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Emploi - Chômage

Dans le document Rapport annuel sur l’état de la France (Page 149-162)

Nas SD seguintes, funciona, reiteradas vezes, a imagem de uma Esquerda delirante. Em AE1, a seguir, o usuário-sujeito apresenta uma comparação entre alguns posicionamentos e como eles seriam interpretados pela Esquerda. Constrói-se um quadro comparativo. Na coluna

175 A nossa relação com alguns textos e ainda mais, parece-me, no Facebook é muito rápida, de modo que o fato

de ter sido uma analogia (infeliz ou não) e não uma convocação ao assassinato dos não-petistas sequer foi lida por muitos usuários, posso imaginar. O título da reportagem é muito direcionado para que não haja dúvida de que Lula produziu, sim, discurso de ódio, e essa direção ganha mais força quando se depara com nossas leituras na internet, no Facebook, tantas vezes rápidas e ávidas de compartilhamento.

da esquerda, composta por três linhas, aparecem dispostos os posicionamentos que são interpretados, “pela Esquerda”, na coluna da direita. Vejamos:

Figura 32 – SD: AE1

Na primeira linha da coluna da esquerda, vê-se a imagem do vereador de São Paulo, Fernando Holliday, afirmando ser contra as cotas raciais. Na linha paralela, na direita176, a imagem de Luciana Genro, discursando com o dedo indicador em riste, representando a Esquerda, mais que tão somente o PSOL, interpreta o enunciado de Holliday como sendo discurso de ódio, equacionando discurso de ódio a racismo. Na linha abaixo, na esquerda, Bolsonaro diz que é contra o Kit Gay. Na linha paralela, a mesma imagem de Luciana Genro, que, mais uma vez, interpreta o enunciado como discurso de ódio, equacionando discurso de ódio à homofobia. Até este ponto, o simulacro ainda não se mostra enquanto simulacro, o que só se realiza quando a quebra da pseudo expectativa é produzida. Até esse ponto, se apoia inclusive nas associações que realmente são feitas de um lugar na Esquerda, isto é, a leitura de que racismo e homofobia podem, sim, como atestam SD possíveis em meu Feed, equivaler a discurso de ódio.

Na terceira linha, na coluna da esquerda, reveladora do simulacro pela produção do estranhamento, a imagem de Marilena Chauí, numa menção ao que ela enunciou num palanque

176 A coluna da direita é um simulacro da Esquerda, mas não se apresenta como tal, o que se produz com

o recurso imagético de que seria a própria Luciana Genro, do PSOL, quem estaria dizendo por ela mesma.

em atos “anti-impeachment”, em apoio à então presidenta Dilma: “EU ODEEEEEEEEEEEEEIO A CLASSE MÉEEEEDIA”. A esse enunciado, a imagem de Luciana Genro com o símbolo do partido ao fundo, agora sorrindo, interpretando o enunciado de Chauí como sendo proferido por uma “Intelectual Progressista”. A falsa expectativa é que, na sequência, seria “coerente” que, também na última célula da direita, Luciana Genro “identificasse” o discurso de ódio.

A oposição, em AE1, se produz da seguinte maneira: os enunciados de Holliday e de Bolsonaro aparecem como opiniões, e não trazem marcas de desrespeito, não trazem elementos visuais ou linguísticos de ódio. São grafadas em caixa normal, sem alterações na grafia que fizessem menção a um estado de espírito alterado quando do seu pronunciamento. Diz-se “Sou contra as cotas raciais” e “Sou contra o kit-gay” como quem diz algo trivial, manso, inofensivo. É interessante observar que, na coluna da esquerda, quando se diz que se é contra as cotas ou contra o kit-gay, não se diz que se é contra os negros e contra os homossexuais, como se não houvesse coincidência entre o que se diz e o que se acredita não estar dizendo.

