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1.3 R´eseaux de soin et coop´erations multi-sites

1.3.2 F´ed´eration d’Imagerie M´edicale

Patrícia Fernandes Universidade do Minho

Resumo

A partir de uma perspetiva filosófica, o nosso texto tem como objetivo destacar uma forma de violência simbólica: aquela que acontece através da linguagem. Para esse efeito, avançaremos, com Wilhelm von Humboldt, a hipótese de o nosso pensamento ser determinado pela linguagem que usamos — que adquire, nesse sentido, uma dimensão opressora; a partir daí, consideraremos a relação existente entre um determinado contexto ou regime político e a linguagem aí usada. Se essa relação pode ser estabelecida desde sempre, interessa-nos destacar, em particular, não só a forma como o pensamento neoliberal, desde a década de 70, se tem vindo a impor na linguagem de uso, condicionando violentamente o nosso pensamento, como também o modo como essa violência nos chega hoje sob a forma de discurso austeritário. Defenderemos que a resposta a essa Macht terá de assumir uma forma igualmente violenta [Gewalt] pelo uso da paroleindividual, escapando ao discurso dominante e criando um espaço de resistência para o indivíduo.

Abstract

From a philosophical point of view I argue that language can be seen as a source of violence. My framework is the study of language developed by Wilhelm von Humboldt, especially the dynamics between our native language and language as parole: the former can be seen as oppressive in relation to thought; and the latter can react to that oppression in a violent way. It is possible, I argue, to apply this scheme of thought to discourses of power, as the one provided by neoliberalism since the 1970s and the latest form of neoliberalism: the austerity policies. If its narrative intend to make people think in a certain way by using certain kind of words, expressions or phrases, then what way out do we have? I will advocate that we can react, violently, modifying the final vocabulary used by that narrative. We need to step out of the oppressive language to present an alternative to the political situation.

The purpose of Newspeak was not only to provide a medium of expression for the world-view and mental habits proper to the devotees of Ingsoc, but to make all other modes of thought impossible. It was intended that when Newspeak had been adopted once and for all and Oldspeak forgotten, a heretical thought — that is, a thought diverging from the principles of Ingsoc — should be literally unthinkable, at least so far as thought is dependent on words. Orwell, 1984

1.

Partindo de um ponto de vista filosófico, o nosso objetivo é o de trazer a este Colóquio Internacional sobre Violência Política no Século XX a hipótese que considera a linguagem como fonte de violência. Se esse não é um fator novo na história da humanidade, o século XX tornou mais evidente o modo como a linguagem, de forma opressora e violenta, foi usada pelos diferentes regimes políticos para se instalarem e legitimarem as suas ações. E isto por duas ordens de razão: por um lado, em virtude do movimento filosófico da linguistic turn,iniciado no século XIX, que permitiu percecionar a linguagem como fator determinante do nosso pensamento; por outro, em virtude dos desenvolvimentos tecnológicos que permitiram a ação e influência determinante dos meios de comunicação e sua utilização pelos diversos regimes políticos.

Tendo em vista aquela hipótese de trabalho, a nossa investigação parte do pensamento de Wilhelm von Humboldt (1767-1835), filósofo alemão que assumiu protagonismo político como estadista e máximo representante do liberalismo alemão,1

mas que se destacou sobretudo nos estudos empreendidos no domínio da linguagem. A partir desses escritos é possível identificar quatro definições ou essências da linguagem, cuja tradição no domínio da filosofia podemos estender até hoje:2 1) numa primeira definição, a linguagem é

apresentada como langage no sentido universal, enquanto língua una (hyperlangue) ou competência linguística universal do ser humano;3 2) uma segunda definição pode ser

encontrada nas línguas particulares, i.e., nas langues enquanto línguas maternas;4

3) a terceira prende-se com o seu uso, i.e., como parole;5

4) por último, podemos considerar que a linguagem é essencialmente diálogo.6

O foco da nossa atenção centra-se na dinâmica estabelecida entre duas destas dimensões: a língua materna e a parole. E o argumento central é o seguinte: a língua materna, na medida em que as suas estruturas ou formas internas determinam o pensamento, a fala individual e o agir dos seus falantes, exerce sobre nós uma força opressora, apresentando-se, por isso, como uma Macht que se impõe violentamente aos seus falantes; por seu turno, a parole, a língua falada, responde àquela opressão de forma igualmente violenta [Gewalt], quer contra a língua materna quer contra discursos públicos opressores. A parole violenta significará, assim, um ato de revolução e libertação face a uma força opressora.7

