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Au croisement de la démographie et du parcours de

2. Données et méthodes

2.2 Une approche méthodologique mixte

2.2.1 Au croisement de la démographie et du parcours de

Dentre as abordagens feitas por Roland Bourneuf e Real Ouellet19, a análise do ponto de vista apresenta uma importância determinante para o presente estudo, sobretudo em razão

de o que está sendo considerado na construção desta dissertação ir muito além da distribuição

19

75 dos episódios e dos discursos das personagens como elementos estruturadores de uma obra. Bourneuf e Ouellet ressaltam a fundamental relação existente entre narrador, autor e leitor, além de estabelecerem a presença de uma série de senhas que vêm a ser consideradas no ato da comunicação e que são interpretadas pelo leitor a partir daquela relação com o autor e o narrador.

Dessa convivência explícita, narrador e leitor iniciarão, juntos, uma jornada em busca da verdade escondida, e essa troca terminará por proporcionar um ritual de envolvimento na trama, haja vista que o narrador não é o único receptor da verdade e do segredo inserido na obra, assim como o leitor não aceitará com facilidade que se escondam essas posições. Particularmente ligado a essa relação autor leitor, encontraremos “a questão do ponto de vista (BOURNEUF & OUELLET, 1981, p. 91)”, sendo caracterizado pelo ângulo do narrador na contagem da sua história. Esse ponto de vista invariavelmente conduzirá a um grau de apreensão da intencionalidade do autor, desde que seja possível a sua percepção e que dê um apanhado de suas intenções ao leitor, em sua busca de compreensão da obra. Fato é que a leitura prescinde de uma importância real dirigida às circunstâncias a partir das quais o texto foi escrito, bem como o momento histórico e as condições culturais que o nortearam.

No eixo central da narrativa de Sargento Getúlio, por exemplo, vemos o comportamento de uma personagem cuja compreensão moral, conforme nos coloca Sérgio Paulo Rouanet20, está profundamente associada à ideia de sua própria natureza e costume, e que apesar de ter cometido vários assassinatos e de realizar cenas de torturas com requintes de crueldade em um seu prisioneiro, surpreende o leitor na medida em que se mostra possuidor de um “código de ética” que o impede de abortar uma missão e de cumprir supostas “contraordens” de seu chefe: “(...) Vosmecê tem um alicate aí? Que eu arranco dois dentes da frente dele. Arranco dois de baixo, dois de cima, que fica mais certo. (...) inverti a arma, encarquei duas vezes no beiço e arranquei quatro dentes de alicate. E deixei.(...) o chefe me mandou buscar isso aí e eu fui, peguei, truxe, amansei, e vou levar porque mesmo que o chefe agora não possa me sustentar, eu levei o homem, chego lá entrego. É preciso entregar o bicho. Entrego e digo: ordem cumprida. Depois o resto se aguenta-se como for, mas a entrega já foi feita, não sou homem de para no meio. (RIBEIRO, 1971, p. 60,84)”. Já em O Fim de Semana, Jörg, ainda que na condição de um terrorista líder da Facção Exército Vermelho e responsável por vários assassinatos, vê-se pressionado em seus dilemas morais por seus amigos, o que o faz ponderar suas convicções e contrapor o seu conceito de verdade: “(...) Arrepender? Claro

76 que me arrependo de termos lutado por uma causa que não deu em nada. Não sei se poderia ter dado em alguma coisa(...) às vezes também penso na mulher e no policial que defendiam este Estado e morreram por ele. Tenho pena de o mundo não ser um lugar onde não se... que seja um lugar em que... bem, naturalmente ninguém deveria ter que lutar e morrer, mas infelizmente o mundo não é assim. (SCHLINK, 2011, p. 113)”.

Se recordarmos que Aristóteles atribuía tanto valor à narrativa homérica porque o autor intervinha pouco e deixava as cenas para suas personagens, podemos afirmar que, desde a antiguidade, encontramos duas concepções de narrativas que se enfrentara ao longo do século XX: no primeiro caso, o narrador que sabe tudo, interna e externamente, o ausente e o presente, não hesitando em invadir as narrativas com sermões, juízos de valor e resumos de partes da história, em suma, que nos diz o que pensar em cada coisa; no segundo caso, o narrador que se esforça por desaparecer, por fazer duvidar que aquilo é uma narrativa. No primeiro caso, narra. No segundo, mostra. (BOURNEUF & OUELLET, 1981, p. 97)

No estudo de Bourneuf e Ouellet é mostrado que as personagens do romance podem desempenhar diversas funções no universo da ficção criado pelo romancista, podendo ser configuradas, simultânea ou sucessivamente, como elementos decorativos, agentes da ação ou porta voz de seus criadores, sendo que a ênfase nessas duas últimas caracterizações dá a dimensão perfeita daquilo que é proposto nas perspectivas de João Ubaldo e Schlink.