Pela forma como se dá a apresentação desses enunciados, a interpretação deles como “discurso de ódio” é que parece extremada, e o extremismo aparece tendendo para a Esquerda – “Não se pode nem mais ter opinião?! –. Em seu turno, na célula que apresenta o enunciado de Marilena Chauí, que utiliza o significante “odeio”, e cujo enunciado aparece grafado em caixa alta e com vogais geminadas, representando o tom áspero com que foi produzido, o ódio contra um grupo, no caso, a classe média, é explicitamente formulado. No contraste com as células da esquerda anteriores, não se odeia a uma “bandeira” ou demanda da classe média, mas a ela mesma. Mesmo assim, no simulacro, a interpretação da agora simpática Luciana Genro não é de classificar o enunciado como discurso de ódio, mas de elogiar Marilena Chauí, chamando-a de intelectual e de progressista. Onde se esperava coerência, revela-se o oposto.

O que se produz em AE1 tem a seguinte leitura: a Esquerda só vê o ódio na Direita, mesmo quando não há, nesta última, discurso virulento, mesmo quando não há discurso de ódio, mesmo quando há só uma opinião. É míope, se não cega, no entanto, para enxergar o ódio quando ele produzido por ela mesma (“A Esquerda não se enxerga”), mesmo quando ele é linguisticamente declarado, com todas as letras (inclusive as geminações). Em AE1, a alucinação, então, é que a Esquerda perceba discurso de ódio onde não há, e que seja cega ao ódio, mesmo se explícito quando ele é de orientação de Esquerda.

Em AE2, o usuário-sujeito responsável pela edição da página “Discursos de Ódio” também provoca estranhamento por meio de um simulacro, um enunciado que é produzido pela Esquerda, mas deslocado: “Vocês, da direita, têm discurso de ódio”. Vejamos:

Figura 33 – SD: AE2

A alucinação se constrói de mais de uma maneira. Produz-se a partir de enunciados que o usuário-sujeito apresenta antes da imagem, compartilhada da página “Conservadores- Sergipe”, nos quais diz que “A esquerda é puro amor”, e de que “Os 100 milhões de mortos do comunismo mandam lembrança”, construindo a incompatibilidade entre amar e matar, ainda mais em um número tão representativo. Nessa formulação, como em anteriores, o discurso de ódio “de raiz” se mostra também pela associação entre o comunismo, o regime reconhecido como de Esquerda por excelência, e as mortes que ele teria produzido.

Também imageticamente, em AE2, a alucinação da Esquerda se produz, quando o enunciado “Vocês, da direita, têm discurso de ódio” é representado como sendo proferido por dois cães raivosos. É engenhoso, parece-me, o simulacro criado, porque o enunciado não é estranho ao que se produz em meu Feed, por exemplo. Sim, entende-se, lá, que a Direita produz discurso de ódio. A alucinação se mostra não exatamente no que a Esquerda diria sobre a Direita, mas no deslocamento de quando ela diz. Na SD, a alucinação funciona porque, apesar de mostrarem os dentes em sinal de fúria, os cães de Esquerda apontam para o ódio como sendo natural de um outro lugar, a despeito da própria expressão com que vociferam o ódio como sendo do outro, incapazes que são de enxergarem a si mesmos.

O discurso de ódio como alucinação da Esquerda se apresenta também em AE3 pelo jogo do linguístico com o imagético. Vejamos:

Figura 34 – SD: AE3

Trata-se de uma postagem em que o usuário-sujeito republica uma postagem da página “Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra” em que um “cartaz” aparece dividido em alto e baixo. No alto, a imagem de uma manifestação popular onde se vê harmonia entre os manifestantes – alguns trazendo a bandeira do Brasil ou sua estampa na camisa – e a força policial que, de forma entrosada ou pacífica, cuidaria da segurança durante a manifestação. Essa parte do alto é identificada linguisticamente como “Direita”. Na parte de baixo, imagens também de uma manifestação, mas que se constrói em oposição à parte alta: são cenas de violência em que se vê indivíduos trajando vermelho atacando um homem que veste branco – o contraste cromático produz também o efeito de violência ilegítima –, e cenas em que ocorre um enfrentamento entre os manifestantes de vermelho e a força policial. Essa região baixa do cartaz está linguisticamente identificada como “Esquerda”.