Note-se que Wilhelm von Humboldt integra, juntamente com Hamann e Herder, aquilo a que Charles Taylor chama a tradição H-H-H,8

responsável pela linguistic turn iniciada no século XIX. A crítica de Hamann a Kant, consubstanciando uma destranscendentalização da razão, assenta na afirmação de que “sem palavra, não há nem razão nem mundo.” Esta tradição caracteriza-se, pois, por destacar o papel constitutivo de sentido e significação da

1: Humboldt foi diplomata e representante prussiano e exerceu as funções equivalentes a Ministro da Educação entre 1809 e 1810, período no qual criou o sistema de educação pública da Prússia de acordo com as diretrizes básicas daquele que ainda é hoje o sistema educativo alemão. A sua obra de teor mais estritamente político é Versuch die Grenzen der

Wirksamkeit des Staates zu bestimmen (trad. port. de Fernando Couto: Os Limites da Ação do Estado. Porto: Rés Editora, 1990),

uma referência incontornável para o pensamento liberal.

2: Sigo aqui as investigações apresentadas por Bernhard Sylla, coorientador da minha tese de doutoramento, em diversos artigos, a maior parte deles ainda não publicados.

3: Em cuja tradição se encontra, por exemplo, Ernst Cassirer.

4: Aqui destacam-se, naturalmente, Edward Sapir e Benjamin Whorf, mas também Leo Weisgerber.

5: Nesta tradição podemos enquadrar Martin Heidegger (pós-Kehre), Richard Rorty, Hans Blumenberg, Nelson Goodman, Roland Barthes ou Umberto Eco, por exemplo.

6: Nesta dimensão assume particular importância o pensamento de Jürgen Habermas (apesar de podermos considerar aqui também Karl-Otto Apel e Hans-Georg Gadamer).

7: Este é o argumento central da tese de doutoramento que me encontro a redigir, intitulada “A Parole Violenta e a Política: Estudo sobre o Poder Revolucionário da Linguagem” (orientação de João Cardoso Rosas e coorientação de Bernhard Sylla).

8: Charles Taylor,“Theories of Meaning”, in Human Agency and Language. Philosophical Papers I (Cambridge: Cambridge University Press, 1985), 256.

linguagem. E é nesse sentido que Humboldt chama a atenção para o papel determinante da língua materna, não só ao nível da construção gramatical mas também no que respeita às próprias palavras que usamos para construir o mundo e a realidade. Há, portanto, neste aspeto evidenciado por Humboldt, uma dimensão opressora: “O homem vive com os objetos da maneira como a sua língua lhos apresenta”9 — em última análise, a língua

materna aparece como exercendo uma força totalizante sobre o indivíduo.

A nossa investigação defende que é no contexto desta tradição que autores como Martin Heidegger, Roland Barthes ou Richard Rorty enquadram o seu projeto filosófico. Como diz Barthes, “Não nos apercebemos do poder que existe na língua porque nos esquecemos que qualquer língua é uma classificação e que qualquer classificação é opressora.”E por isso, continua, “ela é pura e simplesmente fascista; porque o fascismo não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer.”10

Ora, estas observações sobre a língua como fonte de opressão e dominação assumem particular relevância quando transitamos da consideração teórica da força da linguagem para a utilização que os regimes políticos fazem dela. Parece-nos, neste sentido, que qualquer narrativa que nos apresente uma visão do mundo, está, pelo uso de determinadas palavras ou construções gramaticais, a fazer-nos falar de determinada maneira, o mesmo é dizer, a fazer-nos pensar de determinada maneira. Assim, cada regime político tece a sua narrativa por forma a legitimar as suas ações, o que se torna particularmente visível quando consideramos os dois grandes totalitarismos do século XX. No que ao regime bolchevique diz respeito, podemos, por exemplo, considerar a retórica que visou legitimar as ações violentas durante a guerra civil russa e os atos de limpeza que se lhe seguiram. Referindo-se a Lenine, Dominique Venner mostra de que modo, privando os seus adversários de humanidade, se torna mais fácil justificar a sua liquidação:

