PARTIE III LES ENJEUX RH DE LA SOUS-TRAITANCE
4. Evaluation et contrôle des sous-traitants
Vladimir Nabokov, autor de Lolita, dizia que ninguém pode falar de si mesmo sem estar consciente da quantidade de ficção que existe na percepção do eu.
Sérgio Vilas Boas
Mesmo atrelando à encenação fotográfica de Guerra ao trabalho teatral, isto é, a representação de um grupo social – o de atores amadores –, a focalização e o destaque dados ao rosto do teatrólogo e a ausência de elementos decorativos nas fotografias que abrem alguns de seus artefatos remetem-nos ao mecanismo central do retrato de identidade – a afirmação da individualidade do modelo fotográfico.
Focalizado até a altura dos ombros, o teatrólogo não exibe objetos de valor nesses retratos – como fazia a burguesia oitocentista. Com destaque para a sua fisionomia e minimizando a perspectiva representativa do seu corpo por inteiro, as fotos de Guerra remontam a tendência internacional do modelo de retrato do século XV:
Apresentado sobre um fundo neutro, é tomado de três quartos ou de perfil, nunca de frente; aparece cortado um pouco abaixo dos ombros e confere muita importância ao penteado. A cara realista, sem excessiva abundância de detalhes, mas apresenta, em contrapartida, vários relevos sobre os quais é jogada uma hábil iluminação (FRANCASTEL apud FABRIS, 2004, p. 26).
Apesar de o amador não ter sido fotografado de perfil, a sua imagem está sobre um fundo neutro e foi cortada na altura dos ombros. Além disso, ele apresentou-se com o cabelo bem penteado e com uma fisionomia simples, sem muitos detalhes. Tal enquadramento e focalização realçam a individualidade do ator são-joanense.
O teatrólogo parece querer marcar a coincidência entre registro e modelo. Ele não quer ser confundido com outra pessoa nem pretende que criemos uma imagem subjetiva de si. Com objetividade e exatidão, a fotografia permite-nos identificar Guerra em meio a uma infinidade de rostos. Segundo Fabris, o rosto é o que distingue imediatamente o indivíduo e lhe dá identidade.
Nos moldes do retrato policial, que reduz o indivíduo a um mapeamento sistemático dos traços distintivos da fisionomia, Guerra quer nos proporcionar um registro perfeito e fiel de si, longe das ambiguidades e imprecisões das descrições verbais: “Produto da mesma lógica indiciária, o retrato de identidade herda do retrato policial uma série de características [...]” (FABRIS, 2004, p. 50).
Além de usar uma fotografia, o teatrólogo reforça a sua existência e individualidade com a escrita de seu nome – “Antonio Guerra” – logo abaixo da foto:
[...] é comum, desde o Renascimento, a inscrição do nome do modelo nos retratos aristocráticos de modo a destacar o que é fundamental nesse tipo de representação: o rosto como signo de um poder ao qual o nome confere de imediato uma função, a permanência de um título (FABRIS, 2004, p. 164).
É importante destacar ainda que Guerra fez questão de marcar sua imagem em fotografias onde ele se encontra junto a outras pessoas. Para que pudéssemos identificá-lo com exatidão – seja porque ele não está bem focalizado na foto ou por estar mais velho e sua fisionomia encontrar-se diferente da apresentada nos retratos de abertura dos álbuns –, o teatrólogo destacou o seu corpo em algumas fotografias, apontando para ele com uma seta e colocando, ao lado ou abaixo da imagem, o seu nome.
Philippe Lejeune (2008) destaca que todo personagem será sempre representado por um pronome que remeterá a um nome. O pesquisador afirma que os pronomes são representações, seres de papel que não existem, mas que se relacionam com um nome ou com uma entidade designada por um nome.
O nome próprio vence o anonimato e podemos identificar o ser. E a existência desse ser real pode ser comprovada através de um registro em cartório. Então, o pronome está no lugar do nome, o nome próprio corresponde ao ser que é representado por um registro em cartório.
No nosso caso, o teatrólogo não relacionou um pronome a seu nome. Ele colocou as inscrições verbais – Antonio Guerra – abaixo de sua imagem, reforçando ainda mais o seu desejo de individualidade e de identidade. Tanto a representação fotográfica quanto a verbal correspondem ao seu ser, que também tem um registro em cartório.
Com retrato e nome, Guerra substitui sua presença empírica e possibilita aos leitores de seus objetos relacionar uma determinada imagem ao nome Antonio Guerra e dar esse mesmo nome às suas fotografias que se encontram fixadas ao longo das páginas de seus compósitos. A todo o momento, somos surpreendidos por um registro e/ou pelo outro. Imediatamente, um signo evoca o outro. O verbal é correlacionado ao imagético e vice-versa, sendo, constantemente, postos em diálogo.
Os documentos permitem a todo indivíduo ter uma identidade e, assim, existir. Com foto e nome, referimo-nos e chegamos a um ser. Ludwig Wittgenstein afirma que “[...] um nome designa uma coisa. [...] denominar algo é semelhante a colocar uma etiqueta numa coisa” (1989, p.14).
Ao olhar a página de abertura do primeiro álbum, verificamos que Guerra fez questão de etiquetar, rotular e classificar sua foto com a inscrição: “Antonio Guerra”. Assim, ele possibilitou aos que não o conheceram, durante a vida ou mesmo após a morte, ver como ele era fisicamente e, em meio a outras imagens, identificá-lo com precisão – ou relembrar sua fisionomia ao ler o nome Antonio Guerra em textos verbais.
