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As conjunções que introduzem as orações subordinadas adverbiais finais infinitivas são: para77, a fim de, com o intuito de, com a finalidade de, com o fim de 78, podendo o verbo estar no infinitivo impessoal ou pessoal. O uso de infinitivo impessoal com estas construções implica a correferencialidade dos sujeitos (21a); o uso de infinitivo flexionado está reservado a orações subordinadas finais com sujeito disjunto do sujeito da oração matriz (21b).

(21) a) Esforcei-me todo o ano nos estudos [a fim de poder ganhar a bolsa para Londres].

b) Saí de casa [para os meus pais não me chatearem].

Em muitos casos as preposições a e para podem ser substituídas uma pela outra. Atente-se nos seguintes exemplos:

(22) a) Eles saíram [para fazer compras]. b) Eles saíram [a fazer compras].

c) Eles saíram [a fazer compras para se distraírem do mau dia que tiveram].

Como o exemplo (22b) mostra, se na frase subordinante se usarem verbos de movimento, para além da preposição para, pode surgir também a preposição a; no entanto, elas têm significados diferentes. Enquanto para tem um valor nitidamente final (22a), a é uma preposição pedida pela regência do verbo (22b) (Berta, 1999, p. 124); além disso, a e para podem ocorrer numa mesma frase (22c). Portanto, “a” não é uma conjunção final.

77 Esta conjunção final também existe no espanhol, sendo que Hernanz (1999, p. 2314) relembra que nem sempre para indica finalidade, podendo também introduzir uma subordinada de valor consecutivo (1), concessivo (2) e condicional (3). À semelhança com orações consecutivas resulta de presença de intensificadores como em (1).

(1)“Es muy tarde para volver a empezar. / La casa es demasiado pequena para albergar a tanta gente. / Iba demasiado rápido para ver el semáforo” (Hernanz, 1999, p. 2316)

(2) “Sabe mucha gramática para ser médico. / Julia trabaja demasiado para estar embarazada”. (Hernanz, 1999, p. 2316)

(3) Para estar tú tan satisfecho, han debido trabajar bien.(Hernanz, 1999, p. 2316)

78 Berta (1999, p. 119) inclui ainda “para o fim de” e “com a mira de”, mas consideramos que tais formas não são atualmente produtivas em português. Não existe nenhuma ocorrência no corpus do CETEMPublico. Relativamente ainda às conjunções que introduzem as finais infinitivas, Lobo (2003, p. 76) considera “por causa de” (dialectal), “por via de” e “por mor de” (registos não standard).

153 Em (22a) e (22c) para, de acordo com Brito (2003d, p. 718), é uma preposição. Esta situação pode ser comprovada pelo facto de nas orações finais finitas a preposição

para coocorrer com o complementador que (23a) e, para além disso, a oração final pode

ser substituída pelo pronome “isso”(23b). Tal situação não se verifica quando “para” é usado como complementador (23c), como é confirmado pela agramaticalidade de (23d), em que toda a oração subordinada substantiva completiva é substituída por “isso”, incluindo o próprio complementador (ver 23d e 23e).

(23) a) Corri [para que ele não fosse apanhado pela polícia]. b)Corri [para isso].

c)Eu disse [para saíres]. d)*Eu disse [para isso]. e)Eu disse [isso].

Relativamente à dependência em relação à oração principal, as orações subordinadas adverbiais finais são integradas (a SV), como se comprova pelos seguintes testes:

(24) a) Foi para fazer compras que eles saíram. (clivagem)

b) Eles não saíram para fazer compras, mas para ir à farmácia. (negação, que abrange a oração subordinada final)

c) Eles só saíram para fazer compras. (operador de foco “só” abrange apenas a oração final)

d) Saíram para quê? Para fazer compras. (resposta a interrogativas Q)

Nestes testes, verificamos que as orações finais são focalizáveis (24a), que a negação da oração subordinante nega também o conteúdo da oração subordinada (24b), que o operador de foco “só” tem escopo sobre a oração final e que estas orações permitem interrogativas Q. Assim, as orações finais infinitivas são integradas, o que é descrito pela seguinte estrutura sintática simplificada:

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Do ponto de vista semântico, as orações subordinadas finais podem ser factuais, hipotéticas ou contrafactuais. Nas factuais (26) indica-se algo certo, real, na oração subordinante o tempo é tipicamente o pretérito perfeito. Estas orações subordinadas finais exprimem finalidade ou intenção (Brito, 2003d, p. 717; Hernanz, 1999, p. 2313; Berta, 1999, p. 115). Veja-se, por exemplo, paráfrase com o verbo querer em (26b).

