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Dans le document Language Reference (Page 173-186)

Muitas disciplinas investigam a religião – a Psicologia, a Sociologia, a Teologia e até a Biologia em alguns casos. Cada um tem seu foco e i n- teresse próprios. O estudo antropológico da religião precisa ser disti n-

guido e distinguível destas outras abordagens em alguns aspectos sign i- ficativos; deve fazer ou oferecer algo que os outros estudos não fazem ou oferecem. Deve levantar suas próprias questões específicas, partir de suas próprias perspectivas específicas e praticar seu próprio método e s- pecífico. A melhor maneira de entender a Antropologia é concebê -la como a ciência da diversidade dos seres humanos, em seus corpos e em seu comportamento. Portanto, a antropologia da religião será a invest i- gação científica da diversidade das religiões humanas (ELLER, 2018, p. 766).

Sendo assim, quando estudamos uma religião, movimento ou grupo, através das Ciências da Religião22, se abrem oportunidades de ―interdisciplinaridade‖, para se ―estudar as crenças e práticas religiosas e suas consequências para a vida humana e a sociedade‖ (CA- MURÇA, 2008, p. 25). Diante destas escolhas se descortinará a antropologia (FILORANO; PRANDI, 1999, p. 204-221). Nesta clave metodológica (CAMURÇA, 2008) serão levados em consideração aspectos, que de outra forma seriam ignorados ou passariam despercebidos, mas que são extremamente interessantes e importantes para a pesquisa religiosa. Por exemplo, pessoas que sofreram de ataques epiléticos, mostraram curiosamente, uma obsessão por as- suntos religiosos (ELLER, 2018, p. 59); outro ―elemento muito comum na biografia de um xamã é uma doença grave na juventude, da qual o paciente se recupera de forma dramática ou miraculosa‖ (ELLER, 2018, p. 173). Não é de se espantar que alguns homens e mulheres, tenham passado por convulsões antes de se tornarem líderes carismáticos de seus grupos reli- giosos (LINDHOLM, 1993; GIUMBELLI, 2002; DOUGLASS, 2001).

Ou ainda, a busca do motivo pelo qual as pessoas vão a mesquitas, templos, igre- jas, sinagogas, ou qualquer outro local para juntos se reunirem:

Quando eles estão juntos, forma-se uma espécie de eletricidade pelo fa- to de estarem reunidos, que rapidamente os arrebata a um grau extrao r- dinário de exaltação. Cada sentimento expresso encontra um lugar sem resistência em todas as mentes, que estão abertas a impressões exteri o- res; cada um repercute os outros e é repercutido pelos outros. Assim o impulso inicial continua, crescendo à medida que prossegue, como uma avalanche cresce em seu avanço [...] Assim, parece que é no meio de s- tes ambientes sociais efervescentes e a partir desta própria efervescê n- cia que nasce a ideia religiosa (ELLER, 2018, p. 64).

Podemos intuir que estas reuniões são extremamente sedutoras. Esta sedução é aumentada em tempos de crise, morte, guerras. Portanto, estavam enganados os que acredita- vam, como Marx ou Freud, que a vida moderna, com seu conforto ou ainda a diminuição das diferenças sociais, fossem acabar com a religião (ELLER, 2018, p. 68 e 66). Isto não aconte- ceu. Ao invés disto, a cada tempo surgem grupos religiosos, fazendo cada vez mais testes e ou exigências (regras) para pertencimento religioso, e isto não impede, pelo contrário, atrai sem- pre cada vez mais pessoas dispostas a se sacrificarem para aderir a uma pertença religiosa (ELLER, 2018, p. 78).

Desta feita, precisamos reconhecer que a religião é muitas vezes extremamente ―exigente‖ (ELLER, 2018, p. 78),

As religiões exigem comportamentos que são custosos, consomem te m- po e muitas vezes são difíceis [...] Muitas vezes as religiões pedem que as pessoas acreditem em afirmações que são francamente difíceis de aceitar [...] Ela é dispendiosa e desconfortável [...] Criam testes cada vez mais exigentes de honestidade e compromisso, incluindo especia l- mente testes aparentemente impraticáveis e arbitrários [...] Numa pal a- vra, se a religião fosse fácil, ela não poria à prova o compromisso social de alguém e a disposição de cooperar e conformar-se; qualquer um po- deria fazê-lo – ou camuflá-lo. A ideia da sinalização [exterior] custosa pode ajudar a explicar [os pesos] extremos que os crentes impõem a si mesmos e aos outros (ELLER, 2018, p. 78 e 79).

