4.6 Inversion totale par signature graphique
4.6.2 Exemple 2
(tema comum à maioria dos participantes)
… eu passei lá igual a eles. Somos de carne e osso, o sangue é igual, pronto. Agora eles ainda não querem ir à luta… o que vai na cabeça deles não sei…se eu não tivesse (sido) ajudado, então tinha os problemas deles. Felizmente já comecei a lutar por mim. (Carlos – 2)
Voltei à minha vida normal…e até hoje…sinceramente. Bom…força de vontade também conta, penso eu. Um indivíduo tem que ter força de vontade para largar isto, como eu tinha e tenho. (Josué – 7)
Eu penso assim desta maneira e eu, prontos optei por largar esse mundo da droga e…e ver mais realmente a minha família e…dedicar-me mais à minha família…que começam a ver com outra maneira…veem-nos como se a gente tivesse mesmo vontade de sair…desta vida. E tão a ver que a gente tá a lutar para isso. (Marco – 3)
A pessoa avalia e valoriza as importantes mudanças que percebe ter sido capaz de operar. Sente que tem força para mudar; olha-se como uma lutadora e perceciona ser também assim olhada pelos outros significativos.
A minha própria maneira de estar…tá um bocado diferente. Sabe que isto tem consequências, não é? Tanto em casa, como ao nível pessoal…em todos os aspetos, que é mesmo assim…e desde que estou aqui…a coisa tem ido diferente. A maneira de estar é outra…e já não me engano. Eu já não consigo esconder as coisas…eu digo o que tenho a dizer as coisas na hora…mais facilmente…não me engano…que eu andava-me a enganar. (Daniel – 6) Experiencia ser mais honesta consigo - “já não me engano” - como diz o Daniel…
Artur Carlos Marco Diniz Pedro Daniel Josué Samuel Lucinda Vítor Rui Fernando Carla Isabel
O ligar-se ao enfermeiro x x x x x x x x x x x x x x
O sentir-se representada x x x x x x x x x x x x x x
O sentir-se investida x x x x x x x x x x x x x x
O situar-se na sua história
de consumos x x x x x x x x x x x x x
O modificar o padrão de
relação com a substância x x x x x x x x x x
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Não sou mais que os outros, sou igual às outras pessoas!! Não sou mais nem sou menos. (Artur – 1)
Deixei, de consumir drogas. E já, pronto, já injetava, infelizmente…(agora) nem sequer haxixe fumo…saio, vejo um amigo, vejo outro, tou com os amigos que eu tive do tempo de droga, que eu hoje vou falar com eles à mesma. Ainda há alguns metidos nisso, tanto de droga como no álcool, mas eu continuo a falar com eles… não meto à parte, tejam a cheirar mal, não tejam…é igual. Não sou diferente deles, sou igual, sou doente. Embora na parte da doença eles bebem e eu não bebo. Ou não me drogo. Sinto-me mais do que eles. (Carlos – 2)
… e, identificando-se com outros consumidores de substâncias que conhece e que continuam a consumir, compara-se com eles, experimentando sentir-se diferente. Sente-se, agora, “igual” aos outros, ou mesmo “mais do que eles”, como referem o Artur e o Carlos.
As pessoas dantes viam-me de uma maneira e agora veem-me doutra e dizem “é pá, tu, sinceramente, tiveste força mesmo, força de vontade mesmo, de deslargares o álcool”. Já muitas vezes já me veem de outra maneira, já não me veem da mesma. (…) Pá agora eu tamém quero chegar, eu quero ir buscar o que eu perdi…não é? Quero ir buscar o que eu perdi. Quero fazer o que eu era. Perdi e agora quero ir lá buscar o que eu perdi. Agora quero, faz de conta, faz de conta que eu nasci de novo, outra vez… (Artur – 1)
Percecionando também passar a ser olhada mais positivamente pelos outros que agora a “veem de outra maneira” e chegam mesmo a elogiar a sua mudança, a pessoa sente confirmada a sua capacidade para se redefinir no contexto social. Como refere o Artur, “faz de conta” que renasceu...
Que eu cheguei a pensar “como eu já tou assim, já…já não vou a lado nenhum”, mas ainda vou. Ainda fui a tempo. O álcool não me leva a lado nenhum…é o que eu penso e não posso pensar de outra maneira, porque isto é assim, se eu for tar a pensar de outra maneira não, não vou a lado nenhum…eu agora quero, quero é fazer uma outra vida, uma vida diferente…ter um trabalho, ter uma casinha própria…ter uma vida, uma vida com’as outras pessoas têm. (Artur – 1)
…tou a começar a…a inserir-me na sociedade. Tenho o sexto ano antigo, tenho quarenta e tal anos. Ainda vou a tempo. Agora…vou ver as oportunidades que me vão dando, mas vou ter que saber aproveitá-las. (Marco – 3)
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Pronto, a minha vida está regularizada, só precisava era de ter uma vida mais sossegada e acabar com isso e voltar ao meu trabalho, automóveis, sempre gostei, transformá-los, arranjá-los, que eles não se queixam (risos). Vamos lá a ver se não me falta as forças até uma certa idade… (Josué – 7)
… e, sentindo que “ainda vai a tempo”, manifesta novas necessidades.
