Das fotografias e legendas
Durante o ciclo de vida da Revista do Ensino/PB foram significativos os espaços dedicados aos textos icnográficos, como as fotografias, as quais retratavam espaços e tempos escolares, apresentando os prédios escolares, o corpo docente e o corpo discente. As fotografias também foram utilizadas para homenagear os homens públicos “distintos”, acompanhadas de legendas, as quais traziam os nomes dos homens públicos escritos em letras maiúsculas. O que nos possibilita inferir se tratar de uma estratégia para dar visibilidade aos mesmos e torná-los conhecidos entre a população. E mais do que isso, as fotografias podem ter sido usadas para informar e formar um leitor desejado, um leitor em consenso com as ideias veiculadas pelo periódico. No Gráfico 1 são apresentas a quantidade de fotografias veiculadas nas páginas da Revista do Ensino/PB por ano.
26 Reflexões “extraídas” de Biccas (2008), quando a autora relaciona os estudos de Chartier com a produção da
GRÁFICO 1: Fotografias veiculadas na Revista do Ensino/PB (1932-1942)
É possível observar no Gráfico 1, que no ano de 1936 foram veiculadas uma maior quantidade de fotografias, ano em que circularam os exemplares de número 12, 13 e 14. Já nos últimos anos da Revista do Ensino/PB foram veiculadas uma quantidade menor de fotografias. No ano de 1938, que corresponde ao exemplar de número 16, nenhuma fotografia foi veiculada e no ano de 1942 quando são publicados os dois últimos números do periódico, n° 17 e n° 18, aparecem apenas duas fotografias. Vale lembrar que, a Revista do Ensino/PB parou de circular, nos últimos anos que coincide com o momento de mudanças políticas no Estado e no Brasil, o período getulista. Além disso, nos anos de 1937, 1938 e 1942 são publicados poucos exemplares, totalizando quatro números, a saber: o número 15 (1937), o número 16 (1938) e os números 17 e 18 (1942).
As fotografias veiculadas foram importantes marcadores dos discursos que se queria ver legitimados pela população paraibana e, assim exerceram papéis diferentes. No que concerne às fotografias de espaços e de tempos escolares, produziram sentidos, provocaram os estímulos sensoriais do leitor. Parafraseando Vidal e Faria Filho (2005, p.42), estamos certas também de que: “Como pedagogias, tanto o espaço quanto o tempo escolar ensinam, permitindo a interiorização de comportamentos e de representações sociais”. Nesse sentido, as fotografias dos espaços e tempos escolares veiculadas na Revista/PB forjaram realidades,
produziram sentidos, moldaram corpos e mentes, serviram para atrair e/ou direcionar o olhar do leitor. Apresentamos a seguir algumas delas.
FIGURA 9 – Inauguração do Jardim de Infância anexo ao Grupo “Dr. Tomaz de Mindêlo”
FIGURA 10 – Jardim de Infância do Curso Modêlo
Fonte: Revista do Ensino, Ano IV, n° 12, 1936.
FIGURA 11– Jardim de Infância Santa Therezinha
FIGURA 12 – Jardim de Infância Isabel Maria das Neves
Fonte: Revista do Ensino, Ano IV, n° 12, 1936.
Na Figura 9, temos a fotografia que remete a inauguração do primeiro Jardim de Infância “[...] no número da escolas publicas deste genero” (REVISTA DO ENSINO, ANO III, N° 10, 1934, p.45) no Estado da Paraíba. O Jardim de infância foi instalado em anexo ao Grupo Escolar “Dr. Tomaz Mindêlo”, na cidade de João Pessoa. Sobre a inauguração, foi publicado na Revista do Ensino/PB um artigo intitulado “Inauguração do Jardim de Infância anexo ao Grupo ‘Dr. Tomaz Mindêlo’”, no qual é possível observar como estava sendo organizado e pensado o Jardim de Infância na Paraíba. Vejamos:
Sem os jardins de infancia torna-se incompleta a adoção dos modernos preceitos de ensino, todos baseados na psicologia experimental. O nosso instituto está a cargo da provecta educadora paraibana d. Alice Monteiro que tem cursos especialisados para este fim [...]. E’ mais um brilhante passo que damos na marcha e desdobramento do nosso mecanismo escolar. Está a referida escola maternal aparelhada com jogos de diversos autores e todo o material necessario ao seu completo funcionamento. Localisado em pavilhão especial dispondo de todos os requesitos de higiene, póde figurar sem exagero entre os mais bem instalados que nos foram dados conhecer (REVISTA DO ENSINO, ANO III, N° 10, 1934, p.45-46).
