Ainda que seja comum a todos os autores supra-referidos uma mesma reacção à tradição literária, que apenas reconhece os géneros que cultivam um estilo elevado e
229 Sobre a recusatio na poesia Flaviana veja-se um estudo recente de NAUTA (2006) 21-40.
230 Surgindo entre a elite cultural, a literatura desta época tivera como principal mentor Quinto Lutácio Catulo e ficara conhecida por literatura pré-neotérica. A designação neotérica, atribuída depreciativamente por Cícero, designava um tipo de poesia de entretenimento, algumas vezes denominada também de nugae (cf. CONTE (1999[1994]) 136-140).
231 A recusatio, invenção poética de Calímaco no século III a. C., terá tido a sua primeira expressão no Prólogo aos Aetia, onde o poeta helenista apresenta os motivos que o levaram a não se dedicar ao estilo grandíloquo, sendo a incapacidade poética apresentada como a primordial causa.
232 cf. WILLIAMS G. (1985b) 222. 233 cf. Hor. S. 2.1.10.15; Ep. 2.1.245-259. 234 cf. edição de CONINGTON (1998) 2.
grandíloquo, entendemos que Marcial e Juvenal se distinguem dos restantes autores por aquilo que consideramos ser uma “Cúmplice recusatio”. Ou seja, uma recusa que não parece ser apenas da persona poetica, como nos restantes autores, mas também do próprio autor, enquanto homem de Roma, comprometido com a realidade do seu tempo, assim como do público/leitor que partilha, senão mesmo reclama, a reacção a géneros que estão desajustados dos seus reais interesses. Pois, como pode o poeta dedicar-se a uma poesia de argumento mitológico, inteiramente alheia à realidade, quando esta reclama a sua atenção? Ou como pode o público/leitor ouvir enfadonhas erudições sobre personagens heróicas ou sobre feitos gloriosos se os seus interesses reais se regem pela mesquinhez do prazer, da ambição ou tão-só da fútil trivialidade?
É pois, segundo se entende, numa relação de cumplicidade, mais ou menos consciente, entre o poeta e o público/leitor que a tradição literária é negada e é feita a apologia de um género que, apesar de não ser admirado e até mesmo reconhecido pelos cânones literários, está, contudo, ajustado ao contexto sócio-cultural da época e à própria realidade pessoal dos poetas.
Todavia, se a designação de “Cúmplice recusatio” é comum a Marcial e a Juvenal, a forma como esta se expressa nas suas obras é diferente: no primeiro, o público/leitor, manifestando o seu agrado pela jovialidade e ligeireza dos espectáculos públicos e privados, torna-se cúmplice da recusatio, na medida em que condiciona a escolha do poeta e o leva a insistir no carácter prazenteiro e licencioso dos seus versos; no segundo, o público/leitor torna-se cúmplice da recusatio na medida em que partilha da indignação do poeta e da inevitabilidade da escolha da sátira, como única forma de denunciar a viciosa realidade.
Marcial declara que a sua poesia tem sabor a homem - hominem pagina nostra sapit (10.4.8.10) -, garantindo não ofender ou causar qualquer tipo de ruína235, mas apenas expor os vícios, de forma a permitir aos Homens o conhecimento dos seus costumes236. Contudo, sabe que, para poder agradar o público e obter dele o merecido reconhecimento, até porque este tem um gosto difícil de satisfazer,237 os seus escritos terão de proporcionar um agrado
235 cf. 1, pref. 1-6. A declaração abordada, posteriormente, integra-se no distanciamento que Marcial pretende estabelecer entre os seus escritos inofensivos e a falta de comedimento que faltou aos autores antigos, que abusaram dos nomes verdadeiros e até dos grandes nomes.
236 cf. 10.33.10: parcere persona, dicere de vittis; cf. 10.4.11-12: tuos cognoscere mores, te scire.
