DECLARE SHORT$VECTOR STRUCTURE (FIRST (3) BYTE, SECOND (3) BYTE)
CHAPTER 4 EXPRESSIONS AND ASSIGNMENTS
4.7 Assignment Statements
Como temos estado a ver, nem todos os nomes são simples, mas derivados. Existem dois grandes tipos de processos de formação de palavras: processos de adição (envolvendo afixação e composição) e processos de modificação (envolvendo processos de subtração, substituição e conversão) (Pena, 1999, p. 4331; Rio-Torto, 1994, 1998, 2004; Rio-Torto, Rodrigues, R. Pereira, I. Pereira & Ribeiro, 2013). Em português, a criação de um nome pode resultar de diferentes processos: a partir de um processo de conversão em que não há qualquer junção de afixo ou a partir de processos como a
derivação sufixal e a composição, entre outros. Podemos ainda formar nomes a partir de
processos não morfológicos como a sigla, o acrónimo, a truncação, a amálgama. Não desenvolveremos estes tipos de processos.
Por serem de especial interesse para esta dissertação referiremos agora os processos de conversão e de derivação.
Adotando a perspetiva de Villalva (2003, p. 953), na conversão enquadramos a “derivação imprópria”, na qual a conversão afeta toda a palavra e cria uma palavra que pertence a outra categoria sintática; e a derivação “regressiva”, sendo o radical da palavra afetado pela conversão ao qual se junta o índice temático. Na derivação sufixal, são os afixos que se juntam ao radical que atribuem as novas propriedades à palavra criada.
3.5.1 A conversão
À semelhança de outros gramáticos da língua portuguesa, Neves (2000) refere que várias são as categorias que podem ser usadas como substantivos através do processo de conversão: os adjetivos, os numerais, os verbos no infinitivo, os pronomes
43 conversão ou “derivação imprópria”, pois se verifica uma mudança de categoria da palavra, não havendo qualquer alteração formal. Como refere Vilela (1994, p. 61): “em princípio qualquer categoria pode ser transferida duma categoria para a outra: assim, qualquer expressão pode ser substantivada”.
Atente-se nos seguintes exemplos retirados do corpus do CETEMPúblico que ilustram a variedade de categorias que podem ser usadas como substantivo:
(19)a) par=ext246908-nd-93b-5: “Os velhos consomem horas sem valor. (adjetivo) b) par=ext641440-nd-95a-2: Faz parte das regras do jogo. E além do mais, foste tu que me deste o dois!” (numeral)
c) par=ext601606-soc-97b-2: “A visita ao relógio de sol, por exemplo, fica para outra visita, que dê para o entardecer e ver o nascer da lua”. (verbo no infinitivo, o infinitivo nominalizado propriamente dito)
d) par=ext1560440-clt-93b-2: “A tentativa do confronto com o eu, como caminho único para a criação artística” . (pronome pessoal)
e) par=ext211376-des-95a-2: “É um dos mistérios do râguebi o porquê da posição não ter, à semelhança de todas as outras, qualquer nome específico e ser mundialmente conhecida pelo número da camisola”. (advérbio interrogativo) f) par=ext1436594-soc-91a-2: “Este 25 de Abril passaria a ficar na história por mais uma grande razão”. (sintagma nominal, mais propriamente nome de data)
Como se disse acima, na conversão é também possível incluir a derivação
regressiva11. A derivação regressiva é um processo de formação de palavras pelo qual se
acrescentam marcas de flexão nominal a uma forma de base verbal. Por exemplo:
pescar /pesca; trocar/troco/troca; remar/remo; abater/abate, entre outros. Assim, a
partir do radical do verbo juntam-se as vogais –o, -a ou –e.
Rodrigues (2001, 2002, 2004a, 2004b) rejeita a classificação tradicional dos nomes deverbais não sufixados como sendo derivados regressivos, considera-os “nomes postverbais”. A autora apresenta os seguintes argumentos para a rejeição da hipótese regressiva nestas construções: a forma infinitiva não pode ser a forma base, visto que a autora considera que o –r é um morfema flexional e não derivacional e não há coincidência entre o índice temático do verbo e o marcador de classe do substantivo derivado. Assim, a forma base deve ser o radical do verbo, que, depois de sofrer um
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É precisamente Villalva (2003, p. 953) que designa este processo de derivação regressiva por “conversão”, considerando-o mais adequado, pois, contrariamente à derivação, neste processo a junção de afixo não é “uma componente nuclear”. No Dicionário Terminológico online, este processo é designado por “derivação não afixal”.