É posível perceber nos discuros apresentados acima, tanto pelo texto não verbal como no verbal, que os saberes sobre a educação da infância paraibana eram cópias dos países europeus, um modelo de educação que é importado pelo Brasil e, por conseguinte, a Paraíba
também esteve em consonância com os discursos nacionais e internacionais. Assim, a educação da criança paraibana estava apoiada nas ciências modernas, como a psicologia experimental, e na ideologia da burguesia industrial, temos assim, instalado no Jardim de Infância aspectos higiêncicos e educacionais, uma educação pensada pela arquitetura escola, na informação e formação de professores e na relação saber-poder sobre o desenvolvimento educacional da criança, moldando os corpos e mentes infantes, isto é, uma regularização e produção de indivíduos.
Nas Figuras 10, 11 e 12, é possível observar que as fotografias apresentam crianças/alunos em suas atividades, constituindo-se as fotografias em uma tecnologia usada para dar visibilidade ao dispositivo escolar, e as compreendemos e hipotetisamos que o seu uso serviu como estratégia da governamentalidade oficial, para fazer propaganda dos seus feitos, a serem inteorizados por todos como virtudes, como doação, elementos importantes a serem parte da formação docente, ao mostrar as atividades desenvolvidas com as crianças no âmbito educacional. Podemos inferir através das fotografias, as quais apresentam imagens de crianças nos Jardins de Infância, que a escolarização da infância paraibana constitui-se em um “dispositivo”, tendo uma referência civilitória, moral e hisgienista, uma escolarização que produz e reproduz valores por toda malha social, como: comunidade-escola-família. Era, pois preciso investir na infância como forma de exercer práticas de controle, de civismo e de moralismo, e aos poucos essa educação foi sendo instaurada por entre as frestas dos espaços que se querem ver reconhecidos e vividos como modernos, e um deles é o espaço privilegiado da escola.
Diante do exposto, compreendemos as fotografias acima apresentadas como discursos que nos dão indícios sobre os programas de ensino que foram utilizados, quando, por exemplo, mostram crianças nos diferentes ambientes da escola. A importância também de lermos nas entrelinhas das fotografias, ao exibirem a arquitetura escolar, o que transmitem ao leitor, quem sabe a sensação de que estão equipados para atender as crianças, não somente em estrutura, como também no processo de ensino e da aprendizagem. Entendemos ainda mais, que o objetivo da utilização das fotografias é de que os olhos do leitor perceba a disciplina, a organização, isto é, a disposição das cadeiras, dos ármarios, etc. Percebemos nas fotografias dos espaços escolares, modos de informar e formar os docentes sobre como deveriam ser os ambientes escolares na conformação dos corpos.
As fotografias veiculadas na Revista/PB também serviram para homenagear os homens públicos. A promoção dos homens ligados ao aparato do Estado pode ser vista nos textos não verbais (fotografias) e nos textos verbais (nas legendas e nos artigos). No parágrafo
abaixo, vê-se as legendas de alguns homens públicos, que foram estampados na Revista do Ensino/PB, ocupando páginas inteiras, inclusive abria-se o periódico com a fotografia destes, reiterando a intencionalidade de dar relevância a estes sujeitos.
As legendas:
“PRESIDENTE JOÃO PESSÔA, o benemerito iniciador da reforma do Ensino Primario” (REVISTA DO ENSINO, 1932, s.p.);
“DR. ANTHENOR NAVARRO, Interventor Federal” (REVISTA DO ENSINO, 1932, p. 11);
DR. GRATULIANO DA COSTA BRITO, secretario do Interior, Segurança e Instrucção Publica” (REVISTA DO ENSINO, 1932, p. 43);
“DR. AGEMIRO DE FIGUEREDO, Secretario do Interior e Segurança Publica” (REVISTA DO ENSINO, 1932, p. 28).
As fotos:
FIGURA 13 - Fotos de homenagens da Revista do Ensino: (a) Presidente João Pessoa; (b) Dr. Anthenor Navarro; (c) Dr. Gratuliano da Costa Brito; (d) Dr. Argemiro de Figueiredo
Fonte: Revista do Ensino (1932).
