l’artificialisation du sol : une lecture par les découpages de l’INSEE
2.2. La non-corrélation statistique entre les dynamiques de peuplement et l’artificialisation du sol
Se o termo
geloi'on
pode ser tomado como uma forma de prazer que, despertando a atenção do ouvinte, permite o entendimento de assuntos sérios, importa também ter em conta que este se concretiza, quase sempre, através de uma falta de decoro a nível linguístico, circunstancial e situacional, criando situações de incongruência ou de inadaptação.Segundo Aristóteles, o uso desastroso de um estilo poético na prosa produz, entre outras coisas, o
geloi'on
85. E acrescenta ainda, noutro contexto, que o uso de procedimentos excessivamente aparatosos no discurso é ridículo e produz uma situação de incongruência86. Além disso, igualmente ridículo poderá ser o desajuste de certa situação ou contexto a determinado género literário, como será o caso, por exemplo, de certas descrições da epopeia serem postas em cena no palco. É que, segundo entende Aristóteles, a epopeia incorpora o maravilhoso e o irracional e se esse irracional é perfeitamente aceitável no género épico, tornar-se-ia ridículo, porque incongruente, se se quisesse representar. E isto porque, para além de determinadas impossibilidades logísticas, estar-se- ia a apresentar como racional o que de facto é irracional87.Entendido como o resultado daquilo que se entende ser uma falta de decorum linguístico e estilístico88, o termo também se pode aplicar à própria situação retratada, onde
se espelha a inadaptação de determinada personagem à circunstância ou situação em que se encontra89. E será pois neste último contexto que o termo grego e o vocábulo burlesco melhor se identificam.
85 cf. Arist. Rh. 3.1406a 32-35.
86 cf. Arist. Po. 1458b 12-15. Aristóteles, referindo-se particularmente ao contexto da boa elocução, considera que a medida é necessária em todas as partes da elocução, pois quem quiser usar metáforas, palavras estranhas e outras figuras sem conta conseguirá obter um efeito ridículo. Esta abordagem aristotélica pode ser entendida como uma espécie de incongruência entre o estilo e o sujeito, o que se enquadra dentro da perspectiva da acepção actual do termo burlesco.
87 cf. Arist. Po. 1460a 15-20. O exemplo apresentado por Aristóteles, nesta passagem, faz referência à perseguição de Heitor na Ilíada de Homero e ao facto de algumas descrições da epopeia poderem tornar-se ridículas caso sejam postas em cena na tragédia ou em qualquer outro palco.
88 Quintiliano considera que a falta de decorum pode resultar da utilização imprópria de certas palavras e não tanto de um determinado estilo, pelo que faz referência às palavras que devem ser evitadas (cf. Quint. Inst. 6.3.33).
89 Vários são os exemplos que atestam a inadaptação ou incongruência circunstancial. Veja-se, por exemplo, Aristófanes n’As Rãs, onde um homem gordo corre curvado fazendo um terrível esforço de todo desapropriado para a sua constituição física (cf. Ar. Ra. 1089-1098). Também Platão nos dá conta dos atletas que, depois de muito se vangloriarem, acabam a corrida, segundo um comentário de Platão, de orelhas caídas, ridicularizando-se a si próprios (Platão, R. 10. 613d c.).
A relação que o geloi'on estabelece com a incongruência ou inadaptação lexical e situacional está fundamentada num autor da época alexandrina, Hermógenes de Tarso que, no seu tratado retórico
O burlesco tende a tomar a trivialidade por matéria, e a tratá-la com elaborada grandeza e forjada solenidade, ou, pelo contrário, humanizar as figuras sobre-humanas, em todos os seus aspectos, passando a falar rudemente e a comportar-se ridiculamente. E assim, a frivolidade do sujeito pode ser jocosamente elevada, pelo estilo da apresentação, ou o importante sujeito ser jocosamente degradado90. Porém, mais do que inverter a realidade ou criar um mundo às avessas, o burlesco, como muito bem o definiu a estudiosa Jesus, “rejeita a dimensão trágica, buscando sempre efeitos cómicos através da degradação do objecto visado, geralmente obtida pelas discrepâncias entre o estilo sublime e assunto trivial, altas expectativas e revelações degradantes”. Além disso, “o burlesco passa também pelo tratamento da movimentação cénica, caracterização das pessoas e valorização dos pormenores”91.
Esta é de resto uma definição que não só encontra pontos de afinidade com a interpretação que tem vindo a ser feita do termo grego, mas também com o primitivo espírito romano, e particularmente com a realidade inerente aos vocábulos latinos festivitas e dicacitas, pois, recorde-se que as cerimónias festivo-religiosas revelaram desde cedo uma forte tendência para a ridicularização de generais, sem que tal procedimento desonrasse ou provocasse o sofrimento e o ressentimento daquele que, entre elogios, também era alvo de ataques. Além disso, a própria movimentação cénica inerente ao burlesco também não está alheia ao povo romano, a quem lhe agradavam, sobretudo, as manifestações teatrais que primassem pelo movimento, pela dança e teatralidade.
