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Exercices et problèmes

Além disso, é preciso notar que o texto da República, diferentemente do Íon e do Fedro, permite o surgimento de interpretações muito literais da obra, que tendem a ver nesses diálogos posturas extremadas de Platão quanto à organização política. Como é o caso de Karl Popper que encontra na República um nítido programa totalitário, tanto em relação à organização da sociedade por classes distintas, quanto pela iniciativa de controle sobre a vida dos indivíduos, especialmente na postura diante da educação homérica. Karl Popper, em A Sociedade Aberta e seus Inimigos, descreve a filosofia platônica como uma tentativa de justificação filosófica do controle totalitário sobre a liberdade dos indivíduos, que, por conseguinte, permitiriἳ ὃὉἷ ἳ filὁὅὁfiἳ ἶἷ ἢlἳὈὤὁ fὁὅὅἷ ἵlἳὅὅifiἵἳἶἳ ἷὀὈὄἷ ὁὅ “iὀimigὁὅ” ἶἳ “ὅὁἵiἷἶἳἶἷ ἳἴἷὄὈἳ”έ

Para Popper, sob o disfarce de uma teoria da justiça, Platão promove uma descrição da decadência social, pautado no mito das raças de Hesíodo, para poder alçar o filósofo ao mais alto posto de referência social, no qual se definiria um papel de liderança totalitária para a filosofia dentro do Estado. O filósofo seria, na vestimenta do legislador, o censor que anularia

31 as liberdades individuais. Em vista disso, Popper vê na República um programa social e de Estado em que se dilui todas as esferas do indivíduo para a adoção de um panorama totalitário:

Em suma, podemos dizer que a teoria de Platão sobre a justiça, tal como apresentada na República e em obras posteriores, é uma tentativa consciente para levar a melhor sobre as tendências igualitárias, individualistas e protecionistas de seu tempo e para restabelecer as reivindicações do tribalismo, através do desenvolvimento de uma teoria moral totalitária. (1987, p. 134).

Em seguida, Popper mostra que o programa político totalitário da República teria um ímpeto universalista, no qual se define certa lei do destino humano, de caráter universal e imutável, cuja compreensão leva à formulação teórica da degeneração do homem na história. Nesse caso, para o platonismo, a história do homem seria vista como um fenômeno que apenas pode ser descrito por uma teoria da mudança, enquanto degeneração, que seria uma espécie de “teoria universal da história”έ ἥἷgὉiὀἶὁ iὅὅὁ, ἢὁὂὂἷὄ ἳfiὄmἳ ὃὉἷ ἢlἳὈὤὁ ἴὉὅἵἳ justificar uma “lei do desenvolvimento histórico”, a partir de uma descrição degenerativa da mudança social, estabelecendo que a história é um processo de corrupção simultâneo do homem e da sociedade. Em detrimento disso, Platão enunciaria uma “lei cósmica” que serviria de modelo para que o filósofo pudesse intervir na realidade, de modo a evitar a degeneração histórica a que o homem se encontra submetido. Eis que o papel do Legislador seria o de impedir a degeneração, para instituir a definição de um novo destino histórico, cujo desenvolvimento apontaria para os caminhos possíveis de eliminação da decadência humana. O objetivo, nesse sentido, seria somente atingido em um esforço constante para atingir um estado político de perfeição, no qual só podem ter acesso os filósofos, como uma espécie de elo místico com a lei ideal imutável da perfeição.

De modo literal, observamos que Popper acredita que Platão mistura mecânica social com historicismo para determinar, por meio de uma teoria metafísica, que há uma lei da história que pode ser alterada pela ação humana, no caso pelas mãos do filósofo, com o intuito de fugir ao fluxo histórico pela consecução de um Estado perfeito, como uma espécie de espelho místico da realidade. Nesse aspecto, diz ele, a teoria das formas teria três funções na filosofia platônica: como instrumento metodológico, como teoria da mudança e como mecânica social. A partir desses elos se definiria uma luta de classes, que explicaria a dinâmica social e as consequências da lei da mudança. Por conseguinte, o Legislador agiria sobre essa dinâmica para poder impedir a degeneração, através da criação de leis que fundariam um Estado perfeito, livre da degeneração histórica a que a humanidade estaria submetida. Portanto, Popper acredita que há um papel retórico pernicioso no programa

32 platônico, no qual a dramatização seria utilizada para burlar qualquer iniciativa crítica do leitor, que teria a tendência de aceitar certa razoabilidade na proposta, diz ele:

(έέέ) Ὁmἳ ἷὀgἷὀhὁὅἳ ὈἷὀὈἳὈivἳ ἳ fim ἶἷ ὂὄἷὂἳὄἳὄ ὁ lἷiὈὁὄ ὂἳὄἳ ἳ “ἶἷὅἵὁἴἷὄὈἳ ἶἳ jὉὅὈiὦἳ”, fἳὐἷὀἶὁ-o crer que um argumento se desenvolve, quando na realidade ele

apenas se defronta com uma exibição de recursos dramáticos, destinado a adormecer-lhes as faculdades críticas. (...) embalar as faculdades críticas do leitor e, por meio de uma dramática exibição de fogos de artifício verbais, distrair-lhe a atenção da pobreza intelectual dessa magistral peça dialogada. (1987, p. 113-114).

