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3.2 M´ethodes de r´esolution pour l’optimisation combinatoire

3.2.2 M´ethodes approch´ees

Rui Bebiano

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Centro de Estudos Sociais

Resumo

A partir da enunciação e comentário de quatro mecanismos associados a quatro conceitos — silêncio, memória, testemunho e redenção — este texto procura enunciar um curto retrato comparativo dos processos de revisitação da memória do Holocausto e do Gulag. No centro da abordagem proposta encontra-se o lugar do testemunho, como veículo de transmissão, mas também de superação, dos processos de culpa e de silenciamento associados à traumática experiência concentracionária massivamente imposta, com a presença de pesados índices de barbárie, por dois dos grandes sistemas totalitários do século passado.

Abstract

This essay takes as a starting point four concepts and their associated mechanisms — silence, memory, testimonial and redemption — to sketch a comparative approach to the processes of revisiting the memory of the Holocaust and of the Gulag. At its center lies the testimonial; it works as a form of conducting as well as of overcoming the guilt and the silencing of the traumatic concentrationary experience, which was massively enforced, with high rates of barbarism, by two of the main totalitarian systems of the last century.

Na obra Se Isto é um Homem, publicada em 1958, Primo Levi descreveu um pesadelo recorrente nas suas noites de prisioneiro em Auschwitz1

. Nesse pesadelo conseguia evadir- se do campo e regressava a casa, onde procurava relatar os horrores que conhecera. Porém, à medida que ia falando reparava que ninguém parecia escutá-lo: as pessoas conversavam entre si sem notarem sequer a sua presença. Depois da libertação descobriu que afinal não era o único a ter tal pesadelo: outros ex-prisioneiros relatavam experiências idênticas. De facto, durante o período de funcionamento dos campos de concentração alemães, poucos aceitavam como fiáveis os escassos relatos daqueles que tinham a possibilidade de testemunhar a seu respeito; por outro lado, depois do seu desmantelamento, e por largos anos, poucos foram também os que aceitavam ouvir aquilo que os sobreviventes tinham para contar. A luta que Levi teve de travar para conseguir publicar aquele livro em edição comercial, e principalmente para encontrar leitores para ela, constitui um dos mais notórios testemunhos desse distanciamento público.A situação veio aliás a repetir-se com depoimentos associados a outras experiências do encarceramento concentracionário, ao qual Heinrich Böll chamou “a experiência do século”. Varlam Shalamov, o poeta, escritor e jornalista russo, autor dos Contos de Kolyma, viveu entraves ainda maiores para dar a

conhecer essa pungente obra da ficção autobiográfica, concluída em 1965 mas publicada na sua língua apenas em 1989, sete anos após a morte do autor2

.

Aquilo que aqui vou propor é um breve quadro interpretativo que recupera fragmentos de duas das maiores, e sem dúvida mais conhecidas, experiências concentracionárias do século XX, díspares sob vários aspetos mas ambas conotadas com parâmetros de uma intervenção centralizada e autoritária do Estado, que têm suscitado interpretações e depoimentos indispensáveis para a compreensão histórica da violência institucional, em particular a adotada pelos Estados, na Europa dos últimos cem anos.

Uma advertência prévia: esta abordagem é de natureza comparativa, logo inevitavelmente complexa e problemática, confrontando vivências nos lagern construídos pela Alemanha de Hitler e na rede de campos do Gulag Soviético durante o estalinismo. Enzo Traverso tem vindo a sublinhar, há pelo menos uma década, o facto da recordação dos campos de morte nazis, introduzida na consciência histórica do mundo ocidental desde o fim dos anos 70 como acontecimento central do século XX, ter-se aproximado, após a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do “socialismo realmente existente”, da evocação da experiência carcerária vivida no leste europeu. A consciência histórica do caráter assassino do nazismo teria assim servido de parâmetro para medir a dimensão igualmente atroz do estalinismo, segundo Traverso “rejeitado em bloco (…) como um dos nossos rostos do século da barbárie”3

.