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processo de conversão para nome, recebe um marcador de classe (-a, -o,-e). A autora apresenta diferentes critérios para reconhecer que um determinado nome é um nome “postverbal”: critérios morfofonológicos, como a acentuação (é a última sílaba do radical a acentuada) e a presença de afixos verbais no substantivo e presença de afixos nominais no verbo (o nome não pode conter afixação deverbal nem o verbo pode conter afixação denominal); critérios sintático-semânticos como a estrutura argumental (o “postverbal” deve exercer função predicativa) e a significação do “postverbal” (o nome “postverbal” deve refletir que é uma ação do verbo).
Rodrigues (2013, p. 89-120) distingue a conversão lexical, tradicionalmente considerada conversão regressiva, (“abraçar-abraço”) das nominalizações sintáticas, tradicionalmente considerada um caso de derivação imprópria, (“o abrir da porta”). Considera, dessa forma, que a nominalização do infinitivo não resulta de um processo de conversão. Partindo dos critérios de Baker (2002), expostos anteriormente para os nomes, a autora descreve o comportamento das construções com nomes concretos, com nomes deverbais sufixais, com nomes deverbais conversos e com nominalizações sintáticas. Nomes concretos (ex. “lápis”) Nomes sufixais deverbais (ex. “apodrecimento”) Conversão de nomes deverbais (ex. “salto”) Nominalizações sintáticas (ex. “o saltar”) X é o mesmo _____que Y + - + - + - + Determinantes + + + + Quantificadores + + + - Pluralização + + + - Anáfora + + + -
Quadro 1: Diferentes nomes e nominalizações e a sua aceitabilidade tendo em conta o comportamento sintático dos nomes (adaptado de Rodrigues, 2013, p. 96)
Assim, a autora concluirá que a conversão não é um processo sintático e que os nomes conversos são verdadeiros nomes, pois apresentam as mesmas propriedades dos nomes apresentadas em Baker (2002). Dessa forma, os nomes conversos são resultado de um processo lexical que obedece a restrições estruturais que não explicadas pela sintaxe, o seu significado não depende da sintaxe e podem ser antecedidos de determinante “o” ou “a”.
A nominalização sintática (caso do infinitivo nominalizado) é mais produtiva do que a construção de nomes conversos, uma vez que nem todos os verbos têm o seu
45 correspondente nome converso. Esta construção não apresenta as restrições que existem nos nomes conversos, não tem uma multiplicidade de significados e apenas possibilita o determinante “o”.
Por fim, a autora considera que as construções de nominalização do infinitivo não são todas iguais e distingue quatro estruturas: as nominalizações lexicalizadas (“olhares, jantar, cantar”), a nominalização de um verbo (“o observar lento de aves”), a nominalização de uma oração (“O comprar livros faz-me bem”) e a nominalização metalinguística (“Aquele ‘não tenho tempo para ler’ é falso”).
Em suma, para Rodrigues (2013) a conversão é resultado de um processo lexical e a nominalização do infinitivo é um processo sintático, sendo na sintaxe que o infinitivo se realiza como nome.
3.5.2 A derivação
Os nomes podem ser primitivos quando não derivam de nenhuma palavra da língua e derivados quando derivam de uma palavra da língua. Os nomes derivados podem formar-se a partir de um outro nome, de um adjetivo ou de um verbo. A este processo designamos de “nominalização” (morfológica).
A nominalização é um processo morfológico em que uma raiz não nominal passa a nome. Este termo, como refere Picallo (1999, p. 365), “designa a los nombres derivados así como al proceso de su formación”. A nominalização pode ser deadjetival quando a base é um adjetivo (ex. decadentismo, magreza), denominal quando a base é nominal (ex. simbolismo, papelaria) e deverbal quando seleciona uma base verbal (ex.
determinismo, animação12) (Villalva, 2003, p. 944).
A criação de nomes deverbais pode ser realizada a partir de um processo de
derivação sufixal13. Na derivação sufixal podemos encontrar em português diferentes
sufixos: -ança, -ância, -ença, -ência, -ante, -ente, -inte, - (d)or, - (t)or, -(s)or, -ção, -
são, -douro, -tório, -(d)ura, -(t)ura, -(s)ura e –mento (Cf. Cunha & Cintra, 1984/2000,
p. 99; Rodrigues, 2006, 2013).