Mais do que distinguir e se fazer conhecer, utilizando-se do signo icônico e do signo verbal, o teatrólogo permite-nos ampliar os significantes e significados de seus papéis. Os textos transbordam, resvalando em muitas outras representações. O pensamento flutua e vai ao encontro de outros signos: homem, respeitoso, elegante, ator, amador, arquivista, são-joanense, teatro etc. Muitos são os substantivos e adjetivos a que esses recortes remetem. Aos saltos, numa construção fragmentada e cheia de lacunas, uma narrativa vai se formando no imaginário dos leitores desses compósitos.
Guerra escreveu suas histórias através de recortes diversos. A fragmentação e descontinuidade do indivíduo moderno instigam práticas culturais de produção de escritas de si, já que tais produções, aparentemente, costuram o tempo e dão estabilidade e permanência ao indivíduo. Entretanto, o que configura o eu de uma pessoa? Ter a sua fisionomia registrada por uma câmera fotográfica e ser identificado por um nome? Ou ainda, ser filho do senhor Beltrano e da senhora Fulana, nascido em uma determinada cidade, em tal dia, mês e ano? Podemos apreender a essência de um indivíduo através de dados e fatos de sua vida?
Os registros verbais – nome e informações sobre uma pessoa – não significam uma equivalência linear entre evento e ideia. Linguagem e realidade não se equivalem:
Na separação de linguagem e realidade – no processo de significação – não há equivalência epistemológica entre sujeito e objeto, nem possibilidade de mimese do significado. O signo temporaliza a diferença iterativa que circula dentro da linguagem, da qual deriva o significado [...] (BHABHA, 2007, p. 223).
Assim como o signo verbal, a fotografia também não estabelece uma correspondência tranquila entre imagem e indivíduo. Numa suspensão temporal, a foto devolve ao indivíduo uma figura morta – um indivíduo objeto. Nos processos representativos – icônicos e verbais –, não há relações simples, horizontais e lineares. O modo como significamos os seres, as coisas e o mundo dialoga com as complexidades, bifurcações e pluralidades do imaginário.
Na contemporaneidade, não acreditamos ser possível a apreensão da figura real, única e indivisível do eu:
[...] o personagem de Pirandello vivencia profundamente a experiência da crise de representação: não existe um “eu”, e sim “uma sucessão de ‘eus’ possíveis que se processam em condições específicas de tempo e de espaço”. Dessa percepção deriva a consciência de que é possível ser um, nenhum e cem mil ao mesmo tempo: enquanto produto social, o corpo não delimita uma identidade estável, mas um conjunto de identidades sucessivas e contraditórias, determinadas pelos olhares dos outros (FABRIS, 2004, p. 156-157). Diante da crise de representação, Guerra pode ser um, nenhum ou milhares ao mesmo tempo. A imagem e o nome do amador não abarcam uma única identidade, mas as infinitas contradições que se constroem e se desconstroem frente aos olhos dos inúmeros leitores que folheiam e leem os compósitos do teatrólogo.
Com o imagético e o verbal, o amador passa a ter uma significação no mundo, mas não apreendemos o “eu” múltiplo, plural e dividido de Guerra. Chegamos próximos, sim, de pequenos fragmentos, de estilhaços de sua personalidade, uma vez que muitas são as formas e possibilidades de representá-lo. Construímos algumas das infinitas significações do amador teatral são-joanense, mas não esgotamos e finalizamos seu ser.
O sujeito que se deixa fotografar e nomear é, ao mesmo tempo, pessoa e personagem, indivíduo e membro de um grupo, singular e conforme as normas de uma comunidade (FABRIS, 2004, p. 40). Nesse caso, longe de afirmar a autossuficiência do eu, o retrato “legendado” de Guerra remete à ausência de sua plenitude. Numa encenação de si para o outro, o teatrólogo exibe-se como um outro: A autobiografia, mesmo se limitada a uma pura narração, é sempre uma auto-interpretação, sendo o estilo o índice não só da relação entre aquele que escreve e seu próprio passado, mas também o do projeto de uma maneira de dar-se a conhecer ao outro, o que não
impede o risco permanente do deslizamento da autobiografia para o campo ficcional, o seu revestir-se da mais livre invenção (MIRANDA, 1992, p. 30).
Num discurso literalmente intencionado, Guerra seleciona, recorta, cola a imagem de si que mais lhe agrada e se dá ao olhar do outro. Numa mistura de representação literária e experiência vivida – forma de arte e simultaneamente discurso verídico –, o arconte dos álbuns escolhe os textos que vão compor a sua história de vida. Com Philippe Artières, acreditamos que o “[...] arquivamento do eu não é uma prática neutra; é muitas vezes a única ocasião de um indivíduo se fazer ver tal como ele se vê e tal como ele desejaria ser visto” (1998, p. 31).
Mesmo querendo focalizar a sua identidade para se ver e se mostrar ao outro – ou seja, mesmo querendo criar uma “[...] ilusão de linearidade e coerência do indivíduo, expressa por seu nome e por uma lógica retrospectiva de fabricação de sua vida, [...]” (GOMES, 2004, p. 12) –, a individualidade de Guerra não pode ser apreendida, já que muitos eus compõem o seu ser.
Além disso, a vida do teatrólogo não se faz única, isolada e sozinha, mas misturada a muitas outras vidas. Vários nomes e rostos vão surgindo ao lado das fotografias e do nome do amador. Muitos personagens vão tecendo suas histórias e se construindo junto à narrativa do ator são-joanense. Com seus arquivos, Guerra existe, recorda fatos, tira lições do passado, tem uma sobrevida no futuro e, sobretudo, possibilita que outras pessoas também vivam consigo – em sua e em outras vidas.
4 A EXTERIORIZAÇÃO DA MEMÓRIA DE ANTONIO GUERRA