(a) (b)
Uma observação de grande importância, ainda em relação à publicação das fotografias na Revista/PB, é a raridade da fotografia de mulheres que dificilmente apareciam sendo homenageadas. Registramos apenas três fotografias de mulhres publicadas na Revista/PB, respectivamente nos seguintes exemplares: n° 8 e 9 (1934); n° 15 (1937); n° 17 (1942). A primeira delas traz a fotografia da Professora Alzira da Fonsêca Breuel, inspetora de Pernambuco que proferiu uma palestra sobre a leitura analítica, sua fotografia saiu juntamente com o texto da palestra publicada, não se confiigurando em si uma homenagem. A segunda foto é da educadora D. Umbelina Garcez27, na forma de homenagem, é ressaltado o compromisso da professora com a educação, que mesmo sendo posta compulsoriamente em disponibilidade continuou atuando, mantendo em sua residência um curso de admissão. Finalmente, a fotografia se soma à uma homenagem à memória da professora Alice de Azevêdo28. Ressaltamos ademais que, aparecem fotografias de professoras nos espaços escolares, como exemplo, sendo comum aparecer na Revista do Ensino/PB fotografias do corpo docente de algumas escolas.
27 A professora Umbelina Garcez nasceu na cidade Mamanguape, Paraíba. Ela formou-se como professora na
antiga Escola Normal de João Pessoa, sendo a primeira professora formada em Mamanguape e ensinou por vários anos em escolas isoladas.
28 “A figura da educadora paraibana Alice Azevedo Monteiro era bem conceituada na sociedade local, e como a
imprensa lhe assegurava destaque no que concerne à educação da primeira infância. Pode-se afirmar seguramente que, na Paraíba, não há como não conectar a instituição dos jardins de infância a figura da professora Alice de Azevêdo Monteiro. Tanto é, que em reconhecimento aos bons serviços prestados à educação da mocidade pessoense, a Prefeitura da cidade de João Pessoa (ainda não podemos precisar em que data) deu seu nome a uma das ruas centrais da capital paraibana” (LIMA, 2011, p 12).
FIGURA 14 – As mulheres homenageadas na Revista do Ensino: (a) Professora Alzira Fonsêca; (b) Professora Umbelina Garcez; (c) Professora Alice de Azevêdo
Fonte: Revista do Ensino.
Diante do exposto, pode-se perceber que a Revista do Ensino/PB constituiu-se como veículo oficial do Estado, veiculando em suas páginas as propagandas governamentais, não isentando de tecer grandes homenagens aos homens públicos, as quais eram feitas através de textos não verbais e verbais, exaltando as atividades realizadas por eles, ressaltando aspectos importantes que marcaram sua vida e os cargos e funções que ocuparam, sinalizando o periódico paraibano como meio para a autopromoção daqueles que compunham a máquina estatal.
As fotografias exerceram um papel significativo nas páginas da Revista do Ensino/PB e, em suas diferentes funções, constatamos a predominância da propaganda das atividades escolares, propaganda da arquitetura dos prédios escolares, exaltação aos homens públicos e fotografias de solenidades, a exemplo da inauguração dos prédios escolares.
Dos artigos
No que concerne aos artigos publicados na Revista/PB, constatamos ser outra forma de conceder visibilidade às figuras de homens públicos, sobretudo a predominância nas páginas do periódico paraibano do Presidente João Pessoa e do Interventor Anthenor Navarro. O primeiro, sempre aclamado como herói, pelo seu caráter cívico, como um grande homem, um
exemplo a ser seguido pelos próximos governantes. Já o segundo, é visto como discípulo do primeiro, o que só reitera a sua importância que lhe foi concedida pela Revista do Ensino/PB:
O espirito clarividente do benemerito João Pessôa [...]. Procurando eliminar o theorismo official inadaptavel e improductivo, e desejando imprimir ao ensino popular uma feicção pratica e utilitaria, chamou para seu govêrno o concurso do professor primario e o interessou, directamente, na grande obra emprenhendida. O exemplo ficou. Os governos que succederam, inspirados por essa nova orientação, não dispensarem mais a colaboração desses humildes obreiros e continuam, como agora faz o interventor Anthenor Navarro, a desenvolver o maximo de energias para realisação da obra iniciada (REVISTA DO ENSINO, ANO I, N° 1, 1932, p. 3-4).
