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1.3 Comment ´ evaluer les performances des horloges ?

1.3.2 Exactitude et effets syst´ ematiques

Entre 1455 e 1480 não se fundaram novas casas e, depois dessas datas, os dois conventos dos lóios erigidos em Évora e no Porto, já no final da centúria de quatrocentos, parecem resultar mais da vontade dos patrocinadores do que da iniciativa da congregação, que não se apressou a dar o seu consentimento aos insistentes pedidos que lhe foram feitos para aceitar e integrar os novos estabelecimentos. De qualquer forma, estas fundações vieram confirmar a vocação cada vez mais urbana da congregação, que tinha agora casas nas três maiores cidades do reino53.

3. 1. S. João Evangelista de Évora

Évora conheceu um desenvolvimento acentuado na segunda metade do século XV, em especial a partir do reinado de D. João II que, no dizer do seu mais recente biógrafo, a elegeu como cidade de preferência54. Aqui se fundou, em 1481, o convento de S. João Evangelista, a quinta casa da congregação dos lóios, por iniciativa de dois elementos destacados da nobreza do reino: D. Rodrigo de Melo, guarda-mor de Afonso V e primeiro conde de Olivença, e o seu genro, D. Álvaro de Portugal, filho do 2º duque de Bragança e chanceler-mor do reino.

O estudo exaustivo de Túlio Espanca sobre as origens deste convento55 pode ser completado através do registo das actas do capítulo geral dos lóios, que acompanhou atentamente o processo de fundação da nova casa56. Em 1482, os cónegos reunidos no convento de Santo Elói ”acordarom que tomasem sam joham euangelista em euora que nos fazia ou queria fazer o conde d oliuença e dom aluaro filho do duque concordandosse primeiro muj bem com eles do que auja de fazer e dar pera mantjmento

53 Segundo o numeramento de 1527-1532, o Porto contava com 3006 fogos e Évora com 2813; Santarém

e Elvas rondavam os 1900 fogos (cfr. João José Alves Dias, “A população”, in Nova História de Portugal, vol. V, Portugal do renascimento à crise dinástica, dir. de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, Lisboa, Presença, 1998, pp. 11-52).

54 Luís Adão da Fonseca, D. João II, p. 31.

55 Cfr. Túlio Espanca, História da Casa de Cadaval. Cadernos História e Arte Eborense, XXI, Évora,

Livraria Nazareth, 1960/61. Este trabalho desenvolve com pormenor os antecedentes da fundação e o contexto familiar dos Melos de Évora.

56 As constituições prescreviam que nem o reitor geral nem os particulares tinham poder para aceitar casa

ou lugar para habitar nem encerrar as existentes; estas decisões só podiam ser eram tomadas pelo capítulo geral (cfr. Statutos e constituyções, cap. 16 “Do poder e conformidade dos rectores e dos que tem suas vezes”, fl. 19v.).

da casa”57. No ano seguinte, o rei interveio na fundação, apelando às autoridades da cidade para a cedência de alguns terrenos necessários à edificação do convento58. Contudo, a execução de D. Fernando, duque de Bragança, ocorrida em 1483, e o consequente exílio para Castela de D. Álvaro, irmão do duque justiçado, atrasaram o processo.

Em 1484, o capítulo geral da congregação retomava o assunto e ordenava que “acerqua da casa que sse rrequeria edificar em euora fosse rrequerido o conde outra vez como lhe já foy dicto que sse edificar doctar jssentar e liberdar a cassa sufiçientemente que a açeytemos e em outra guysa nam”59. A principal preocupação dos cónegos era, portanto, assegurar o financiamento da construção e o sustento da futura comunidade. Garantidos esses rendimentos, as obras iniciaram-se em Maio do ano seguinte e a construção foi avançando60. Em 1487 o capítulo determinou que se confirmasse uma vez mais que se mantinham as mesmas condições61.

A morte do fundador principal, D. Rodrigo de Melo, ocorrida em Novembro de 1487, levou a congregação a renunciar temporariamente à administração da casa, por estar inacabada e não haver segurança quanto à sua manutenção futura62. Cautelosamente, em 1490, o capítulo determinava que a decisão de aceitar a casa de Évora fosse da responsabilidade do reitor e cónegos de Xabregas, com o conselho dos de Santo Elói63, mas já em 1491 parecia não haver outra hipótese senão a de avançar com a tutela do convento, considerando a fama e o nome que, entretanto, a casa tinha adquirido, tanto entre os cónegos da congregação como na cidade de Évora64. A decisão consolidou-se com a aplicação ao mosteiro de novas rendas, deixadas em testamento pelo conde D. Rodrigo de Melo65. Finalmente, em Julho de 1491 procedeu-se à entrega oficial da casa à congregação66. Ao reitor geral e aos cónegos de Xabregas e de Santo Elói competia prover “de pessoas aa dita casa a tenpo conuenjente segundo sentirem ser

57 ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 6v.