237 É ao seu próprio livrinho que Marcial adverte, desde logo, para a humilhação a que poderá estar sujeito, face ao sentido demasiadamente crítico dos Romanos:
semelhante àquele que era alcançado pelas festas florais e até pelos restantes espectáculos públicos em geral238. Ou seja, os seus versos deverão conter gracejos suficientemente jocosos e licenciosos, como convém ao leitor/público, sem deixarem de, todavia, conter a moderação e a inocência necessárias ao respeito que deve haver pelos visados, sob pena de os seus epigramas se tornarem ofensivos, e, por conseguinte, criticados e rejeitados. E nesta perspectiva, o público ocupa um papel de destaque na obra de Marcial, na medida em que legitima as suas escolhas e garante o reconhecimento do género escolhido diante da tradição. Além disso, o facto de as situações representadas estarem cronologicamente bastante próximas da realidade vivenciada pelo leitor permite uma maior partilha e aceitação de tudo o que está a ser exposto. Pois afinal, tudo se passa como se leitor e poeta estivessem mesmo ali, lado a lado, a observar a realidade, e, por conseguinte a legitimar tudo o que vai sendo deicticamente apontado com o dedo acusador de Marcial.
Em Juvenal, a cumplicidade não parte das exigências do leitor/ouvinte para a validação da escolha, mas antes da necessidade de consciencialização do leitor para a inevitabilidade do género eleito pelo poeta. Ou seja, partilhando o leitor da indignatio de Juvenal acaba por tornar-se cúmplice e, por conseguinte, comprometer-se no processo de denúncia e censura que assiste ao género satírico. Até porque, caso não proceda desta forma, arrisca-se a ser integrado no próprio universo dos visados. Pois a ambiguidade criada em algumas passagens na identificação do pronome pessoal tu ou do destinatário da 2ª pessoa do singular parece querer colocar o leitor apenas entre a opção de assumir a posição de leitor comprometido com a denúncia que está a ser feita pelo poeta, e, por conseguinte, distanciar-se de tais críticas, ou, pelo contrário, sentir-se como parte integrante dos viciosos que estão a ser desmascarados. Juvenal tem consciência da responsabilidade que o leitor deve assumir diante da realidade representada e da empatia que terá de ser criada com o seu público/leitor, para que os seus julgamentos críticos
nescis, heu nescis dominae fastidia Romae:
crede mihi nimium Martia turba sapit. maiores nusquam rhonchi: iuvenisque senesque et pueri nasum rinocerotis habent. (1.3.3-6)
A metáfora do nariz do rinoceronte sugere o sentido apuradamente crítico dos Romanos, já que o nasus era, para estes, o órgão representante desse sentido, e simultaneamente o seu carácter impiedoso que não poupa ninguém à crítica, tal como o corno de um animal selvagem e de grande porte como o rinoceronte.
possam ser partilhados e sentidos de uma forma semelhante pelos leitores239. Assim sendo, visivelmente identificado com o ouvinte do seu tempo, logo no primeiro verso das suas sátiras: Semper ego auditor tantum (S. 1.1), o satírico deixa antever a importância que o ouvinte/leitor virá a ocupar na obra poética. Contudo, contrariamente a Marcial, não será o leitor comum, com gostos e tendências futilmente lúdicas que marcará presença em Juvenal, mas antes o ouvinte privilegiado que é capaz de usufruir da plena capacidade de avaliação crítica e, por conseguinte, de partilhar a visão indignada do poeta e até mesmo os seus juízos de valor.
Assumindo Juvenal a sua condição de ouvinte, reconhece também o poeta reunir as perfeitas condições necessárias para se entregar aos exercícios sobre temas legais (controversiae), às actuações sobre hipotéticas situações e personagens históricas (suasoriae), e ser capaz de tomar por tema os conteúdos das estéreis recitationes, repletas de referências mitológicas, trágicas e épicas, pois assim lhe permite a educação retórica que recebera240. Porém, é precisamente a sua condição de ouvinte, provavelmente mais privilegiada, que o impede de cultivar aquilo que, desajustado à realidade circundante, agrada apenas a um público de gostos e tendências fúteis e inúteis.
Podendo parecer existir alguma contradição nesta simultânea identificação/ afastamento da persona poética com a figura do leitor/ouvinte, na verdade é preciso ter em conta que a sua condição de ouvinte não corresponde exactamente aos padrões do leitor/ouvinte do seu tempo, mas antes aos de um “professional listener”241, ou seja, de um ouvinte que mantém a distância necessária à sua condição de satírico. Neste sentido, sem que Juvenal deseje de forma alguma confundir-se com a figura do ouvinte/leitor que assiste atónito às leituras públicas, entendemos que esta identificação visa desde logo alcançar a confiança do leitor, no sentido de desenvolver entre eles uma cumplicidade que tenderá a
239 A ideia de cumplicidade coaduna-se perfeitamente com o que FRYE (1967) 75-89 considera ser um elemento caracterizador da sátira. Pois se um dos elementos da sátira é o objecto de ataque, será importante que escritor e leitor partilhem de um mesmo desagrado.
