3.2 Validation numérique : prise en compte de la peinture
3.2.2 Estimation des sources de chaleur : application aux données simulées 85
A acrasia é um conceito que parece ter uma natureza intrinsecamente prática, isto é, a sua definição mais precisa provavelmente depende de observações que possamos fazer aos agentes reais. Quando falamos, por exemplo, da racionalidade, não no sentido estrito aqui empregado, parece que falamos de um conceito que tem uma natureza mais abstracta e que pode prescindir dos casos concretos – é como se o próprio conceito fosse uma régua para medir todos os casos concretos. No caso da acrasia, o que se procura é uma definição mais próxima possível de um fenómeno que parece ocorrer no agente real. Isto é, não é possível, como é no caso da racionalidade, produzir uma boa definição do fenómeno se não tentarmos encontrar a resposta no agente que declara ter vivido/experienciado a fraqueza da vontade. Parece-me pouco plausível dizer que uma pessoa experimentou a racionalidade, mas parece bastante defensável dizer que alguém experimentou a acrasia. A acção acrática, como já vimos, depende da percepção do agente, ou do observador, de que, de alguma forma, agiu contra o melhor juízo, tendo a possibilidade de realizá-lo.
A hipótese defendida neste trabalho é que a acrasia deve ser considerada um conceito moral e não um conceito ligado à racionalidade ou irracionalidade da acção. Como vimos nas primeiras partes deste capítulo, tratar da acrasia como um problema moral não é, em princípio, nenhuma novidade. A novidade parece estar
na forma de explicar a acção e especialmente a acção acrática, dada uma concepção funcionalista da racionalidade na acção. Além disto, a utilização de um experimento específico para testar a intuição de que a percepção das pessoas comuns de uma acção acrática parece depender do valor moral desta acção, é uma mais valia produzida pela inclusão da filosofia experimental no tratamento deste tema.
Comummente, em Português, dizemos com muito mais frequência coisas como: “S não tem força de vontade para fazer X”. Quando dizemos isso, estamos dizendo: “S não tem força de vontade para fazer X, mesmo sabendo que X é o melhor a fazer, mas, apesar disso, faz Y”. Podemos dizer, intuitivamente, que X dificilmente será algo moralmente negativo. Isto é, é difícil imaginar alguém a dizer: “S não tem força de vontade para consumir heroína”, ou “S não tem força de vontade para matar K”. Nos dois casos, no limite, poderíamos pensar em algo como: “S não tem coragem de injectar heroína”, ou “S não tem coragem de matar K”. No entanto, como já vimos, por exemplo, segundo uma concepção davidsoniana, não matar K pode ser caracterizado como “pouca” força de vontade, ou como fraqueza de vontade, caso o melhor juízo de S, todas as coisas consideradas, seja matar K.
Em Português é mais comum a utilização da expressão “força de vontade”, ao invés de “fraqueza da vontade”. No entanto, parece plausível admitir que a força de vontade é o inverso da fraqueza de vontade e, nesse sentido, podemos medir o mesmo fenómeno utilizando uma expressão mais coloquial/comum. Assim, de maneira vulgar, acrasia = fraqueza da vontade = pouca/fraca/falta de força de vontade.
Como vimos anteriormente, a acrasia tem sido definida como uma falha de racionalidade e não como um fenómeno moral. A acrasia seria “apenas” o agir contra o melhor juízo do próprio agente, todas as coisas consideradas, independentemente do conteúdo moral desse juízo e da acção realizada.
O experimento que foi realizado, procura mostrar como as pessoas definem ou percebem a fraqueza da vontade (acrasia). A hipótese teórica aqui defendida é de que as pessoas comuns associam a fraqueza da vontade a algum tipo de fraqueza moral, sem relacionar directamente a fraqueza da vontade com a não realização da acção que corresponde ao melhor juízo do agente, todas as coisas consideradas. Isto é, para considerar uma acção acrática, as pessoas comuns têm que perceber que o juízo do agente não é moralmente positivo (em qualquer sentido relevante para quem está em posição de determinar se uma acção foi, ou não acrática – seja o próprio agente, ou seja um observador) e que, portanto, a acção é moralmente negativa. O agente, nesse sentido, age contra um determinado juízo moral que ele próprio ou o observador considera como sendo o juízo que deveria levá-lo à acção. Assim, a acrasia parece ser um conceito ligado ao valor moral da acção e não à dissonância entre a decisão (melhor juízo TCC) e a acção, como defende a filosofia da acção de origem davidsoniana (ver item 3.1).
