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Dans le document Language Reference (Page 186-200)

Lembrando que, tanto o judaísmo como sua derivação, o cristianismo, possuem a crença na criação, na existência e na destruição. Eschaton – o último; Escato/logia = estudo dos últimos dias (ELLER, 2018, p. 131 e 130). Grupos derivados desta dinâmica costumam desenvolver uma linguagem que comunica estes conceitos. Conceitos estes, geram símbolos, comportamentos, e consequentemente uma ação social. Ou seja, uma forma de encarar e en- xergar a vida, com consequências diretas e indiretas na cultura, na religião e nos relaciona- mentos. Esta equação segundo Eller, gera um texto a ser lido (LOTMAN, 1996, p. 10). Surge uma semiologia deste grupo. Não é por acaso que a antropologia oferece um constante diálo- go com a semiótica, uma das bases da compreensão antropológica (ELLER, 2018, p. 144).

Os grupos desenvolvem um vocabulário próprio, às vezes compreensivo apenas dentro do grupo. Sendo assim, o convívio com o grupo pesquisado e não só os textos do mo- vimento, são imprescindíveis para a compreensão do objeto (ELLER, 2018, p. 80-81). Na pesquisa antropológica os elementos da semiologia são importantíssimos (BARTHES, 2012). Pois como escreve Eller, cada um faz o que pode para demonstrar quem é através de símbolos, vestuários, acessórios e comportamentos. Desde um vestuário puritano Amish, passando por um piercing aborígene, uma circuncisão judaica, ou uma mutilação feminina islâmico-africana, até um anel na mão esquerda mostrando que se é casado(a). Sendo assim, os símbolos visam comunicar quem sou. Afirmação de uma identidade (ELLER, 2018, p. 170).

Se a cultura em geral, e a religião especificamente, é um sistema ou p a- drão de símbolos, então a tarefa da antropologia consiste em interpretar ou traduzir ou decodificar estes símbolos [...] A antropologia se torna um exercício essencialmente semiótico, que busca os sentidos dentro dos quais as pessoas agem. [Ou seja], o comportamento deve ser levado em consideração, e com certa exatidão, porque é através d o fluxo do comportamento [...] que as formas culturais encontram articulação (E L- LER, 2018, p. 143).

Portanto ao estudarmos um grupo ou religião, devemos saber que a religião para aquela comunidade é um símbolo da cultura, ou a extensão dela. A antropologia oferece pelo menos três formas para se analisar os símbolos de um grupo: pelos que os membros dizem sobre os símbolos, pelas qualidades expressas pelos símbolos, e a forma como os símbolos

são empregados (ELLER, 2018, p. 146 e 149). Aqui a tarefa antropológica aparece de forma mais evidente. O grupo a ser estudado,

pode ter uma interpretação oficial que, mais ou menos intencionalme n- te, elimina certas compreensões [polêmicas]. Por estes motivos, porta n- to, considero legítimo incluir no sentido total de um símbolo [...], as- pectos de comportamento associados a ele, que os próprios atores [rel i- giosos] são incapazes de interpretar, e dos quais eles podem de fato não ter consciência (ELLER, 2018, p. 149).

Um símbolo acaba fazendo parte da psique do indivíduo, por isto ele pode não ter mais consciência do símbolo. A forma de usar o cabelo, ou a barba, ou o vestuário, ou até a forma de se comunicar, pode já ter sido absorvido pelo indivíduo daquele grupo. Ou seja, aquele símbolo já faz parte da própria construção da personalidade do indivíduo, de tal forma que ele já não questiona mais o porquê daquela simbologia. Ao mesmo tempo, aquele símbolo além de seu significado privado, quando exteriorizado, oferece um sentido público (ELLER, 2018, p. 150).

Jack David Eller, a partir de Geertz, entende que:

A função dos símbolos consiste em controlar o comportamento [dos membros do grupo]. Os símbolos [...] são programas; proporcionam um modelo ou plano para a organização dos processos sociais e psicológ i- cos. Ou seja, os símbolos podem tratar não tanto do pensar, mas do fa- zer (ELLER, 2018, p. 150).