As suas instruções aos destacamentos da Tcheka encarregados de aplicar o “terror de massas” não escondem nada sobre os seus fins: “desembaraçar a terra russa dos insetos nocivos, das moscas parasitas, das baratas ricas…” Os adversários já não são homens, mas insetos, baratas, que é justo e normal destruir fisicamente. Não há limites para a crueldade contra esses “insetos nocivos”.11

Mais tarde, Estaline constrói, com muito sucesso, toda uma estória em torno da palavra “fascismo” — fazendo agrupar os regimes nazi e fascista-italiano e outras ditaduras sob a mesma designação, apesar de todas as diferenças históricas e políticas. O objetivo passaria pela binomização maniqueísta: se o fascismo é a representação do mal, aqueles que o combatem representam o bem e são moralmente superiores. A simplificação é uma arma retórica poderosa e pode até fazer esquecer os crimes cometidos por um dos regimes políticos mais violentos de toda a história e que em nada ficou atrás do regime nazi. Conceder às pessoas uma palavra que lhes permite exteriorizar os seus medos e articular os seus receios, é manter o poder sobre o que dizem e pensam.12

Contudo, parece-nos legítimo afirmar que foi o regime nazi a empreender a mais poderosa instrumentalização da linguagem no século XX, ao ponto de ainda hoje o vocabulário final da língua alemã compreender aquilo “que é permitido dizer” e “aquilo que não se pode

9: Wilhelm von Humboldt,GS. VI, 180.

10: Roland Barthes, Lição (Lisboa: Edições 70, 2007), 14.

11: Dominique Venner,O Século de 1914. Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX, (Porto: Civilização Editora, 2009), 150.

12: Note-se a este propósito, com Keith Gessen em comentário para a London Review of Books, que durante as manifestações na Ucrânia, iniciadas em novembro de 2013, os meios de comunicação social russos, presentes em todo o leste do país, se referiam aos manifestantes de Kiev como “fascistas”, caracterização obviamente simplificada da complexa situação que se vivia na capital. (cf. “Keith Gessen: two sides of the Ukraine crisis, from Odessa and Donetsk”; doi: https://www.youtube.com/watch?v=6j3-IZCpDKo).

dizer”. Um dos estudos mais interessantes efetuados neste domínio foi o realizado por Victor Klemperer que, em 1947, publicou as reflexões que havia redigido durante o regime nazi.13 Klemperer foi professor na Universidade de Dresden na área da Filologia e a sua

sensibilidade especial à linguagem, proporcionada pela formação de base, permitiu que se apercebesse, desde cedo, do uso e manipulação que o nacional-socialismo fazia da linguagem. Em LTI, Klemperer defende que a consolidação do nazismo passou pelo domínio da linguagem.

Não obstante a longa existência e a grande divulgação, a LTI permaneceu pobre e monótona. O termo “monótono” deve ser considerado literalmente. Conforme minhas possibilidades de leitura (…), estudei O Mito do Século XX, o Anuário de bolso do pequeno comerciante, uma revista jurídica, outra farmacêutica, romances e poesias, tudo que tivesse sido autorizado a ser publicado naqueles anos. Ouvia as conversas de varredores de rua ou de operários na fábrica, junto às máquinas; era sempre o mesmo chavão e o mesmo tom de voz, na linguagem escrita e falada, entre pessoas cultas ou incultas. A LTI imperava por toda parte, tão poderosa quanto pobre de espírito — poderosa justamente por ser pobre de espírito —, até mesmo entre os judeus, as maiores vítimas do nacional- socialismo, necessariamente seus inimigos mortais, em cartas, conversas e livros, enquanto ainda tinham autorização para publicar.14

É neste sentido que Klemperer afirma: “O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceites inconsciente e mecanicamente”.15

Tal como Humboldt, também Klemperer nota a íntima ligação entre pensamento e linguagem. Assim, a partir da formulação de Schiller de que “a língua culta, poetiza e pensa por ti”,16 Klemperer acrescenta:

Mas a língua não se contenta em poetizar e pensar por mim. Também conduz o meu sentimento, dirige a minha mente, de forma tão mais natural quanto mais eu me entregar a ela inconscientemente. O que acontece se a língua culta tiver sido constituída ou for portadora de elementos venenosos? Palavras podem ser como minúsculas doses de arsénico: são engolidas de maneira despercebida e parecem ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar.17

2.