(26)

a) Estudei

[para ter boa nota no teste]. b) Estudei [para querer ter boa nota no teste].

Nas hipotéticas (27), o tempo da principal é o futuro ou o presente com valor de futuro.

(27) Eles vão enviar o relatório [para conseguires fazer a encomenda].

Nas contrafactuais (28), o tempo é o mais-que-perfeito composto do indicativo ou o condicional composto (Brito, 2003d, p. 717).

Figura 17: Estrutura sintática das orações finais infinitivas

PRO fazer compras. para saíram Eles ST COMP’ SCOMP P P’ Sprep COMP Ø ST T’ SN T SV V

155 Vemos que na subordinação final emprega-se o conjuntivo (para que,…) ou o infinitivo (para, a fim de, …) consoante a conjunção. Temporalmente as duas proposições devem estar em concordância para se estabelecer uma relação semântica de propósito ou finalidade.

(28) Nós tínhamos / teríamos feito tudo [para te entregar o carro a tempo e horas] (mas não o fizemos).

Lobo (2003, 2013) e Silvano (2010, p. 86) consideram que, à semelhança das outras orações adverbiais, se possa distinguir entre orações finais de re (finais de evento) e orações finais de dicto (finais de enunciação). Silvano (2010) considera que, nestas últimas, a posição inicial da oração subordinada é a não marcada, sendo em alguns contextos obrigatória, não requerendo uma dependência temporal com a oração subordinante.

(29) Para que saibas, hoje fico em casa. (Silvano, 2010, p. 88)

Nas orações finais de evento, pressupõe-se que haja alguém que intencionalmente realizou algo para concretizar um determinado objetivo (Lobo, 2003, 2013).

(30) a) A Paula estudou para ter boas notas.

b) Os meninos estudaram para a mãe ficar contente.

Quando os sujeitos das duas orações são disjuntos temos infinitivo flexionado. Quando o sujeito da oração final é implícito, podemos ter infinitivo não flexionado.

As orações finais de enunciação não são orações integradas, mas orações periféricas, ocorrendo em posição inicial. Vejam-se os seguintes exemplos ilustrativos: (31) a) “*Para serem sinceros, aqueles alunos não vão passar no exame.” (Lobo, 2003,

p. 74)

b) “Para ser sincero, aqueles alunos não vão passar no exame.” (Lobo, 2003, p. 74) c) “Para que todos fiquem informados, o Zé disse que aquele aluno vai reprovar.”

(Lobo, 2003, p. 74)

d) “* O Zé disse que, para que todos fiquem informados, aquele aluno ia reprovar.” (Lobo, 2003, p. 74)

Lobo (2003, p. 74) considera que existem restrições quanto à ocorrência das construções finais de enunciação. Assim, a autora nota que, com estas construções, em certos predicados, só pode ocorrer o verbo flexionado na 1ª pessoa (31a/b) e, de igual modo, em certos contextos, é impossível tais orações ocorrerem em encaixadas (veja-se 31d).

156 À semelhança das orações subordinadas causais, as orações subordinadas finais exprimem dependência em relação à oração subordinante. No entanto, apresentam também diferenças: a construção finita final pode envolver conjuntivo, a causal envolve indicativo. Nas causais há possibilidade de ocorrência de uma forma composta de infinitivo (veja-se 16) enquanto nas finais tal não é possível, como se comprova pela agramaticalidade de (32a). De acordo com Lobo (2003, p. 77), o uso de infinitivo composto pode acontecer nas finais apenas quando o verbo da oração principal tem um verbo modal no futuro do pretérito e o evento final é interpretado como não realizado No exemplo dado (32b), a autora levanta dúvidas quanto à gramaticalidade.

(32) a) *Comprei um carro [para ter ido a Espanha].

b) “?A Ana teria de ter trabalhado mais para ter conseguido uma nota melhor.” (Lobo, 2003, p. 77)

Isto mostra que em termos de ordenação temporal entre a oração subordinante e a oração subordinada, se verifica o contrário das orações causais, na medida em que o tempo da subordinada é sempre posterior ao da oração subordinante. Daí não poder aparecer infinitivo composto, como ilustrado em (32).

Sintetizando, há orações subordinadas finais de infinitivo pessoal quando não há correferencialidade do sujeito e de infinitivo impessoal em contextos de correferencialidade de sujeitos. Nas construções finais infinitivas não é possível infinitivo composto, porque, em termos temporais, estas orações se distinguem das causais, veiculando valores de posterioridade relativamente ao tempo da oração subordinante.

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