Como se pode perceber, esse tipo de interpretação elaborada por Popper tende a um exagero, na medida em que tenta fornecer um padrão literal para todas as afirmações feitas nos diálogos, especialmente na República e nas Leis. Nesse sentido, esse viés não atenta para os recursos metafóricos a que a forma dramática pode submeter seu leitor e que, de um modo geral, leva à busca de um sentido além do literal para determinadas afirmações. De alguma forma, essa literalidade é alcançada somente pela supressão da organização dramática do texto platônico, já que os elementos metafóricos e sutis do texto são eliminados por certa desdramatização, na qual o contexto argumentativo é retirado, restando-nos apenas afirmações taxativas e descontextualizadas, que, se levadas a um extremo interpretativo, de fato conduzem a uma interpretação semelhante à de Popper.

Em vista disso, as afirmações que Popper coleta para poder reiterar sua interpretação são todas recortadas do seu contexto original, em que cada diálogo é minuciosamente construído. Com isso, além de empobrecer o direcionamento da argumentação do texto platônico, que é dialético, ainda nos leva a ver propostas que não fariam o menor sentido se retiradas do contexto em que foram formuladas. As afirmações utilizadas por Popper estão completamente soltas, permitindo que se possa manipulá-las para conduzir a qualquer tipo de interpretação. A partir do momento que se faz esse tipo de recortes da argumentação, retirando-os do seu contexto argumentativo e dramático, as frases soltas parecem realmente possuir um conteúdo dogmático e taxativo, como se a argumentação tivesse um programa único e definitivo, isto é, uma proposta teórica delimitada por uma doutrina política ideologicamente estipulada.

Entretanto, se contextualizamos novamente esses mesmos recortes, não nos é mais possível cometer esses exageros. De um modo geral, o caminho que a interpretação de Popper direciona o leitor se pauta sobre um desprezo pelo contexto dramático e filosófico típico dos diálogos, como se fosse possível ver em pequenas passagens o que o filósofo realmente acredita e qual a sua proposta definitiva sobre determinado assunto. Por conseguinte, a

33 interpretação de Popper é um típico exemplo do caminho extremo a que os diálogos podem nos levar interpretativamente, principalmente quando olhados por certa literalidade.

Certamente, esse itinerário interpretativo de Popper comete graves exageros anacrônicos, principalmente ao querer ver a origem de um problema político moderno a partir de uma fundamentação antiga; sobretudo sem contextualizar como essas opções políticas poderiam ter outro sentido na antiguidade: Popper faz isso simplesmente pela sobreposição do evento moderno nas argumentações platônicas, sem permitir a devida reflexão histórica. Pelo que observamos, isso é metodologicamente inviável, pois tende a empobrecer a argumentação do autor: tentar rotular Platão como totalitário é completamente injustificável e anacrônico por sobrepor uma realidade política à qual o contexto de sua obra não poderia se referir, especialmente por uma distância temporal evidente. Sobrepor um evento moderno em um texto antigo é cometer o extremo exagero anacrônico e interpretativo de querer produzir um novo conteúdo. Por isso, é válido notar esse tipo de exagero para que possamos nos precaver de qualquer forma de interpretação literal dos diálogos, posto que o valor metafórico e imagético de várias propostas neles contidas lhes confere uma natureza filosófica muito mais sutil e rica do que o que Popper nos foi capaz de indicar em sua interpretação exagerada.

Por mais que seja impressionante, quando vemos a interpretação da República de Havelock percebemos o mesmo intuito de interpretação literal do texto, já que ele considera certas passagens do texto como afirmações definitivas a respeito da poesia e dos poetas, dando uma interpretação dogmática do contexto argumentativo do diálogo. Havelock parece possuir o mesmo erro de descontextualização que encontramos em Popper, na medida em que ele vê em Platão uma teoria estética definitiva, cuja proposta, na verdade, é feita a partir de preocupações no âmbito linguístico, político e educacional.

