5. Les mères des baby-boomers : quelles conciliations entre sphères
5.1 Analyses de séquences de la constitution de la famille
Na definição do exercício, como visto acima, há três características fundamentais42. Para a
análise da primeira delas, vejamos sua menção no diálogo. O Parmênides começa com a alusão à narração do personagem Zenão de seus escritos que criticavam a ideia de multiplicidade – críticas tradicionalmente entendidas como dirigidas aos pitagóricos43. Os escritos só tratavam das coisas
sensíveis, e o personagem Sócrates, então um rapaz de cerca de vinte anos, diz que nestes objetos a multiplicidade não lhe causa espécie, pois é muito bem explicada pela participação de cada coisa sensível em várias Formas inteligíveis ao mesmo tempo. O problema, na verdade, segundo Sócrates, residiria em outro “lugar”:
(...) isso (sc. a multiplicidade nas coisas sensíveis) não parece, a mim
pelo menos, em nada absurdo, Zenão (...). Mas se aquilo que é
[realmente] um, alguém demonstrar que isso mesmo é múltiplas coisas,
e, de outra parte, que o múltiplo é um, já disso me espantarei. E do mesmo modo com respeito a todas as outras coisas: se alguém mostrar que, em si mesmos, os gêneros em si e as formas em si são afetados por essas afecções contrárias, isso será digno de espanto.
“(...) οὐδὲν ἔμοιγε, ὦ Ζήνον, ἄτοπον δοκεῖ ἀλλ᾽ εἰ ὃ ἔστιν ἕν, αὐτὸ τοῦτο πολλὰ ἀποδείσει καὶ αὖ τὰ πολλὰ δὴ ἕν, τοῦτο ἤδη θαυμάσομαι. καὶ περὶ τῶν ἄλλων ἁπάντων ὡσαύτως εἰ μὲν
42 Cabe o alerta de que minha análise não segue a ordem em que estes aspectos aparecem no texto platônico.
43Cf., p. ex., TAYLOR, A.E. Plato, the man and his work. London: Methuen, 1955, p. 290-291; CORNFORD, 1950, p. 3-
αὐτὰ τὰ γένη τε καὶ εἴδη ἐν αὑτοῖς ἀποφαίνοι τἀναντία ταῦτα πάθη πάσχοντα, ἄσιον θαυμάζειν” (129b-c)
Portanto, o que realmente traria espanto a Sócrates seria a resposta às questões: como pode uma Forma ser ao mesmo tempo uma unidade e uma multiplicidade? Como pode ter ela qualidades contrárias? - por exemplo, ser “mesma” e “outra”, ser “semelhante” e “dessemelhante”, etc. Isto é, o problema mesmo então está não na multiplicidade entre as coisas sensíveis, mas entre as próprias Formas. Com este passo onde o personagem Sócrates se dirige ao personagem Zenão, Platão insere-se na problemática da articulação entre unidade e multiplicidade, que moveu toda a história da filosofia pré-socrática; porém o faz de uma maneira sui generis. Como já o fizera no Fédon44, Platão não está
acertando seus ponteiros com o relógio da tradição pré-socrática, mas sim o contrário: está acertando o relógio da tradição com os seus próprios ponteiros. O Sócrates de vinte anos fala para um Zenão de quarenta, mas na verdade o alvo da fala são todos os pré-socráticos. No seu juvenil entusiasmo com a novidade que traz, não é exagero se pensar que o personagem ateniense representa a postura de Platão para com esses sábios, que eram “melhores do que nós e viviam mais perto dos deuses”45. O sentido de
suas palavras poderia muito bem ser assim traduzido: “a questão de unidade e multiplicidade, de identidade e diferença, não está aí, onde vocês, pré-socráticos, insistiram em ver. Segundo a minha Hipótese das Formas, aí não há aporia. A aporia desta questão está no âmbito das Formas; unidade e multiplicidade, identidade e diferença entre as Formas”.
A matéria ou objeto de estudo do exercício então será as Formas. Tal é a contribuição de Sócrates para o programa de exercício que se seguirá. Contribuição simples, porém decisiva. Decisiva porque representa um salto no nível da discussão do diálogo - salto o qual marca o novo patamar onde a discussão se dará, patamar muito acima daquele no qual o pensamento do personagem Zenão operava. Com este salto para o campo das Ideias em si, Sócrates responde à aporia zenoniana e, em termos gerais, pré-socrática, e a leva para o nível da própria ontologia platônica. A grandiosidade deste salto ontológico é notadamente reconhecido por Parmênides e Zenão, que se olham e sorriem ao ouvi- lo, admirando-o (130a6-7). Quando Sócrates falar das Formas, Parmênides dará voz à sua admiração ao dizer “Sócrates, quão digno és de ser admirado (ἄγασθαι) pelo seu ardor (ὁρμῆς) no que tange aos
lógoi (ἐπὶ τοὺς λόγους)” (130a9-b1). O objeto de investigação da ginástica filosófica tem, assim, origem na posição de Sócrates.