Todavia, quando penetramos nos relatos daqueles que conseguiram sobreviver aos dois grandes espaços carcerários de extermínio ou de trabalho, percebe-se que a caracterização do território concentracionário diverge entre eles num aspeto crucial. Nos grandes campos alemães, o detido era-o num tempo que antecedia o mais do que previsível termo da sua vida. E sabia-o de antemão, uma vez que pertencia a um grupo destinado a ser erradicado de forma sistemática, absoluta e implacável. Por isso, nos redutos do Holocausto a norma era a luta mais extrema do prisioneiro, permanentemente imerso no medo, no horror, na disciplina brutal, no constante tormento e na antevisão da morte certa, pela conquista de um estreitíssimo limiar de sobrevivência. Apenas mais uma noite, só mais uma hora, um minuto mais, um breve instante para poder olhar a luz do dia pela última vez. É esta crua realidade que em primeira mão evocam os relatos memorialistas de Primo Levi e de Élie Wiesel (1955)4

, ou aqueles citados por Gitta Sereny em Into That Darkness (1974)5

e por Claude Lanzmann no documentário fílmico Shoah, estreado em 1984. Em todos eles se enfatiza a ausência de quaisquer limites na mais brutal luta pela vida. Levi recorda de que modo, logo no segundo dia passado em Auschwitz, os homens do seu grupo se olhavam já como meros espetros: “não há espelhos para nos vermos mas o nosso aspeto está diante de nós, refletido em cem rostos lívidos, em cem fantoches miseráveis e sórdidos”6. Um

pequeno mundo, o único mundo possível, onde em pouco tempo o combate total pela sobrevivência transformará cada um no chacal do próximo.

Por sua vez, com as vítimas da chamada “Administração Geral dos Campos de Trabalho Corretivo”, projetada pelo poder bolchevique logo nos finais de 19187

mas brutalmente ampliada por Estaline, não eram necessariamente a origem étnica e a condição social a determinar a pena e o encarceramento. Detidos e deslocados pelos mais diversos motivos, os internados, aos milhões — os números revelados pelo governo da União Soviética logo após a morte de Estaline —, eram genericamente classificados como representantes do

2: Varlam Shalamov, Kolyma Tales (London: Penguin, 1994).

3: Enzo Traverso, O Passado, modos de usar. História, memória e política (Lisboa: Edições Unipop, 2012), 123. 4: Élie Wiesel, A Noite. (Lisboa: Texto Editores, 2006). A edição original é de 1955.

5: Gitta Sereny, Into That Darkness: An Examination of Conscience (New York: Vintage, 1983). 6: Primo Levi, Op. Cit., 22.

“inimigo de classe”, sobreviventes incómodos de um tempo a superar, obstáculos vivos, na maioria dos casos tomados como irrecuperáveis “sabotadores”, que apenas embaraçavam a caminhada triunfal do “homem novo”. A desumanização e a demonização do prisioneiro foram assim geralmente circunscritas ao seu lugar de alvo a ferir num combate visto como uma necessidade histórica. Nestas condições, o essencial do esforço carcerário era aplicado na erradicação dessas pessoas do convívio social normal, deslocando-as para regiões remotas e inóspitas, ou, num certo número de casos, na sua “reeducação” pela via da disciplina e do trabalho. Mas não na mecanização sistemática do extermínio, que surgia essencialmente como um “efeito colateral” das desumanas condições de vida e de trabalho. Esta comparação requer mais alguns detalhes.A partir da reflexão proposta em 1965 por Adorno, durante a palestra radiofónica “Educação após Auschwitz”, sobre o caráter exemplarmente simbólico daquele campo8

, António Sousa Ribeiro sublinha o facto de, na reflexão contemporânea, este se haver transformado naquilo que designa “a metáfora central para designar todo o complexo de experiências originadas em situações marcadas por formas extremas de violência”. Sendo verdade que, sob determinados aspetos, o Holocausto, cujo núcleo simbólico foi de facto Auschwitz, não constituiu um caso único no que ao desenvolvimento de sistemas de campos diz respeito, este passou a representar um acontecimento verdadeiramente singular traduzido no “exemplo consumado de violência absoluta”, uma vez que foi justificado pelos seus perpetradores de um modo que Ribeiro considera situado “para além de toda a racionalidade político-militar”9, enquanto

