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Consideramos que as concepções de ensino-aprendizagem estruturadas em processos de jogos e improvisação contrapõem-se a modelos fixos, rígidos, onde textos e/ou peças teatrais são apresentados aos alunos para que memorizem seus respectivos papéis, sendo que o objetivo é o espetáculo. Deste modo, a relação com a cena adquiriu um novo estatuto, a partir do momento em que a hierarquia do texto foi refutada, alterando as relações do ator com a cena teatral e instaurando uma revalorização do seu oficio.

Confirmando tais mudanças, os princípios da Pedagogia Teatral ultrapassam essa questão, entendendo que o texto teatral em aprendizagens contemporâneas, seja dramático ou não-dramático, é fundamentalmente conduzido pelo jogo, sem preocupar-se, portanto, com a linearidade de uma história, ou mesmo com a composição de personagens.

A distribuição de papéis, seguida pela memorização dos atores e, consequentemente, a marcação do diretor, torna-se anacrônica. Inicialmente o trabalho com o texto não visa a um resultado, ou seja, a um produto onde se tem um texto pronto a ser executado pelos atores ou uma encenação que coloca todos os participantes a serviço da representação de um texto. O fazer teatral sublinha o compartilhamento da criação respeitando, principalmente, o seu caráter processual. Nesse sentido, o fazer teatral desloca-se para procedimentos improvisacionais, significando que a ênfase recai na experiência polissêmica, na interposição de diferentes vozes no processo de criação.

É importante ressaltar que mesmo na oportunidade de apresentar um trabalho, principalmente no âmbito da educação básica, o resultado não pode se sobrepor ao processo. Importa, sim, considerar os sujeitos da experiência artística, valorizando suas vontades, motivações, desejos. O processo é vivo e se faz por meio da participação de todos os integrantes do grupo. Essa concepção que coloca o produto à frente do processo gera uma ordem de equívocos, como, por exemplo, alunos reproduzindo mecanicamente o texto (SPOLIN, 1982). Assim, é fundamental trabalhar com procedimentos metodológicos que possibilitem a apropriação de textos dramáticos ou não-dramáticos, bem como fragmentos de textos, garantindo a apropriação por intermédio de jogos. Em se tratando do trabalho com

textos, as concepções de aprendizagens na contemporaneidade ultrapassam a composição literária na busca da produção de sentidos.

Destacamos os diversos procedimentos de apropriação de texto diretamente relacionados ao “estar em jogo”, no sentido de dar organicidade aos jogadores, evitando formas mecânicas na apropriação da palavra.

As observações de Ryngaert, ao reportar-se às práticas teatrais tradicionais com textos previamente fixados, desconsideram o envolvimento dos jogadores e a realidade imediata que garantiriam o sentido do texto. Assim, o momento presente, o aqui-agora, é uma qualidade indispensável a todos os participantes do jogo, construindo o referente a partir da experiência do jogo.

Enquanto a representação tradicional privilegia a construção do referente e não considera, senão parcialmente, a situação real cujas resistências eventuais devem ceder diante da força do que foi previsto e ensaiado, as práticas de improvisação absorvem como esponja a realidade imediata e constroem um referente a partir da experiência instantânea dos jogadores e de sua percepção da situação (RYNGAERT, 2009, p.199).

Sob tal perspectiva, a exploração da matéria textual no âmbito do trabalho com atores e não-atores deve estar assegurada pelo aqui-agora do jogo e pela capacidade e envolvimento dos jogadores para algo que lhes faça sentido.

Ao nos referirmos, portanto, à dramaturgia contemporânea, condescendemos com concepções que valorizam a pluralidade dos signos teatrais (sons, palavras, imagens, gestos, luz, espaço). A tessitura cênica contemporânea privilegia a articulação de tais elementos por intermédio do jogo. E a relevância de formulações práticas de apreensão de textos em termos lúdicos, isto é, diretamente realizados na área de jogo, torna-se uma das prerrogativas nas aprendizagens teatrais no âmbito da escola básica.

Ressaltamos, ainda, que os procedimentos com textos e/ou fragmentos de textos dão importância ao sentido que faz o próprio texto, para os jogadores. Além disso, a rede temática tem em vista a materialidade do próprio texto a ser jogado (RYNGAERT, 2009).