Portanto, o desafio desse experimento é mostrar que as pessoas comuns apenas imputam a qualificação de acrática à uma acção quando consideram que o valor moral desta é negativo, se comparado com aquilo que poderia o agente ter feito, considerando que o próprio agente teria declarado a sua decisão, no sentido moral positivo, antes da acção.
Isto é, o desafio é mostrar que as pessoas comuns consideram a acrasia apenas quando S diz que fará X (acção moralmente positiva) levando todos os aspectos em consideração e, no fim das contas, faz Y (acção moralmente negativa). Por outro lado, o maior desafio é mostrar que quando, segundo essa definição filosófica, S leva a cabo uma acção acrática na qual decidiu fazer Y (acção moralmente negativa) levando todos os aspectos em consideração e, no final das contas, faz X (acção moralmente positiva), as pessoas comuns não considerarão esta uma acção acrática – muito provavelmente vão achar que a acção se qualifica como sendo fruto da força de vontade de S.
Para tentar demonstrar a presença desse efeito moral no conceito popular de acrasia, o melhor desenho/estratégia de investigação mostrou-se ser a chamada “experiência simples” (simple experiment). Esse método foi também utilizado por Joshua Knobe em Side Effects (2003b).
O experimento simples é um dos caminhos mais fáceis e seguros, para se estabelecer as causas de um efeito. O efeito neste caso é aquele que pode ser definido como o efeito do valor moral sobre a percepção da acrasia (definida pela teoria davidsoninana - TD). Espera-se, portanto, definir que, dada uma teoria D, o conteúdo moral dos casos apresentados aos indivíduos provocará um determinado efeito sobre a percepção desses indivíduos acerca da acrasia (como é definida por TD). Por um lado, esse efeito será medido a partir de TD, mas, por outro, tentar-se- á avançar que a própria definição de acrasia (TD) está errada e que, portanto, o próprio efeito, que neste caso revela-nos o tal erro, poderá encaminhar-nos para uma melhor definição do fenómeno, desviando a caracterização da acrasia como um fenómeno de irracionalidade para uma caracterização como fenómeno moral.
Para realizar um experimento simples, é preciso ter dois grupos que não devem diferir em nenhum aspecto relevante e sistemático. Estes dois grupos serão tratados de maneira diferentes, isto é, receberão, neste experimento, casos diferentes para análise. Um dos grupos chama-se grupo de controlo e receberá um caso em que espera-se que os indivíduos respondam em concordância com TD. O outro grupo chama-se grupo experimental e receberá o caso em que espera-se que os indivíduos respondam em discordância com TD, pois o sentido moral deste caso é diferente do anterior.
É importante ressaltar que os dois casos não diferem em nada a partir da definição de acrasia pela TD. Apenas serão trocadas as posições dos factores nos casos entregues ao grupo de controlo e ao grupo experimental. Supostamente, não deveria haver diferença alguma entre as respostas dos dois grupos, mas tentaremos mostrar o tal efeito acima mencionado, que produzirá resultados diferentes no grupo experimental.
Em termos mais formais, para realizar-se um experimento simples é preciso, além de uma escolha aleatória de participantes, uma hipótese experimental, como, neste caso, a predição de que o conteúdo moral (valor negativo) dos casos apresentados aos indivíduos do grupo experimental provocará um efeito tal sobre nestes indivíduos que os resultados comparados entre os dois grupos serão diferentes e, provavelmente, inversos.
A hipótese nula deste experimento, que é a inversa da hipótese experimental, é neste caso aquela que prevê que não haverá diferenças entre o grupo de controlo e o grupo experimental, isto é, a hipótese nula prediz que o conteúdo moral não terá efeito algum sobre os resultados do experimento.