Importa, contudo, notar que este tipo de considerações não é apenas válido para regimes totalitários. Podemos, antes, afirmar que o uso e manipulação da linguagem é uma característica de qualquer regime ou ideologia política, mesmo os que se apresentam como formalmente democráticos como o atual sistema capitalista liberal.E nesse sentido, importa-nos agora chamar a atenção para a atual situação sociopolítica, na medida em que também o discurso neoliberal, desde a década de 70 do século XX, tem vindo a penetrar nas nossas formas de pensar. Tony Judt, por exemplo, num dos seus últimos textos, chama a atenção para este aspeto da seguinte forma:

13: Klemperer, Victor. LTI. Notizbuch eines Philologen (Berlin: Aufbau-Verlag, 1947).

14: Victor Klemperer, LTI. A Linguagem do Terceiro Reich (Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2009), 61-2. 15: Klemperer, LTI, 55.

16: Os versos de Friedrich Schiller em alemão são como se segue: “Weil ein Vers dir gelingt in einer gebildeten Sprache, / Die für dich dichtet und denkt, glaubst du schon Dichter zu seyn?”

Nos últimos trinta anos, ao interrogarmo-nos se apoiamos uma política, uma proposta ou uma iniciativa, restringimo-nos a questões de lucros e perdas — questões económicas no sentido mais tacanho. Mas essa não é uma condição humana instintiva: é um gosto adquirido.18

Conclui, por isso, que “a nossa incapacidade é discursiva.” “Pensar [ou, acrescentaria eu, falar] ‘economisticamente’, como andamos a fazer há trinta anos, não é intrínseco ao ser humano. Houve uma altura em que organizávamos as nossas vidas de outra forma.”19

Este aspeto é ainda mais visível quando analisamos a mais recente política de austeridade como submodalidade do neoliberalismo. Esta apresenta-se-nos sob a forma de uma narrativa dotada de um caráter moral e construída a partir de chavões, que têm como objetivo delimitar e limitar os termos da discussão política sobre o bem comum. E na medida em que constrói, regula e controla “o conhecimento disponível sobre aquilo que nos rodeia, [delimita] os termos do debate público e [impede-nos] de pensar para lá dessas mesmas ideias.”20

Como notamos anteriormente, também a força desta narrativa assenta num caráter simplista, que apela à “natureza aparentemente óbvia das explicações que circulam no espaço público sobre a origem dos nossos males”,21

dificultando a possibilidade de interpretação e compreensão do que está a acontecer. Mas apresenta igualmente uma dimensão moralista, que se traduz no uso de uma “linguagem punitiva”, para usar as palavras de Pedro Adão e Silva, o que pode justificar a forma rápida e segura com que dominou o debate público.22

Essa linguagem austeritária passa assim pelo uso de expressões, como: —“andámos a viver acima das nossas possibilidades,”

—“temos de ser empreendedores”, ou

—“é preciso fazer sacrifícios para pagar a dívida.” E na substituição de palavras, como:

—“resgate”, “ajuda” ou “programa de ajustamento” em lugar de “empréstimo,” —“privilégios” em vez de “direitos universais”, ou

—chamar “despesismo” às mais importantes conquistas do Estado social.

Pacheco Pereira fala a este propósito em linguagem orwelliana, novilíngua ou doubletalk:23

fala-se de “requalificação ou mobilidade especial” quando se quer dizer “despedimento”, “poupanças” em vez de “cortes”, “reforma do Estado” em vez de “duro pacote de austeridade”. Estas ideias, repetidas incessantemente no espaço público não só pelos atores políticos, quer de nível nacional quer internacional, mas também, sobretudo numa primeira fase, pelos órgãos de comunicação social — que funcionam, usando a expressão de

18: Tony Judt,Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos(Coimbra: Edições 70, 2011), 47. 19: Judt, Tratado, 51.