experiência-limite de barbárie e de incarnação do mal. A comparação entre os dois sistemas pode na verdade, sob esta perspetiva, parecer desequilibrada. Porém, já o mesmo não se passa quando cada uma das experiências concentracionárias é politicamente avaliada por aqueles que têm de algum modo procurado compreender a necessidade da sua existência. Em Memória do Mal, Tentação do Bem, Tzvetan Todorov fala-nos de “duas significações opostas” destes espaços e do peso que no trabalho de comparação tem sido reconhecido a um determinado padrão de simpatia por cada uma delas, por parte dos setores que tendem a desvalorizar a sua dimensão e o seu papel letal. Para os que tendem de algum modo a compreender ou a justificar os motivos dos nazis, a comparação entre os dois sistemas prisionais apresenta-se como uma “desculpa”, pois consideram que os campos alemães não teriam outra finalidade que não a de suster a ameaça comunista. Já para aqueles que viram ou continuam a ver na experiência da União Soviética um exemplo edificante ou pelo menos aceitável, a comparação surge como uma inadequada “acusação”10

. Na realidade, a partir de campos diferentes, uns e outros exprimem posições desculpabilizantes e de natureza negacionista, dando corpo à intervenção silenciadora daqueles a quem Pierre Vidal-Naquet chamou “os assassinos da memória”11.

Mais público e sujeito a escrutínio a partir do final dos anos 80, o negacionismo do Holocausto — os negacionistas preferem suavizá-lo chamando-lhe “revisionismo histórico” — tem sido objeto de frequentes e justas contestações associando o caráter a- histórico e impróprio da refutação de factos sistematicamente comprovados. As largas dezenas de museus consagrados aos campos erguidos pelos nazis, as centenas de filmes e de livros sobre o seu funcionamento, os inúmeros artigos e reportagens envolvendo a sua existência, transformam aliás o negacionismo num exercício de mentira e de má-fé12. As

8: Theodor W. Adorno, “Educação após Auschwitz”,palestra transmitida pela rádio em 18 de Abril de 1965, in Educação e

Emancipação (São Paulo: Paz & Terra, 2003), 119-138.

9: António Sousa Ribeiro, “Memória, identidade e representação: Os limites da teoria e da construção do testemunho”, in

Revista Crítica de Ciências Sociais, 88 (2010): 9-10.

10: Tzvetan Todorov, Memória do Mal, Tentação do Bem. Uma análise do Século XX. (Porto: ASA, 2002), 94. 11: Pierre Vidal-Naquet. Les Assassins de la Mémoire (Paris: Maspero, 1981).

12: Michael Shermer e Alex Grobman, Denying History. Who says the Holocaust never happened and why do they say it? (Berkeley: University of California Press, 2000).

críticas de Norman Finkelstein a propósito daquilo que chama a exploração do sofrimento dos judeus pela “indústria do Holocausto” tem questionado parcialmente o valor desta exposição pública e mediática13, mas a verdade é que esta tem contribuído para o

reconhecimento social e simbólico da voz das vítimas e para reduzir o impacto das teses que procuram negar a realidade ou a dimensão da Shoá.

Já os processos de investigação e de exposição pública dos mecanismos de coação e pena utilizados na rede de campos do Gulag permanecem limitados em diversos domínios. Apesar da ampla literatura testemunhal que lhe dá corpo14

, o trabalho historiográfico desenvolvido, que pareceu crescer durante a década de 1990 com a abertura de muitos dos arquivos anteriormente inacessíveis e uma maior facilidade da recolha oral15

, parece ter entretanto regredido, confinado que foi sobretudo a alguns historiadores ocidentais, hoje de novo com dificuldades de acesso à informação e com a falta de apoio das atuais autoridades russas a uma investigação sistemática neste domínio16. As formas de divulgação

e de debate público do tema têm também, após um tempo inicial no qual tiveram algum curso17

, sido reduzidas à iniciativa de pequenas organizações ou a publicações com escasso impacto público, sem a existência de um memorial reconhecido, de um museu qualificado ou de campanhas públicas de exposição e de redenção das vítimas. A ONG Memorial18

, criada em 1988 por Andrei Sakharov, tem feito um esforço notável e recebido numerosos prémios internacionais pelo seu trabalho, mas tem enfrentado numerosos obstáculos, que incluíram o assassinato, em 2009, de Natalia Estemirova, investigadora e dirigente da Memorial.

A complexidade dos processos utilizados na transmissão de testemunhos provindos de ambas as experiências concentracionárias leva-nos entretanto a observar alguns dos mecanismos impostos na observação e na rememoração de situações-limite como estas, operadas sempre em conflito com o espaço de violência institucionalizada no interior do qual as vivências que suportaram esses testemunhos foram sendo construídas. Refiro-os a partir da enunciação de quatro mecanismos que associo a quatro conceitos: silêncio, memória, testemunho e redenção.