A semiótica é a ciência dos signos que estuda todas as formas do homem se co- municar: oral, escrita, desenhada, gestual, corporal (MEDEIROS, 2016, p. 82). Yuri Lotman fala em semiótica da poesia, semiótica imagética, enfim, na arte, onde diferentes sistemas semióticos serão utilizados, onde será exigida delicadeza na produção de sentidos. Sendo as- sim, toda palavra emitida é um texto a ser codificado, decodificado e interpretado, seja na música, na poesia, ou numa simples conversa. O objeto da semiótica é qualquer objeto que necessite dos recursos de uma descrição linguística (LOTMAN, 1996, p. 10).

Em outras palavras, as roupas e o comportamento são simbólicos, um vestuário ou a forma de falar, ou o véu no rosto. Tudo na religião é simbólico. Mais do que isso, estes sím- bolos afirmam a identidade dos membros daquele grupo (ELLER, 2018, p. 169). Sendo assim, na linguística, os processos culturais podem também gerar novas linguagens, novos sinais, novas traduções e novas compreensões. (LOTMAN, 1996, p. 10-12). Ou seja, o universo se- miótico é como um conjunto de distintos textos e linguagens, unidos uns com os outros, como um edifício construído com diversos ladrilhos (LOTMAN, 1996, p. 12).

Desta forma, os sentidos não estão apenas nas palavras, ou apenas nos símbolos, mas estão neles e entre eles (ELLER, 2018, p. 210). Para Jack David Eller,

a linguagem religiosa em particular, e a linguagem em geral, não apenas retratam o mundo [...], mas produzem o mundo [...]. A linguagem é produtiva, eficaz, porque para muitas sociedades as palavras têm poder (ELLER, 2018, p. 242).

Como escreve Roland Barthes, ―os elementos da semiologia propõem um vocabu- lário, sem o qual [esta] pesquisa não seria possível‖ (BARTHES, 2012, p. 10).

1.2.3 Antropologia: o líder carismático e o impacto de seu discurso

Como vimos, a linguagem adquire grande importância no universo religioso. ―Pronunciar o epíteto divino, proferir a palavra mágica, cantar o encantamento – fazer estas coisas muda a realidade‖ (ELLER, 2018, p. 242). Em outras palavras, o ator que profere a linguagem religiosa, ganha maior importância se este for um ―canal‖ de comunicação entre deus e os homens, ou seja, o ―porta-voz‖, aquele que rompeu ―a barreira entre as duas dimen- sões e, por isso, pode interagir com ambas‖ (ELLER, 2018, p. 172).

Estas ―palavras mágicas‖, faladas ou escritas, litúrgicas ou sapienciais (ELLER, 2018, 194), quando proferidas pelo ―porta-voz‖ divino (ELLER, 2018, 172), ainda que não descreva nada, ainda que não cause nenhuma mudança, causará ―impacto [...] nos ouvintes‖ (ELLER, 2018, p. 241). Grupos que seguem Bíblia, Alcorão, Vedas, Livros dos Mortos dos Egípcios, Livro dos Mórmons de Josef Smith, Livro da Cientologia de Ron Hubbard (ELLER, 2018, p. 170-171), ou ainda as 100.000 páginas dos Adventistas do 7º. Dia de Ellen G. White (DOUGLASS, 2001, p. 108), acreditam que as palavras ali escritas são a verdade absoluta. Desta forma, as palavras ali contidas são (para grupos que os adotam) um ―projeto simbólico‖ da religião a ser seguida e vivida (ELLER, 2018, p. 143).

Afinal, as religiões desenhadas no ―livro‖ são o resultado da relação entre o Profe-

ta e o divino. ―Por profeta queremos entender aqui o portador de um carisma puramente pes- soal, o qual, em virtude de sua missão, anuncia uma doutrina religiosa ou um mandado divi-

no‖ (WEBER, 2012, p. 303). Segundo Jack David Eller,

Os profetas apresentam outra solução para o problema do silêncio divi- no. O profeta é um indivíduo que recebe comunicação direta dos espíri- tos, [ou deuses] [...] Maomé é venerado entre os mulçumanos por ser

não só um profeta, mas o selo dos profetas – o profeta definitivo e auto- rizado. Sua profecia recebida do próprio Deus e de seus anjos como uma recitação ou Alcorão, destinava-se a completar e corrigir todas as profecias (ELLER, 2018, p. 181).

