I.3 Conception polyphas´ ee int´ egrant la d´ ecomposition multimachine dans le cadre
I.3.1 Commande multimachine de la machine polyphas´ ee aliment´ ee par on-
A razão para buscar nos textos os indícios que permitam conhecer a crítica de arte contemporânea se fundamenta na afirmação da professora Eni P. ORLANDI17, para quem os dizeres não são passíveis de mera compreensão através da decodificação de palavras e frases. Mais que isso, “são efeitos de sentidos que são produzidos em condições determinadas e que estão de alguma forma presentes no modo como se diz, deixando vestígios que o analista de discurso tem de apreender”. [Destaque acrescentado] (ORLANDI, 2007:30). A professora conceitua discurso como palavra em movimento, prática da linguagem, como “movimento dos sentidos, errância dos sujeitos, lugares provisórios de conjunção e dispersão, de unidade e de diversidade, de indistinção, de incerteza, de trajetos, de ancoragem e de vestígios: isto é discurso, isto é o ritual da palavra. Mesmo o das que não se dizem”. (2007:10). Em outra obra18, ORLANDI define discurso como “efeito de sentidos entre interlocutores, enquanto parte do funcionamento social geral”, cujo sentido está sujeito às suas condições de produção, a saber, o papel social dos interlocutores, a situação e o contexto sócio- histórico no qual o discurso ocorre. “Quando se diz algo, alguém o diz de algum lugar da sociedade para outro alguém também de algum lugar da sociedade e isso faz parte da significação”. (1996:26). O também professor e linguista Norman FAIRCLOUGH19 contribui com a definição de discurso nos seguintes termos:
Ao usar o termo ‘discurso’, proponho considerar o uso de linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais. Isso tem várias implicações. Primeiro, implica ser o discurso um modo de ação, uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros, como também um modo de representação. (...) Segundo, implica uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social, existindo mais geralmente tal relação entre a prática social e a estrutura social: a última é tanto uma condição como um efeito da primeira. (...) O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que, direta ou indiretamente, o moldam e o restringem: suas próprias normas e convenções, como também relações, identidades e instituições que lhe são subjacentes. O discurso é uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado. (FAIRCLOUGH, 2008:90-91) [Destaque acrescentado]
Ainda segundo FAIRCLOUGH, os discursos contribuem para a construção de ‘identidades sociais’ e ‘posições de sujeito’, para a construção de relações sociais entre
17 ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 7ª edição, Campinas, Pontes
Editores, 2007
18 _____________. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Campinas : 4ª edição,
Editora Pontes Editores, 1996.
31 as pessoas e também para a construção de sistemas de conhecimento e crença. “Estes três efeitos correspondem respectivamente a três funções da linguagem e a dimensões de sentido que coexistem e interagem em todo discurso – o que denominarei as funções da linguagem ‘identitária’, ‘relacional’ e ‘ideacional’. ” (2008:91-92)
A função identitária relaciona-se aos modos pelos quais as identidades sociais são estabelecidas nos discursos, a função relacional a como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas, a função ideacional aos modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações. (...) Hallidey (1978) também distingue uma função ‘textual’ que pode ser utilmente acrescentada à minha lista: isso diz respeito a como as informações são trazidas ao primeiro plano ou relegadas a um plano secundário, tomadas como dadas ou apresentadas como novas, selecionadas como ‘tópico’ ou ‘tema’, e como partes de um texto se ligam a partes precedentes e seguintes do texto, e à situação social ‘fora’ do texto. (2008:91-92)
O linguista defende que, se por um lado, os discursos podem contribuir para as reproduções da sociedade, com a reificação de identidades sociais e crenças, por outro, também podem transformá-la. Contudo, a atuação dos discursos sobre a sociedade não deve ser tomada como determinante social ou ainda como construtora de padrões sociais. O autor alerta que tais concepções conduzem a conclusões errôneas por desconsiderar a maneira dialética pela qual os discursos interagem com as estruturas sociais. “No primeiro caso, o discurso é mero reflexo de uma realidade social mais profunda; no último, o discurso é representado idealizadamente como fonte do social”. (Idem). FAIRCLOUGH defende ainda que “a constituição discursiva da sociedade não emana de um livre jogo de ideias nas cabeças das pessoas, mas de uma prática social que está firmemente enraizada em estruturas sociais materiais concretas, orientando-se para elas”. (2008:93)
O discurso como prática política é não apenas um local de luta de poder, mas também um marco delimitador na luta de poder; a prática discursiva recorre a convenções que naturalizam relações de poder e ideologias particulares e as próprias convenções, e os modos em que se articulam são um foco de luta. (...)
Em lugar de dizer que tipos de discurso particularmente têm valores políticos e ideológicos inerentes, direi que diferentes tipos de discurso em diferentes domínios ou ambientes institucionais podem vir a ser ‘investidos’ política e ideologicamente de formas particulares. (2008:94-95) [Destaque acrescentado]
A aproximação entre campos de estudos paralelos, a Linguística e a Sociologia, resulta na Sociolinguística, que se ocupa da linguagem relacionando o ato da fala não apenas ao ambiente social do indivíduo, sua cultura e seu papel na sociedade, como também às relações de força (ideologias) que atuam na construção dos discursos. Segundo ORLANDI (1996:98)
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A um determinado tipo de estrutura social acompanharia determinado tipo de estrutura linguística. Condicionamento recíproco desses dois tipos de estrutura: condicionamento linguístico da sociedade – quando a língua cria a identidade; condicionamento social da língua – quando a estrutura da sociedade está refletida na estrutura linguística. Entretanto, ainda assim são relações que permanecem exteriores ao fato linguístico. A questão decisiva para a sociolinguística está em como considerar aquilo que é socialmente constitutivo da linguagem. Para Saussure, a língua é um fato social. O que é fato social, para Saussure? É representação coletiva (exterior ao indivíduo), dotada de um poder de coerção em virtude do qual os fatos sociais se impõem ao indivíduo, e têm por substrato e suporte a consciência coletiva.