58 Cfr. carta régia de 3 Julho de 1483 publicada por Gabriel Pereira, Documentos Históricos da Cidade de

Évora, Segunda Parte, Évora, Tipografia Económica José de Oliveira, 1887, pp. 169-170.

59 ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 16v. 60 Cfr. Túlio Espanca, História da Casa de Cadaval. p. 66.

61 O capítulo geral mandou “os padres paulo e joham de sam pedro contractar com o conde pera certos

apuntamentos e veer possissões etc. pera todo vijr a conclusom per açertamento ou deslegamento” (cfr. ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 29v.).

62 Cfr. Túlio Espanca, História da Casa de Cadaval. p. 67. 63 ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 43v. 64 ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 53.

65 A execução do testamento de D. Rodrigo de Melo data de 3 de Agosto de 1491 (cfr. BPE, Convento de

S. João Evangelista de Évora, liv. 20, fl. 1-13 [1491]).

seruiço de deus e a desposiçam e possibilidade o der”67. Em 1492, S. João de Évora já apresentou contas no capítulo geral, sinal de que a casa entrara de imediato em funcionamento68.

Uma característica habitual da dinâmica institucional das ordens religiosas é que a fase fundacional de uma nova casa seja acompanhada, quase sempre, de um marcado surto devocional69 e assim aconteceu também com o convento de Évora. As primeiras doações chegaram quando decorria ainda a construção do edifício70.

Já no reinado de D. Manuel I, e depois da reabilitação da Casa de Bragança, D. Álvaro de Portugal regressou ao reino. A sua carreira anterior, bem como o talento, experiência e tacto político adquiridos ao serviço dos Reis Católicos, fizeram com que rapidamente fosse reintegrado no valimento da corte portuguesa, passando a residir no Paço, como Conselheiro da Coroa71. Foram-lhe restituídos todos os seus bens e rendimentos, assumindo uma posição destacada no círculo de D. Manuel72. Com um patrono tão bem posicionado, os cónegos não teriam nada a recear relativamente ao sustento do convento de Évora. O problema deixou de ser a escassez de rendas e passou a ser o da falta de autonomia para resolver as questões internas da casa, pois a partir deste momento as decisões do capítulo sobre o mosteiro de S. João Evangelista de Évora apresentaram-se sempre subordinadas aos desejos e também às orientações concretas de D. Álvaro, de modo especial em assuntos de obras mas também nas outras

67 ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 53. 68 ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 56.

69 Cfr. Maria de Lurdes Rosa, “As almas herdeiras”, p. 267.

70 Ver testamentos e doações ao convento: BPE, Convento de S. João Evangelista de Évora, liv. 12, fl. 42

(1492), liv. 8, fl. 3 (1494), çiv. 8, fl. 4 (1496), liv. 1, fl. 55v (1498) e liv. 8 s/fl numerado (1499).

71 Sobre a sua estadia e serviços prestados na corte dos Reis Católicos veja-se: István Szászdi, “Los

portugueses y el nacimiento de la Casa de la Contratación sevillana el año de 1503 – La huella de don Alvaro de Portugal”, in O tempo histórico de D. João II nos 550 anos do seu nascimento. Actas do colóquio 2, 3 e 4 de Maio de 2005, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 2005, pp. 285-324.

questões relativas à vida dos cónegos73. Foi ainda por sugestão de D. Álvaro que em 1501 o capítulo geral da congregação se realizou pela primeira vez em Évora74.

A necessidade de angariar apoios e benefícios para a casa obrigou os cónegos a fazerem também em Évora algumas concessões no que diz respeito à reserva própria da clausura. Foi o caso de uma permissão outorgada a D. Fernando de Castro, capitão-mor de ginetes, e a D. Maria, sua mulher, para terem um acesso directo desde casa ao coro da igreja e poderem assistir sem incómodo às cerimónias religiosas que aí se realizavam75.

