4.3 Paramétrisation et distance pour chaque primitive
4.3.3 Gradient des distances aux primitives
eráclito Fontoura Sobral Pinto era um católico de berço. Isso tornava-o diferente de três dos expoentes católicos leigos mais importantes de sua época com os quais conviveu, cultivou amizade e travou intensas polêmicas: os convertidos Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção. Personagens que migraram do ateísmo ou do agnosticismo para a fé em Deus, no seio do rito e da interpretação dos Evangelhos da Igreja Católica Apostólica Romana.
Sobral era um católico nascido numa família mineira intensamente devota. Sua fé pessoal fora lapidada nos tempos colegiais pelas disciplinas dos jesuítas de Nova Friburgo. Foi um caminho que se assemelhou aos trilhos que perfazem uma reta, em que os engenheiros não podem admitir um mínimo desvio. Viveu intensamente sua vida religiosa, que se tornou um complemento indispensável de sua personalidade. E não professava uma fé reclusa, privada, que buscava a intimidade. Todas as vezes em que surgia uma oportunidade, proclamava-a aos quatro ventos, bradava-a nas três mídias e desfiava parágrafos e mais parágrafos sobre o assunto em seus milhares de cartas.
Uma vez consolidado em sua vida familiar e profissional, o advogado manteve uma rotina de leitor voraz. Estudava todos os dias e, de modo algum, dedicava atenção exclusivamente às obras do Direito. Debruçava-se nas filosofias – inclusive a marxista, a marxista-leninista e as interpretações de Leon Trotsky. Apreciava história, devorava literatura política, lia com agudo interesse teologia, e nada lhe escapava nos jornais que acompanhava diariamente. Tinha predileção
pelos autores católicos, desde Santo Agostinho, passando pelo jesuíta português, Padre Antônio Vieira, até o filósofo católico francês, seu contemporâneo, Jacques Maritain. Havia claramente um gosto, uma predileção pelo estudo. Mas existia também um cuidado de natureza pragmática. Sobral procurava ganhar lastro cultural e intelectual, arsenal indispensável para as pesadas polêmicas de seu tempo, das quais, aliás, adorava participar.
Sobral viveu num tempo de intensa mobilização ideológica. A Revolução Russa de 1917 fizera emergir um sistema político que muito o desagradava: o regime comunista ateu. No entreguerras, a nova realidade da sociedade de massas servira de combustível para o surgimento do nazifascismo, cuja crença se pautava na certeza de que só o Estado forte, autoritário, orquestrador de uma unidade nacional férrea poderia atender os anseios das massas, que perfaziam milhões. Sobral reconheceu o portento dos fascistas e, no início, chegou a fazer algumas alusões elogiosas ao talento de Benito Mussolini. O advogado não esteve de modo algum solitário na lista daqueles que de início enalteceram o fascismo e depois se arrependeram. O padre Hélder Câmara, quando jovem, foi um integralista entusiasmado. Winston Churchill escreveu e descreveu favoravelmente Benito Mussolini, declarando-o um dos personagens notáveis de seu tempo.
Tanto os comunistas quanto os fascistas desdenhavam da democracia liberal, apontando seus matizes elitistas e desagregadores. Os defensores do sistema democrático-liberal caíam na defensiva e resistiam até onde podiam. Nada mais inteligível, portanto, que a Igreja Católica, em face a um clima como este, procurasse na medida do possível adequar-se aos novos tempos, sem contudo abandonar seu legado. Nada mais natural que a Igreja mobilizasse seus quadros eclesiásticos ou laicos para a defesa da instituição e de seu entendimento da fé.
A situação era perfeita para um homem com o temperamento de Sobral. É importante fazer uma observação. O advogado sempre dizia que era um católico disciplinado, que humildemente observava e se submetia à hierarquia católica, que em verdade considerava-se um ardente defensor da ordem da Igreja e de suas regras. Sobral devia adorar dizer isso, consolar-se ao ouvir a própria voz e ler seus escritos proclamando tais princípios, mas a realidade era muito diferente. Sobral não era apenas um católico praticante, era um católico militante. Já foi assinalado que ele era muito religioso e assaz conservador. Acrescenta-se a isso outra característica: o advogado era político desde a raiz dos cabelos.
Não que tenha alguma vez na vida cogitado seriamente em concorrer a um cargo público eletivo, em apresentar seu nome como candidato de algum partido para qualquer dos níveis do Poder Legislativo ou Executivo. Mas respirava política e exalava política. Isso pode ser facilmente verificado nos seus escritos, nas cartas, nos artigos e nas copiosas entrevistas que concedeu. Manifestava-se sobre as linhas da política dos diferentes governos federais que testemunhou, tecia observações e análises acerca de política regional, especialmente sobre Minas Gerais, cujos vínculos nunca descurou, sobre questões atinentes à cidade onde morava, o Rio de Janeiro, e também sobre política internacional. Falava de política, fazia política e, evidentemente, militava politicamente para a Igreja e dentro da Igreja.