Esse cartaz, em AE3, é antecedido pelo seguinte enunciado produzido pelo usuário- sujeito: “Podemos ver claramente a Direita Fascista praticando discurso de ódio, enquanto a Esquerda democrática está praticando atos de pura democracia”. A ironia se mostra pela incompatibilidade entre o que se diz no enunciado introdutório, e a interpretação para que apontam as cenas nas imagens. O enunciado introdutório aparece como um simulacro, como

sendo uma formulação possível na Esquerda, mas que contrasta com o que é a “verdade”, o que produz um efeito de alienação/alucinação da Esquerda, que não pode ver as coisas como elas realmente seriam – a realidade seria representada, na formulação, pelas imagens, apoiada na ilusão de que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Além disso, também funcionam os sentidos de alto e baixo, em seu funcionamento axiológico, sendo, nessa leitura, a elevação uma marca da Direita e o rebaixamento, da Esquerda.

O discurso de ódio como interpretação alucinada da Esquerda também funciona em AE4:

Figura 35 – SD: AE4

Vê-se, no “cartaz”, publicado pelo usuário-sujeito responsável pela edição da página, a imagem de uma representação familiar composta, parece, por três gerações: avós, pais, filhos. Todos brancos, sorridentes, sentados em um lugar que pode ser um parque. Trata-se de uma imagem de uma família heterossexual, branca e feliz. Não há nada de intimidador na imagem, exceto o fato de que ela exclui outros modelos possíveis de família. De toda forma, o que se representa é uma representação possível e que se reconhece como familiar. Na parte inferior do cartaz, lê-se o enunciado que é um simulacro do que seria uma interpretação da Esquerda: “Família fascista, homofóbica, reacionária, praticando discurso de ódio por se reproduzirem”.

A desqualificação das leituras feitas à Esquerda, também nesse caso, se dá pelo efeito de absurdo que se produz no contraste entre a realidade – mais uma vez, imagética – e aquilo que fantasia/alucina, a Esquerda. “É absurdo” que a Esquerda veja discurso de ódio numa imagem serena como a que o cartaz apresenta. “É absurdo” que a Esquerda veja discurso de ódio na simples reprodução da espécie. Pois bem, é o que se diz: a Esquerda vê discurso de

ódio onde não existe. É pelo absurdo que se ridiculariza a Esquerda e também o que ela chama de Discurso de ódio. Trata-se de produzir o ridículo e o risível para produzir um efeito de desqualificação do próprio gesto de interpretação da Esquerda em relação ao que ela diz ser discurso de ódio.

Nestes subtópicos, com gestos de interpretação estranhos para meu Feed de Notícias, mas, como pude mostrar, perfeitamente possíveis para outros, o discurso de ódio tem uma direcionalidade pela Esquerda. Isso quer dizer duas coisas diferentes. Primeiro, que está no primeiro subtópico, é que a Esquerda produz discurso de ódio. Pode-se ilustrar e denunciar a violência que a Esquerda promove. Destaco, todavia, que, mesmo nas denúncias, é recorrente um tom de “humor” que não acontece nas SD do meu Feed. As SD desse subtópico são caracterizadas, pelo uso abundante de ironia. Entendo que, além de denunciar, existe um esforço em separar, de um lado, o discurso de ódio, e, do outro, a Direita. Uma “estratégia” utilizada é que a denúncia do discurso de ódio produzido pela Esquerda seja acompanhada de um simulacro da Esquerda, que diria, sobre si mesma, que só produz amor, isto é, que não produz discurso de ódio. Trata-se de revelar que é mentira o que a Esquerda conta sobre a Direita, bem como é falsa a imagem que a Esquerda tem de si mesma.

A outra coisa que quer dizer esse ódio com uma direcionalidade pela Esquerda é que a Esquerda fantasiaria situações para denunciar o discurso de ódio onde ele não existe. É quando usuários-sujeitos ilustram “situações” em que não há discurso de ódio, mas simulam a Esquerda alucinando a existência do discurso de ódio, e mesmo a denúncia. Trata-se então de uma dupla estratégia, denunciar o ódio que a Esquerda produz, apesar de insistir na mentira de que ela só produz amor, e tornar risível, por isso sem credibilidade, a leitura que a Esquerda faz do que ela, fora de si, alucina como sendo discurso de ódio.