Um primeiro mecanismo que pode ser incluído neste esforço comparativo está associado ao tema do silêncio, identificado com falta de tempo e de lugar — que os sobreviventes do Holocausto, mais cedo tiveram condições para ultrapassar — para expor de forma plena a voz da experiência concentracionária, para dizer o verdadeiramente indizível, uma vez que, nas palavras de Levi “os que viram a Górgone, não regressaram para falar disso, ou regressaram mudos”19. Robert Antelme, que logo em 1947 publicou L’Espèce Humaine, um

dos primeiros grandes testemunhos do universo dos lagern nazis, coloca-nos perante parte do problema: “Trazíamos connosco a nossa memória, a nossa memória vivíssima, e sentíamos um desejo frenético de a dizer tal qual. […] E, não obstante, desde os primeiros

13: Norman Finkelstein, A Indústria do Holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus (Lisboa: Antígona, 2001). 14: Rui Bebiano (2013), “‘O cativeiro constrói’ - A ideia de redenção na literatura do Gulag”, in Holodomor. A Desconhecida

Tragédia Ucraniana (1932-1933), org. de Béata Cieszyńska e José Eduardo Franco. Coimbra: Grácio Editor, 2013) 183-

190.Ver também Leona Toker, Return From the Archipelago. Narratives of Gulag Survivors (New York: Indiana University Press, 2000);Jehanne M Gheith e Katherine R. Jolluck Gulag Voices: Oral Histories of Soviet Incarceration and Exile (London: Palgrave, 2011); e Orlando Figes, Just Send Me a Word: A true story of Love and Survival in the Gulag (New York: Allen Lane, 2012).

15: Ver John Keep, “Recent Writing on Stalin’s Gulag: as overview”, in Crime, History and Societies, vol. 1, 2 (1997): 91-112 e também Elena Dundovich, Francesca Gori e Emanuela Guercetti, Gulag. Storia e memoria (Milano: Feltrinelli, 2004), onde são abundantemente referidas experiências de abordagem historiográfica do Gulag.

16: Ver Wilson Bell, “Gulag Historiography: An Introduction”, Gulag Studies, no. 2-3 (2010): 1-20. 17: Ver Svetlana Alexietvitch, La Fin de l’Homme Rouge (Paris: Actes Sud, 2013).

18: Página oficial em inglês em http://www.memo.ru/eng/index.htm. Ver também o Museu Virtual do Gulag em http://www.gulagmuseum.org/. De notar o artigo de Mary Dejevsky, “Why doesn’t Russia have a Yad Vashem for the Gulag?”, The Spectator (2014) (http://www.spectator.co.uk/features/9105732/russias-missing-memorial/).

dias, parecia-nos impossível de eliminar a distância que descobríamos entre a linguagem de que dispúnhamos e esta experiência que, na maior parte, estávamos ainda a prosseguir no nosso corpo. […] Mal começávamos a contar, sufocávamos.”20

Esta é a experiência-padrão: para além da já mencionada dificuldade em ser-se ouvido, outra, maior, que é a de ser-se capaz de falar. Em A World Apart, aquela que foi a primeira grande descrição impressa do Gulag, editada em 1951 em Londres, dez anos antes da polémica edição de Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Alexander Soljenitsine, o polaco Gustav Herling-Grudzinski coloca logo o seu potencial leitor perante uma experiência na qual será difícil de acreditar, que a maioria considerará, tal como ele próprio faria se não a tivesse vivido diretamente, do domínio da ficção. “Um mundo à parte” — a expressão foi buscá-la às Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoievski — pela qual ele próprio passou como por uma vida que não fora de facto a sua21. Falar dela torna-se, pois, um processo

complexo, que coloca o sobrevivente dos campos num estranho lugar, constrangido por duas forças: uma que traduz a dificuldade em reconhecer a sua própria voz, a sua própria experiência; e outra imposta por aqueles que a não viveram e que, por isso, são incapazes de reconhecer a sua dimensão mais extrema. O silêncio começa, pois, pelo próprio ex- prisioneiro, interiormente compelido a calar o que viveu e incapaz de reconhecer a possibilidade de o fazer de forma plena.

