A teoria marxista ganha espaço nas relações internacionais a partir do século
XX, num contexto em que a economia se consolidava internacionalmente.
173
Ibidem, p. 152.
174
Do ponto de vista teórico, o marxismo apresenta uma mudança radical em relação aos enfoques tradicionais, ao introduzir novas questões e uma nova postura de observação da realidade internacional. Mesmo seus críticos reconhecem que o marxismo obrigou as teorias sociais tradicionais a abandonar sua postura formalista e a rever muitos de seus postulados básicos, devendo-se examinar a evolução desta escola do clássico ao contemporâneo175.
O marxismo, em sua forma clássica, surge no século XIX, realizando
reflexões políticas, sociais, históricas, filosóficas e econômicas, tendo por principal
teórico Karl Marx.
As reflexões iniciam-se a partir das demandas e dos conflitos existentes na
sociedade daquela época. Com a Revolução Industrial, uma nova sociedade é
formada, criando uma realidade política e econômica novas. A burguesia ascende
como classe social e o capitalismo se consolida como modo de produção e de
pensamento associado à corrente liberal. Outra classe social que também emergirá
é o proletariado, detentora da capacidade de trabalho.
A teoria marxista, nesse sentido, busca explicar essa realidade e propõe a
sua transformação a partir da análise de suas características e suas contradições.
No caso, estamos diante de um sistema de pensamento que
busca não só a explicação do fato, mas a sua mudança, consistindo- se em uma teoria para a ação. Esta premissa de ação e mudança também estará ligada ao que se define como tradição radical e revolucionária nas Ciências Sociais, pressupondo, além do conhecimento, um engajamento intelectual e político para a transformação (a ideia da existência de uma consciência revolucionária da história)176.No marxismo não houve a intenção de se elaborar uma “teoria das relações
internacionais”. Esta estaria integrada como parte de um conjunto teórico mais
amplo.
O pensamento marxista se sustenta ao redor de quatro temas principais: a
determinação material, a determinação histórica, a centralidade das classes e a
revolução.
A determinação material se refere à economia, como sendo a principal
preocupação do marxismo. A forma como a sociedade se organiza está diretamente
relacionada à economia, ao modo de produção e aos objetivos relacionados à
produção destes bens. Para Marx, a economia capitalista é um fenômeno mundial e
175
Ibidem, p. 157.
176
não “nacional”. As relações de produção são os fatores determinantes da realidade
histórico-social.
No que se refere à determinação histórica, o marxismo afirma que, para obter
uma compreensão da realidade e poder mudá-la, é preciso ter uma visão
abrangente de seu processo de formação. Ou seja, é necessário ter uma
compreensão ampla do passado o que permitirá identificar as origens do atual
regime nacional e internacional e caminhar para sua transformação.
Outra dimensão da determinação histórica refere-se à evolução que, segundo o marxismo, ocorre por meio do conflito, do movimento dialético que se estabelece entre classes antagônicas que levará, inevitavelmente, à mudança, entendida como revolução177.
Tema também importante na teoria marxista diz respeito à centralidade das
classes sociais que são considerados os principais agentes da vida política interna e
internacional, apresentando-se como as “locomotivas” da história a partir de seu
conflito permanente. O conflito ocorre devido a uma relação de subordinação entre
as classes, que se dá por meio da posse e do controle dos meios de produção.
No sistema capitalista, existem duas classes sociais, a burguesia, detentora
dos meios de produção, e o proletariado, classe desprovida desses meios de
produção, possuindo apenas a força de trabalho. O proletariado, em estando
subordinado à burguesia, será por este dominado, contudo, através de um processo
de conscientização dos trabalhadores, é possível realizar a revolução, podendo
alterar o sistema e sua condição de inferioridade.
Por fim, chega-se ao quarto aspecto relevante na teoria marxista, a revolução,
segunda qual se daria através do conflito de classes. “A revolução, no pensamento
marxista clássico, é um encaminhamento normal e necessário os antagonismos
sociais, permitindo a quebra e superação das estruturas vigentes e a sua
substituição por um novo modelo”
178.
Para o marxismo, a estrutura socioeconômica de um país é determinante para o comportamento internacional deste último, a saber, para a sua política externa. Noutros termos, a política externa de um país é função dos interesses de classe no interior desse país e da luta de classes que aí se manifesta. Os conflitos entre Estados não são, portanto, mais do que a expressão e a consequência das estruturas socioeconômicas dos diversos países179.
177 Ibidem, p. 160. 178 Ibidem, p. 161. 179
Durante o século XX, do ponto de vista das relações internacionais, a teoria
marxista recebe as contribuições de Rosa de Luxemburgo e Lenin. Este último foi
responsável pela criação da teoria do imperialismo, declarando que as grandes
potências atuariam internacionalmente orientadas pelos os interesses de sua
burguesia. Como essas potências buscariam o lucro incessantemente, passariam a
competir violentamente entre si levando a autodestruição do sistema capitalista.
Outro teórico que contribuiu para a compressão das relações internacionais
foi Immanuel Wallerstein que propõe uma análise sistêmica dessas relações a partir
da consideração de sua evolução econômica. Essa análise aborda os sistemas
mundiais e examina a interação entre os processos econômicos e políticos na
formação do mundo atualmente. Esses processos criam uma divisão social do
trabalho específica no mundo, que se organiza de forma que existam países do
núcleo, da semiperiferia e da periferia.
Uma corrente de inspiração marxista que também explora essas
características do sistema capitalista é a Teoria da Dependência, desenvolvida na
América Latina, na metade do século XX. Segundo esta teoria,
o sistema internacional encontra-se dividido entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Ricos e pobres, norte e sul, núcleo e periferia também são termos que podem ser aplicados, e que foram desenvolvidos em teorias separadas, em especial a premissa Norte/Sul180.
A estrutura do sistema internacional seria definida pela questão econômica,
de forma que os países pobres se encontram subordinados aos do Norte, que são
industrializados e comercializam produtos de alto valor agregado, gerando uma
desigualdade em termos de troca.
Para inverter essa equação, é necessária uma ‘revolução’ produtiva interna nestes países pobres, visando sua modernização, baseada em três pilares: substituição de importações, fortalecimento estatal e coalizões com países semelhantes181.
180
PECEQUILO, Op. Cit., 2008, p. 168.
181