3.3 “UM DISCURSO DE ÓDIO PARA CHAMAR DE MEU”

Em todos as SD anteriores, tanto das postagens que chegaram (ou que poderiam sem “desconforto” chegar) ao meu Feed de Notícias, quanto as outras, impossíveis em meu Feed, a designação discurso de ódio (o que inclui as formas tagueadas) foi utilizada para classificar como discurso de ódio o discurso de um outro, diferente do usuário-sujeito que interpreta e categoriza aquelas ocorrências. Como todo o material foi produzido no Facebook, ou, pelo menos, deslocado de outros sites de redes sociais para o Facebook, o que estou dizendo é que há, no que está sendo analisado, “de um lado”, os usuários-sujeitos que interpretam o outro, e,

do outro, aqueles que são interpretados como (re)produtores de discurso de ódio. São diferentes, portanto, aqueles que interpretam os enunciados e demais práticas como discurso de ódio e aqueles que têm seus enunciados ou outras práticas “flagradas” como discurso de ódio. São duas posições distintas, associadas no jogo ideológico das formações imaginárias, e que entram em relação com o processo do discurso de ódio tal como discuto no capítulo seguinte.

Afirmo isso mesmo acabando de apresentar casos em que usuários-sujeitos “de Direita” formulavam sobre o ódio que seria da Direita. Nesses casos, como eu destaquei, a ironia reorientava o sentido, de modo que, mesmo quando se diz que o cartaz X mostrava o discurso de ódio da Direita, o sentido ia justamente na direção oposta, no absurdo e no ridículo da interpretação alucinada pela Esquerda, “totalmente esquizofrênica”. Então, ainda que se pudesse pensar no primeiro momento o contrário, em todos os casos, até agora, o discurso de ódio é produzido por “eles”, não por “nós”, variando quem são “eles” e quem somos “nós”. O discurso de ódio parece ser sempre discurso do outro, “deles”. Se “nós” somos envolvidos nesse processo, é porque “eles” nos envolveram; há, assim, uma narrativa vitimária (SÉMELIN, 2009).

Carnal (2017, p. 12) afirma que “todo ódio é um autoelogio. Todo ódio me traz para uma zona muito tranquila de conforto”. Essa zona tranquila que, a partir do jornalista Leonardo Sakamoto, chama de “lugar quentinho”, produz um “conforto psicológico” (CARNAL, 2017, p. 56), já que transfere para o outro tudo o que é ruim: “Você só pode ser petista por ser um ladrão. Você só pode ser do PSDB porque é de uma elite branca, insensível e fascista. Não há outra opção, tudo o que é ruim está no outro [...]. Como não sou ladrão, nem fascista, sou uma pessoa correta” (CARNAL, 2017, p. 66)

O discurso de ódio, nessa direção, seria sempre o discurso de um outro, sendo, a priori, impensável que alguém defina aquilo que enuncia como discurso de ódio. O que estou dizendo é que designar algo como discurso de ódio, pelas SD de que tratei até agora, parece ser uma operação de interpretação a uma certa “distância”, além de um trabalho de elaboração de uma certa imagem de si em relação a uma certa imagem do outro: de uma distância suficiente para que se diga que o discurso de ódio que existe não é seu, é que se pode classificar o outro como produtor de discurso de ódio.

Existem algumas ocorrências, porém, de casos em que os usuários-sujeitos do Facebook classificam a própria postagem como discurso de ódio, e que não foram classificadas por mim como irônicas. É importante pensar nesses casos, para poder compreender, ainda que parcialmente – porque se trata sempre da parcialidade possível a partir dos gestos que

constituem e leem o arquivo, e do corpus que constituí –, em que condições se chama de discurso de ódio aquilo que o próprio usuário-sujeito (re)produziu.

As ocorrências não são tão numerosas, o que pode apontar tanto, realmente, para a baixa frequência – no que acredito – quanto para “problemas” na busca por essas ocorrências, que diz respeito ao fato de elas não chegarem espontaneamente ao meu Feed de Notícias do Facebook e talvez terem escapado das minhas tentativas de busca.