No trecho acima, retirado do primeiro número da Revista do Ensino/PB, pode-se perceber a necessidade de manter viva a memória do Presidente João Pessoa, exaltando as ações realizadas para o ensino primário paraibano. É sabido que, neste período, pós-1930, há uma centralidade do poder no aparelho do Estado, o que nos leva a pensar que havia interesse que a Paraíba assumisse o modelo de Estado pautado em uma suposta moralidade administrativa e que atendesse às necessidades revolucionárias.
O Presidente João Pessoa torna-se modelo de moralidade e exemplo a ser seguido pelos próximos governantes, conforme a leitura do impresso paraibano, como fez o Interventor Anthenor Navarro:
Em pleno vigor de uma vida útil a sua terra, foi o dr. Anthenor Navarro, o integro discipulo do mallogrado presidente João Pessôa, a victima immolada do destino que vez por outra fére a Parayba no que mais de perto se prende ao seu progresso e seu bem estar. Cheio de idealisações, ingressou na vida politica e administrativa do Estado, affirmando-se em suas realisações um seguro continuador da formidavel obra traçada pelo Grande Presidente (REVISTA DO ENSINO, ANO I, N° 1, 1932, p. 91).
Neste texto, intitulado “Interventor Anthenor Navarro”, é noticiada a sua morte, dando evidência à obra deixada por ele quanto aos feitos para o ensino da Paraíba e mais do que isso, por ter dado continuidade às obras do Presidente João Pessoa. Também, percebe-se claramente na leitura desses artigos publicados pela revista, a necessidade de tornar os feitos, as ações desses dois homens públicos como modelos da evolução do ensino, dando a sensação de que são seres quase santificados e/ou utilizando os termos da Revista do Ensino/PB: “heróis paraibanos”.
A Revista do Ensino/PB, em seu último exemplar, presta mais homenagem à memória de Anthenor Navarro, por ocasião do 10° aniversário da sua morte. No texto, fala-se das homenagens realizadas por ocasião do aniversário da sua morte e ressaltam-se as ações
realizadas pelo Interventor, entre elas estão à unificação do ensino primário, gratuidade do ensino e o reconhecimento do diploma das normalistas em todo o Estado.
Nos artigos produzidos para a revista é bastante forte e presente o discurso sobre a modernização da educação. Cabe lembrar ao leitor que, no período de circulação da Revista/PB, principalmente no momento de seus primeiros números, tem-se no Brasil a efervescência do movimento escolanovista29, o qual teve início na década de 1920, atravessando, de várias formas, toda década de 1930, como as reformas feitas em alguns Estados brasileiros, os quais seguiram modelos de ensinar e aprender em conformidade com os modelos exportados de outros países, numa tentativa de adaptá-los à realidade brasileira.
É nesse contexto, que entra mais uma vez em cena o educador José Baptista de Mello, considerado pelos historiadores da educação da Paraíba como o expoente do Movimento da Escola Nova, o qual, como já mencionado, ocupou o cargo de Diretor do Ensino Primário, tendo sido um dos principais idealizadores da Revista do Ensino/PB. Assim, ele se expressa em relação à importância da Escola Nova:
A escola nova, vitoriosa em toda parte, veio alterar, completamente, o ensino primário, que atualmente, obedece a uma orientação mais consentânea às necessidades do aluno. A escola tradicional vai, aos poucos, sofrendo os influxos dos novos processos pedagógicos, de modo a garantir melhor a educação do nosso povo. Assim é que, por toda parte, instalam-se novos tipos de educandários, com feição essencialmente prática, transformando o ambiente escolar em verdadeiros centros de trabalho e de socialização. O aluno vai aprendendo executando. É o artífice, é o homem prático do dia de amanhã (MELLO, 1996, p. 95).
Percebe-se na fala do professor José Baptista de Mello um discurso que anseia por mudança educacional, respaldada na teoria e na metodologia do Movimento da Escola Nova, como estratégia para garantir a introdução de novas ideias educacionais, relevantes no processo da expansão do ensino. Contudo, esse discurso não é “novo”, tendo em vista que, desde meados do século XIX as Lições de Coisas já se faziam presentes em âmbito nacional, como um meio de reverter à carência do ensino escolar.