O enfrentamento das personagens, gerando uma perseguição alternada entre si, num plano em que elas se encontram num estado de conflito, constituirá os momentos de ação que irão definir a estrutura de um romance. A partir da existência de uma disputa de forças antagônicas em que ocorre a observância dos papéis gerais dos agentes e pacientes de uma dada obra, e através das diferenciadas ações realizadas ou sofridas por esses agentes ou pacientes, serão revelados vários grupos de outras personagens, que por sua vez provocarão a existência de outros subgrupos cada vez mais definidos. Nesse ponto, os autores de O

Universo do Romance nos apresentam a inserção da psicologia como “a ciência da alma, da

vida mental e do comportamento (BOURNEUF & OUELLET, 1981, p. 188)”. Na condição de um insubstituível instrumento para identificar o conjunto definidor do caráter de um indivíduo ou de um grupo, ela leva em consideração os pontos de referência que a definem e que também variam entre um “estudo direto de uma vida anterior considerada em si mesma e a observação dos feitos orgânicos como preliminares para o conhecimento do psiquismo (Id, 1981, p. 188)”.

77 A introspecção que segue na direção da descoberta da vida interior nos ajuda, por exemplo, na compreensão do ponto de vista estabelecido pela psicologia nas obras Sargento

Getúlio e O Fim de Semana. A densidade psicológica das personagens se dará na medida em

que o leitor identificar o discurso de suas paixões, decorrentes de seus traços de caráter. O inconsciente e a conduta de Getúlio e Jörg nos auxiliarão a reduzir as formas de suas aparições nesses romances, seja através de uma sugestão ou de uma análise dos históricos anteriores de vida de seus criadores.

Bourneuf e Ouellet lembram que boa parte da crítica está condicionada a encarar as personagens do romance como um somatório de observações e virtudes de seu respectivo autor, de modo que toda ordem de emoções ou sensações jamais obtidas, desde possibilidades a frustrações, seja naquela obra projetada. Essa busca pela descoberta do “latente debaixo do manifesto (BOURNEUF & OUELLET, 1981, p. 188)” acaba por caracterizar o romance como uma relação interpessoal, ligando analista e analisado, de modo que a relação autor personagem termina por ser uma relação semelhante à paciente médico. Por certo que esta variação, reforçada por um viés notadamente psicanalítico, encontra uma resistência na análise crítica contemporânea, e muito disso se deve à tendência natural de redução de muitos analistas, que colocam a obra apresentada como uma finalização de um processo determinista mecânico. Numa tentativa de esclarecer tal resistência, Bourneuf e Ouellet tratam de fazer uma referência ao artigo de J. Starobinski (apud BOURNEUF & OUELLET, 1981, p. 199), em cujo teor é ressaltado que “longe de se constituir unicamente por uma influência de uma experiência original ou uma paixão anterior, a obra poderia ser considerada como um ato original ou ponto de ruptura em si do que no indivíduo”.

A partir disso, os estudos de psicologia e psicanálise traduzem-se como de suma importância no clareamento das ideias que estão relacionadas à análise das personagens do romance, sobretudo em razão de não ceder a um determinismo que diminuiria o valor de uma personagem detentora de recursos incontestes e de relevância vital para a construção e grandeza de dada obra. No tocante a Getúlio e Jörg, ainda que eles não tivessem as preocupações relacionadas aos seus demônios interiores, estariam inseridos em uma comunidade que se opõe a eles no processo de convivência social, e que frontalmente lhes coloca a margem, derivando daí a possibilidade de se conjecturar uma projeção de João Ubaldo e Schlink e suas relações com os contextos sociais que os envolvem. Explicando mais claramente essa possibilidade, Bourneuf e Ouellet lançam mão do pensamento de Lukács21,

78 em A Teoria do Romance, a partir do qual “o herói problemático, também conhecido por herói demoníaco, ao mesmo tempo oposto e integrado no mundo, se encarna em um gênero literário, o romance, situado entre a tragédia e a poesia lírica, por um lado, e a epopeia e a história romanesca, por outro (LUKÁCS apud BOURNEUF & OUELLET, 1981, p. 200)”.