estudos sobre a presença, a circulação e a distribuição de obras em comunidades de leitura são apresentados por Chartier (1988), a partir de investigações sobre as maneiras de atribuir sentido as leituras realizadas em comunidades campesinas, no século XVIII.
O referido autor verificou, em suas pesquisas, principalmente sobre a literatura de Cordel, a manifestação de diversas maneiras de atribuição de sentido a uma mesma obra. Ele concluiu que as diferentes interpretações das leituras realizadas pelos camponeses estavam diretamente relacionadas às maneiras como as comunidades responsáveis pelo compartilhamento dos textos tinham feito a distribuição das obras e das maneiras como foram dirigidas as práticas de leitura nessas comunidades.
Para o autor, esse fato se deu, principalmente, pelas diferentes formas de apropriação das obras. Isto porque as maneiras como os textos eram distribuídos para a leitura (se para serem lidos oralmente em grupos ou para a realização de uma leitura silenciosa, feita individualmente); as formas como as obras foram impressas; as influências dos letrados nas orientações de realização das leituras, assim como, os protocolos que permeavam as escolhas dos textos exerceram papel fundamental, no modo de interpretação e atribuição de sentido, das leituras realizadas pelas comunidades camponesas.