Em outras palavras, sua militância não se limitava à defesa das teses consagradas pela Igreja para a sociedade. Claro, combateu o divórcio e foi um campeão da indissolubilidade dos laços do matrimônio; lutou pela proibição do jogo; defendeu o ensino religioso nas escolas e a assistência religiosa obrigatória nas Forças Armadas; era contrário ao aborto; sentia-se um paladino de tudo aquilo que pudesse defender a família e a tradição e, acerca dessas teses, para ele não cabia discussão. Mas militava igualmente dentro da Igreja. Um dos encontros marcantes da vida de Sobral nesse campo foi com o sergipano Jackson de Figueiredo. Formado em Direito na Bahia, converteu-se à fé católica após escapar com vida de um ataque da gripe espanhola. Jackson radicou-se no Rio de Janeiro e exibia uma personalidade que empolgou a todos que o conheceram e que partilharam de suas convicções.
Associado a Dom Sebastião Leme e ao padre Leonel Franca, Jackson de Figueiredo assumiu a liderança no trabalho de dar mais organicidade aos católicos leigos. Dom Leme muito incentivou a organização dos intelectuais católicos leigos, e a maior liderança deste movimento era indubitavelmente Jackson. Foi nesse diapasão que o sergipano, em 1921, juntamente com o médico Hamilton Nogueira, o poeta Durval Moraes e o dentista Perilo Gomes, fundou a revista A Ordem. No ano seguinte, criou o Centro Dom Vital, cuja tarefa era aglutinar os católicos leigos, estreitar seus vínculos com a doutrina da Igreja, bem como articulando uma intervenção mais organizada do pensamento católico na sociedade como um todo. Ainda no ano de 1922, foi criada também a Livraria Católica, que era dirigida por Jackson de Figueiredo. Mais tarde a direção foi assumida por Augusto Frederico Schmidt.
As atividades febris de Jackson de Figueiredo eram acompanhadas de perto por Sobral. O advogado aderiu ao Centro Dom Vital e lavrou artigos para A Ordem. Logo se estabeleceu um vínculo estreito entre os dois, cujos laços foram solidificados de um modo assaz brasileiro: em 1927, Sobral convidou Jackson para ser padrinho de batismo de sua terceira filha, Ruth. Desse modo, com a aceitação de Jackson ao convite, tornaram-se compadres.
Mas, para lamento de todos aqueles que conheceram e admiraram Jackson de Figueiredo, sua vida foi abruptamente interrompida durante uma pescaria, quando uma onda o arrebatou das pedras, na altura da Ponta do Joá, na cidade do Rio. Jackson afogou-se. Pereceu num domingo, dia 4 de novembro de 1928, contando apenas com 37 anos de idade. Foi sucedido na direção do Centro Dom Vital e na liderança do movimento dos católicos leigos por outro convertido, Alceu Amoroso Lima, que escrevia sob o pseudônimo de Tristão de Athayde. No ano de 1978, num artigo em intenção dos 50 anos do falecimento de Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde descreveu no Jornal do Brasil o personagem da seguinte maneira:
Jackson era um ser apaixonado por todos os extremos. Só abominava o meio-termo e gostava de citar a frase habitual do Padre Júlio Maria: “Prefiro os homens com a marca do demônio aos homens sem marca”.78
Sobral Pinto não deixou igualmente de consignar no papel a falta que sentia do amigo, uma personalidade arrebatadora e, na defesa dos ideais e opiniões, esgrimia com uma contundência de tal ordem que só se comparava com o próprio Sobral. Em artigo intitulado “A dura realidade”, o advogado assim se refere ao amigo Jackson:
Ora, dilectos companheiros, todos nós conhecemos e pranteamos o Jackson, sobretudo em horas de intraduzível tormenta para nossas almas desgovernadas pelo sopro de adversidades tenebrosas. E nestes instantes de sofrimentos inenarráveis, em que sentíamos que a alma se nos dilacerava, cortada pela faminta, fria e implacável das desilusões interiores, o Jackson de princípios morais rígidos e austeros, de vida exemplarmente conformada nos preceitos da moral católica, descia até o fundo dos nossos corações agoniados, mostrando, em gestos de rara nobreza, que compreendia a
natureza da nossa dor que se gerara em motivos errados, é certo, mas perdoáveis pela grandeza de sentimentos que a alimentavam.79
Jackson aparece no trecho escrito por Sobral não só como um exemplo para os demais católicos, mas também como um amigo indispensável. Muito tempo depois, a influência de Jackson de Figueiredo nos meios católicos laicos é reconhecida pelo jornalista Luiz Paulo Horta, falecido em agosto de 2013, cuja militância religiosa o levou à presidência do Centro Dom Vital, fundado por Jackson:
Este é um capítulo importante. O Jackson era um sergipano, nietzschiano, que depois se converteu ao cristianismo nos anos 20. E era um combativo. Nessa época o Jackson se converte e vai trabalhar com o cardeal Leme. Ele não era um grande teórico, mas escreveu alguns livros importantes que estão fora do mercado.80
Horta, cuja avó Ruth Sobral Pinto de Almeida Magalhães era prima-irmã do advogado, esclarece o episódio que selaria definitivamente a amizade com Alceu Amoroso Lima.81
No começo dos anos 60, veio o Concílio Vaticano II, que causou uma comoção na Igreja Católica. A interpretação dada ao Concílio criava visões opostas que afetaram toda a instituição, incluindo o Centro Dom Vital. Os grandes nomes eram o Alceu e o Gustavo Corção. Nessa época, eles tomaram posições conflitantes: o Alceu caminhava para a esquerda e o Corção era reconhecidamente de direita. O cardeal do Rio, Dom Jaime Câmara, era um sujeito muito quadrado. O Corção procurou Dom Jaime para dizer que o Centro Dom Vital assumiria um posicionamento de esquerda, mudando radicalmente sua linha. Dom Jaime tomou o partido de Corção, o que provocou a saída de Alceu. O cardeal foi duro. Ocorre que o Corção não conseguiu se manter no cargo, e o Sobral assume uma missão impossível: conciliar as duas visões como presidente do Centro Dom Vital. Essa é uma época da Guerra Fria, de tempos pautados por muita ideologia, de rupturas. O Sobral fez o que pôde para administrar a situação. Em seguida, o Centro entra num período de hibernação, pois o advogado não tinha paciência para assuntos administrativos. Passou o comando para o filósofo Tarcísio Padilha. O Sobral sofreu
muito, pois, em linhas gerais, o seu ideário estava mais próximo ao do Corção do que do pensamento do Alceu. Mas ele se manteve firme.82
O golpe representado pela perda de Jackson foi rude. Dom Leme, contudo, não perdeu tempo. Investiu Alceu Amoroso Lima em importantes funções desempenhadas por Jackson: a direção do Centro Dom Vital e da revista A Ordem. Alceu era filho de industriais, pertencente a uma família tradicional, que ganhara título de nobreza nos tempos do Império. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais, ganhou o mundo das letras, tornando-se crítico literário de O Jornal a convite do criador do periódico, Renato Lopes. Escrevia uma coluna intitulada “Bibliografia”, sob o pseudônimo de Tristão de Athayde. Tornou-se um admirador do movimento Modernista, travando amizade com vários intelectuais identificados com as teses modernistas. Envolveu-se também num intenso debate por meio de cartas com Jackson de Figueiredo. Foi durante esse debate que, em 1928, decidiu se converter ao catolicismo, declarando sua fé diante do padre Leonel Franca. Nesse ano, sua conversão coincidiu com a morte de Jackson e as tarefas assumidas no Centro Dom Vital e na A Ordem. No ano seguinte, Dom Sebastião Leme criou a Coligação Católica, uma associação civil que tinha o objetivo de reunir todas as organizações católicas do país. Alceu recebeu a incumbência de dirigir a Coligação.83
Alceu e Sobral tornaram-se amigos fraternos por toda a vida, não sem que ocorressem períodos de chuvas e suaves trovoadas, vez por outra, concretizados em intensos duelos epistolares. Podiam divergir em temas da política nacional, em visões acerca da conjuntura internacional e assuntos vinculados à Igreja. Quanto ao último tema, Sobral escreveu uma crônica na revista A Ordem, em meados dos anos 30, exibindo uma opinião que cultivou sem mudanças ou nuances por toda a vida:
Erigindo-se em defensora intransigente da tradição, dá a Igreja uma prova indisfarçável da verdade dos seus ensinamentos, pois quem diz tradição, diz inequivocamente continuidade, a qual é, sem possibilidade de contestação, uma lei de progresso e de aperfeiçoamento em todos os ramos dos conhecimentos humanos, qualquer que seja o domínio sobre o qual eles se exercem, ou de onde derivam.84
Quanta polêmica alimentaria um debate sobre os temas abordados por Sobral nesse curto trecho. A Igreja deve proteger intransigentemente a tradição, não pode ceder um passo sequer. E é a tradição, que nada mais é do que continuidade, o cenário mais adequado para o aperfeiçoamento da sociedade, leito perfeito para o progresso de todos os ramos do conhecimento humano. É bem possível que, ao longo do tempo, a Igreja, como instituição, tenha exibido um comportamento bem menos intransigente do que Sobral almejava.
78. Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, Sexta-feira, 3 de novembro de 1978.
79. PINTO, Sobral. In: revista A Ordem, Rio de Janeiro, 1930, vol. III (nova série), Gráfica Ypiranga.
80. HORTA, Luiz Paulo. Depoimento, junho de 2013.
81. Idem.
82. HORTA, Luiz Paulo, Depoimento, 2013.
83. BELOCH, Israel; ABREU, Alzira Alves de, (Coords.). Op. cit., pp. 1828-1831.