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8.2 Validation expérimentale

8.2.5 Conditions de simulations

Figura XI - Pablo Picasso,The Rape of the Sabine Women, 1963

Para iniciar nossos questionamentos sobre a civilização e sua relação com a Hilflosigkeit, vamos, novamente, usar a arte para situar a psicanálise. No quadro de Picasso, observamos o desespero de uma criança sobre o corpo de sua mãe morta; ao fundo, dois gladiadores se atacam. A guerra, a morte, a perda do ser amado, o desespero ali estão estampados entre a beleza das cores fortes da arte. Picasso nos coloca frente à dor e à destruição, um destino mortal e trágico.

É nos textos sobre a cultura que Freud nos traz a dimensão subjetiva da Hilflosigkeit. Nesses escritos, encontraremos mais profundamente a sensação de

abandono do outro, a fragilidade da vida, o sofrimento humano em sua finitude e as tentativas do homem de negar a Hilflosigkeit.

Qual será o futuro da civilização? Por que não somos felizes? De onde vem Deus? Por que a violência? Essas são perguntas que Freud nos lança em “O futuro de uma ilusão” (1927/1997) e em “O mal-estar na civilização” (1930/1978). Pensar nelas é remeter o homem à fragilidade da vida, às faltas de garantia ante as forças da natureza, à precariedade dos vínculos com os outros homens e às incertezas do futuro.

Freud, por meio de suas indagações, nos traz as formas concretas pelas quais a Hilflosigkeit se materializa na subjetividade. Hilflosigkeit diante do corpo que tem início e fim. Hilflosigkeit diante da insatisfação pulsional. Hilflosigkeit na vida em sociedade. Hilflosigkeit na solidão.

Nas indagações freudianas encontramos a morte. Nessa perspectiva, nós, homens, nascemos indefesos, ingênuos, frágeis, finitos e mortais e descobrimos muito cedo a nossa corporeidade. O corpo dói, o corpo envelhece, o corpo precisa do outro. A morte nos atinge de diferentes maneiras e com desigual intensidade ao longo de nossa vida.

Pelo medo da morte, Freud nos remeterá à civilização. Esta existiria para proteger o homem da ameaça que uma vida solitária significaria. A Hilflosigkeit busca abrigo em uma vida em grupo. Vivendo em grupo, o homem estaria protegido contra a força avassaladora da natureza. Em “O futuro de uma ilusão”, Freud (1927/1997, p. 26)afirma que:

Foi precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também, entre outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão da civilização, sua raison d’être real, é nos defender contra a natureza.

Para Freud, não haveria uma separação conceitual entre civilização e cultura. A civilização estaria caracterizada por sua produção material, na defesa e controle da natureza, bem como na produção moral, que organizaria as atitudes e condutas. Nesse contexto, estaria se repartindo entre o saber/poder sobre a produção material, de um lado, e, de outro, sobre as normas de regulação dos vínculos entre os homens. Em relação a isso, Freud (1927/1997, p. 10) declara que:

A civilização humana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais — e desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização —, apresenta, como sabemos, dois aspectos ao observador. Por um lado, inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das necessidades humanas; por outro, inclui todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível.

Dessa forma, a palavra cultura e/ou civilização descreve a soma integral das realizações e regulamentos humanos, que servem a dois intuitos: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos.

Assim sendo, os homens unidos em sociedade se sentiriam protegidos e fortes. A convivência em grupo permitiria vínculos, apoio, reforço e trabalho. Em grupo, os homens não seriam tão frágeis, uniriam suas forças físicas e intelectuais para se proteger da natureza e dominá-la e, conseqüentemente, poderiam usufruir todas as suas riquezas e seguir o ideal iluminista da felicidade. A civilização seria o abrigo para a fragilidade.

A substituição do domínio individual pelo da comunidade representou, para Freud, a passagem para a sociedade. Sob essa ótica, os membros individuais do grupo restringiriam as suas possibilidades de satisfação em prol da vida protegida proporcionada pela comunidade.

Podemos dizer, com isso, que a Hilflosigkeit transformou a busca por segurança em algo superior aos desejos da satisfação pulsional. Em outras palavras, as condições de fragilidade, o desejo de ser poupado pelo destino ou reconhecido como um igual, pelos humanos, ultrapassam a força da realização pulsional.

Para que isso seja possível, a inibição das pulsões torna-se necessária e daí advém o mal-estar na cultura. Ao eu pulsional resta o mal-estar da contenção. O homem, movido por interesses práticos, visa, primeiramente, dissipar os terrores que o mundo e a vida inspiram. Freud trata desse assunto em “O mal-estar na civilização” (1930, CD-ROM 1997):

[...] não é assombroso que sob a pressão destas possibilidades de sofrimento, os seres humanos possam moderar suas exigências de felicidade, tal como o próprio princípio de prazer se transformou, sob a influência do mundo exterior, no princípio de realidade, mais moderado. Não é assombroso que se considerem felizes os que escaparam à infelicidade, os que saíram ilesos do sofrimento, nem tampouco que, universalmente, a tarefa de evitar o sofrimento relegue a um segundo plano o desejo de prazer. [...]

Ante a possibilidade de sofrimento, portanto, os homens se acostumaram a moderar suas reivindicações de felicidade. Assim, evitar o sofrimento é uma tendência que funciona ao lado da satisfação das pulsões. Diante da incerteza, do imprevisível e da ameaça, a vulnerabilidade humana fala mais alto que a excitabilidade. A Hilflosigkeit, além de estar no início da cronologia do

desenvolvimento, prevalece no cálculo final da maioria das ações dos sujeitos. A cultura é uma prova disso, assim como o mal-estar.

Em síntese: o mal-estar é o custo da saída da Hilflosigkeit.