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Na análise aqui proposta, não há propriamente uma divisão em segmentos, dado que sugiro um modo de examinar aquilo que os textos indicam do gênero discursivo a que pertencem em termos de uma análise que busca apreender a totalidade do discurso dado. O estudo de livros em termos de gênero, como toda análise discursiva em termos bakhtinianos, requer uma análise comparativa de vários textos considerados de um dado gênero, porque o fato de um livro ser tido como livro de um dado gênero não diz por si de que gênero se trata. A comparação aqui feita envolve uma análise textual e uma análise discursiva, à luz da esfera de atividades em que se inserem os livros e da ação autoral arquitetônica, com ênfase na(s) relação(ões) enunciativa(s) dominante(s).

Como não há uma metodologia consolidada de análise do gênero, e menos ainda uma proposta que enfatize, como pretendi fazer, o aspecto arquitetônico de construção do discurso, fiz aqui uma aventura metodológica destinada precisamente

a propor uma metodologia de estudo do gênero que não o reduza ao texto nem ao discurso, mas os englobe do ponto de vista do gênero em vez de considerar que o gênero é simplesmente pressuposto. O texto exibe indícios de gênero de modo imediato, mas não de maneira transparente, e a discursividade é uma mediação constitutiva entre gênero e texto, texto e gênero.

No caso de meu objeto, eu dispunha de 4 livros designados por uma coletividade de leitores, editores, meios de comunicação etc. como “livros de auto- ajuda”, mas essa designação nada me diz do gênero desses livros, indicando no máximo que esses livros propõem, ou se enquadram em, algo chamado por essa coletividade de “auto-ajuda”. Verificando que há uma variedade de livros assim designados, busquei determinar o que há de comum entre eles, em vez de considerar todos os textos assim designados membros de um gênero chamado “auto-ajuda”. Uma pergunta que me ocorreu foi, por conseguinte, “o que se designa por auto-ajuda”? A pesquisa me mostrou que havia vários sentidos de “auto-ajuda”, não simplesmente nos livros assim designados, mas na esfera de atividades desses livros.

Para verificar de que gênero se trata, caso haja um gênero, tenho de considerar o tema, as formas de composição e o estilo (de gênero e de autor) de cada livro, como de costume, mas o faço nos termos do(s) projeto(s) arquitetônico(s) nele identificáveis, advindos do trabalho autoral (e os editores e redatores de casas publicadoras são parte desse trabalho autoral) bem como de sua unidade temática de gênero e de sua discursividade no âmbito de sua esfera. Proponho uma análise em 3 etapas, e por meio de 3 procedimentos. Essas etapas e procedimentos são seguidos no levantamento das macro-marcas de gênero na ordem em que são apresentadas, mas a análise resultante não os apresenta passo a passo, dado que isso provocaria a fragmentação do discurso. A análise aqui apresentada busca verificar como “textualizações” distintas realizam um mesmo gênero, ou seja, de que maneira, no âmbito de uma dada arquitetônica, formas de composição distintas podem estar a serviço de uma mesma generificação, com ênfase na questão da unidade temática e da entoação avaliativa, base do trabalho autoral arquitetônico.

Apresento aqui apenas uma amostra da análise dos 4 livros, tendo por objeto específico as capas e contracapas. Essa amostra é parte de uma análise que leva em conta os vários elementos da esfera de atividades que levantei e o estudo de

cada livro como um todo, bem como a comparação entre os 4 livros como um todo. Considero as capas e contracapas em sua natureza verbo-visual, detendo-me mais em seu aspecto verbal por questões práticas. Aplico à análise dos dois aspectos os princípios da análise de discurso bakhtiniana, e recorro ainda, embora sem aplicar diretamente, aos princípios da semiótica visual greimasiana, que sintetizo adiante. O objetivo da análise não é apresentar uma radiografia dos quatro livros, mas apreender um momento privilegiado da formação de um gênero (que ocorre no tempo longo) mediante uma metodologia de análise que integre os vários elementos envolvidos.

Um motivo adicional, mas não menos importante, vem de uma inquietação minha com o fato de capas de livros, de revistas etc. virem sendo estudadas como se fossem gêneros discursivos isolados daquilo de que são capas. Um levantamento de “cenografias” de capas que as tome como capas de alguma coisa é um legitimo procedimento auxiliar de uma análise de gênero discursivo, mas um estudo que as tome isoladamente, como “gênero textual” desvinculada do todo de que são parte contribui a meu ver para criar dificuldades conceituais e procedimentais.

A análise das capas e contracapas constitui uma demonstração de uma dada metodologia de comparação de “espécies” de discurso consideradas de um mesmo “gênero”. Sua escolha se deve tanto à importância específica que têm as capas e contracapas dos livros de auto-ajuda (algo que SIMONDS, 1992 a meu ver demonstrou) e dos livros em geral, como à necessidade de aplicar a metodologia proposta a uma parcela manejável do corpus, ainda que levando-o em conta como um todo. Por outro lado, isso evita a ênfase numa análise quantitativa que, se tem seus méritos, e que foi feita de modo não sistemático, dado que examinei inúmeros livros ditos de auto-ajuda, não é parte de meus objetivos.

Apresento a seguir, antes da análise, por uma questão de coerência, uma síntese dos princípios da semiótica visual de Greimas. Não a inclui ao falar de outros aspectos da proposta desse autor por julgar mais oportuno fazê-la preceder a análise. Alerto que levo esses princípios em conta em termos da unidade que analiso, sem no entanto fazer deles uma aplicação estrita.

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