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3.2 Effet du codopage Si/Mg/Ca

3.2.4 Conclusion intermédiaire

Em Brasília, a ênfase em criar um espaço social inovador, em termos simbólicos, resultando numa metrópole caracterizada por uma experiência urbana não tão perfeita quanto teriam desejado seus primeiros idealizadores, suscita uma retomada de velhas questões.

O que afinal constitui a sociedade brasileira? Somente o projeto colonizador Ibérico, continuamente reatualizado pelos seus “bandeirantes modernos”, como os de JK? As demais referências culturais do País e seus agentes sociais, são apenas contribuições a esse projeto? É esse realmente o projeto da nacionalidade? Como é possível falar realmente da sociedade, como um todo, neste caso?

Quando buscamos respostas para esse tipo de indagação na dimensão que a religiosidade brasileira elabora a respeito da vida social do país, torna-se possível perceber que, nos casos aqui considerados, as agências religiosas têm permitido aos seus adeptos uma reelaboracão de suas trajetórias pessoais. Tais processos ocorrem dentro de um espaço simbolicamente construído para esse fim, através de situações altamente significativas que intensificam o sentido deste valor tão caro ao imaginário de Brasília, a Nova Era de um Novo Mundo.

Ao resolverem seus problemas mais urgentes, ao terem acesso a um novo código de referências simbólicas, onde acabam por ressocializarem-se, os migrantes encontram nas associações religiosas um espaço a partir do qual podem recriar suas vidas, num plano apropriado a essa operação.

Através das diversas situações disponíveis no Distrito Federal, seja numa Igreja Pentecostal, num Centro Espírita, seja no caso do umbandista que se inicia no culto aos orixás ou até mesmo num grupo ufológico no início dos anos 80, foram as mudanças religiosas operadas na vida desses indivíduos, dentro do DF, que atualizaram a mudança fundamental que todos têm em comum, a mudança para a Nova Capital do País.

A atração das novas possibilidades de existência que Brasília trouxe para os habitantes do Brasil é fruto de seus propósitos políticos, sem dúvida, mas a atração exercida pela religiosidade dentro desse espaço urbano, todavia, não pode ser explicada apenas a partir destes propósitos, uma vez que está inteiramente permeada por uma dimensão simbólica que perpassa inclusive as razões políticas.

No caso dos líderes religiosos e dos membros de suas Casas que foram pesquisados, podemos compreender que não é só uma mudança de opção religiosa que permite enxergar tal processo. Todos eles tornaram-se líderes de prestígio porque optaram por esse novo espaço social, que inicialmente só lhes oferecia uma esperança, uma promessa, uma missão e mesmo uma obrigação de aqui se estabelecerem.

Esses cultos, ligados às raízes africanas de Salvador, ou às origens brasileiras da Umbanda Carioca, nasceram sob o signo da perseguição policial, da discriminação e do preconceito, sendo que o processo de sua legitimação é um dos mais interessantes capítulos da história da República Brasileira. A transferência desses cultos para o atual Distrito Federal foi um novo capítulo desta história. De fato, uma Nova Era.

Os centros de Umbanda, assim como os kardecistas, consolidaram as atividades de caridade e assistência social, característicos da ética desses cultos, graças ao apoio oficial, conseguidos seja pela doação de lotes, seja pelo reconhecimento do caráter de utilidade pública dessas instituições religiosas.

O culto aos orixás também reaparece em Brasília como legítimo representante da cultura brasileira, não mais como uma incômoda diferença, como foi visto na primeira metade do século em Salvador, Recife e no Rio de Janeiro. Os primeiros líderes que vieram da Bahia para cá perceberam essa característica de Brasília a ponto dos informantes pioneiros descreverem o processo de sua chegada em Brasília como a “invasão dos Bahianos”, tamanho era o ímpeto de suas investidas na nova capital.

Os símbolos da Nova Era, da Capital do 3º milênio, do País do Futuro, surgem como idéias poderosas que diversas grupos sociais reelaboram ao seu modo, para expressar seus próprios interesses e posições. Neste sentido, embora as diversas pesquisas já produzidas em torno do DF, mesmo tomando a experiência urbana de Brasília mais como um campo do que como um objeto, acabam se tornando investigações não só a respeito da cidade, mas também

a respeito da política, já que expõem a dimensão política da experiência urbana, a partir de situações sociais particulares e específicas.

Três anos depois da pesquisa de campo, voltei a procurar minha primeira informante, Vanda de Farias. Tive problemas com ela ao lhe passar uma cópia do primeiro capítulo. Ela queria ver que estórias do Santo no DF eu teria conseguido reunir. Me fez algumas correções muito utéis, por um lado, mas manifestou sua desaprovação com relação a uma série de depoimentos dela mesma e a algumas informações de outros informantes. Desagradou-lhe, como um todo, o tom do texto, que pareceu-lhe expor demais tensões do Culto, comprometendo-a.

