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Numa primeira visão de conjunto dos 23 países europeus analisados, verificamos existirem normas etárias, tanto ideais como prescritivas, bem definidas, pelo menos em termos médios. À primeira vista, a hipótese da prevalência da estandardização normativa das idades parece adquirir al- guma relevância (quadro 3.1). Com efeito, as transições da juventude (desde a primeira relação sexual ao casamento e ao nascimento do pri- meiro filho) surgem associadas a marcadores etários claramente delinea- dos e cujo desenho segue uma progressão linear. Primeiro, entre os 16 e os 18 anos é lícito ter a primeira relação sexual, normalmente antes da saída da escola para o mercado de trabalho, transição que é considerada aceitável a partir dos 18 anos, em média. Depois, seguem-se, ordenada- mente, a entrada informal na vida em casal, o casamento e o nascimento do primeiro filho. Consideradas aceitáveis entre os 18 anos e meio e os 20 anos, estas transições são consideradas ideais caso ocorram entre os 22 e os 26 anos, em média. A saída de casa dos pais deverá efectuar-se, no limite, antes dos 30 anos. Genericamente, as normas etárias seguem, como vemos, um padrão mais próximo de uma visão linear e sequencial dos percursos do que se esperaria face à hipótese proposta por alguns au- tores (Settersten e Hagestad 1996; Lawrence 1996) que situam no plano normativo a desestandardização do curso de vida conjugal e familiar. As eventuais encruzilhadas dos tempos da vida real, que têm vindo a assi- nalar tendências de deslinearização biográfica (Pais 2001), não parecem assim incompatibilizar-se com formas lineares de pensar normativamente o tempo e a idade, como propõe Kohli.

Comparando Portugal com o conjunto dos países europeus, em ter- mos de médias etárias, encontramos, não obstante a diversidade de idades ideais e prescritivas assinaladas, um padrão semelhante no que respeita à

linearidade sequencial dos acontecimentos. Contudo, em Portugal tende- -se a idealizar as transições da juventude um pouco mais cedo do que a média, assim antecipando a entrada numa vida adulta marcada pela con- jugalidade e pela parentalidade. A excepção reside na entrada numa re- lação de coabitação conjugal, que é tida como ideal se iniciada mais tarde, já depois dos 23 anos.

A tendência para a estandardização normativa das idades da vida, que os dados nos mostram, é corroborada quando, em vez das médias etárias, passamos a analisar as categorias modais, ou seja, aquelas onde encon- tramos maior concentração de respostas dos homens e mulheres inqui- ridos (quadro 3.1). Nesta óptica, analisando as respostas modais relativa- mente a cada um dos indicadores, notamos uma tendência para que estas se aglomerem em torno de marcadores etários específicos, que traduzem, em boa medida, as normatividades jurídicas de regulação da idade, como, por exemplo, a idade do consentimento sexual (entre os 15 e 16 anos na maioria dos países europeus) ou da maioridade legal (18 anos). No con- junto europeu, os 16 anos estabelecem a fronteira modal para sair da es- cola ou ter a primeira relação sexual. Os 18 anos constituem igualmente o marco a partir do qual viver em casal ou mesmo ter um filho passa de comportamento transgressor a aceitável. Depois surgem os 20 anos como idade ideal da entrada na conjugalidade, os 25 reúnem quase um terço das respostas quando se trata de estimar a idade ideal para ter um filho.

Quadro 3.1 – Normas etárias na Europa e em Portugal

(médias, modas, percentagens)

Idades médias Idades modais Não há idade ideal (%) Total ESS Portugal Total ESS Portugal Total ESS Portugal H M H M H M H M H M H M

Idades mínimas

Deixar a escola 18,0 18,0 16,9 16,9 16 16 15 18 7,8 8,0 11,1 11,1

Ter relações sexuais 16,2 *** 16,5 15,7 *** 16,1 16 16 15 15 0,1 0,1 0,0 0,0

Coabitar 18,6 *** 18,8 18,0 *** 18,6 18 18 18 18 2,1 1,5 2,7 1,4 Casar 19,7 *** 19,9 18,6 ** 18,9 18 18 18 18 1,6 1,6 2,4 1,8 Ter um filho 20,0 20,0 18,7 ** 19,1 18 20 18 18 1,0 0,9 1,5 0,9 Idades ideais Coabitar/viver juntos 22,0 *** 22,6 23,2 *** 23,8 20 20 25 25 12,6 13,5 17,2 20,4 Casar 24,5 *** 24,9 24,0 24,2 25 25 25 25 11,5 12,5 16,2 19,9

