Do ponto de vista semântico, os nomes têm a função de nomeação de seres/entidades individuais ou não. Alguns denotam abstrações ou conceitos. Duarte e Oliveira (2003, p.210) referem que semanticamente os nomes “ são categorias linguísticas caracterizáveis (…) por terem um potencial de referência, isto é, por serem, em geral, utilizados numa situação concreta de comunicação, com uma função designatória ou de nomeação.” As autoras distinguem nomes comuns e nomes próprios relativamente à sua função referencial. Assim, semanticamente um nome comum não tem uma referência fixa. A construção da sua referência realiza-se através de processos de determinação (artigos definidos, modificadores, relativas restritivas, complementos restritivos ou, em certos casos, o contexto situacional) que se juntam à sua forma não marcada. Por sua vez, os nomes próprios designam um referente fixo e único, não podendo ter complementos ou modificadores restritivos. Quando antecedidos de determinação, são por vezes encarados como nomes comuns. Vemos que possuir referência é, assim, uma característica dos nomes próprios.
Os nomes podem ainda, semanticamente, selecionar argumentos, veja-se por exemplo o nome “destruição”, que tem como argumento “quem destruiu” e “o que foi destruído”. Um nome é em geral o núcleo do SN. O SN pode desempenhar diferentes funções temáticas: agente (entidade que realiza uma determinada situação), experienciador (entidade que é a sede de um dado estado físico ou psicológico), paciente (entidade que sofre algo), locativo (expressão de localização espacial), fonte ( entidade que é a origem de uma dada situação), alvo (entidade para a qual algo foi transferido) e tema (entidade que muda de lugar, posse ou estado), entre outras (veja-se Duarte & Brito, 2003, pp.188-190).
33
De acordo com Raposo e Miguel (2013, p.709), o nome tem um significado descritivo (intensional) que diz respeito às propriedades semânticas que constituem o conceito (ex. conceito “mesa” tem um tampo, pernas, um determinado tamanho) e um significado extensional, nomeadamente engloba o conjunto de entidades que satisfazem a intensão do nome (ex. mesa da sala de jantar, mesa da sala de estar).
De acordo com Baker (2002), os nomes, contrariamente aos verbos, têm “critério de identidade”:
“Semantic version: nouns and only nouns have criteria of identity, whereby they can serve as standards of sameness.” (traduzo: Versão semântica: os nomes e apenas os nomes têm critério de identidade, por onde podem servir como padrões de igualdade.) (Baker, 2002, p. 95)
O “critério de identidade” é explicado pelo autor a partir de uma fórmula presente em Geach (1962, citado por Baker, 2002, p. 95) e em Gupta (1980, citado por Baker, 2002, p. 95): “X is the same (whatever) as Y”. Assim, apenas os nomes têm critério de identidade e podem ocorrer nesta estrutura: “X é o mesmo _____ que Y”. Este espaço em branco só poderá ser ocupado por um nome. O critério da identidade estabelecerá padrões que nos permitem verificar se dois elementos podem ser vistos como sendo os mesmos ou não, independentemente de terem existência no mundo real.
(6) a) “That is the same man as you saw yesterday.” (Baker, 2002, p. 101) (Trad.
‘Este é o mesmo homem que tu viste ontem.’)
b) “That is the same water as was in the cup this morning.” (Baker, 2002, p. 101) (Trad. ‘Esta é a mesma água que estava no copo esta manhã.’)
Gupta (1980, p. 23, citado por Baker, 2002, p. 102) acrescenta que nomes diferentes poderão corresponder a diferentes critérios de identidade. O autor ilustra com o exemplo das palavras “pessoa” e “passageiro” que, embora possam corresponder à mesma pessoa, têm diferentes critérios de identidade.
(7) a) “Every passenger is a person.” (Baker, 2002, p. 101) (Trad. ‘Cada passageiro
é uma pessoa.’)
b) National Airlines served at least 2 million passengers in 1975. (Baker, 2002, p. 101) (Trad. ‘National Airlines serviu pelo menos 2 milhões de passageiros em 1975’)
34
Se a Maria viaja na Airlines em dois momentos diferentes (13 de setembro de 1975 e 22 de novembro de 1975), ela é a mesma pessoa, mas não o mesmo passageiro tendo em conta o enunciado em (7b).
Em síntese, semanticamente os nomes denotam entidades, abstratas ou concretas, e, como veremos adiante, podem também designar processos e estados.
Sintaticamente, os nomes são o núcleo de um sintagma nominal que pode ser argumental ou predicativo e podem ser acompanhados de complementos, determinantes (artigos definidos, artigos indefinidos, demonstrativos, possessivos), quantificadores, modificadores adjetivais, preposicionais e oracionais, o que significa que os nomes podem ser objeto de operações de complementação, determinação e modificação, que se repercutem sobre todo o SN (Brito, 2003a, p. 329).
(8) a) realização
b) a realização do filme
c) a realização do filme sobre Salazar
d) a realização do filme sobre Salazar em Lisboa e) a realização do filme que retrata a vida de Salazar
O conjunto formado pelo nome e pelos complementos constitui a parte lexical do SN, sendo os determinantes e quantificadores a estrutura funcional do SN. Sintaticamente, o nome pode ser sujeito ou complemento direto, entre outras funções e estabelecer relações de concordância com o verbo e outros elementos (Bosque, 1999, p. 6). Em Português Europeu o género e o número do nome determinam a concordância com determinantes, quantificadores e adjetivos no sintagma nominal; para a flexão verbal apenas conta o número e a pessoa.
De acordo com Baker (2002), os nomes comuns devem estar sempre relacionados com posições argumentais e devem receber papel temático:
“Syntactic version: X is a noun if and only if X is a lexical category and X bears a
referential index, expressed as an ordered pair if integers.” (Trad.: ‘Versão sintática:
X é um nome se e apenas se X é uma categoria lexical e tem índice referencial, expresso por um par ordenado por números integrais.’) (Baker, 2002, p. 95)
O autor define o nome a partir da relação que estabelece dentro do sintagma. Os nomes têm um dado valor referencial que pode ser estabelecido por um índice. Um nome e uma anáfora podem estar co-indexados por c-comando, mostrando, assim, a estreita relação entre os nomes e as anáforas. O segundo membro de um par de índices
35
referenciais pode ser uma anáfora, um pronome, um operador nulo ou certo tipo de traços. O índice referencial remete para o referente no mundo, podendo ou não estabelecer relações anafóricas. De igual modo, os nomes podem ser sujeito ou complemento direto da frase e apenas os SN podem receber papéis temáticos.
Assim, Baker (2002, p. 95) define um nome pelo seu comportamento dentro da estrutura sintática. O critério da identidade e o índice referencial determinam que os nomes sejam os únicos que podem ocorrer com determinantes, quantificadores, podem ser pluralizados, podem estabelecer relações anafóricas e podem aparecer em posições argumentais, recebendo papéis temáticos.
Nas línguas flexionais como o português, o nome flexiona em número e pode variar em grau. O nome, morfologicamente, é constituído por radical e constituinte temático designado como “índice temático”, formando o tema. De acordo com Villalva (2003, p. 923), existem vinte e três classes temáticas. A autora distingue nomes variáveis e nomes não variáveis. Todos os nomes variáveis referem uma entidade animada. Por sua vez, os nomes invariáveis podem referir entidades animadas e não animadas.