Procurei argumentar que tais questões foram postas por ela e por vários outros informantes, sem que eu tivesse deliberadamente forçado o assunto e que tais pontos são importantes para a reflexão antropológica. Assuntos como as relações dos líderes do culto com a clientela do mundo da política não são exclusivos dos cultos espíritas afrobrasileiros e têm acompanhado a transferência da Capital Federal do Rio para Brasília, tendo assumido contornos próprios dentro do imaginário modernista da interiorização da Capital.

Ela não deu muita importância as questões acadêmicas. Estava preocupada com um possível “escândalo”. Argumentei que naqueles depoimentos não havia nada de comprometedor para ninguém. Eram casos de situações aflitivas de pessoas que procuraram os serviços espirituais dos Centros e Terreiros. Foi então que ela passou a identificar alguns clientes daquelas casas de Santo, dentro do cenário social e político de Brasília.

Argumentei finalmente que este tipo de informação nunca me interessou e que levaria o caso à banca de avaliação do Departamento de Antropologia da UNB. Os professores ficaram surpresos com o ocorrido e afirmaram que não há de fato ninguém identificável nos depoimentos, mas que, se por acaso alguns dos envolvidos se auto-identificar numa eventual leitura não haveria problema algum.

Resolvi procurar a informante novamente, já que ela aventara a possibilidade de me contar outros casos antigos da vida religiosa afrobrasileira do DF. O tom de sua apreensão continuara mas ela passou a tocar em um ponto novo. Eu poderia arrumar muitas amizades neste meio religioso se contasse, por exemplo, as estórias de vida dos religiosos pioneiros, suas lutas e seu sofrimento deixando de lado esses problemas internos e as relações com o mundo político. Tais pessoas seriam, se amigas, muito boas e utéis a minha carreira. Ela mesmo poderia me contar muitas estórias. Eram argumentos de uma pessoa com desenvoltura política, sem dúvida, que apontavam para como deveria ser a relação ideal, de seu ponto de vista, entre um pesquisador e o mundo ao qual eu tivera acesso através dela.

Felizmente eu entrara em contato também com o Sr. Marco Silva e sua esposa, que haviam manifestado o mesmo interesse por terem acesso aos dados que eu pudera coletar. Eles também me fizeram valiosas correções mas nada viram de reprovável no material como um todo. Alertaram-me, porém, que a trajetória narrada por um Pai-de-Santo não correspondia à versão que eles conheciam, narrada por uma irmã de santo dele. Argumentei que isso era um problema do informante, mas que a todos eu havia afirmado que o material coletado poderia vir a ser publicado, caso a Banca examinadora demonstrasse interesse.

De qualquer maneira chamara-me a atenção, durante a pesquisa, o fato de que tanto o Sr.Marco Silva quanto Tito de Omulu, os pais de santo mais letrados que eu entrevistara, fizessem comparações desta pesquisa com o trabalho de Pierre Verger, que, segundo o primeiro, “começou pesquisando, acabou se iniciando”, já que eu particularmente nunca

manifestei tal interesse.

A obra de Verger tem tanto um caráter etnográfico quanto um caráter histórico. Foi ficando claro que, se realmente o mundo dos cultos espíritas afrobrasileiros é fértil em estórias interessantes e significativas, de uma perspectiva antropológica é tão importante nos atermos às raízes de tal singularidade quanto às estórias específicas das Casas de Santo.

Vagner Gonçalves da Silva(1991), pesquisando o culto dos Orixás em São Paulo discutiu os “modelos por demais idealizados que propõem para análise do material religioso

afrobrasileiro” tanto Pierre Verger quanto Roger Bastide e Juana Elbein dos Santos. Ele chama

a atenção para a ambigüidade destes pesquisadores iniciados que legitimam um discurso acadêmico através de fontes oriundas do processo de iniciação aos mistérios do Culto.

Existe uma questão relevante no fato de alguma dessas obras, dentro da etnografia religiosa afro-brasileira terem se tornado, dentro dos cultos aos orixás, um tipo de fonte de legitimidade, transformando assim informações etnográficas em estatutos validados pela comunidade acadêmica. Tais obras passaram a ganhar um valor litúrgico dentro de comunidades originalmente marcadas por uma tradição oral. Uma liturgia valorizada pelo reconhecimento acadêmico.

O modelo etnográfico destes autores não construiu apenas um visão acadêmica do Culto aos Orixás mas buscou ser uma descrição isenta dos candomblés bahianos vistos como uma efetiva permanência do universo cultural africano na América, em particular nos cultos nagô.

Esses autores incorreram naquele problema já discutido aqui de explicarem a vida cultural do grupo estudado pelas próprias categorias do discurso do grupo, sem trazer tais categorias à reflexão conceitual propriamente científica e transmutando as categorias nativas em conceitos. Assim a idéia da “Pureza do Culto” e da “fidelidade a África”, passaram a servir de eixos de análise para a pesquisa etnográfica, quando deveriam ter sido compreendidas enquanto dimensões do universo social pesquisado, como tentamos fazer com a noção de Nova Era.

Tais etnografias, segundo Silva “...realizadas nos terreiros mais “afamados”,

contribuem assim, para a generalização e valorização da tradição religiosa neles