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Crit` eres sur les constantes de temps de machines fictives

I.3 Conception polyphas´ ee int´ egrant la d´ ecomposition multimachine dans le cadre

I.3.2 Adaptation de la conception de la machine ` a la commande multimachine

I.3.2.3 Crit` eres sur les constantes de temps de machines fictives

O linguista e professor Dominique MAINGUENEAU21 descreve a Análise do Discurso como uma busca por sentidos ocultos nos textos, que permanecem inacessíveis quando não se utilizam técnicas apropriadas para encontrá-los. Citando Michel Pêcheux, MAINGUENEAU alerta que não é objetivo da Análise do Discurso identificar “o” sentido do texto, mas oferecer suporte para uma leitura de níveis opacos do texto. “O desafio crucial é o de construir interpretações, sem jamais neutralizá-las, seja através de uma minúcia qualquer de um discurso sobre o discurso, seja no espaço lógico estabilizado com pretensão universal”. (1997:11)

A Análise do Discurso à qual MAINGUENEAU se refere é conhecida como “Escola Francesa de Análise do Discurso”, em oposição à “Escola Anglo-Saxã”. Fundada a partir da Linguística, a primeira considera como “discurso” o texto escrito no contexto de um quadro institucional, enquanto a segunda, proveniente da Antropologia, assume como “discurso” a expressão oral na conversação cotidiana. À primeira interessa analisar os discursos para identificar a maneira como se constroem e as relações destes com os fatos sociais; a segunda limita-se à descrição dos textos visando identificar o potencial de comunicação neles existentes e as transformações da língua reveladas pela fala dos interlocutores.

À Análise do Discurso de linhagem francesa, fortemente influenciada pelo pensamento de Michel Foucault (1926–1984), FAIRCLOUGH propõe uma metodologia de análise que leve em consideração a dimensão dialética nas relações entre discurso e sociedade. Embora reconheça a relevância de importantes postulados de Foucault para a Análise do Discurso, como a noção de “biopoder” que descreve a relação entre poder e conhecimento na sociedade moderna, conceito segundo o qual o conhecimento

21 MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas : 3ª edição,

35 (especialmente o gerado pelas ciências sociais) alimenta os detentores do poder com técnicas que permitem a perpetuação de seu poderio, técnicas estas que se manifestam na forma de práticas discursivas, FAIRCLOUGH aponta deficiências em alguns aspectos do pensamento de Foucault. Acusa-o, por exemplo, de valorizar excessivamente o poder de dominação das práticas discursivas e desconsiderar a possibilidade de a dominação ser contestada, a possibilidade dos grupos dominados se oporem aos sistemas discursivos dominantes, ao choque entre as forças sociais, as possibilidades de mudança nas relações de poder. “Na totalidade de seu trabalho e nas análises principais, a impressão dominante é a das pessoas desamparadamente assujeitadas a sistemas imóveis de poder”, afirma FAIRCLOUGH. (2008:83).

FAIRCLOUGH apresenta a Análise Crítica do Discurso (ACD) como método mais eficaz para explicitar as relações entre as práticas discursivas e as estruturas sociais e culturais; que permite investigar a maneira como as relações de poder e a luta social influenciam ideologicamente as práticas discursivas; e, considerando a “opacidade” das relações entre discurso e sociedade, de forma que esta opacidade contribui para perpetuar a hegemonia de determinados grupos sociais. “Ao me referir à opacidade, estou sugerindo que tais ligações entre o discurso, a ideologia e o poder podem muito bem ser obscuras para aqueles envolvidos, e mais geralmente que a nossa prática social é atada a causas e efeitos que podem não ser aparentes de forma nenhuma”. (In: MAGALHÃES, 2001:35)22

O professor inglês defende a existência de três dimensões nos eventos discursivos, que não podem ser ignoradas na análise:

Cada evento discursivo tem três dimensões ou facetas: é um texto falado ou escrito, é uma instância de prática discursiva envolvendo a produção e a interpretação do texto, e é uma amostra da prática social. Essas são as três perspectivas que podem ser levadas em conta, três maneiras complementares de leitura, num evento social complexo. Na análise dentro da dimensão da prática social, meu foco é político, sobre o evento discursivo dentro das relações de poder e dominação. (Idem)

FAIRCLOUGH recomenda que o texto seja analisado a partir da relação forma– significado, numa interdependência necessária. Para o autor, qualquer texto constitui-se do entrelaçamento de significados “ideacionais”, “interpessoais” e “textuais”, que indicam, respectivamente, a “representação e a significação do mundo e da experiência, a constituição (estabelecimento, reprodução, negociação) das identidades dos

22 FAIRCLOUGH, Norman. A análise crítica do discurso e a mercantilização do discurso público: as

universidades. IN: MAGALHÃES, Célia Maria (Org.). Reflexões sobre a análise crítica do discurso. Belo Horizonte, Faculdade de Letras da UFMG, 2001