Pupo traz, no escopo de sua tese Palavras em jogo: textos literários e teatro-educação (1997), as relações entre texto e jogo pelo viés da exploração da materialidade textual, priorizando os aspectos lúdicos na apreensão o texto. A autora enfatiza que essa tendência em procedimentos teatrais contemporâneos atribui a apropriação textual no campo da ludicidade e, por conseguinte, das sensorialidades.

Essa exploração de caráter sensorial abre novas perspectivas com relação ao sentido; os estudantes começam a ter consciência da diversidade de significados possíveis contida num fragmento. Essa aprendizagem se dá mediante a exploração do modo de enunciação, dos diferentes destinatários da enunciação, assim como da aliança com diferentes ações cênicas. Da qualidade da exploração sensorial vai depender, em grande parte, a riqueza das soluções encontradas para o amálgama de fragmentos (PUPO, 1997, p.111).

A preocupação demasiada com o sentido do texto paralisa os jogadores em suas inventividades. É preciso que haja liberdade dos jogadores ao emitirem as palavras do texto e, sob tal aspecto, Ryngaert indica as possibilidades de apropriação em procedimentos de recorte e colagem, imprimindo diferentes sentidos na matéria textual. Os jogadores podem partir do texto em suas primeiras tentativas, abolindo o respeito excessivo, para que surjam outras relações.

Uma vez adquiridos os hábitos de liberdade, todos os textos podem ser abordados […] Na medida em que ele [o texto] dado ao grupo, este faz dele o que quiser, adopta (sic) as formas de abordagem que lhe agradam ou lhe interessam, mesmo que não tenha nenhuma ligação (RYNGAERT, 1981, p.103).

As aprendizagens contemporâneas se efetivam ao nível do jogo. Ao invés de uma formação tradicional que privilegia o texto, centrada principalmente nas palavras, as aprendizagens são tratadas a partir do jogo, de forma “mais corporal, mais lúdica, fundada sobre as ações cênicas, corresponde a uma visão mais atual de teatro” (FÉRAL, 2009, p.259).

Considerando o elemento lúdico nas apropriações do texto-palavra, inferimos que, do mesmo modo, o performance text resulta das relações com o jogo, ou seja, das relações estabelecidas entre a diversidade de materialidades cênicas (tais como espaço, texto – quando existe –, corpo e voz), configurando-se em uma das principais especificidades do ensino de teatro contemporâneo.

Existem múltiplos textos, alguns são escritos; outros dançados; outros são apenas gestos; outros, lugares; alguns textos são processos de crescimento, de florescimentos e decadência. Texto é uma palavra relacionada com outra, têxtil, ou fiar, fabricar tecido de diferentes fios. Esse é o significado de texto que eu trago comigo. Múltiplos fios são tramados e destramados em diferentes tecidos de ação e significado. Ensinar é um texto-tecer. (SCHECHNER, 2010, p.30).

O texto performativo demonstra, sobremaneira, a liberdade dos jogadores em suas relações com os elementos do fenômeno teatral, para além da logicidade e univocidade do teatro dramático. É, portanto, um campo fértil no âmbito do ensino de teatro, constituído a partir da ludicidade e na exploração dos diferentes tecidos permitindo que o aluno possa dar “interpretações vivas dos materiais, isto é, interpretações que se aproximam mais da arte da performance que propriamente de um texto escolar”. (Ibid., p.31)

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. Experimentos teatrais realizados com alunos do ensino

médio da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da

Universidade de São Paulo

Neste capítulo, apresentamos uma breve contextualização acerca da Escola de Aplicação, evidenciando os anos 1990, em decorrência das mudanças sobre o ensino de arte (LDB - Lei de Diretrizes e Bases - 9.394/96) que o tornaram obrigatório nas escolas de educação básica. Além da obrigatoriedade do ensino de arte, mudanças ocorridas na Escola de Aplicação foram consolidadas pelo esforço empreendido pelas professoras da área na criação dos ateliês (um projeto pioneiro). Discorreremos sobre a concepção do ensino de teatro no Ensino Médio, evidenciando as metodologias regidas pelo jogo, tanto nas aulas curriculares como nos projetos de contraturno. Após uma concisa elucidação sobre o ensino de arte na Escola de Aplicação, discorremos sobre os nossos experimentos teatrais subsidiados pelos estudos realizados nos Capítulos 1 e 2.