E eu quero ver se tenho um bocado de paz e sossego agora…pá, estes anos…que tenho pela frente, não sei quantos, mas quero ver se…tenho um bocado de paz. Estou cansado, mesmo cansado…desses ritmos que acabam por não ter nada, ou seja o que a gente ganha com isso…não ganha, só perde. Que eu tou farto de perder. (Pedro – 5)
Deixei de consumir heroína e a minha vida finalmente começou-se a endireitar. Estava prestes a perder a minha mulher, a minha filha, a minha casa…e agora…recuperei tudo de novo. Tenho a minha casa, vivo com a minha mulher, vivo com a minha filha. Nasceu saudável ela. Nós somos os dois seropositivos e ela nasceu saudável, graças a Deus. Graças a Deus. (Rui – 11)
Pronto, a vida agora endireitou-se não é? Espero nunca mais recair. (…) Sinto-me melhor, sinto-me mais feliz. (Isabel – 14)
Depois de um percurso aditivo abundante em perdas, a pessoa vive com satisfação os ganhos que sente ter, até agora, conseguido.
Eu tenho é que olhar pela minha saúde, não é? Se uma pessoa se não vai olhar pela minha saúde quem é que vai olhar? Se não for eu a olhar por mim, se (não) for eu a olhar p’ra mim ninguém olha, e eu deixo-me tar como tou, sinto-me bem, tou mais gordo. (Artur – 1)
Começo a ter a noção da obrigação de tomar a medicação, a tempo e horas, pronto. Antigamente tava na cama e se tinha os comprimidos ao fundo do quarto “Eia, os comprimidos…”. Agora já não, “Vá, levanto-me…”. (Pedro - 5)
Agora o imperativo para mim é tratar a vista (uma catarata) e é tratar isto do fígado (hepatite C). Tou para tomar conta de mim. É mesmo assim. Agora preocupo-me mais um bocadinho, comigo…foi uma das coisas que aconteceu, que mudaram, foi isso. Comecei a preocupar-me um bocado mais comigo. Agora naquela altura um gajo é novo, não acontece nada e as coisas não são bem assim. (Daniel – 6)
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…tá-me a correr bem, já consegui arranjar uma casinha p’ra mim… consegui arranjar uma casinha…que eu ainda não tou lá, vou só, vou só partir de dia doze…hoje tive lá a pintar lá um terraço…(sorriso) (…) Tenho a pouco a pouco (que ir) comprando as coisas, lá para casa, a casa tá vazia…tenho pessoas amigas que me vão arranjar algumas coisas mas não é…não é o suficiente. Uma pessoa ter que ter as coisinhas, pelo menos o essencial, não é? O fogão, frigorífico, cama, prontos…o suciente, o sufeciente! (Artur – 1) Consegui ter casa, coisa que nunca tive. Já tive muita mulher mas sempre vivi na casa delas, agora na minha nunca tinha tido Eu já há um ano e tal que tenho casa. (…) …tenho a minha casa, tenho a minha mulher e tenho o meu filho. E até hoje tenho tado bem assim. (Diniz – 4)
Tou bem no trabalho, queria ficar com o meu trabalho, gosto do meu trabalho…ter uma vida estável, portanto, tudo. Ter o meu carrinho, ter a minha casa; coisa que não tinha nada não é? Tenho tudo agora, graças a Deus, tenho tudo. (Isabel – 14)
…valoriza a conquista da propriedade e da intimidade…
Eu sou…sou livre, pronto…tenho que ser eu mesmo a fazer por mim…tou (muito motivado). Tou satisfeito, como tá a correr…é a cura, não é? E quem é que tem mais cabecinha, e pá próxima não se lá vai meter, não é? (risos). Eu acho que sim. (Marco – 3)
Sinceramente sinto-me bem, sinto-me bem quando venho aqui…não é ser engraxador ou isto ou aquilo, não…e tenho aprendido bastante. Eu tou diferente em diversos aspetos. (Pedro – 5)
Sinto-me bem. É andar bem-disposto, não ter a cabeça a mil, não…não haver aquela rotina…ter tempo para tudo e mais alguma coisa. Porque nessas alturas não se tem tempo para nada. Sinto-me bem e acho que desta vez é que a coisa vai mesmo. (Daniel – 6)
…e motivada, manifesta satisfação com um novo “eu”, que sente como mais reflexivo e livre.
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