Com o estabelecimento deste primeiro ponto, viso discordar de duas posições de Cornford
44 PLATÃO, Fédon 96a-105b. 45 PLATÃO, Filebo 16c7-8.
acerca do diálogo. Primeiramente, uma questão dramática: em seu clássico comentário à obra, o comentador afirma que “Parmênides adiciona duas qualificações” ou “modificações” ao método de Zenão, das quais a primeira seria a determinação das Formas como o objeto da investigação46. Sobre o
método já falarei. O importante aqui é que Cornford dá a entender que o personagem Parmênides poderia ser a origem do salto ontológico da discussão do nível das coisas sensíveis para o das Ideias, nível no qual o exercício deve se dar. No entanto, em atenção ao texto, podemos ver que, embora seja o treinador que prescreve o exercício, Parmênides reconhece que a ideia de que o treino se dê no “solo inteligível” não veio dele, mas do rapaz ateniense que ora conversa com eles:
Qual é então, Parmênides, disse [Sócrates], o tipo de exercício? (τίς (...)
ὁ τρόπος (...) τῆς γυμνασίας;)
Este justamente, disse [Parmênides], que ouviste de Zenão. Salvo por um ponto: admirei teres dito a ele que não admitias examinar a errância nem nas coisas visíveis nem em torno a elas, porém em torno àquelas que são tomadas sobretudo com o lógos e que se acredita serem Formas.
(135d7-e4)
Assim, contrariamente ao que se pode depreender do que afirma Cornford, entendo que a primeira característica da ginástica é oriunda do salto ontológico realizado, na verdade, por Sócrates e não Parmênides.
Ainda sobre este primeiro ponto da gymnasía, que ela se dá no âmbito do inteligível, outra interpretação de Cornford nos parece merecer ser revista. Ele afirma, com acerto, que a chave para compreensão da segunda parte do diálogo está na passagem da primeira parte para ela, com a noção da ginástica filosófica. Todavia, Cornford afirmará47 que a afirmativa de Parmênides em 137b, quando
este diz que vai tomar sua própria hipótese do Um, “certamente” não diz respeito a uma Forma platônica. Cornford parece não se prender justamente à definição acima do campo no qual o treino acontecerá: o campo das Formas. Como a segunda parte do diálogo é precisamente uma demonstração do que seria este exercício, nos parece óbvio que, se há a assunção de um objeto inteligível para a ginástica, é no mínimo coerente que o “Um” que Parmênides toma como ponto de partida seja uma “Forma” ou “Ideia”, no sentido da ontologia platônica. Cornford, por seu turno, se atém, na sua tomada de posição, ao fato de o personagem Parmênides dizer que tomará como exemplo a sua “própria” concepção do Um... Todavia, nos parece excessiva a expectativa de Cornford de fidelidade de Platão à
46 CORNFORD, 1950, p. 105. 47 CORNFORD, 1950, p. 112, nt. 1.
realidade histórica do pensamento dos pré-socráticos, no que tange à apresentação deles em drama. A rotina dos diálogos apresenta justamente o contrário, conforme apontado por Cordero e Frère48; à guisa
de exemplo, veja-se a apresentação das doutrinas parmenídicas e heraclíticas em Teeteto 179d-180e e
Sofista 242a-e, que não se coaduna fielmente com as obras eleata e efésia. Ao meu ver, se combinarmos
i) o estabelecimento das Formas como o solo no qual acontecerá a ginástica (135d-e), com ii) a afirmação de Parmênides de que tomará, como conteúdo da exemplificação do exercício, o seu próprio Um (137b), só é possível concluir que Platão está fazendo aquilo que Martin Heidegger tão bem fará vinte e quatro séculos depois: fazendo um pensador do passado assumir como sua própria a ontologia que na verdade é dele. Platão apenas é mais ardiloso e matreiro, pois o faz sob a forma de drama, quase que brincando de marionetes com estes sábios do passado. Sobre esta identificação, na segunda parte do diálogo, do Um com a Forma, Victor Brochard49 e Gilbert Ryle50 concordam conosco, e o próprio
Cornford, mais à frente, fará uma concessão neste sentido, ao afirmar a ambiguidade da palavra Um no diálogo...51
Passemos ao segundo ponto. Se, por um lado, o conteúdo do exercício veio de Sócrates, um estudante de filosofia ainda iniciante, por outro lado, o método que será nele utilizado terá uma fonte bem mais madura...