Lacan, em Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise, vem assegurar a evidência de um fato que não pode ser negligenciado: “[...] quer se pretenda agente de cura, de formação ou de sondagem, a psicanálise dispõe de apenas um meio: a fala do paciente”. Lembra ainda que “[...] toda fala pede uma resposta” (LACAN, 1998 [1953], p. 248). Assim, mostrando que não há fala sem resposta, Lacan recupera o lugar do ouvinte como exigência da função da fala.
Sabemos que a hipótese do inconsciente, lugar psíquico onde se passa o sonho, denominado por Freud de a Outra Cena, a partir de Fechner, é fruto do encontro de Freud com as histéricas. É a contingência desse encontro inaugural entre um, que escuta, e outro, que fala, que se inscreve algo de inédito no cenário da ciência da época.
Assim, podemos dizer que o ponto de partida freudiano são os ensinamentos das histéricas, que, a exemplo de Anna O., indicam que o tratamento se dá pela palavra, procedimento denominado, por ela, de talking cure, a cura pela palavra. Apostando nessa indicação, quase sussurrada aos seus ouvidos, Freud, com muita perspicácia, conclui que se o sintoma fala e a cura se dá pela palavra, é porque a histérica detém um saber por ela mesma desconhecido, o qual, até então, era negligenciado.
As histéricas freudianas são convidadas a dizer o que sabem, mas, sobretudo, o que não sabem, para daí produzirem um saber sobre suas manifestações corporais. Freud é, então, convocado ao lugar de escuta. É fundado, assim, o dispositivo analítico, o qual tem, na palavra, o meio fundamental de sua ação. A fala é buscada não na fluência dos enunciados, mas em seus tropeços, lapsos, chistes, atos falhos, esquecimentos, enfim, nas lacunas das manifestações conscientes, ou, como dirá Lacan, nas formações do inconsciente. Essas produzem uma descontinuidade no discurso, e encontram uma lógica que lhe é própria a partir do exercício da regra fundamental da análise, denominada, por Freud, de “associação livre”. É com a aplicação dessa técnica, e munido, certamente, de um desejo ardente, que Freud encontra algo diante do qual fica siderado. Nas palavras de Lacan:
Tropeço, desfalecimento, rachadura. Numa frase pronunciada, escrita, alguma coisa se estatela. Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles que vai procurar o inconsciente. Ali, alguma outra coisa quer se realizar – algo que aparece como intencional, certamente, mas de uma estranha temporalidade. O que se produz nessa hiância, no sentido pleno do termo produzir-se, se apresenta como um achado. É assim, de começo, que a exploração freudiana encontra o que se passa no inconsciente (LACAN, 1985a [1964], p. 30) [grifo do autor].
Para Lacan, o inconsciente é algo da ordem do não realizado, mas que, no entanto, se realiza como invenção da experiência analítica, onde se alojam índices e marcas do imprevisível. Essa ficção é própria à experiência analítica e Freud a compara, de forma muito interessante, à arte de esculpir, pois “[...]a terapia analítica não procura acrescentar nem introduzir nada de novo, mas a retirar algo, fazer aflorar alguma coisa [...]” (FREUD, 1969, v. 7, 270). O que a análise faz aflorar é a abertura do saber inconsciente, que se dá, exatamente, através da fala da histérica, o que não é à toa, pois o desejo da histérica se constitui na fala, como vem demonstrar Lacan em seu Seminário 11:
O traço diferencial da histérica é precisamente esse – é no movimento mesmo de fala que a histérica constitui seu desejo. De modo que não é de espantar que tenha sido por esta porta que Freud entrou no que eram, na realidade, as relações do desejo com a linguagem, e que ele tenha descoberto os mecanismos do inconsciente (LACAN, 1985a [1964], p. 19).
É, então, na relação do desejo com o campo da linguagem e com a função da fala que Lacan retorna ao texto freudiano. Leitor de Saussure, como de Levis Strauss, Jakobson, entre outros, Lacan encontra, na letra de Freud, elementos que tratam do estranho funcionamento de um sistema, o inconsciente, os quais foram captados, exatamente, no ponto que Saussure havia deixado pouco explorado, o registro da fala, la parole. Como teremos oportunidade de destacar, os acontecimentos da fala, com seu caráter acidental e particular, como vem demarcar o mestre da linguística, é, precisamente, o ponto de interesse da psicanálise, em seu momento de fundação. Observamos, ainda, que a noção de fala em Lacan sofre forte influência de Hegel, como vem demarcar Miller:
Lacan conjuga a estrutura da linguagem, herdada da linguística estrutural, com uma noção de fala elaborada com base em Hegel. Quando intitula seu grande texto inicial “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, ele, no fundo, promove o casamento de Saussure e de Hegel. Completa assim a estrutura da linguagem com a estrutura da fala, construída a partir do conceito hegeliano-kojèviano de reconhecimento (MILLER, 2011, p 149)
Lacan, em seu retorno a Freud, faz operar esse par de conceitos – fala e linguagem – privilegiando, em Freud, o que se convencionou chamar de primeira tópica2, onde está enraizado o conceito de inconsciente. A segunda tópica, centrada na teoria das pulsões, é retomada por Lacan a partir da estrutura de linguagem. O grafo do desejo responde à ambição lacaniana, como veremos no capítulo dois, de sustentar a tese de que a pulsão é uma cadeia significante, o que o faz através de sua grande invenção, o objeto a.
Após essas considerações sobre o interesse de Lacan pelo campo da linguagem e a função da fala, pretendemos, no tópico seguinte, nos voltarmos para a problemática da língua em Lacan, o que nos levará à noção de lalíngua.
2 A segunda tópica, centrada na teoria das pulsões, é retomada por Lacan a partir da estrutura de
linguagem. O grafo do desejo responde à ambição lacaniana, como veremos no capítulo dois, de sustentar a tese de que a pulsão é uma cadeia significante, o que o faz através de sua grande invenção, o objeto a.