A igreja do mosteiro foi instituída, desde o início, em panteão funerário do fundador, D. Rodrigo de Melo, e da sua família. No seu testamento, o conde de Olivença dera indicações precisas sobre o túmulo e cerimónias do seu funeral76. Ao longo do século XVI, outras famílias ilustres procuraram o convento de Évora para local de sepultura. Constituiu-se rapidamente num foco de intensa vida religiosa, especialmente para a nobreza local e também para os membros da realeza que estanciavam na cidade, residindo por vezes no próprio convento. Aí se viviam algumas devoções que os lóios cuidavam com esmero e que depois se difundiram por todo o país77.

73 Veja-se, por exemplo, as indicações dadas no capítulo geral da congregação em 1496: “que o rector e

jrmãos da casa posam contrautar com ho senhor dom aluaro como a egreja de sancta maria dos açougues d eluas venha a dicta cassa com obriguaçam de hua capela e toda boa maneira de composiçom de corte como mjlhor e majs onesta e proueitosamente puder vijr; jtem que a dona briatiz se conceda a cerqua de sua sepultura aquelo que onestamente comprazer ao dom aluaro se deua fazer” (ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 87-87v.); no capítulo de 1498: “mandarom que se faça o que o Senhor dom aluaro ouuer por bem e conujer aa casa” (ibidem, fl. 98); em 1499: “mandarom que na dicta casa se façam aquellas obras que o Senhor dom aluaro qujser fazer pera obseruançia e consollaçam dos jrmãos e pera cerramento da casa” (ibidem, fl. 103) e em 1500: “obras as que puderem e ho senhor dom aluaro quiser fazer” (ibidem, fl. 107v.).

74 “Hordenaram que a peticam de dom aluaro e por outras cousas justas e necesarjas que pera o anno se

faça ho capitulo em a cassa d euora nom auendo alguu empedimento e fazendose façase a ujsitaçam pello gerall em a casa de ujlar e reciam e etc.” (ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 107).

75 Essa licença foi outorgada no capítulo geral de 1501: “Porque a casa d euora esta em mujta streitura

polo grande amor que nos tem dom fernando e sua molher <dona maria> foi acordado em capitollo lhe ser dado lugar em ujda della dona marja fazer hua porta que tenha duas chaues, hua sua e outra da hordem cada hua de sua parte, pera vir aa igreja alguas vezes por sua boa deuocam e todo se com boa examinacam porque se nom sigua dy algua deuasidade e seja aujsada nom trazer comsiguo ajuntamente doutras donas e mulheres somente companhia honesta de sua cassa, e por nossa largueza e consolaçam nos fazem esmola do cham que tem ao menos atee a qujna da torre que esta sobre ho muro” (ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl.107v). Recorde-se que já em 1487, D. Fernando de Castro e a mulher D. Maria de Vilhena tinham vendido ao conde de Olivença, para que este o outorgasse ao convento, um outro terreno situado junto às suas casas de morada e que confinava com o muro do castelo velho (cfr. BPE, Convento de S. João Evangelista de Évora, liv. 1, fl. 7-7v [1487]).

76 Cfr. BPE, Convento de S. João Evangelista de Évora, liv. 20, fl. 1-13 [1491].

77 Como por exemplo a procissão do enterro do Senhor celebrada na Sexta-feira Santa: cfr. estudo de

3. 2. Nossa Senhora da Consolação do Porto

A última fundação dos lóios no século XV teve lugar no Porto78. O convento de Nossa Senhora da Consolação foi instituído em 1490, junto a uma ermida edificada por Violante Afonso, viúva de um mercador da cidade. A ermida e o terreno envolvente foram doados pela proprietária, a pedido de D. João de Azevedo, bispo do Porto, que autorizou a fundação a 5 de Abril79 e confirmou a doação de Violante Afonso a 25 de Outubro de 149080. Entre uma data e outra, o capítulo geral da congregação, convocado no mês de Junho, deliberou aceitar a nova casa81. A entrega oficial do convento aos lóios teve lugar a 12 de Junho de 149382. Nesse mesmo ano, o capítulo geral delegou no reitor e irmãos do mosteiro de Vilar de Frades a nomeação dos cónegos que deveriam ocupar a casa do Porto. Em 1495, o capítulo geral confiou o governo da casa aos cónegos Paulo de Portalegre e Bento dos Santos83. Foram anexadas ao convento numerosas igrejas e as suas principais rendas eram constituídas por dízimos84.