20: Soeiro et al., coords.,Não acredite em tudo o que pensa: Mitos do senso comum na era da austeridade. (Lisboa: Tinta da China, 2013), 10.

21: Soeiro et al., Não acredite, 9.

22: Note-se que a política de austeridade resulta da transmutação da crise dos mercados imobiliário e bancário de 2008- 2009 em crise das dívidas soberanas. No momento em que o colapso de 2008 parecia pôr em evidência as lacunas e problemas do capitalismo neoliberal, eis que a culpa passa a ser atribuída às sociais-democracias construídas no pós- segunda guerra mundial. A narrativa que visava legitimar esta política de austeridade sedimentou-se rapidamente no discurso público e em 2011, em Portugal, já era predominante.

Pacheco Pereira, como trombetas do poder24 — cristalizaram-se e deixaram de ser postas

em causa.

Ora, o objetivo desta forma de violência simbólica, com a criação deste mapeamento cognitivo,25 tem como objetivo “fabricar o consentimento” dos cidadãos,26 conseguindo se

não o seu apoio, pelo menos a sua resignação. E é nesse sentido que a dimensão moralista é tão importante e funciona tão bem em países como o nosso, bastante propenso a aceitar e interiorizar palavras como sofrimento, expiação, culpa27

e sacrifício, na medida em que padecemos de uma moralidade específica que se traduz no uso de uma linguagem específica.28

Como diz a escritora Hélia Correia:

Por que usam a palavra “austeridade”? Porque há nela uma certa ressonância de coisa justa, de atitude respeitável. (…) A austeridade é um estádio a que se chega num percurso moral muito esforçado. (…) Classificar alguém de “austero” significa que lhe atribuímos qualidades pouco usuais no cidadão vulgar. Ouvimos a palavra e logo o nosso dicionário subconsciente nos assinala que é para respeitar, acatar e temer. Se há uma “austeridade” que castiga é porque andámos na dissipação. Pressupõe-se que nós baixemos a cabeça sob o pecado que a palavra implica.29

Em última instância, este uso manipulador da linguagem permite fundar as bases para a ideia de que não existe alternativa, não existe outro caminho, não existe outra solução. Uma ideia que tem vindo a ser introduzida no discurso de poder desde a década de 70 e que foi, sobretudo, popularizada por Margaret Thatcher: não existe alternativa ao liberalismo económico — pensamento reforçado pelo desmoronamento do regime comunista, e que se foi infiltrando desde essa altura no discurso de senso comum. Como submodalidade do neoliberalismo, também o discurso austeritário apresenta a ideia de que a política de austeridade se assume como a única via possível: este é o único caminho e por isso o governo está disposto a ir para além do Memorando de Entendimento, desempenhará o papel de bom aluno, porá tudo em causa, exceto o acordo com os seus credores.

Mas esta já tinha sido a lição de 1984:

Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento? Acabaremos por fazer com que o crimepensar seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir.

É por essa razão que em 2011 — o ano em que, como diz Žižek, sonhámos perigosamente30—, quando cidadãos de vários países saíram à rua para protestar e o

movimento dos Indignados espanhol lançou as bases do movimento Occupy, primeiro norte-americano e depois mundial, se perguntou: de que é que eles estão exatamente a

24: Cf. http://abrupto.blogspot.pt/search?q=trombetas+do+poder; último acesso: 05/07/2015.

25: A expressão “simples mapeamento cognitivo”, de Fredric Jameson, é usada por Žižek em The Year of Dreaming

Dangerously (2012).

26: Expressão de Noam Chomsky e Edward S. Herman na obra Manufacturing Consent, de 1988. 27: Não deixa de ser interessante notar que, em alemão, a palavra culpa e dívida é a mesma: Schuld.

28: Como diz Dominique Venner a respeito da consciência culposa dos europeus, “No Japão, os livros escolares em que as crianças formam o espírito não evocam os acontecimentos da guerra segundo ainterpretação dos vencedores mas segundo a da continuidade nacional. Porquê essa diferença da Europa? Por várias razões, sem dúvida. Uma delas é o caráter da religião nacional, o xintoísmo. Diferentemente do cristianismo, que tanto marcou a consciência dos europeus,