A todos se pediu a resposta a dois questionamentos, Q1 e Q2, fazendo parte do apêndice (Ap I. 1). Houve sete respondentes que abordaram a problemática.
i. Para o Tenente-General Tomé Pinto (depoimento feito em 8 de Dezembro de 2010) há o entendimento de que um “bom desempenho decorre das qualidades técnicas, morais e comportamentais de cada um”. Tudo isso, na sua opinião, se deve amalgamar com a “Vontade, determinação, saber, generosidade e no caso militar constante disponibilidade”.
ii. Para o Coronel David Martelo (10 de Dezembro de 2010) o bom desempenho esteve ligado ao tipo de guerra enfrentada pelo Exército Português, que evidenciou a importância do Capitão:
O tipo de guerra em que o Exército Português estava envolvido fazia com que, na esmagadora maioria das vezes, o contacto com o inimigo se fizesse por iniciativa deste. O mesmo é dizer, que as tropas portuguesas se viam na necessidade de reagir a acções de surpresa e, frequentemente, em situações de desvantagem inicial.
Esta quase «fatalidade» só era, favoravelmente, contornável mediante uma forte disciplina, fazendo de cada movimento no terreno uma operação de contacto iminente, mesmo que se tivessem passado vários meses sem se ouvir um tiro. Aqui se incluem, naturalmente, os cuidados a ter com a presença de minas e armadilhas, usando da maior paciência possível. Esta postura, diga-se, não era fácil de conseguir, porque a rotina – sobretudo em zonas de menor actividade da guerrilha – era inimiga do «estado de alerta», que se impunha em todas as circunstâncias. Por este motivo, o Capitão tinha de possuir, no mais alto grau, o sentido de responsabilidade e a tenacidade necessária para manter os seus homens em permanente estado de prontidão. Quando tal não era conseguido, aconteciam as emboscadas com grande número de baixas, normalmente em zonas onde a guerrilha havia muito que se não manifestava.
Depois da disciplina «em alerta», seguia-se a disciplina em combate, sobretudo debaixo de fogo, em que a acção dos oficiais e sargentos mais se devia fazer sentir. Para tal, era importante que se não preocupassem em dar tiros, e orientassem o seu esforço no sentido de perceber o posicionamento do inimigo, e na orientação dos fogos dos seus homens, os quais teriam de ser controlados, de modo a não levar ao consumo exagerado de munições [Q1].
O Coronel abordou, seguidamente, de forma integrada, as qualidades de um bom Capitão, entrecruzando elementos comparativos entre Capitães QP e CCC, no contexto da complexidade de comando de uma Companhia.
O Capitão precisava de comportar-se, perante os seus subordinados, como um irmão mais velho e mais experiente, que lhes exigia, com austera determinação, o que era indispensável para o melhor desempenho operacional com os custos de sangue mais baixos.
Individualmente, ajudava muito o facto de o Capitão ser desembaraçado, física e tecnicamente, sendo capaz de estar sempre presente nos locais de maior perigo, controlando o seu próprio medo e procurando transmitir confiança e sangue frio. Estas qualidades vão-se desenvolvendo com o tempo, pelo que não é a mesma coisa ser Capitão com 7 ou mais anos de vida militar ou com somente 15 meses.
Depois, num plano fora do âmbito operacional, o oficial Comandante de uma Companhia de Caçadores (ou equivalente) era, também, um gestor de recursos humanos e materiais muito complexos. Para esta gestão eram necessários conhecimentos sólidos da administração da Companhia, de justiça, de gestão de equipamentos, de apoio à manobra psico-social, etc., o que não se conseguia obter de um momento para o outro [Q1].