Além dos sacrifícios em geral (ELLER, 2018, p. 79), temos, por exemplo, auto- mutilação no caso da Opus Dei católica (BROLEZZI, 2006; LAUAND, 2005), sacrifícios comportamentais e abstenções alimentares, no caso dos Adventistas do Sétimo Dia (WHITE, 2005) ou ainda homens bomba no caso dos Islâmicos (DAWKINS, 2008). Mas, o mais trági- co das exigências são os sacrifícios de morte e ou suicídios coletivos, impostos por alguns grupos, como o grupo de David Koresh, ―uma lasca dos Adventistas do Sétimo Dia‖, que in- centivou um suicídio coletivo de mais de 70 pessoas no Texas, ou ainda Jim Jones, do Templo do Povo, que ordenou o suicídio coletivo de mais de 900 pessoas na América Central (HALL; SCHUYLER; TRINH, 2000, p. 44 e 70).

Podemos nos perguntar: Porque crescem cada vez mais os grupos religiosos? As sociedades necessitam de grupos de pessoas que confiem umas nas outras. Os testes ―rituais‖ impostos para pertencimento a grupos envolvem sacrifícios comportamentais. Exigem cada vez mais ―sacrifícios‖, provas de privação e abstenção (ELLER, 2018, p. 79).

Um dos caminhos para se compreender estas e outras questãoes religiosas que a antropologia aponta (ELLER, 2018), temos a pesquisa de campo23, muito importante e gran- demente utilizada na antropologia. Desta forma, para responder essas e outras perguntas sobre um determinado grupo religioso, não basta o conhecimento teórico, mas se faz necessário uma imersão no grupo, para entender a dinâmica do grupo e compreender os meandros da lingua- gem religiosa do grupo (ELLER, 2018, p. 80 – 81).

Minha experiência ex post facto (cf. TARTUCE, 2006, p. 38) com o grupo pes- quisado, é relevante por entender que a antropologia trata o homem e os efeitos dele na socie- dade e da sociedade nele. Sendo assim, a antropologia adepta da teoria, da etnografia, também deve se embrenhar no campo a ser estudado. Propiciando uma importante área de conheci- mento para os pesquisadores da religião ou grupos complicados e movimentos excêntricos, ainda não estudados pelo viés antropológico (ELLER, 2018, p. 80). Afinal como escreve Jack David Eller:

A antropologia não é fundamentalmente uma disciplina teórica. Seja o que for que ocorra nas cabeças das pessoas, a religião vive fora da me n- te, nas ações e instituições sociais, e a própria antropologia sempre vi- veu – e esteve mais viva – no campo e na descrição etnográfica das ex- periências de campo. A força da antropologia sempre esteve na inter a- ção dinâmica entre teoria e etnografia (ELLER, 2018, p. 80 – 81). Para ampliar a validade da pesquisa antropológica, apliquei o conceito de Pooper,

hipotético-dedutivo, para tentar falsear a hipótese, em relação ao grupo frequentado por mim.

Quando os conhecimentos disponíveis sobre um determinado assunto são insuficientes para explicar um fenômeno, surge o problema. Para tentar explicar o problema, são formuladas hipóteses; destas deduzem- se consequências que deverão ser testadas ou falseadas. Falsear signif i- ca tentar tornar falsas as consequências deduzidas das hipóteses. E n- quanto no método dedutivo se procura confirmar a hipótese, no método hipotético-dedutivo se procuram evidências empíricas para derrubá -la. Quando não se consegue derrubar a hipótese, tem-se sua corroboração; segundo Popper, a hipótese se mostra válida, pois superou todos os te s- tes (cf. TARTUCE, 2006, p. 27).

23Pesquisa de campo ou ex-post-facto (cf. TARTUCE, 2006, p. 38) por haver a experiência anterior do presente pesquisador com o campo e os objetos (dando um tom de etnografia ao trabalho) e também o elemento críti- co-analítico da interpretação dos eventos e das ideias em questão. (FONSECA, 2003, p. 32).

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