Ter o primeiro filho 25,7 *** 26,1 25,1 * 25,5 25 25 25 25 8,2 8,8 10,9 11,4

Idades máximas

Viver em casa dos pais 27,6 *** 28 31,3 31,3 30 30 30 30 20,2 19,3 41,7 39,6

Em Portugal notamos semelhante concentração de respostas em meia dúzia de marcadores etários modais. Os 16, 18, 20, 25 e 30 anos constituem as barreiras etárias mais importantes, assim indiciando uma considerável estandardização dos momentos aceitáveis ou ideais de viragem no curso de vida. Enquanto idade máxima aceitável para viver em casa dos pais, os 30 anos marcam a fronteira da dependência residencial, normativamente mais tardia em Portugal do que no conjunto dos países europeus.

No módulo «Tempos da vida», ao indagar-se das idades mínimas, ideais e máximas para realizar determinadas transições, contemplava-se ainda uma categoria de resposta indefinida («não há idade para fazer X»), que poderia indiciar uma atitude mais favorável à despadronização ou deses- tandardização das idades da vida. No entanto, a análise da distribuição desta resposta (quadro 3.1) mostra-nos serem poucos, comparativamente, os europeus que dizem não haver idades ideais para casar ou ter filhos, e ainda menos os que não apontam idades mínimas, ou máximas, aceitáveis para levar a cabo esta ou aquela transição no curso de vida. A hipótese de uma forte despadronização normativa das idades da vida não encontra, pelo menos à primeira vista, eco entre os resultados analisados, sobretudo quando se trata de estabelecer uma fronteira etária entre o que é norma- tivamente aceitável e o que é considerado uma transgressão.

A experiência sexual e o percurso conjugal e parental constituem marcas de transição fortemente balizadas do ponto de vista etário. No conjunto dos países, ter relações sexuais antes dos 16 anos, viver com um parceiro antes dos 18 ou ter um filho antes dos 20 anos constituem eventos nor- mativamente transgressores face ao padrão aceitável do ciclo de vida. As idades mínimas, além de mais estandardizadas, são mais convergentes entre países do que as ideais. A transição para a coabitação conjugal é colocada, no seu limite etário aceitável mais baixo, de acordo com a idade da maio- ridade legal. Portanto, as normas prescritivas acolhem menos elementos de diferenciação relevantes para a comparação internacional, em termos médios. O facto de as fronteiras do aceitável nas transições iniciais da ju- ventude serem mais marcadas do que as idades ideais evidencia tendências importantes a operar nas sociedades ocidentais contemporâneas. A maior «desregulação» e liberdade de construção do percurso de vida, consentâneas com o desenvolvimento da individualização social, são acompanhadas por uma estreita regulação de comportamentos na transição da infância/ado- lescência para a juventude/idade adulta, enquanto efeito do aumento da protecção das crianças e dos adolescentes.

Por outro lado, a entrada na vida a dois (seja coabitar ou casar) é mais vezes associada à ausência de uma idade ideal: no conjunto dos países

analisados são mais de 10% os inquiridos que referem não haver uma idade ideal e em Portugal são quase um quinto os que assumem uma postura «desestandardizada» em relação às temporalidades da vida con- jugal. A saída de casa dos pais é, contudo, o evento que surge mais des- vinculado de uma norma etária explícita. Em Portugal estes números du- plicam, pois cerca de 40% dos inquiridos não assinalam qualquer idade a partir da qual seria pouco aceitável continuar em casa dos pais. Ora, este resultado avisa-nos, muito provavelmente, mais sobre o «familia- lismo» ainda existente nas relações entre pais e filhos do que propria- mente sobre a emergência de tendências de despadronização etária.

No que respeita ao género, em traços gerais, as idades apontadas por homens e mulheres tendem a ser semelhantes. O curso de vida conjugal e familiar ideal converge em direcção a marcadores etários de transição idênticos, ainda que as mulheres tendam a auto-representar o percurso ideal feminino através de marcadores etários um pouco mais tardios em todos os países. As mulheres auto-representam o seu percurso de vida ideal e normativamente aceitável apontando sempre idades mais elevadas do que os homens. Muito provavelmente, como demonstraram algumas pesquisas, esta representação de um ciclo conjugal e familiar mais tardio pode advir das mudanças que têm recentemente vindo a alterar indele- velmente as biografias femininas (a entrada massiva no mundo profis- sional, o acesso à contracepção, etc.), hoje tendencialmente mais diver- sificadas e desestandardizadas do que as dos homens (Widmer et al. 2003; Krüger e Baldus 1999).

Padrões de curso de vida: temporalidades