Outo ponto relevante concerne à articulação e/ou comunicação da Paraíba com os outros Estados brasileiros, a exemplo, temos a reforma do ensino com o governador Argemiro de Figueiredo. Após tomar posse do cargo em 25 de janeiro de 1935, revela sua “preocupação” com o ensino, evidenciando a criação de um Plano de Reforma da Instrução Pública na Paraíba: “[...] novos horizontes devem ser abertos à educação paraibana” (MELLO, 1996, p.109). Para isso, convoca José Baptista de Mello para implementar a
reforma do ensino na Paraíba. Com esse espírito de renovação, a Assembleia Legislativa, baseada nos relatórios decorrentes da visita de José Baptista de Mello a outros Estados do Brasil, aprova a reforma da instrução pública da Paraíba, por meio da Lei N° 16 de 13 de dezembro de 1935.
Quanto aos debates produzidos no Brasil sobre a educação, mais especificamente sobre a educação das crianças, e que estavam presentes na Revista do Ensino/PB, percebe-se que o periódico educacional paraibano exerceu um papel por excelência na formação de opinião pública, sendo um espaço de relação de saber-poder. Como estratégia do saber-poder os discursos sobre o Ensino Primário apresentam-se nas páginas da Revista do Ensino/PB em diferentes temáticas: escolarização da criança, transformando-a em aluno, debates médicos higienistas, no discurso moral da Igreja Católica, no civismo dos homens públicos e nos saberes da Psicologia e da Biologia, entre outros temas.
É o que o leitor encontrará no Capítulo 3, nesta Dissertação, espaço em que se considerou as matrizes pedagógicas para a educação das crianças veiculadas na Revista/PB, entre outras questões que são propostas como elementos para as análises teóricas na composição do texto.
3 UM OLHAR SOBRE A INFÂNCIA E A EDUCAÇÃO
Como falar das concepções sobre as infâncias e a educação sem compreender as diversas facetas que estão presentes em cada época e/ou contexto social? É importante perceber que, em uma perspectiva histórica o cenário social das práticas precisa ser considerado, em vista de possibilitar ao pesquisador entender como a educação das crianças foram sendo produzidas, reproduzidas, forjadas e fabricadas na sociedade paraibana, durante o período de 1932 a 1942, através de um órgão oficial do Estado, a Revista do Ensino/PB, criado para circular e legitimar ideários educacionais.
Nesse sentido, para se compreender sobre a educação e o lugar social que a criança ostenta nas esferas pública e privada, em cada período da história da educação no Brasil, é preciso que o olhar do pesquisador esteja vinculado às relações sociais, pois as concepções de educação e de infância são uma produção cultural, social e histórica, não estiveram desde sempre colocadas, mas foram sendo moldadas, arregimentadas por diferentes discursos, nos quais o saber, o poder e a verdade estão relacionados e dependentes (FOUCAULT, 198730; 198831). Logo, os diferentes espaços de produção, como também de circulação de discursos que atuam no âmbito social constroem os enunciados, consequentemente, marcando a forma de pensar.
Deste modo, ao descrever e/ou analisar os sentidos da infância e da educação, temos a possibilidade de questionar o processo histórico de sua produção, percebendo assim, as mudanças e as continuidades desse processo. O que proporciona descobrir as diversas formas de compreensão, a qual é histórica, cultural e política, portanto, situada, o pesquisador e os leitores poderão compor um leque plural de significações.
As subdivisões que caracterizaram os diferentes tempos históricos e os discursos sobre e educação da infância vão aparecendo nos diferentes contextos e práticas sociais, como em instituições voltadas a educá-las, isto é, as elites de intelectuais, educadores, políticos, alguns dos personagens, simultaneamente ocupando todas essas oposições de sujeito, como foi o caso de José Baptista de Mello, criador da Revista do Ensino/PB.
Nesta perspectiva, na Paraíba as práticas estavam alicerçadas em um projeto político educacional que buscava acompanhar as transformações sociais que ocorriam em outras regiões e cidades brasileiras, no contexto de ordenamento da República, ainda que aceito no discurso da chamada Primeira República, como também de uma nova fase de mudanças e
30 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir (1987).
implicações políticas, sociais e econômicas, com o período getulista.
As orientações republicanas colocam como necessidade presente a de construir um novo homem, para isso, a educação das crianças passou a ser elemento central e importante para a constituição de um projeto de sociedade. Uma educação que foi legitimada pelos saberes modernos, sobretudo a Pedagogia, a Psicologia e a Medicina, os quais passaram a explicar racionalmente como cuidar e educar a criança, normatizando e normalizando assim, o processo do ensino e da aprendizagem através dos manuais teóricos e metodológicos que