36 participantes e as relações sociais e pessoais entre eles, e a distribuição da informação dada versus nova e da informação foco versus aquela de pano de fundo (no sentido mais amplo)”. (2001:36)

O professor inglês se opõe ainda à tradição que defende o caráter arbitrário dos signos linguísticos, afirmando que, ao contrário, “os signos são socialmente motivados, isto é, que há razões sociais para combinar significantes particulares a significados particulares”. (2008:103) Além disso, FAIRCLOUGH destaca que os textos são influenciados [na forma] por convenções que os dota de significado potencial. Ou seja, a adoção de determinada forma discursiva não resulta de opção tomada livremente pelo autor, mas da obediência a determinados paradigmas formais legitimadores do discurso, aspecto que deve ser levado em consideração pelo analista.

Desta forma, os textos são apresentados por FAIRCLOUGH como um complexo de significados diversos, sobrepostos e às vezes contraditórios, o que os torna abertos a múltiplas interpretações. “Os intérpretes geralmente reduzem essa ambivalência potencial mediante opção por um sentido particular, ou um pequeno conjunto de sentidos alternativos”. (2008:103)

Entretanto, o professor destaca a existência de ‘dimensões sociocognitivas’ que atuam tanto sobre a produção como da interpretação textual, dimensões estas interiorizadas pelos participantes do discurso e que são trazidas para dentro do processamento textual e do próprio texto. “Tais processos geralmente procedem de maneira não-consciente e automática, o que é um importante fator na determinação de sua eficácia ideológica – embora certos aspectos sejam mais facilmente trazidos à consciência do que outros”. (2008:109)

FAIRCLOUGH indica quatro aspectos que devem ser considerados pelo pesquisador durante a análise textual e que devem ser tomados de forma ascendente:

a) Vocabulário: foco nas palavras individuais;

b) Gramática: foco na combinação das palavras em orações e frases; c) Coesão: foco na ligação entre orações e frases;

d) Estrutura textual: foco nas propriedades organizacionais do texto.

Indica, também, outros três aspectos que devem ser considerados especificamente na análise da prática discursiva – processos de produção, distribuição e consumo textual –, embora também envolvam aspectos formais dos textos:

a) Força dos enunciados: Tipos de ‘atos de fala’ (promessas, pedidos, ameaças etc) constituídos. É um gatilho que aciona ações (respostas a uma

37 determinada ordem, a ameaças, a perguntas, a promessas etc). Nesta perspectiva, a identidade social dos participantes influencia diretamente a efetividade da força dos enunciados. Quanto maior a ascendência de quem fala sobre quem recebe a mensagem, maior será a força dos enunciados. b) Coerência dos textos: Extrapola a concepção tradicional que considera o

sentido como propriedade dos textos, incluindo-o também como propriedade das interpretações. “... um texto só faz sentido para alguém que nele vê sentido, alguém que é capaz de inferir essas relações de sentido na ausência de marcadores explícitos”, afirma FAIRCLOUGH (2008:113). A possibilidade de interpretação pode inclusive estar subordinada a pressupostos ideológicos, por exemplo quando alguém diz: “Ela pede demissão na próxima quarta-feira. Está grávida”, cuja interpretação está subordinada ao pressuposto de que as mulheres param (ou devem parar) de trabalhar quando têm filhos.

Na medida em que os intérpretes tomam essas posições e automaticamente fazem essas conexões, são assujeitados pelo texto, e essa é uma parte importante do ‘trabalho’ ideológico dos textos e do discurso na ‘interpelação do sujeito’. Entretanto, existe a possibilidade não apenas de luta quanto a diferentes leituras dos textos, mas também de resistência às posições estabelecidas nos textos. (2008:113-114)

c) Intertextualidade: FAIRCLOUGH aponta três dimensões relacionadas à intertextualidade: produção, distribuição e consumo. A primeira concerne à produção textual e lhe confere um caráter histórico: os textos sempre respondem a textos prévios, como acréscimos a estes. A participação destes textos prévios às vezes pode ser explicitamente delimitada e em outras, de tão mesclados, dificilmente é identificada. Na distribuição, a intertextualidade se manifesta pela ‘movimentação’ dos textos, que passam de um meio a outro sofrendo as inevitáveis transformações. Por exemplo, uma reportagem sobre determinada exposição de arte, cujo texto primário (a exposição) está presente na reportagem, mas não se trata do mesmo texto. Na terceira dimensão, o consumo, que diz respeito à interpretação do texto, é influenciado por outros textos que os intérpretes trazem ao processo de interpretação – o repertório do receptor que de alguma forma está relacionado ao texto.