D. João II colaborou na fundação da casa intercedendo junto das autoridades concelhias da cidade para que não levantassem obstáculos à sua edificação. Logo em 1491, o rei escrevia ao senado da Câmara do Porto para agradecer a ajuda dada na edificação do novo convento e, de modo especial, a cedência de um terreno camarário que permitiria erigir o edifício de forma mais espaçosa, e pedir ao mesmo tempo que du théâtre religieux (analyse de documents portuguais),Paris, Societe d‟Editions «Les Belles Lettres », 1960, pp. 131-159. O rei D. João III, que participava com frequência nos ofícios celebrados na igreja deste convento, teve oportunidade de assistir a esta procissão e, segundo o cronista da ordem, introduziu-a posteriormente nas cerimónias da Capela Real (cfr. Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, p. 311).

78 Sobre a história deste convento, veja-se: Eugénio de Andréa da Cunha Freitas, O convento Novo de

Santa Maria da Consolação (Padres Lóios), Porto, Câmara Municipal do Porto, 1947 e Pedro Vitorino, Notas de Arqueologia Portuense, Porto, Câmara Municipal do Porto, 1937, pp. 147-165.

79 Alvará do bispo D. João de Azevedo autorizando a fundação de 5 de Abril de 1490 em ADP, Convento

de Santo Elói do Porto, liv. 10, fl. 154-155 publicado por Eugénio de Andréa da Cunha Freitas, O Convento Novo de Santa Maria da Consolação, pp. 3-4.

80 Cfr. Eugénio de Andréa da Cunha Freitas, O Convento Novo de Santa Maria da Consolação, p. 5 81 Nesta primeira referência nas actas dos capítulos gerais à nova fundação, o convento é designado por

“casa da conceiçam do porto” (cfr. ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 42).

82 Cfr. Eugénio de Andréa da Cunha Freitas, O Convento Novo de Santa Maria da Consolação, p. 6. 83 Cfr. ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 66v. e 81.

84 Entre 1495 e 1535, foram anexadas ao convento dez igrejas: Santa Eulália de Aveleda da Maia, S.

Salvador da Macieira da Maia, S. Cristóvão do Muro, S. Salvador da Gandra e S. Simão de Gouveia, pertencentes ao bispado do Porto, e S. Pedro de Pedome, S. Paio de Midões, Santa Eugénia, S. João de Arroios e S. Romão de Vilarinho do arcebispado de Braga (cfr. Eugénio de Andréa da Cunha Freitas, O convento Novo de Santa Maria da Consolação, pp. 8-9 e Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, pp. 510-12).

continuassem a facilitar os trabalhos de construção85. Mais adiante, quando o convento se encontrava já em funcionamento, houve algumas dificuldades com a proximidade da muralha da cidade, que tornava devasso o interior do edifício, e de novo interveio o rei autorizando os cónegos a impedir a circulação no troço da muralha que rodeava o convento86. Depois da morte de D. João II, a rainha D. Leonor assumiu a protecção do convento, concedendo-lhe avultadas esmolas e dando orientações concretas para a prossecução das obras, provavelmente por acção de Paulo de Portalegre, o seu influente confessor e primeiro reitor da casa87.

Não são claros os motivos que levaram o bispo D. João de Azevedo a estabelecer um convento dos lóios na cidade do Porto. A doação da ermida e do terreno circundante constituiu o incentivo necessário para o bispo desencadear o processo de fundação, certamente já pensado com anterioridade pelo prelado. De facto, Violante Afonso, a mulher devota que fez a doação inicial, estava ligada à espiritualidade mendicante e tinha professado na Ordem Terceira de S. Francisco88. Não se conhece nenhuma relação anterior que justificasse o interesse pela congregação dos lóios. A responsabilidade desta fundação deverá, pois, atribuir-se ao bispo D. João de Azevedo. De origem nobre89, frequentara a corte de Afonso V e colaborara directamente na educação de D. Jorge, filho bastardo de D. João II. Ocupava o lugar de deão da sé de Lisboa quando em 1465 foi apresentado para o bispado do Porto. É possível que em Lisboa tivesse contactado com alguns cónegos e se interessasse pelo trabalho da congregação. Até ao final do século XV, a cidade do Porto não conheceu o surto de fundações religiosas que se verificara noutras cidades do país, nomeadamente em Lisboa, e haveria espaço, se assim se pode dizer, para outras espiritualidades e novas formas de vida religiosa90. Por outro lado, os franciscanos e dominicanos, desde há

85 Carta de D. João II, de 19 de Junho de 1491, publicada em Livro Antigo de Cartas e Provisões dos

Senhores Reis D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, pref. Artur Magalhães Bastos, Porto, Câmara Municipal do Porto, s/d, p. 110.