Um segundo mecanismo presente neste trabalho de revisitação remete para a observação e a representação da memória. É ainda Sousa Ribeiro que sublinha o facto de, neste processo, “as questões que permanecem e permanecerão em aberto, as perguntas para as quais não haverá talvez nunca resposta satisfatória (…) não são da ordem da averiguação dos factos nem da simples interpretação histórica, mas sim da ordem da memória e da pós-memória, isto é, da ordem de uma relação com o passado estruturada a partir do envolvimento presente dos sujeitos concretos”22

. Neste sentido, podemos falar, como o fez Todorov, da distinção entre uma memória literal, ou apenas de “memória”, como processo cognitivo e enumerativo, e uma memória exemplar, que se confunde com uma ideia de “justiça” histórica. Mas se a primeira pode ser observada na sua singularidade, e associada separadamente a cada testemunho, a segunda pressupõe uma generalização do particular, unindo cada caso a outros casos na tentativa de definir uma padrão geral de crime e de culpa que transcende o caso individual, diluindo-o de algum modo. É Benjamin que separa a “experiência transmitida” da “experiência vivida”, anotando, logo em 1940, o caráter individual, frágil, volátil e efémero desta, não suscetível, pois, de ser integralmente reproduzida23.

Nota entretanto Todorov que “este é o preço da justiça, e não é por acidente que a justiça não é administrada pelas vítimas”24, uma vez que cada uma tenderia sempre a considerar o

seu caso como único. Nestas condições, a memória é invocada e os testemunhos são recolhidos, mas para serem reconduzidos a um padrão, provocando em muitos dos ex- prisioneiros, a dolorosa sensação de viverem um segundo momento de perda da voz. A historiadora Annette Wiewiorka nota que vivemos “na era da testemunha”, na qual a recordação do passado é frequentemente prescrita como um dever cívico25, mas o ato

testemunhal transfere para o coletivo aquilo que, até ao momento no qual é exercido, era exclusiva propriedade do detentor da memória, omitindo inevitavelmente algumas das suas

20: Robert Antelme (2004). L’Espèce Humaine (Paris: Gallimard, 2004). Mencionado por António Sousa Ribeiro, Ob. Cit. 21: Gustav Herling-Grudzinski, A World Apart: Imprisonment in a Soviet Labor Camp During World War II (London: Penguin Books, 1996).

22: António Sousa Ribeiro, Op. Cit., 14.

23: Veja-se Walter Benjamin, “Experiência e indigência”, in O Anjo da História (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010), 73-78. 24: Tzvetan Todorov, Facing the Extreme. Moral Life in the Concentration Camps (London: Weidenfeld & Nicolson, 1997), 259. 25: Annette Wiewiorka, L’Ère du Témoin (Paris: Plon, 1998). Veja-se também Giorgio Agamben, Ce qui reste d’Auschwitz.

referências. Em 1988 escritor inglês Anton Gill chamara justamente a atenção, em The Journey Back From Hell, para a forma como a impossibilidade de transmitir todos os detalhes do passado força a própria testemunha, no seu esforço para ser entendida pelos outros, a omitir parte do que viveu26.

Esta situação conduz-nos ao terceiro mecanismo, associado ao papel do testemunho, bem como, de uma forma inseparável, à condição social do antigo prisioneiro. Boa parte da memória escrita dos sobreviventes dos campos, tivessem estes sido vocacionados principalmente para o trabalho ou para extermínio, impõe uma dimensão simbólica da irreversibilidade do passado: aqueles que os habitaram na condição de detidos, e sobreviveram para contar a sua experiência, jamais abandonaram de todo as rotinas e os condicionamentos impostos pelos longos anos de uma vida sem lugar algum para a transgressão ou para a esperança. A jornalista Nadine Vasseur compilou um notável conjunto de entrevistas feitas a filhos de ex-prisioneiros de Auschwitz e notou como, em todos eles, a exposição às marcas traumáticas vividas pelos seus pais passou pelo seu convívio com a repetição, ao longo de décadas, de pequenos hábitos e gestos adquiridos no campo27

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Os testemunhos dos que foram empurrados para os campos nazis insistem no confronto entre a dimensão do trauma e a impossibilidade de o exporem de uma forma completa. Conservaram sempre uma posição ambígua: como vítimas do horror e da violência mais