38 “Reunidos, esses sete itens constituem um quadro para a análise textual que abrange aspectos de sua produção e interpretação como também as propriedades formais dos textos”. (2008:103-104)

FAIRCLOUGH (2008:282) indica as categorias de análise que permitem uma abordagem do texto em seus diferentes aspectos, ressalvando que nem todas precisam ser utilizadas, já que “algumas das categorias são provavelmente mais relevantes e úteis que outras”, podendo o analista selecionar aquelas que apresentem maior proximidade do seu interesse de pesquisa.

a) Prática discursiva

a. Interdiscursividade: tem como objetivo especificar os tipos de discurso identificados na mostra discursiva em análise e de que maneira atuam.

b. Cadeias intertextuais: objetiva especificar as cadeias textuais das quais a amostra textual participa, transformando ou sendo transformada.

c. Coerência: objetiva verificar as implicações das propriedades intertextuais e interdiscursivas, na perspectiva da interpretação. Esta categoria de análise envolve a realização de pesquisa sobre a maneira como os textos são interpretados pelos leitores em busca de respostas para questões como o trabalho inferencial que é requerido dos leitores.

d. Condições da prática discursiva: Objetiva especificar as práticas sociais relativas à produção e ao consumo do texto. O texto resulta de uma produção individual ou coletiva? O consumo é individual ou coletivo? As pessoas do animador, autor e principal são a mesma ou diferentes?

e. Intertextualidade manifesta: Que outros textos constituem manifestamente a amostra textual?

b) Texto

a. Controle interacional: Objetiva descrever as propriedades organizacionais da interação, identificando se há controle interacional assimetricamente exercido ou se o mesmo é negociado entre os participantes.

39 b. Coesão: Objetiva a maneira como orações e períodos se conectam no texto e a retórica daí resultante. Que relações funcionais existem entre as orações e períodos?

c. Polidez: Identificar as estratégias de polidez adotadas pelos participantes visando expor as diferenças entre eles e a posição social de cada um.

d. Ethos: Permite reunir características que constroem a identidade social por trás do texto.

e. Gramática: A partir de três dimensões específicas da oração, transitividade, tema e modalidade, procura identificar as funções da linguagem ideacional, textual e interpessoal.

i. Transitividade: Objetiva identificar tipos de processo e participantes privilegiados pelo texto e as escolhas de voz (ativa ou passiva). Interessam, também, a agência, a expressão de causalidade e a atribuição de responsabilidade. Que tipos de processo (ação, evento, relacional, mental) são mais usados e que fatores podem ser considerados em função disso?

ii. Tema: Objetiva identificar a existência de padrões discerníveis na estrutura temática do texto que justifique as escolhas dos temas das orações. Qual é a estrutura temática do texto e que suposições lhe são subjacentes? Os temas são frequentes e, em caso positivo, quais são suas motivações? iii. Modalidade: Objetiva avaliar o significado relativo das

características da modalidade visando as relações sociais presentes no discurso e o controle das representações da realidade. Que tipos de modalidade são mais frequentes? São predominantemente subjetivas ou objetivas? Que características de modalidade (verbos modais, advérbios modais etc) são mais usadas?

f. Significado das palavras: Concentra-se nas palavras-chave e no significado cultural destas, nas palavras com significados variáveis e mutáveis, e no significado potencial de determinadas palavras –

40 considerando uma estrutura particular de significados – como uma manifestação de hegemonia e foco de luta.

g. Criação de palavras: Identificar a lexicalização específica do texto comparando-a à estrutura lexical de outros textos, identificando a perspectiva interpretativa que subjaz à escolha lexical adotada. O texto contém itens lexicais novos e, em caso positivo, que significado teórico, cultural e ideológico eles têm? Que relações intertextuais estão delineadas para a lexicalização no texto? Há evidências de perífrase ou relexicalização de certos domínios de sentido?

h. Metáfora: Observar as metáforas adotadas na amostra discursiva e contrastá-las com as utilizadas com sentido semelhante em outros textos, determinando que fatores (cultural, ideológico etc.) determinam a escolha das metáforas.

c) Prática social: Objetiva identificar a prática social na qual a prática discursiva se insere, o que permite explicar as características da prática discursiva. Considerando o caráter dialético da Análise Crítica do Discurso, objetiva também identificar os efeitos da prática discursiva sobre a prática social.

a. Matriz social do discurso: Procura identificar as estruturas sociais participantes da prática discursiva e as relações hegemônicas entre elas. De que modo a mostra discursiva participa dessa relação: é convencional e normativa, criativa e inovadora, orientada para reestruturá-la, opositiva etc.? Quais os seus efeitos nas perspectivas de reprodução ou transformação?

b. Ordens de discurso: Identifica as relações das práticas sociais e discursivas com as ordens de discurso e as contribuições daquelas para a reprodução ou transformação das ordens de discurso com as quais se relaciona.

c. Efeitos ideológicos e políticos do discurso: Objetiva identificar os sistemas de conhecimento e crença, as relações sociais e as identidades sociais que permeiam a prática discursiva.

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