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Iniciamos esta seção com uma constatação: da mesma forma que Freud ficou siderado frente às manifestações de um sujeito que se perdia e se encontrava naquilo que dizia; Lacan, por sua vez, foi surpreendido com os limites do simbólico para dizer algo que estava além das palavras, mas que insistia como força motriz resistente à mudanças e aos efeitos de significação do significante. Certamente que Freud já havia se deparado com essa força que está além do princípio do prazer, segundo a qual uma estranha satisfação da pulsão e que trabalha contra a homeostase do aparelho psíquico, mesmo que o sujeito não saiba qualificar isso que é experimentado. Diferentemente do prazer que responde a um bem estar e, consequentemente, a um estado de equilíbrio, essa satisfação pulsional trata de um excesso, de um a mais que vem desequilibrar a homeostase com sua presença perturbadora e inadequada. Tal satisfação, encontrada por Freud em certos fenômenos que tinham uma compulsão insaciável de repetição, a exemplo da reação terapêutica negativa e do masoquismo primordial, o fizeram deparar-se com os limites da interpretação analítica. Lacan nomeia de gozo esse modo particular de o sujeito se satisfazer, um conceito que ele faz chegar à psicanálise a partir da noção de usufruto, visando a dizer que, ao contrário do caráter de utilidade, importado da doutrina jurídica, “o gozo é aquilo que não serve para nada” (LACAN, 1985 [1972-1973], p.11) sendo, portanto, da ordem do inútil, do residual.

A problemática do gozo é lançada por Lacan a partir das questões que remetem aos limites do simbólico ou, para dizê-lo melhor, aos limites do campo da linguagem e da função da fala. O gozo faz Lacan redimensionar seu ensino e a prática da psicanálise, mesmo que se possa dizer que o surgimento dessa noção tenha a ver com os dados imediatos da experiência analítica.

O gozo é abordado por Lacan a partir de seu retorno ao tema freudiano do Complexo de Édipo que tem, em seu centro, a noção de castração. Nesse contexto, Lacan reporta-se ao gozo atingido pela castração, gozo negativado, marcado por um menos phi (-φ), qualificado de falo imaginário. Com isso, ele trata o gozo a partir da

interdição, cujos fundamentos não estão em uma proibição vinda de fora, mas na condição de sermos seres falantes. Em suas palavras:

Aquilo a que é preciso nos ater é que o gozo está vedado a quem fala como tal, ou ainda, que ele só pode ser dito nas entrelinhas por quem quer que seja sujeito da Lei, já que a lei se funda justamente nessa proibição. Com efeito, viesse a Lei a ordenar “Goza”, o sujeito só poderia responder a isso com um “Ouço”1, onde o gozo não seria mais do que subtendido. (LACAN,

1998 [1960] p. 836)

Nessa época do início do ensino de Lacan, o gozo é considerado como sendo o resultado da castração, a qual é traduzida, por ele, nos seguintes termos: “a castração significa ser imprescindível que o gozo seja recusado, para que possa ser atingido na escala invertida da Lei do desejo” (LACAN, 1998 [1960], p. 841). Essa instigante citação é retomada por Miller em seu curso O ser e o Um 2, segundo o qual ela deve ser compreendida “para além do que ela diz naquilo em que ela se detém”. Miller propõe, nessa direção, que seja considerada a afirmação de que “a castração significa ser imprescindível que o gozo seja recusado, para que possa ser alcançado”, como uma astúcia da razão dialética: “interditamos e, depois, reencontramos a mesma coisa exaltada e numa outra dimensão”.

Esta fórmula do gozo como resultado de um processo de superação dialética se encontra em Subversão do sujeito e dialética do desejo, um texto de 1960, mas que antecipa a visão de um novo ângulo de abordagem do gozo, que só terá seu verdadeiro alcance mais de uma década depois. Ao lado da hipótese de um gozo negativizado pela castração, Lacan lança luz em um gozo de outra ordem: gozo de impossível negativação. Usa o símbolo Phi maiúsculo (Ф) para expressá-lo, e o qualifica de falo simbólico. Vale à pena recuperar a magistral citação de Lacan em sua Subversão do sujeito e dialética do desejo:

A passagem do (-φ) (phi minúsculo) da imagem fálica de um lado ao outro da equação do imaginário e do simbólico positiva-o, de qualquer modo, ainda que ele venha preencher uma falta. Por mais que seja suporte do (- 1), ali ele se transforma em Ф (phi maiúsculo), o falo simbólico impossível de negativizar, significante do gozo. E é essa característica do Ф que explica tanto as particularidades da abordagem da sexualidade pela mulher quanto o que faz do sexo masculino o sexo frágil no tocante à perversão. (LACAN, 1998 [1960] p. 838) [Grifos nossos]

1 Lacan joga, aqui, com a homofonia entre jouis (goza) e j’ouis (ouço). 2 Curso inédito, O ser e o Um, Lição de 09 de fevereiro de 2011.

