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CARRY ZERO

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As orações subordinadas causais infinitivas podem ser introduzidas pela preposição por72, mas também pelas locuções prepositivas: devido a, devido ao facto de, graças a, por causa de, pelo facto de, à força de ou através visto/ dado.

A preposição “por” é um complementador de base preposicional dado que não pode coocorrer com o complementador “que”, embora saibamos que por+que se reanalisou na língua portuguesa no complementador porque73 (10a). A oração infinitiva propriamente dita é pronominalizável através de isso (10c).

(10) a) Os pais colocaram os filhos de castigo, [porque chegaram tarde da festa]. b) *[Por que chegam tarde da festa], os pais colocaram os filhos de castigo. c) Os pais colocaram os filhos de castigo [por isso].

As orações subordinadas causais podem exprimir diferentes valores. Brito (2003d, p. 711) refere dois valores semânticos fundamentais: causa/consequência e razão /motivo, considerando que, semanticamente, mantêm algumas semelhanças com as orações condicionais e com as coordenadas conclusivas e explicativas. A autora acrescenta que as orações causais podem ser orações “de re” ou orações “de dicto”74. No primeiro caso, expõe-se a causa da situação descrita pela oração principal e no segundo caso descreve-se a razão, mas de acordo com o ato de enunciação. Lopes (2004:37) considera que do ponto de vista linguístico tanto a causa explicativa como a causa não explicativa podem ser de re como de dicto75.

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A preposição por não pode ser substituída por de para exprimir causalidade (veja-se (1) e (2). Contrariamente ao espanhol (3), em português a preposição de não pode isoladamente exprimir causalidade (2), surgindo apenas como parte de certas locuções já enunciadas anteriormente. Com efeito, em espanhol, é produtivo a ocorrência da preposição de para exprimir causalidade, aparecendo acompanhada de intensificadores como “tan/tanto” (4). A possibilidade de ocorrência da preposição de com quantificadores leva a que alguns autores considerem essas construções como uma variante das consecutivas. (Hernanz, 1999, p. 2312). A alternância entre construção finita e não finita só é possível em construções com quantificadores. Em português também é possível a construção com quantificadores, no entanto, algumas destas orações podem ser consideradas consecutivas infinitivas.

(1) Não posso conduzir por ter o pé partido. (2) *Não posso conduzir de ter o pé partido.

(3) De verlas en estampas, me eran familiares sus concepciones (Hernanz, 1999, p. 2312) (4) “Les salieron ampolas en los pies de tanto caminhar” (Hernanz, 1999, p. 2312) (5) Dói-lhe a cabeça de tanto que estudou / de tanto estudar.

Quer dizer, em português a preposição “de” não tem valor causal como em espanhol. 73 Ver Peres e Móia (1995).

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Para uma análise mais aprofundada das orações causais ver Lopes (2004), Lobo (2003, 2013).

75 A autora apresenta os seguintes exemplos: “A janela está estragada, pois a dobradiça partiu” (causa explicativa de re), “A janela está estragada, pois não a consigo abrir” (causa explicativa de dicto), “Foi idiota por não aceitar a proposta” (causa não explicativa de re), “Acho-o idiota por não aceitar a proposta” (causa não explicativa de dicto) (Lopes, 2004, pp. 37-38).

148 Relativamente à relação com a oração matriz, diferentes autores consideram dois tipos de orações subordinadas causais, as integradas e as periféricas. Assim, de acordo com Hernanz (1999, p. 2311):

(…) de los dos grandes tipos de subordinadas causales (…) sólo las denominadas ‘centrales’, integradas, o causales propiamente dichas, esto es, las que exponen los motivos de lo dicho en la principal (como No vio el semáforo

porque conducía borracho) disponen de una posible variante en infinitivo (No vio el semáforo por conducir borracho). Por el contrario, las ‘periféricas’ o

explicativas, es decir, las que aluden a las razones que llevan a enunciar lo dicho en la principal (como Conducía borracho, porque no vio el semáforo) no admiten una versión con verbo no flexionado (*Conducía borracho, por no ver

el semáforo).

Também em português há orações causais integradas (no sintagma verbal) ou periféricas (à direita ou à esquerda) (Lobo, 2001, 2003; Brito, 2003d, 2011; Silvano, 2010).

Analisaremos as orações causais infinitivas, através dos testes sintáticos já referidos anteriormente, nomeadamente a clivagem, a negação, a focalização e a resposta a interrogativas Q, elencados por Lobo (2003).

Os seguintes exemplos ilustram orações causais infinitivas integradas:

(11) a) Os empregados foram despedidos [por causa de terem feito greve ontem]. b) Foste promovido [por seres muito empenhado todos os dias].

c) Os empregados foram despedidos [por ter feito greve ontem].