De antemão, Havelock afirma que sempre houve, por parte da tradição interpretativa da República, uma iniciativa de minimizar os impactos das afirmações feitas por Platão a ὄἷὅὂἷiὈὁ ἶἳ ὂὁἷὅiἳμ “ώὠ Ὁmἳ ὄἷlὉὈὢὀἵiἳ ὀἳὈὉὄἳl ἷm Ὀὁmἳὄ ἶἷ mἳὀἷiὄἳ liὈἷὄἳl ὁ ὃὉἷ ἷlἷ ἶiὐ” (1996, p. 21). Para ele, tentou-se constantemente diminuir a agressividade com que o filósofo ὈὄἳὈἳ ὁ ὂὁἷὈἳ, ἶἷ mὁἶὁ ἳ fiὀgiὄ “ὃὉἷ ἢlἳὈὤὁ ὀὤὁ ὃὉἷὄ ἶiὐἷὄ ὁ ὃὉἷ ἶiὐέ” (1λλἄ, ὂέ ἀἃ), ὁ ὃὉἷ levaria a uma necessidade de se promover uma interpretação literal das afirmações da República. De fato, Havelock aposta que Platão quer realmente se confrontar com a poesia homérica a ponto de excluí-la da cidade definitivamente.

Por conseguinte, para ele, a querela entre filosofia e poesia ocorre por um confronto nítido entre oralidade e escrita, como técnicas de comunicação, na medida em que isso

34 transparece em uma disputa no campo educacional e, consequentemente, político. De um lado temos o poeta, representante da tradição, intimamente calcado na oralidade; do outro, temos o filósofo que se encontra ao lado da escrita, promovendo uma nova forma de comunicação, como sendo mais genuína e efetiva do ponto de vista intelectual. Nesse caso, tanto a forma de comunicação, quanto o modelo de educação são os elos de conflito entre filósofo e poeta. Por isso, diz ele, haveria uma iniciativa de Platão de querer situar a poesia como um dos ὂὄiὀἵiὂἳiὅ iὀimigὁὅ ἶἳ filὁὅὁfiἳ, ἳὁ lἳἶὁ ἶἳ ὅὁfíὅὈiἵἳμ “ἷlἷ ἳὅὅim ὀὁὅ ἷxὁὄὈἳ ἳ lὉὈἳὄ ἵὁm Ὀὁἶἳὅ ἳὅ fὁὄὦἳὅ ἵὁὀὈὄἳ ἳ ὂὁἷὅiἳ” (1λλἄ, p. 20).

Em certa medida, esse apelo de Havelock pela literalidade, posiciona-o ao lado de Popper, pois, ao ver uma proposta definitiva nas afirmações encontradas na República, institui, ao mesmo tempo, um ponto de vista definitivo da relação entre poesia e filosofia: o confronto nos âmbitos educacionais e político. E apesar de haver uma tentativa de suavizar a perspectiva política, centrando toda a sua preocupação no vínculo entre linguagem, ética e educação, Havelock permanece dentro de um padrão interpretativo que moderniza as preocupações teóricas de Platão, dando-lhes um sentido por vezes anacrônico.

Portanto, a literalidade na interpretação de Havelock conduz a um exagero interpretativo semelhante ao de Popper, já que centra sua perspectiva em uma visão da República como uma espécie de censura do filósofo ao poeta, cujas razões políticas e pedagógicas se direcionam para uma rejeição estética e epistemológica da poesia. É como se Havelock admitisse que a filosofia platônica despreza a experiência poética no seu sentido estético, em virtude de uma suposta falha epistêmica, educacional e política. Sendo assim, nesse viés, Platão buscaria substituir a experiência estética da poesia por uma experiência racionalizada, mais genuína, que é a filosofia. O que nos levaria a concluir que na obra platônica a relação entre filósofo e poeta se encontra pautada simplesmente no conflito, sem qualquer possibilidade de interconexão e intercâmbio entre filosófico e literário.

Com esse tipo de interpretação, voltada para a literalidade dos diálogos, perde-se as consequências filosóficas que determinados recursos literários podem ter, como é o caso do papel das analogias feitas por Sócrates, das metáforas utilizadas para se referir a problemas epistêmicos. Da mesma forma que se abstém de perceber que alguns recursos poéticos podem simbolizar escolhas teóricas e argumentativas evidentes, como é o caso da constante narração de mitos presentes nos diálogos, especialmente de dois que já citamos, que são a República e o Fedro.

35 Em suma, podemos perceber que qualquer iniciativa de interpretação literal dos diálogos tende a ver de forma parcial o papel da relação entre a obra de Platão e a tradição poética grega, posto que somente consegue perceber essa aparente contrariedade por vias do confronto definitivo. Por isso, acreditamos ser necessário ver nos diálogos de Platão, ao contrário de Havelock, uma característica filosófica peculiar, na qual as afirmações devem ser contextualizadas para poder ter sentido, sendo quase impossível alcançar seu significado filosófico do ponto de vista da literalidade, quando apanhadas dentro de seu próprio contexto.