iii. O Tenente-Coronel de Infantaria José Aparício (5 de Janeiro de 2011), para dar resposta ao solicitado, elaborou um conjunto de pressupostos, pelo cumprimento dos quais se “devia considerar o bom desempenho de um Capitão, no comando de uma Companhia em África, na situação de quadrícula ou em intervenção”. A saber:
Pela preparação da sua Companhia para as actuações básicas do tipo de guerra em que as
Forças Armadas Portuguesas estiveram envolvidas em África, o que garantiu a minimização de perdas sofridas, e, também, a coesão nos momentos, muito difíceis, que tiveram de enfrentar;
Pelo bom espírito de corpo que conseguiu criar na sua subunidade, onde todos os seus
elementos tinham orgulho de a ela pertencer;
Pela situação disciplinar da sua Companhia, onde as regras básicas, de procedimento e de
comportamento, individual e em grupo, eram geralmente bem aceites e não impostas;
Pela boa coesão entre todos os elementos, nos pequenos grupos, nas secções, e nos
grupos de combate;
Pelo sentido de responsabilidade, em relação aos seus subordinados e, também, pelo seu
bom senso e maturidade;
Pela importância atribuída ao cumprimento da Missão;
Pela sua liderança, e capacidade de comando, que assegurou a confiança e o respeito dos
seus subordinados, e também a adesão, sem reticências, quando surgiram os momentos
do “vamos a isto”;
Pelo comportamento, moral e cívico, de todos os seus subordinados, com as populações,
os seus usos e costumes [Q1].
iv. Para o oficial do Exército José Belo (21 de Dezembro de 2010) a sua experiência na Guerra do Ultramar permitiu conceptualizar sobre o bom desempenho de um Capitão, Comandante de Companhia:
Institucionalmente, e em síntese, diria que um bom comando é aquele que cumpre a Missão que lhe é definida. Mas não é apenas isto, certamente, que deseja ouvir. Eu acrescento que, tendo sempre como pano de fundo o cumprimento da Missão, um bom Capitão deve ter conhecimentos sólidos da sua Arma, estar preparado para o tipo de guerra que ia enfrentar, ser competente, em suma: ser um bom condutor de homens, inflexível na aplicação da justiça e disciplina, mas, por outro lado, compreender as fraquezas humanas e contemporizar sem afectar a disciplina. Tudo isto se pode resumir dizendo que a virtude maior de um Capitão Comandante de Companhia (como, aliás, noutros escalões) é ter Capacidade de Comando. Todos os outros atributos acabam por vir aqui desembocar.
Estas características considero-as objectivas, mensuráveis, mas não quero deixar em claro aquelas outras pessoais, subjectivas. Estou a pensar no sentimento da honra e do dever, no espírito de sacrifício, camaradagem, lealdade e demais virtudes militares que um Comandante deve possuir.
Considero que aquilo que acabo de referir se aplica a todos os Capitães sem qualquer distinção [Q1].
v. O coronel Amaro Bernardo (15 de Novembro de 2010) intitula o seu depoimento como a “Opinião de um então Capitão do QP (com 4 comissões por imposição)”.
O depoente reflecte sobre o bom desempenho de um Capitão (QP ou QC) que deveria ter em atenção os seguintes aspectos:
Capacidades: ter boas condições físicas e, entre as qualidades militares constantes dos
manuais, ser nomeadamente um razoável líder e bom condutor de homens. As qualidades éticas e morais, que já vinham sendo salientadas desde o tempo das escolas e liceus, deviam ser aprofundadas e devidamente consideradas.
Conhecimentos: além da instrução técnico-táctica, muito importante na contra-guerrilha,
era fundamental conhecer a sua zona de acção (ZA), no caso da quadrícula, e, nomeadamente, as populações e os indícios das possíveis ligações aos guerrilheiros. Na intervenção, com situações de maior risco e imprevisibilidade, devia ser feita uma pesquisa de dados, quer em relação às populações e características do terreno, quer sobre as actuações anteriores do In.