Como não podemos dar conta da abrangência dessa citação, posto que ela trata de questões que extrapolam o momento introdutório deste capítulo, ressaltemos, apenas, que Lacan, desde muito cedo, está advertido de que a lógica do todo, eminentemente relacionada à castração daqueles que se alinham do lado masculino, não dá conta da abordagem do gozo, pois algo fica de fora e responde ao regime do não-todo submetido à castração.

Há, pois, que se considerar dois planos na abordagem do gozo em Lacan. Não há só a lógica da negativação do gozo na castração, com fortes raízes freudianas, mas também a lógica do gozo que não responde ao Édipo, sendo impossível negativizar. Interessante que é nesse último aspecto, como sugere o final da citação supracitada, que Lacan irá depositar a problemática dos sexos a partir do que escapa à dialética interdição – recuperação. É o viés do gozo feminino que vem atestar um novo regime de gozo, aquele do não-todo, que tem afinidades com o infinito.

Assim, o que foi apenas vislumbrado no início dos anos 60, passa a ser a grande referência de Lacan para abordar uma nova perspectiva do gozo, na qual esse passa a ser pensado em termos positivos, como substância gozante tendo, como suporte, o corpo que não é aquele do estádio do espelho3. Essa é uma porta

entreaberta por Lacan no Seminário 20, onde ele pôde dizer que a ordem significante encontra sua razão de ser no gozo do corpo. Vale ressaltar, quanto a esse aspecto, que, se podemos dizer que o gozo é do corpo, isso não quer dizer que ele não seja sustentado pela linguagem; não esquecendo que Lacan valoriza a ressonância do dizer no corpo colocando em função o corpo e a linguagem. Esse eco do dizer no corpo que serve para pensar a poesia, Lacan o determina, no Seminário 23, com a cunhada de uma palavra: Sinthoma.

Uma das últimas invenções de Lacan, o sinthoma, como será visto mais adiante, é o elemento que faz a junção do corpo e da linguagem, só que em uma conversão de perspectiva: não é o gozo que está subordinado ao primado da linguagem, tratamos do avesso disso, ou seja, é a estrutura de linguagem que está sob os auspícios do primado do gozo. Com isso, já se pode dizer que quando é o

3 Com a fase do espelho, Lacan tenta explicar os primeiros passos da formação do eu a partir do

reconhecimento da imagem de criança refletida no espelho. É a imagem especular que dá, à criança a ilusão de que o corpo, até então fragmentado, passa a ter uma configuração ortopédica.

gozo que comanda, estamos no terreno de lalíngua, que está aquém de qualquer articulação.

Os dois estatutos do gozo, que Lacan tenta elucidar em sua doutrina, brotam dos ensinamentos da clínica, segundo a qual se vê como o gozo do sintoma não tem o mesmo estatuto no final da experiência. Afinal, como explica Miller, “não haveria experiência analítica se o gozo fosse satisfatório”, sendo “precisamente, pelo fato de o verme estar no próprio fruto do gozo que se pode conceber uma análise” (MILLER, 2011, p. 204). Assim, no trabalho de análise, o sujeito terá que se haver com um gozo que não convém, um gozo, por assim dizer, inadequado, excessivo, e vivido às escondidas. No final da experiência, surge uma nova possibilidade de o sujeito se relacionar com o gozo de forma mais satisfatória. Como afirma Miller, há “uma nova aliança com o gozo que é impossível negativar” (MILLER, 2011, p. 184). Exatamente, aquele gozo acenado por Lacan quando lançava a semente em sua Subversão, mas que só se tornará referência em uma época bem tardia.

Lacan vê, no sinthoma, o qual é condicionado por lalíngua, uma saída para o gozo de impossível negativização. Antes dessa invenção que ele faz chegar à psicanálise a partir do encontro com a obra de James Joyce, ele havia se ocupado de outra: a do objeto a.