Cunha e Silvano (2006), na sequência de trabalhos de Silvano (2002)42, procuram mostrar que o infinitivo simples em construções completivas apresenta marcas de temporalidade. Neste texto, analisam essencialmente verbos introdutores como dizer e afirmar que são considerados “neutros” no que diz respeito à marcação temporal e analisam a natureza aspectual dos verbos das orações completivas de modo a
42 Veja-se também Cunha e Silvano (2008). A proposta de Cunha e Silvano de 2008 vem no seguimento da anterior (2006), analisando-se exclusivamente a questão da temporalidade nas orações completivas com verbos como dizer e afirmar, considerando estes verbos “relativamente neutros em termos de localização temporal das situações” (Cunha & Silvano, 2008, p. 180). Os verbos neutros não representam qualquer obstáculo quanto à localização da frase subordinada, podem estabelecer com esta uma relação de anterioridade (construções com formas de infinitivo perfeito com verbo ter + particípio passado), uma relação de posterioridade (construções com ir + infinitivo) e uma relação de sobreposição (construções com infinitivo simples). De forma a argumentar a favor da temporalidade do infinitivo simples em orações completivas comparam-nas com o presente do indicativo. Dessa comparação, obtêm um conjunto de propriedades comuns às duas construções, provando, dessa forma, que essa partilha de propriedades só poderia resultar do facto de ambos apresentarem traços de temporalidade. Assim, o presente do indicativo e o infinitivo simples apresentam um traço de [– anterioridade] que corresponde, nos estados, a uma leitura de sobreposição e, nos eventos, a uma leitura de sobreposição ou de posterioridade (Cunha & Silvano, 2008, p. 190).
112 determinar se os verbos declarativos se combinam ou não indiferentemente com qualquer tipo de predicado na oração completiva.
Através de um conjunto de exemplos, os autores verificam que os verbos introdutores dizer e afirmar são compatíveis com a presença de estados na oração completiva, não apresentando nenhuma restrição. Por sua vez, a presença de eventos causa alguma anomalia semântica. Observemos, a título exemplificativo, três casos dados pelos autores:
(28) a) “Ao telefone com um intérprete, disse estar cheio de medo que o matassem. (estado de estádio)” (Cunha & Silvano, 2006, p. 304)
b) “# A Ana disse correr. (processo) ” (Cunha & Silvano, 2006, p. 304)
c) “A Ana disse estar a correr. (estado progressivo) ” (Cunha & Silvano, 2006, p. 304)
Através do teste do progressivo (28c), os autores verificam que, quando os eventos se transformam em estados, a frase já resulta gramatical, comprovando que a distinção entre estados e eventos é determinante com esta subclasse de verbos. Os estados mantêm uma relação de sobreposição com o ponto de perspetiva temporal enquanto os eventos estão incluídos no intervalo de tempo. Desta forma, como os eventos não têm uma interpretação temporal específica, podendo ter valores de anterioridade, posterioridade e sobreposição, e ao considerar-se que o infinitivo também não tem marcas temporais, isso levará a que exemplos de eventos no contexto dos verbos dizer e afirmar sejam agramaticais.
No entanto, os autores, através de um conjunto de exemplos, verificam a presença de eventos no contexto de verbos introdutores como dizer e afirmar e a frase resulta gramatical (29).
(29) “O terrorista afirmou transportar consigo uma bomba-relógio.” (Cunha & Silvano, 2006, p. 306)
Assim, tal situação só pode ser explicada defendendo a existência de temporalidade no infinitivo, no contexto de verbos introdutores neutros, veiculando neste caso uma leitura de sobreposição.
Para os autores, o infinitivo é uma forma defetiva em termos temporais na medida em que apenas localiza eventos em relação a um determinado ponto de perspetiva temporal, não estabelecendo qualquer ligação entre o tempo do ponto de perspetiva temporal e o tempo da enunciação. Assim, concluem que, com verbos introdutores neutros (dizer, afirmar), o infinitivo simples mantém uma relação de
113 sobreposição com o ponto de perspetiva temporal e o infinitivo perfeito mantém uma relação de anterioridade com o ponto de perspetiva temporal.
De seguida, analisam alguns casos em que as informações temporais do verbo introdutor se sobrepõem ao infinitivo, como é o caso dos verbos pensar, prometer,
lembrar ou recordar. Os verbos prometer, decidir, desejar, querer e esperar
determinam uma leitura de futuro nas orações completivas infinitivas. Os verbos pensar e jurar podem determinar uma leitura de sobreposição (30a) quando temos predicados estativos e podem determinar uma leitura de posterioridade quando temos predicados eventivos (30b). O verbo prever pode determinar uma leitura de sobreposição (30d) ou posterioridade (30e) dependendo dos predicados. Vejam-se os seguintes exemplos (Cunha & Silvano, pp. 309-311):
(30)a) “O advogado pensava estar de acordo com o seu cliente.” b) “Moscovo pensa proibir a saída dos especialistas nucleares.” c) “O arquiteto jurou cumprir o prazo de entrega do projecto.” d) “A Maria prevê estar grávida.”
e) “A Maria prevê estar grávida no próximo mês.”
No final do artigo, os autores voltam a sublinhar que o infinitivo simples pode ter informação temporal. Os verbos introdutores neutros (dizer e afirmar) determinam uma relação de sobreposição. Há, no entanto, outros verbos introdutores em que a leitura temporal se sobrepõe à do infinitivo e é preferida em relação a este (os verbos expostos no parágrafo anterior, veja-se exemplo 30). Concluem que o infinitivo é defetivo em termos temporais e, dependendo do verbo introdutor, a sua informação temporal pode estar ou não “visível ou activa” (Cunha & Silvano, 2006, p. 313). Assim, ao determinar o tempo nas orações completivas infinitivas é necessário ter em conta diferentes elementos: o tipo semântico do verbo introdutor, a natureza aspectual do predicado da oração infinitiva, o tipo de predicado e a presença de advérbios temporais.
Verificamos, assim, que semanticistas como Cunha e Silvano consideram que as orações infinitivas selecionadas por verbos declarativos comportam marcas de temporalidade. O infinitivo simples nestas construções pode veicular leituras de sobreposição e posterioridade, as suas marcas temporais estão ativas. Nas construções com verbos introdutores como “prometer”, “jurar”, “planear”, “desejar”, “querer”,
114 “pensar” e “lembrar-se”, a informação temporal do infinitivo está inativa, prevalecendo a marca temporal do verbo introdutor.43
Tendo apontado algumas referências bibliográficas que discutem a questão da temporalidade nas orações infinitivas em completivas, nos capítulos seguintes faremos uma análise sintática das construções de complementação verbal em português e usaremos algumas das noções apresentadas anteriormente.
4.3 Orações completivas infinitivas de infinitivo não flexionado
/impessoal em complementação verbal
4.3.1 Breve análise de acordo com o tipo de construção e a classe