240 Juvenal evidencia, nos primeiros versos da sua sátira 1, a educação retórica que recebera na escola (S. 1.15) e a familiaridade que tem com os temas comuns da retórica, nomeadamente com a referência a Sila, Aníbal e a César. E a confirmar esta educação retórica está precisamente o tipo de linguagem e o estilo que usa, quando manifesta o seu desagrado pela literatura do seu tempo. Pois, para além de recorrer a contínuas perguntas de retórica logo no início do seu discurso (S. 1.1-4), não se inibe de as fortalecer com repetições, com palavras que sugerem o tom rouco e desagradável das recitationes (Cordi rauci) e com os familiares contrastes linguísticos entre semper e numquam.
Para uma possível abordagem mais aprofundada sobre a relação que Juvenal estabelece com a retórica e os géneros em voga, consulte-se GÉRARD (1976) 72-103.
crescer, e que, para já, visa conferir autoridade à escolha literária do poeta. As recitationes estavam cada vez mais reduzidas a um público restrito e tornaram-se desajustadas aos gostos e costumes da maioria dos Romanos. Por isso, a identificação de Juvenal com o
auditor do seu tempo e a sua recusa em se entregar aos exercícios retóricos não só seria
bem aceite pelo público como teria a sua cumplicidade.
Concordando com Wihke que considera a sátira um “purposeful genre”242, a cumplicidade do leitor com a voz poética apresenta-se assim como a primeira tentativa de Juvenal incutir o seu ponto de vista. Pois, a partir do momento que o leitor está consciente da inadequação dos géneros consagrados pela tradição às necessidades da realidade circundante torna-se cúmplice da inevitabilidade da escolha do género satírico, mas também capaz de compreender melhor a indignação do poeta diante dos vícios que assolam a sociedade. E assim, mais facilmente se tornará conivente com os sentenciosos juízos de valor, mais ou menos mordazes e acérrimos, que vão sendo feitos ao longo das sátiras.
Depois da identificação com o auditor, Juvenal manifesta a sua vontade de discorrer pelos mesmos caminhos por onde Lucílio terá conduzido os seus cavalos, conforme se deduz da alusão feita ao fundador do género satírico. E a esta escolha apenas sugerida, seguem-se as justificações, sem que antes se peça, de uma forma indirecta, licença para tal exposição:
cur tamen hoc potius libeat decurrere campo per quem magnus equos Auruncae flexit alumnus,
si vacat ac placidi rationem admittis, edam. (S. 1. 19-21)
Entre a amabilidade de quem pede ao leitor o tempo e a disposição favorável para ouvir as razões da sua escolha, e a condição imposta de este dever possuir o tempo e a condescendência suficientes à compreensão das suas justificações, Juvenal abre assim caminho à exposição de uma panóplia de situações que culminarão na inevitabilidade da escolha da sátira - difficile est saturam non scribere (S. 1. 30) – e na formulação de uma impessoal e extensa pergunta:
nam quis iniquae tam patiens urbis, tam ferreus, ut teneat se,
242 cf. WIHKE (1970) 271.
causidici nova cum veniat lectica Mathonis plena ipso, post hunc magni delator amici et cito rapturus de nobilitate comesa
quod superest, quem Massa timet, quem munere palpat Carus et a trepido Thymele summissa Latino? (S. 1.30-36)
Partindo do pressuposto de que o Homem não conseguirá ser inteiramente indiferente às injustiças, à mesquinhez e à avareza desmedida, sobretudo quando estas o vitimizam, o leitor não só entenderá a razão da escolha de Juvenal como partilhará dela, dada a insistência na improbabilidade de alguém poder ser tão diferente à situação exposta:
nam quis iniquae / tam patiens urbis, tam ferreus… A repetição do advérbio de intensidade tam e a utilização dos termos patiens e ferreus a caracterizar alguém (quis) que seja
tolerante e indiferente para com a iniqua urbs, ou seja, para com todo um conjunto de situações e figuras viciosas expostas nos cerca de 13 versos que se seguem, só podem conduzir o leitor à partilha da ira sentida por Juvenal no verso 45243 e, posteriormente, no verso 79, à indignatio.