Se as ocorrências forem realmente baixas, como sugere a exiguidade de meus dados sobre o “meu discurso de ódio”, isto é, o discurso de ódio que algum usuário-sujeito, assumidamente, produz e assim o designa/interpreta, pode ser possível afirmar que a forma mais regular de se relacionar com a designação discurso de ódio não é designando/interpretando o próprio “discurso” como discurso de ódio, e assim eu retorno à ideia de que designar discurso de ódio está, na maior parte dos casos, condicionado a uma certa distância daquele que designa/interpreta em relação aos sujeitos que (re)produzem o que se vai chamar de discurso de ódio.

Se as ocorrências existem em um número bem maior do que eu pude localizar, mas não chegam ao meu Feed, há que se pensar que os meus amigos orientados para Esquerda – por isso, meus amigos – talvez rejeitem essa classificação. Considerar o tipo de relação estabelecida entre os usuários-sujeitos que interpretaram o discurso de ódio na sua relação com a memória ferida de uma minoria – que é o “saber” dominante em meu Feed – , talvez justifique uma recusa mais acentuada em designar/interpretar como discurso de ódio qualquer coisa que se produza desse “próprio” lugar. Uma vez tendo considerado que é produtor de discurso de ódio o homofóbico, o racista, o machista, o intolerante político de Direita, penso que designar aquilo que se produz como discurso de ódio seria cair em uma das categorias de intolerância, o que não é tentador nem desejável para quem trata com seriedade a questão do discurso de ódio.

É desconfiando, então, de uma banalização da gravidade do discurso de ódio que vou verificar esses casos em que aquilo que se produz pelo usuário-sujeito é interpretado por ele mesmo como discurso de ódio. Me referirei às SD como MO, numa referência a “meu ódio”.

Vejamos, então, que, diferente do que ocorrem nas demais SD apresentadas antes, em M01, o próprio usuário-sujeito designa/interpreta o texto ou o efeito de sua postagem como sendo discurso de ódio.

Figura 36 – SD: MO1

MO1 é a postagem de um usuário-sujeito que está insatisfeito com os serviços de internet que contratou. Toda sua postagem é feita em caixa alta, e, no fim, se despede com “vai tomar no cu”, mas em forma de sigla: VTNC. Vejamos: “Essa Velox é uma bosta mesmo. Sério, se for pra colocar internet, compre um pacote de dados 3G da Claro que é melhor que essa merda aqui. Sério que nem um vídeo no youtube pode carregar. Nem sei como esse post vai ser postado com toda essa bagaça de 120 R$ por mês. VTNC”. Seguida da hashtag externa #DISCURSODEODIO.

Como eu já disse referindo-me a outras SD, a caixa alta aponta para um ânimo alterado daquele que posta. Além disso, há “palavrões” como “merda” e expressões lidas como de baixo calão, mesmo sob a forma abreviada. Esse tom alterado com que o usuário-sujeito redige sua postagem de queixa contra um serviço, o uso de palavra e expressão “grosseiras”, isso tudo é designado, de forma tagueada, como discurso de ódio.

Trata-se, em MO1, de ódio em relação a um serviço mal prestado, a uma empresa prestadora de serviço. Odeia-se a Velox e a “merda” de serviço que ela oferece. Não se trata de ofender diretamente alguém físico, de desejar sua morte, de modo que chamar de discurso de ódio a externalização de uma insatisfação desse tipo exige condições menos complexas para que o que se produz seja reconhecido pelo próprio produtor como discurso de ódio sem que ocorram respostas contrárias. Há, quero destacar, uma banalização (ampliação?) do que seria discurso de ódio: sentir ódio por empresas que deixam a desejar em relação aos serviços que oferecem.

Em MO1, outros usuários-sujeitos “amigos” se relacionaram à postagem por meio da reação “Haha”, o que indicia o tom risível da postagem, e, com isso, a sua suavização. Nenhuma reação “Grr”, que seria uma forma de mostrar repulsa, ou um “Triste” foi registrado quando fiz a coleta. Apenas o “Uau” parece apontar algo da ordem do inesperado, mas não necessariamente de reprovação177.

177 Só depois das coletas, ocorreu-me de analisar as postagens também observando às “reações” – Curtir,

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