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Les comparaisons internationales

Dans le document Rapport annuel sur l’état de la France (Page 101-106)

Uma tese defendida por Freud (1930), em “O mal-estar na civilização”, é que o sentimento de culpa ou simplesmente o mal-estar que experimentam os homens deve-se também ao fato de que, em sociedade, tiveram de abrir mão de um instinto agressivo. Essa afirmação parte do pressuposto de que, como argumenta o autor, “a inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e auto subsistente, [...sendo] o maior impedimento à civilização” (FREUD, [1930] 1996, p. 127-128), e também de que a satisfação de um impulso instintivo não domado gera muito mais felicidade que a satisfação de qualquer outro instinto já domado pelo ego. Isso quer dizer também que a não satisfação gera “infelicidade”.

A discussão de Freud aponta para um aspecto talvez muito incômodo, que é tomar o homem não em sua amabilidade a priori – que, no máximo, reagiria a uma violência anterior – , mas como “criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade” (FREUD, [1930] 1996, p. 117).

Numa perspectiva, que é a adotada por Freud, de que a comunidade – substituindo o indivíduo – é decisiva para a civilização, posso dizer que foi necessário que esse instinto agressivo fosse domado para que o homem pudesse existir enquanto ser civilizado. Mas como um instinto, destaca Freud, não pode ser domado impunemente, essa agressividade encontra alguma forma de se realizar. É nesse ponto que aproximo a discussão que Freud faz nessa obra, de uma outra, anterior, “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” ([1921] 1996), no que diz respeito ao funcionamento do indivíduo na massa.

Ao discutir o funcionamento do indivíduo na massa, Freud ([1921] 1996) confirma o que outros teóricos anteriores a ele já haviam discutido, isto é, que, na massa, ocorrem algumas alterações que levam o indivíduo a práticas que não seriam realizadas fora dessa massa. Então, o que se discute é que a massa produz algum tipo de poder sobre o indivíduo de modo que o indivíduo da massa não é exatamente o indivíduo fora da massa. O que posso afirmar, cotejando

92 Um tópico que tratasse de como a Psicanálise se ocupa de pensar o ódio e o discurso de ódio foi sugerido durante

a qualificação desta tese pela Profa. Dra Freda Indursky, então participante daquela banca avaliadora. Assim como nos demais tópicos, não há nenhuma pretensão de esgotar a discussão, mas apenas de refletir sobre algumas formulações produzidas no interior da Psicanálise, considerando que esta é uma área que interessa à AD desde seu aparecimento.

com o texto anterior, é que o indivíduo, na massa, pode reconciliar-se com o instinto agressivo do qual teve de abrir mão como condição de civilidade.

Le Bom, citado por Freud ([1921] 1996), afirma que, na massa, o indivíduo pode chegar a se livrar da repressão dos seus impulsos instintivos inconscientes93. E “pelo simples fato de fazer parte de um grupo organizado, um homem desce vários degraus na escada da civilização. Isolado, pode ser um indivíduo culto; numa multidão, é um bárbaro” (LE BON, 1855 apud FREUD, [1921] 1996, p. 83).

Conforme McDougall (1920), também citado por Freud ([1921] 1996, p. 91), “o resultado mais notável e também mais importante da formação de um grupo é a exaltação ou intensificação da emoção”; entregar-se tão irrestritamente às paixões é agradabilíssimo. Ocorre uma baixa da atividade intelectual, de modo que o indivíduo, perdendo a crítica, age pela emoção, isto é, “cordialmente”, como voltarei a dizer. Um grupo, assim concebido, desconhece a noção de limite; o que impressiona um indivíduo no grupo é justamente a sensação de poder ilimitado e de superação dos perigos94; “será mais seguro seguir o exemplo dos que o cercam, e talvez mesmo ‘caçar com a matilha’” (p. 91).

É particularmente interessante a citação seguinte, porque relaciona a discussão de 1921 da de 1930:

Evidentemente, não é fácil aos homens abandonarem a satisfação dessa inclinação para a agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis. A vantagem que um grupo cultural, comparativamente pequeno, oferece, concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos não é nada desprezível. É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem manifestações de agressividade (FREUD, [1930] 1996, p. 120).

Discutindo sobre essa adesão dos indivíduos aos grupos, Freud afirma que essa solda deve ser atribuída ao Eros, o que, dito de outra forma, significa que “os laços libidinais são o que caracteriza um grupo” (FREUD, [1921] 1996, p. 105). É assim que sua discussão sobre as

93 Conforme Le Bom, nas massas, o irreal tem primazia sobre o real. O que não é verdadeiro as influencia

tão fortemente quanto o que é verdadeiro. As massas tendem a não fazer distinção entre os dois. Embora não vá desenvolver essa discussão aqui, não quero deixar de destacar a relação com as “fake news”, e como nossa relação com esse tipo de material talvez aponte para como temos funcionado como sujeitos de massa no espaço virtual.

94 Esse efeito do grupo sobre os indivíduos me faz lembrar um dos efeitos que são experimentados por usuários-

sujeitos no Facebook. Não é sem motivo que Queiroga, Barone e Costa (2016), em “Uma reflexão sobre a formação das massas nas redes sociais e a busca por um novo ideal do eu", vão associar ataques racistas ocorridos em sites de redes sociais justamente com a formação da massa e o seu comportamento virulento, a partir das discussões que Freud resenha e formula. No texto “O homem mediano assume o poder”, publicado em El País, Eliane Brum afirma que os sites de redes sociais “permitiram ‘desrecalcar’ os recalcados”. O aspecto que destaco aqui é que, no Facebook, indivíduos (ou usuários-sujeitos, como preferencialmente eu chamo) organizam-se em grupo para disparar violência contra um “objeto” em comum. Esse alvo comum faz com que sejam toleradas as diferenças internas, buscando a satisfação justamente na violência contra o objeto eleito para receber a descarga agressiva.

massas se aproxima do conceito de identificação, segundo ele, “a forma mais primitiva e original do laço emocional” (p. 110). A identificação do indivíduo com o grupo se baseia em uma qualidade emocional importante em comum; quanto mais significativa essa qualidade, mais bem sucedida é a identificação. Na massa, pode funcionar a identificação com um líder, mas também a identificação entre os membros do grupo, ou mesmo a identificação a um ideal que é o que solda todos esses indivíduos diferentes em um mesmo grupo, fazendo com que a diferença entre eles não seja disparadora de agressividade contra si mesmos. Tolera-se “por amor” a agressividade que não chega a ser disparada contra os “pares”, o que cria a “sede” de que outros alvos se “ofereçam” à satisfação dessa agressividade então contida.

Tanto o instinto para a agressividade quanto o liame com essa predisposição autorizado pelo pertencimento à massa parecem-me que podem ser pensados como maneiras de entender o ódio e também o discurso de ódio, inclusive o que se realiza no Facebook.

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