A sociolinguística compreende que o uso da língua pressupõe uma recorrência a hábitos adquiridos, em que o reflexo, o ato automático, se sobrepõe ao ato consciente. “Pode-se falar pensando em palavras sem que o pensamento das coisas esteja efetivamente em movimento”, afirma ORLANDI. (1996:100). Por exemplo, a expressão “mulato” decorre de um hábito linguístico que não aciona necessariamente o pensamento racista consciente – embora a ideia racista esteja presente na origem do uso da palavra “mulato” para designar o indivíduo nascido da mestiçagem entre brancos e negros.
Em FAIRCLOUGH, a ideia de discurso como prática social está relacionada à ideologia, relação que ocorre na forma de “significações/construções da realidade (o mundo físico, as relações sociais, as identidades sociais) que são construídas em várias dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas” e atuam produzindo, reproduzindo ou transformando relações de dominação. (2008:117). O linguista declara concordância com o ponto de vista de Palmer Thompson, para quem o uso da linguagem pode ocorrer de forma ideológica, na medida em que objetiva manter ou estabelecer relações de dominação. “As ideologias embutidas nas práticas discursivas são muito eficazes quando se tornam naturalizadas e atingem o status de ‘senso comum’ ”, afirma FAIRCLOUGH. (Idem) O componente ideológico se manifesta nos discursos quando estes incorporam significações que promovem a manutenção das relações de poder ou a transformação das mesmas.
A adoção, por parte da crítica de arte, de um discurso marcado por expressões difíceis de serem compreendidas pelos leitores de jornais pode ser considerada uma forte afirmação de poder baseado em conhecimento que permanece inacessível para extensos segmentos da sociedade, contrariando a sua finalidade de mediar a relação entre as artes visuais e o público – conforme abordado na abertura do capítulo sobre a crítica. A escolha lexical pode não apenas atuar como fronteira de feudos, como reforçar a ideia de sua inexpugnabilidade.
33 A condição contrária é designada por FAIRCLOUGH como “democratização” do discurso, assim entendida a “retirada de desigualdades e assimetrias dos direitos, das obrigações e do prestígio discursivo e linguístico dos grupos de pessoas” (2008:248), o que sugere que a sociedade ou grupo social exposto ao uso ideológico da linguagem esteja inapelavelmente condenado à dominação; ele pode, ao contrário, transcender o discurso e seus efeitos assumindo discurso contrário que force mudanças no discurso hegemônico e altere as relações de força. Esta possibilidade reforça o caráter dialético da relação entre discurso e sociedade. Segundo o linguista,
... um evento discursivo pode ser uma contribuição para preservar e reproduzir as relações e as hegemonias tradicionais de gênero [ou outras relações20] e pode, portanto,
ligar-se a convenções problematizadas, ou pode ser uma contribuição para a transformação dessas relações mediante a luta hegemônica; dessa forma, tentando resolver os dilemas pela inovação. Os próprios eventos discursivos têm efeitos cumulativos sobre as contradições sociais e sobre as lutas ao seu redor. Assim, para resumir, os processos sociocognitivos serão ou não inovadores e contribuirão ou não para a mudança discursiva, dependendo da natureza da prática social. (2008:128)
Citado por Orlandi, o linguista norteamericano William LABOV (In: ORLANDI, 1996:102) designa os grupos sociais que compartilham as mesmas normas de uso da língua como “comunidades linguísticas”, conceito que vai ao encontro do objetivo da presente pesquisa, que procura abstrair – num primeiro momento – a figura do indivíduo que exerce a função de crítico de arte, em favor da coletividade dos críticos de arte, como comunidade linguística cuja forma peculiar de operacionalizar a língua será oportunamente demonstrada.
As comunidades linguísticas são identificadas como diatópicas, quando se diferenciam por singularidades regionais, diástricas, quando se singularizam em função da posição social que ocupam, e diafásicas, quando as peculiaridades estão relacionadas às funções da linguagem e aos estilos adotados. Considerando esta classificação, os críticos de arte constituem um grupo simultaneamente diástrico, pela posição social, e
diafásico, pela atuação da linguagem como fronteira de um campo específico. Esta definição aponta para um problema periférico da presente pesquisa, relacionado à adequação da linguagem adotada pela crítica periodística. A condição de produto midiático, e portanto inserido na lógica da comunicação de massa, impõe à crítica a necessidade de se expressar numa linguagem que possa ser compreendida pelo público ao qual se destina, o que muitas vezes não ocorre. A questão é colocada como hipótese, já que a comprovação exigiria a realização de pesquisa de opinião com leitores de
34 jornais – o que não está previsto. Entretanto, a análise dos textos revelará indícios que validam a hipótese.
Estas considerações visam demonstrar a pertinência da análise da crítica periodística a partir de sua produção textual, ou seja, de seu discurso, aspecto a partir do qual é possível, inclusive, construir um perfil desta crítica. Consolidada esta etapa, parte-se para a identificação e a descrição de um instrumento metodológico adequado aos objetivos da pesquisa.