Desta forma, contrariamente ao
bwmolovgo",
que não conhece limites para despertar o riso dos outros92, o desajuste linguístico ou circunstancial torna-se num “mecanismo deperij stavsewn (440-442) considera que o ridículo assenta em três fontes: a paródia da elocução, a perturbação dos factos contra as expectativas e o contraste entre a perturbação da elocução e do próprio facto em si.
Sobre a concretização do geloi'on no campo linguístico, mas também circunstancial e situacional, consulte-se DOMINIQUE (1998) 13-20.
90 cf. HIGHET (1962) 103-127 e JUMP (1972) 71-72. 91 cf. JESUS (1989-1991) 137.
92 A escolha do estilo mais apropriado corrobora o pensamento presente em Aristóteles in Eth. Nic. 1127b33- 1128b 4, onde a clara distinção entre o homem de bom-tom e o zombador ou bufão consiste no facto de o primeiro saber coordenar os seus movimentos de acordo com o seu carácter moral e de conhecer os limites que o riso lhe impõe, enquanto o segundo os exceder todos os limites, revelando-se mesmo escravo do seu próprio humor, no qual até mesmo a ridicularização de si próprio é aceitável desde que, com isso, se faça rir os outros.
comicidade”93, que consegue conciliar a capacidade de agradar e captar a atenção do ouvinte com a de permitir o entendimento de assuntos sérios.
Conforme se procurou pôr em evidência, o
geloi'on,
sendo portador de uma dimensão positiva, próxima do salutar riso primitivo, e caracterizado por uma natureza indolor, à qual se impõem determinados limites, tende, assim, a rejeitar o abusivo ataque pessoal, ainda que a sua natureza dramática lhe permita espicaçar o espectador, sem, no entanto, lhe causar dor ou ruína. E, um pouco à semelhança das máscaras usadas na comédia ática, que apenas faziam o esboço caricatural da figura representada, no sentido de a ridicularizar e fazer rir o espectador, também o burlesco permite, ao poeta, ridicularizar os vícios e comportamentos humanos, servindo-se da comicidade das incongruências linguísticas e situacionais e do riso que estas provocam no leitor94.Em suma, este recuo terá servido ao entendimento do termo grego
geloi'on
e à aproximação que este mantém com a acepção que o termo burlesco tem na actualidade, para se entender melhor a obra de Marcial. E isto porque consideramos que este, distanciando-se da figura dobwmolovco"
, criticado por Platão e Aristóteles ou do scurraaut mimus95, com quem, segundo Cícero, o orador não se deveria identificar, consegue,
com a sua habilidade linguística, ridicularizar vícios e actividades ou procedimentos menos correctos, ou melhor, de todo, moral, social e eticamente incorrectos, sem, no entanto, aniquilar a pessoa em si, pelo menos aparentemente. As vítimas são ridicularizadas pela forma como se vestem, se movimentam ou pela sua aparência, muitas vezes tosca, grosseira ou até mesmo grotesca, sem que, com isso, despertem piedade ou dor no espectador ou no próprio alvo da crítica, mas tão-só façam libertar uma forte gargalhada, que o espectador, rindo-se da personagem posta em cena, ri-se muitas vezes de si próprio sem quase dar por isso.
93 cf. GAGLIARDI (1980) 33: “Il meccanismo della comicità starebbe tuto in una sproporzione odin un contrasto”.
94 Note-se que esta dimensão dramática, que se considera estar presente no espírito burlesco, está atestada em Marcial, quando este estabelece um paralelo entre os seus epigramas e as representações teatrais, nomeadamente com as festas florais: epigrammata illis scribuntur qui solent spectare Florales. non intret Cato theatrum meum , aut si intraverit, spectet. (1 pref. 17-19).
95 Cic. de Orat. 2.239.
Segundo entendemos, a figura do mimus e do scurra não são mais do que o reflexo do bwmolovcon aristotélico que acabou por ser romanizado pelo teatro latino e, por isso, bem conhecido do público romano. E assim sendo, Horácio terá retomado a figura do bufão ou do scurra e do mimus com a apresentação do scurra mimicus ou parasitus ridiculus (Hor. S. 1.4.34-38, 81-89; Ep. 1.15. 26-32), normalmente adjectivado de dicax (S.2.8.83) e urbanus, no sentido de hábil (S. 2.8.90), que o público já conhecia dos mimos e das antigas comédias.