Competências: nas situações de isolamento, em que as Companhias muitas vezes se
encontravam na quadrícula, devia existir um grande entrosamento com todos os militares, tentando o Comandante conhecer os problemas pessoais que os afligiam, com vista à sua atenuação. Um bom Comandante, neste tipo de situações, devia ser um exemplo para os seus homens e defendê-los, com «garra», em relação à cadeia hierárquica. A competência disciplinar, a utilizar em casos mais graves ou de maneira preventiva, para evitar «males maiores», apenas devia ser usada depois de esgotados os meios persuasivos, com vista a manter um «bom ambiente» entre os militares e os seus superiores directos [Q1].
vi. O Pára-quedista Manuel Rebocho (4 de Outubro de 2010) contextualizou o desempenho na factualidade da guerra que se desenrolava no Ultramar e determinava, no seu entendimento:
Ocupar o território, como havia sido determinado na Conferência de Berlim, cuja acta está datada de 25 de Fevereiro de 1885. Esta imposição internacional determinou a estratégia que Portugal adoptou com a implementação da Quadrícula, que todos os ex-combatentes conhecem: Conter a Guerrilha de modo a condicioná-la à mata, impedindo-a de chegar às cidades onde o seu impacto seria muito superior ao que se verificava; Proporcionar tempo para que a política resolvesse a situação [Q1].
A fim de satisfazer, ou cumprir, estes objectivos as tropas em Quadrícula tinham, sobretudo, duas funções, ainda segundo o depoente:
A. Garantir a segurança, de pessoas e bens, na sua área de influência;
B. Garantir a adesão das populações impedindo que estas apoiassem a Guerrilha, já que, sem o
apoio das populações, a Guerrilha não tinha, nem tem, qualquer viabilidade. Conquistar a adesão das populações constituía, assim, a mais eficiente guerra que as tropas poderiam efectuar [Q1].
Postas estas considerações, “o bom desempenho de um Capitão no Comando de uma Companhia de Quadrícula”, é definido pelo respondente, segundo quatro vectores:
1) Em primeiro lugar o Capitão tinha que possuir espírito de sacrifício e abnegação, já que, como
todos sabemos, o simples facto de estar em Sector determinava carências de toda a natureza. Neste sentido, o Capitão tinha que estar em Sector, chefiando e orientado os «seus» homens. Um Capitão que se ausentasse, por tempos não justificados e não compreendidos pelos «seus» homens, seria, sempre foi, um Capitão com um débil desempenho.
2) Um Capitão em Quadrícula comandava vontades e não engrenagens, o que impunha que o
mesmo tivesse espírito de liderança, impondo-se pelo seu valor humano e não pelas disposições regulamentares. Estes Capitães, que foram determinantes na Guerra de África, deveriam relacionar-se com os «seus» homens de forma humana, sem contudo deixar que o pessoal caísse no lado oposto, isto é, na indisciplina que tudo complica e dificulta. É assim a procura do «meio- termo», componente determinante nestas circunstâncias.
3) Sabendo que a população nativa constituía o meio no qual a Guerrilha se movimentava, sendo
mesmo o seu suporte logístico, o Capitão de Quadrícula deveria apresentar capacidades para influenciar esse mesmo meio, o mesmo é dizer a população nativa. Através da população o Capitão poderia, não só diminuir a influência e a actividade da Guerrilha, como colher informações que poderiam ser úteis para as decisões dos Comandos Superiores e para a manobra táctica das tropas de intervenção.
4) O Capitão de Quadrícula deveria utilizar e manobrar as suas forças, de modo a assegurar a defesa de proximidade, tanto no que respeita às suas tropas, como à população que estava à sua «guarda», palavra que interpreto no sentido de segurança [Q2].
Para Manuel Rebocho, e com base nestes conceitos, poder-se-ia “graduar o desempenho de um Capitão, consoante ele apresentasse capacidades nestas quatro valências, apenas em três delas, em duas ou mesmo em nenhuma, o que seria o oposto daquilo que se esperava e seria de exigir” [Q2].
vii. Para o Brigadeiro Pires Veloso (2 de Novembro de 2010) todo aquele que desempenhasse bem o seu comando tinha de:
1. Ser, acima de tudo, humano;
2. Nunca faltar à verdade aos seus homens;
3. Ser tolerante e até carinhoso para com eles, mas também rigoroso na exigência do cumprimento
de ordens;
4. Ser um exemplo, acompanhando-os nas operações mais perigosas;
5. Viver com eles, tanto quanto possível a sua vida pessoal e familiar, sempre no intuito de os ajudar;
6. Estar sempre com eles nos momentos mais difíceis [Q1].