A cumplicidade entre satírico e leitor torna-se cada vez mais imperiosa, agora não só para validação da escolha do poeta, mas também e, sobretudo, para a identificação desse mesmo leitor com a indignação do satírico244. Contudo, este processo de partilha e cumplicidade é algo que não está explicitamente exposto, mas que vai surgindo paulatinamente ao longo da obra, como forma de ser o próprio leitor a reconstruir e a tomar consciência do seu papel na recusa da tradição literária, em virtude das novas necessidades da realidade, e, por conseguinte, na denúncia dos vícios que assolam a sociedade imperial do séc. I d.C.. Neste sentido, a identificação inicial da persona poética com o leitor modelo poderá ser entendida como uma técnica que não só visa, desde o primeiro momento, a cumplicidade do próprio público/leitor com a escolha literária e a indignação do satírico, mas que deseja levar este mesmo leitor a sentir a sua própria indignação, pelas consequências directas que os vícios e atitudes criticáveis poderão ter na sua vivência
243 cf. S. 1. 45-46: quid referam quanta siccum iecur ardeat ira, / cum populum gregibus comitum premit hic spoliator…
244 A acepção da técnica da identificação da persona satírica ou da indignação do satírico com o leitor foi explorada por alguns autores, nomeadamente por WEHRLE (1992) quando analisou as diferenças/aproximações existentes entre Juvenal e Pérsio, nomeadamente a nível da relação que estes estabelecem com o seu leitor.
em sociedade. Obviamente, caso este se identifique com aquele que fora ultrapassado por um qualquer caçador de testamentos:
cum te summoveant qui testamenta merentur noctibus, in caelum quos evehit optima summi
nunc via processus, vetulae vesica beatae? (S. 1.37-39)
Depois de Juvenal ter incluído entre aquilo que atesta ser a caracterização da urbs como iniqua, a decadência da nobreza e a preponderância dos delatores245, confronta, logo de imediato, o leitor com a possibilidade de este vir a ser suplantado por alguém que, pelas suas actividades nocturnas, se torna merecedor do ignóbil testamento de uma velha endinheirada. Bastaria ao poeta criticar o facto de a caça à fortuna ser um caminho fácil para a riqueza, como o terá feito algumas vezes Marcial em passagens similares246, para que a indignação do interlocutor fosse despertada. Porém, Juvenal preferiu sugerir a possibilidade de o leitor poder vir a ser afastado ou excluído (da herança) por alguém que (i)merecidamente alcançou riquezas advindas da prestação de serviços sexuais, conforme sugere o termo vesica.
A utilização da forma verbal merentur comporta uma carga emocional bastante intensa e, por conseguinte, mais certeira. Pois, o leitor não se sente apenas vítima da cobiça alheia, mas dos próprios valores e ideais vigentes que tornam merecida uma recompensa, moralmente injusta e, por conseguinte, supostamente imerecida. Todavia, ressalve-se que, no seguimento do discurso de Juvenal, só se poderá sentir vítima aquele que não se identificar com o pronome indefinido interrogativo do verso 30 (quis), o que significa não ser tolerante ou ficar indiferente à ganância dos caçadores de fortunas e, por isso, não poder pactuar com a situação descrita.
Sob pena de se tornar num dos visados da sátira juvenalina, o leitor não tem a possibilidade de fugir deste complexo jogo retórico de Juvenal, onde tudo se encaminha para a necessária cumplicidade com a indignação do poeta. E para que o leitor não perca de vista a cumplicidade necessária à legitimação das suas palavras, o satírico, passados cerca de oito versos, lança uma nova pergunta, imediatamente depois de sugerir o distanciamento que deverá existir entre os corruptos sem escrúpulos e o leitor modelo, que não pode ser tolerante com os degradantes valores morais que assolam a sociedade:
245 cf. versos citados anteriormente: S. 1. 30-36. 246 cf. 4.5.6 e 11.87.3-4.
quid enim salvis infamia nummis? (S. 1. 48)
Ainda que, no discurso retórico, as questões retóricas pretendam interpelar um qualquer interlocutor fictício, no sentido de instigar a sua consciência, a verdade é que o receptor desta pergunta pode ser coincidente com aquele que não se importar fazer parte do pronome indefinido quis do verso 30, que partilhar da atitude do spoliator pupilli
prostantis, que se faz seguir por um rebanho de acompanhantes, exposto nos versos
imediatamente anteriores247, ou ainda com aquele que não se identificar com o pronome pessoal te do verso 37, ou seja com a vítima da cobiça dos caçadores de fortunas. E que, supostamente, não poderá ser o leitor, sob pena de este fazer parte dos visados pela crítica de Juvenal.