Não sendo o âmbito desta tese as nominalizações deverbais, mas sendo importante a distinção entre este processo e a nominalização sintática, veremos
12 Os exemplos foram retirados de Villalva (2003, p. 944).
13 Villalva (2003, p. 943) considera que em português a derivação é exclusivamente um processo de sufixação dado que os prefixos são poucos e a sua produtividade baixa.
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brevemente alguns aspetos sintáticos–semânticos das nominalizações deverbais. Na nominalização deverbal, verifica-se que os nomes derivados de verbos ou bases verbais selecionam em geral argumentos, em certa medida semelhantes aos da estrutura argumental do verbo do qual derivam. À primeira vista, parece possível dizer que os nomes que resultam de nominalizações têm o mesmo número de argumentos do verbo que derivam. No entanto, enquanto o complemento do verbo é obrigatório (veja-se agramaticalidade de 20d), o do nome deverbal é opcional (veja-se 20a e 20b), sendo sempre precedido de preposição:
(20) a) A construção ocorreu no reinado de D. João V.
b) A construção do palácio ocorreu no reinado de D. João V.
c) D. João V (agente) construiu um palácio (tema). d) * D. João V construiu.
Em geral, a interpretação de uma nominalização deverbal é semelhante à da base verbal de que deriva, mantendo a mesma leitura aspectual. No entanto, nem sempre essa situação se verifica e, por vezes, os nomes deverbais podem ter duas interpretações.
Assim, como referem Brito e Oliveira (1997)14 e Brito (2003a, p. 333), os nomes
deverbais podem ter uma leitura semelhante à do verbo (dinâmica ou não dinâmica, conforme o caso), mas também uma leitura de indivíduo ou entidade resultante. Este tipo de situação é sobretudo visível em verbos de “accomplishment”. Por exemplo:
(21)a) A construção destruiu muitos espaços verdes. (leitura de entidade)
b) A construção (daquele palácio) (por D. João V) ocorreu no ano de 1780.
(processo culminado)
c) A construção joanina daquele palácio ocorreu no ano de 1780. (processo
culminado)
Em 21a), o SN “a construção”, dadas as propriedades do predicado, denota a entidade resultante do evento. Em 21b) e 21c) o SN “construção” tem uma leitura eventiva, neste caso de processo culminado, dado que pode ser localizado temporalmente (no ano x). Nos nomes deverbais com leitura eventiva, o argumento “agente” é introduzido pela preposição “por” (“por D. João V”) e o argumento “tema”
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Esta distinção entre nominalizações deverbais com leitura de evento ou de resultado foi sobretudo desenvolvida por Grimshaw nos anos 90. Esta autora dividiu os nomes deverbais com leitura de evento em nomes de evento simples e nomes de evento complexos. Os nomes de evento simples não possuem estrutura argumental obrigatória, mas podem ter complementos ou modificadores e, deste modo, assemelham-se aos nomes de resultado. Os nomes de evento complexos possuem estrutura argumental obrigatória (Veja-se Vieira, 2009). Picallo (1999, p. 365) também divide as nominalizações em dois grandes grupos: as que têm como referente um evento ou um processo e as que denotam um objeto, um estado, uma propriedade ou um produto resultante de um processo ou acontecimento.
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pela preposição “de” (“daquele palácio”). Este argumento “agente” pode ser ainda realizado por um adjetivo relacional em posição pós-nominal (“joanina”, veja-se 21c).
No entanto, quando o argumento tema é expresso por possessivo, o argumento agente não pode ser expresso por adjetivo (22a), mas apenas pela preposição “por” (22b). Por sua vez, quando o argumento agente é expresso por possessivo, o tema pode ser na mesma realizado pela preposição “de”(22c). (Brito, 2003a, p. 335)
(22)a) *A sua construção joanina ocorreu no ano de 1780.
b) A sua construção por D. João V ocorreu no ano de 1780.
c) A sua construção daquele palácio ocorreu no ano de 1780.
Na perspetiva de Grimshaw (1990), quando um nome deverbal tem uma leitura eventiva tem estrutura argumental, quando tem uma leitura de resultado não tem estrutura argumental. Importa salientar que nomes com leitura de evento têm estrutura argumental mesmo que os argumentos não estejam sintaticamente realizados.