Devemos estudar este profeta, sua importância no surgimento e manutenção do grupo religioso, a influência e relevância para os membros deste grupo, os resultados dos con- selhos e admoestações deste profeta, na vida e comportamento dos membros, e por fim, o impacto destes membros na sociedade (ELLER, 2018, 192). Evidentemente esta equação:

Divino + Profeta

Requer um agente, um ator ou intermediário humano [...] Fundame n- talmente uma relação social entre humano e o não-humano, algumas pessoas precisam ocupar [este] lugar, como parceiro ou ponto de cont a- to com o sobrenatural – um papel de poder e perigo, precisamente por causa do poder envolvido (ELLER, 2018, p. 192).

A antropologia se dispõe a estudar todas estas variáveis envolvidas nesta relação. Afinal,

o alvorecer da ciência do antropos24 [se] caracteriza [pelo] estudo da

espécie humana em geral ou daquilo que ela carrega de especificidade, ou seja, a própria diversidade de comportamentos (GUERRIERO, 2013, p. 246).

Pois os humanos usam a linguagem, para falar com e sobre o sobrenatural. Utili- zam deste artifício e ou ferramenta para controlar pessoas e sociedades. Os seres humanos exercem poder através da linguagem, tanto no mundo natural como sobrenatural (ELLER, 2018, p. 246). Os conselhos divinos são transmitidos aos membros, por intermédio do ―canal‖ ou ―porta-voz‖ divino (ELLER, 2018, p. 172). Mediante a obediência aos conselhos promul- gados, se atrela a promessa de um caminho sem doença, cura das enfermidades graves. Ainda que estas promessas não se cumpram, a palavra escrita ou proferida causa ―impacto psicológi- co nos ouvintes‖ (ELLER, 2018, p. 241). Alguns grupos aparecem como sendo demasiada- mente extremistas na questão da cura através da obediência da palavra profética. Segundo Eller ―a Ciência Cristã [e] o Adventismo do Sétimo Dia, levaram até mais longe os efeitos curativos da religião e das forças espirituais‖ (ELLER, 2018, p. 269).

Num grupo, onde a palavra escrita ou falada pelo líder carismático, precisa ser obedecida ou cumprida para que o favor divino recaia sobre os membros, a força destas pala- vras é extremamente grande. As ―palavras têm poder‖ (ELLER, 2018, p. 242). E esta palavra não pode ser questionada, mas deve ser apenas seguida e obedecida. Como diz Eller, para isso, ―os seres humanos precisam estar totalmente passivos‖ (ELLER, 2018, p. 277).

Numa sociedade [ou grupo religioso], que exige submissão aos detent o- res da autoridade, adquire-se autoridade por identificação com símbolos de poder, identificação que chega à total apropriação da identidade do outro e à perda total de sua própria. Nesta sociedade autoritária, [exige - se] total passividade e sujeição (ELLER, 2018, p. 277).

O perigo desta autoridade profética aparece, quando os grupos começam a ser moldados ao gosto e desejo do líder. Ou seja, as palavras do líder manipulam e moldam uma determinada realidade para os membros, exercendo diversos tipos de controles sociais. Este tipo de religião irá aumentar o medo e a angústia dos membros (ELLER, 2018, p. 278). Este jogo de culpa, angústia, poder, medo, e obediência, causa ―uma dependência [...] segundo o modelo da toxicomania‖ (GIUMBELLI, 2002, p. 99). De acordo com as associações anti- seitas francesas, o discurso de um líder carismático, pode transformar

um indivíduo mentalmente são em um autômato obediente e [provoc a] uma verdadeira psicose que modifica profundamente a personalidade (GIUMBELLI, 2002, p. 73-74).

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