No entanto, de imediato, a apresentação de uma situação inversa à apresentada e a possível mudança do destinatário do pronome pessoal tu lança a dúvida sobre a identificação do interlocutor dos versos anteriores, no sentido de comprometer ainda mais o leitor no processo de validação do género escolhido e na denúncia da viciosa sociedade:
exul ab octava Marius bibit et fruitur dis
iratis: at tu victrix provincia ploras. (S. 1.49-50)
O tu é agora identificado com a própria província de África que foi sujeita às extorsões feitas pelo seu governador Mário e, que, por isso, tem motivos para chorar, sobretudo, quando este não foi condenado pelos crimes cometidos, mas apenas exilado248. E assim se impele o leitor a identificar-se com uma das situações anteriores e, por conseguinte, a partilhar, ou não, da indignação e censura que deverá sentir em relação à
iniqua urbs. E, se o leitor se identificar com este último tu, será certo que responderá
positivamente às questões levantadas nos versos seguintes, onde Juvenal volta a insistir na inevitabilidade de se entregar ao género satírico e, mais ainda, à censura de tudo aquilo que fora exposto até ao momento:
haec ego non credam Venusina digna lucerna? haec ego non agitem? (S. 1. 51-52)
247 cf. S. 1. 45-48. Estes versos vêm no seguimento das razões que justificam a ira de Juvenal.
248 Mário Prisco, governador da África, fora desterrado no ano 100 por extorsão e crueldade, uma punição demasiadamente leve tendo em conta os crimes cometidos, o que justifica o choro inconsolado dos habitantes da província vitimizada.
A referência ao género é agora feita pela alusão a outro satírico, Horácio, nascido em Venúsia, o que sugere a leitura das palavras de Juvenal numa directriz menos ressentida e pessoal, como a anterior alusão a Lucílio, ou até mesmo a referência à ira que lhe faz arder o fígado, poderiam pressupor. E assim, estará também o leitor mais predisposto a aceitar o propósito de Juvenal de querer: agitare haec. A utilização da forma verbal agito parece-nos criar alguma ambiguidade na interpretação, pois afinal estar-se-á Juvenal a referir apenas à necessidade de ‘criticar’ todos os vícios expostos, ou também de ‘agitar’249 a consciência de todos aqueles que eventualmente se identifiquem com o tu que não se importa com a sua reputação, desde que salve o seu dinheiro, ou com o tu que, tornando-se vítima da ganância de Mário, chora? A resposta a esta questão só poderá ser dada com outra questão, que deverá ser respondida pelo leitor /ouvinte: quem será tão insensato ao ponto de deixar que o seu nome seja anexado aos visados da crítica de Juvenal, quando se pode tornar cúmplice da voz denunciadora, e, por conseguinte, ilibar a sua, eventual, culpa?
A resposta já não poderá ser outra senão a do compromisso do leitor /ouvinte com a voz indignada de Juvenal e a garantia de autoridade necessária a quem irá daqui para a frente conciliar de forma harmoniosa aquilo que se considera serem os pilares fundamentais do género satírico: a crítica, a moralidade e o divertimento250. Pois afinal,
sentindo-se o leitor indignado com os actos e os valores que ele próprio também parece cultivar, mas que, por estratégia do poeta, pensa serem apenas os outros a praticar, Juvenal consegue validar as suas críticas e despertar no leitor a consciência das causas da decadência da sociedade sem, no entanto, despertar nele a antipatia ou a repulsa. Além disso, o leitor partilha da inadequação dos géneros da tradição, porque reconhece ser importante denunciar uma realidade que acaba por prejudicar a sua vivência pessoal em sociedade, ou simplesmente porque não pactuar com a voz indignada de Juvenal seria