O seu estatuto de orações integradas pode ser comprovado pelo comportamento relativamente aos testes apontados na literatura:

(12)a) Foi por causa de terem feito greve ontem que os empregados foram despedidos. (a clivagem afeta a oração causal)

b) Os empregados não foram despedidos por causa de terem feito greve ontem, mas por causa de a situação financeira ser difícil. (a negação inclui a oração causal)

c) Os empregados só foram despedidos por causa de terem feito greve ontem. (o operador de foco “só” abrange a oração causal, “foi só por eles terem feito greve ontem que foram despedidos”)

149 d) Por que razão foram os empregados despedidos? Por causa de terem feito greve ontem. (oração causal pode ocorrer como resposta a interrogativas Q) e) Os empregados foram despedidos por causa de terem feito greve ontem ou

por causa de não haver dinheiro? (duas orações causais infinitivas incluídas numa interrogativa alternativa)

Com estes testes, verifica-se que estas orações causais são integradas. De acordo com Lobo (2003, p. 192), as orações integradas à direita são adjuntas ao predicado e ocupam uma posição baixa, adjuntas a SV. Quando estas orações estão à esquerda assemelham-se a um tópico e aproximam-se das causais periféricas, sendo assim geradas em adjunção a uma posição mais alta da periferia esquerda. A estrutura sintática de uma oração causal integrada à direita pode ser descrita como na Figura 15:

(13)

Figura 15: Estrutura sintática de uma oração subordinadacausal integrada T foram despedidos Os empregados ST T SN SV SV

terem feito greve. por

ST COMP’ SCOMP

150 Atentemos agora nas orações subordinadas causais infinitivas periféricas à esquerda:

(14) a) [Visto ter tido muito trabalho], fiquei em casa76.

b) *Foi visto ter tido muito trabalho que fiquei em casa todo o dia. (clivagem) c) Visto ter tido muito trabalho, só fiquei em casa (o operador de foco “só” abrange apenas oração subordinante) / * Só visto ter tido muito trabalho, fiquei em casa. (agramatical com foco na oração infinitiva causal preposta).

d) *Não foi visto ter tido muito trabalho que fiquei em casa, mas visto sentir- me doente. (clivagem e negação)

e) Porque ficaste em casa todo o dia? * Visto ter tido muito trabalho. (resposta a interrogativas Q)

Como os exemplos comprovam, as orações causais não são facilmente objeto de focalização, de negação e de clivagem e não são facilmente resposta a uma interrogativa

Q, pelo que se confirma a sua natureza periférica, o que pode ser descrito através da

estrutura sintática seguinte:

(15)

76 Quando as orações causais com os conetores “visto” e “dado” estão em posição final, estas orações são sempre precedidas de uma pausa (Lobo, 2001, p. 299).

Figura 16: Estrutura sintática de uma oração causalperiférica à esquerda

fiquei em casa [pro]

Visto

ST

ter tido muito trabalho ST SCOMP COMP’ COMP ST T’ SN T SV

151 Do ponto de vista da forma infinitiva, as orações infinitivas podem admitir infinitivo não flexionado com sujeito implícito (11c) ou infinitivo flexionado simples com sujeito pronominal ou nulo (11b) ou composto (11a). O uso da forma composta de infinitivo denota anterioridade relativamente ao tempo da oração principal. Como refere Lobo (2003, p. 72), quando o verbo é estativo ocorre normalmente infinitivo simples e com verbos não estativos infinitivo composto. Com verbos estativos apenas pode ocorrer infinitivo composto quando a causa é já um estado terminado como em (16).

(16) Não venceu a prova, [por ter estado muito doente].

Quando os sujeitos são correferentes, a construção infinitiva é preferível e ocorre sujeito nulo na oração infinitiva (veja-se, por exemplo 16). No caso de sujeitos disjuntos, para evitar ambiguidade a oração infinitiva comporta um sujeito lexical (17a).

(17) a) Arruma a casa [por eu ter de estudar para o teste].

Para além disso, pode ocorrer em orações causais infinitivas sujeitos nulos expletivos, atente-se em (18) e (19), exemplos extraídos de Lobo (2003, p.73):

(18) “O Zé ficou em casa por estar muito frio.”

(19) “A sessão começou mais tarde por haver pouca gente na sala.”

Lobo (2003, p. 72) refere que o uso de infinitivo não flexionado nas orações causais levanta dúvidas nos juízos de gramaticalidade dos falantes:

(20) a) “%Os meninos ficaram de castigo por se ter portado mal.” b) “Os meninos ficaram de castigo por se terem portado mal.”

O que importa reter é que qualquer que seja o tipo/subtipo (factual ou hipotética) de oração causal, a causalidade pode ser expressa com construções infinitivas. Conforme a existência de sujeito específico ou genérico ou não, assim se usa infinitivo flexionado (simples ou composto) ou infinitivo não flexionado. Os sujeitos podem ser disjuntos e temos infinitivo flexionado e podem ser correferentes, podendo ter infinitivo flexionado com sujeito pronominal nulo e infinitivo não flexionado com sujeito implícito.

As construções com infinitivo composto, ilustradas atrás, deixam transparecer que o infinitivo possui marcas temporais, expressando anterioridade. Mesmo quando não é usada a forma composta, as orações causais infinitivas também expressam tempo na medida em que temos infinitivo flexionado e poderão ocorrer diversos tipos de advérbios de tempo.

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