86 Carta régia de 28 de Abril de 1496, publicada em Livro Antigo de Cartas e Provisões dos Senhores

Reis D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, p. 126.

87 No capítulo geral de 1498, fez-se referência à esmola de cem mil reais dada pela rainha para as obras

do convento e no ano seguinte o capítulo dava prioridade a essas mesmas obras segundo o desejo da rainha (cfr. ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 523, fl. 96 e 103v.).

88 Cfr. Eugénio de Andréa da Cunha Freitas, O convento novo de Santa Maria da Consolação, p. 4. 89 Era filho de Luís Gonçalves Malafaia, vedor da Fazenda de D. Duarte e embaixador de D. João II em

Castela e de D. Filipa de Azevedo, filha de Lopo Dias de Azevedo, senhor do Bouro e de S. João de Rei (cfr. Rodrigo da Cunha, Catálogo dos bispos do Porto. Adicionado, Porto, 1742, pp. 178-79).

90 Ainda antes do Concílio de Trento, mas já no século XVI, outras ordens lograram estabelecer-se na

cidade ou nos arredores. Em 1518, D. Manuel I fundava, com intuitos reformadores, o mosteiro de S. Bento da Avé Maria, para recolher monjas beneditinas provenientes de vários mosteiros rurais; em 1535

muito instalados na cidade, tinham-se constituído como forças opositoras do bispo, com frequência aliadas ao município para fazer frente ao poder episcopal91. Promover uma fundação de cónegos seculares no Porto poderia ser a forma de D. João de Azevedo reforçar a sua autoridade na urbe, agora que o senhorio da cidade já não pertencia ao bispo. Na corte angariaria facilmente apoios para o seu projecto e em poucos anos o convento estava edificado e albergava uma nova comunidade. De facto, pode-se dizer que no estabelecimento desta casa houve uma convergência de esforços e de poderes. O bispo, o rei e a câmara envolveram-se activamente na sua fundação, reconhecendo-se, neste conjunto, os três eixos à volta dos quais girou toda a história do Porto92.

Localizado na zona do Olival – um espaço da cidade pouco urbanizado onde proliferavam as hortas e os rossios –, o convento de Nossa Senhora da Consolação contribuiu eficazmente para o desenvolvimento da área, provocando um surto de construções e a abertura de novos arruamentos93. Para custear as obras, foram destinadas a este fim rendas de igrejas e bens patrimoniais e os outros conventos da congregação contribuíram também com algumas ofertas94.

Tal como acontecera em Évora, o novo convento começou de imediato a atrair os devotos habitantes do Porto e a ser alvo de inúmeras doações post-mortem e encomendações de alma. Entre os primeiros benfeitores da casa contam-se dois criados do bispo D. João de Azevedo, que doaram bens patrimoniais no termo de Barcelos e em Vila do Conde95. Ao longo do século XVI, outros cidadãos e elementos da pequena burguesia portuense escolheram o convento para instituir sepultura ou para a celebração de missas por alma96. No final da centúria, a igreja e o convento mostravam-se já instalava-se o convento de franciscanas da Madre de Deus de Monchique, em Miragaia. Em 1537, iniciava-se a construção de um mosteiro na Serra do Pilar para receber religiosos reformados vindos do mosteiro de cónegos regrantes de São Salvador de Grijó (cfr. Bernardo Vasconcelos e Sousa (dir.), Ordens religiosas em Portugal: Das origens a Trento, pp. 87, 302, 207, respectivamente). Jesuítas, Capuchos, Eremitas de Santo Agostinho e beneditinos só se instalaram no Porto no último quartel do século XVI (cfr. Francisco Ribeiro da Silva, “Tempos Modernos”, in História do Porto, Luís A. de Oliveira Ramos (dir.), Porto, Porto Editora, 3ª ed., 2000, pp. 307-311).

91 Cfr. Adelaide Pereira Millán da Costa, Projecção espacial de domínios das relações de poder ao burgo

portuense (1385-1502), dissertação de Doutoramento, policopiado, Lisboa, Universidade Aberta, 1999, pp. 319-325. Veja-se uma boa síntese da caracterização social do Porto na Idade Média em Armindo de