Entre os anos de 1993 e 2004, na cidade de Serpa (Baixo Alentejo), a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Serpa (EPDRS, http://www.epdrs.pt/web/) – sucessora da Escola de Artes de Ofícios Tradicionais de Serpa – promoveu o primeiro (e, até hoje, único) curso profissional dedicado exclusivamente às técnicas construtivas tradicionais,
sob a designação de curso de “Mestre de Construção Civil Tradicional”. A conclusão deste
curso, que tinha a duração de três anos e era leccionado por professores do Ensino Secundário, dava equivalência ao 12º ano de escolaridade do ensino formal português (último ano do ensino secundário, pré-universitário), conferindo aos alunos um diploma profissional em Construção Civil, correspondente ao nível III da União Europeia. A criação do curso muito deveu à iniciativa da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), que viu na revitalização de antigas técnicas construtivas locais – com destaque para aquelas associadas ao material terra – um caminho para dinamizar a área de conservação e restauro do património construtivo.
A técnica da taipa em Portugal: da transmissão do saber-fazer ao ensino formal
Assim, preocupada com a falta de mão-de-obra qualificada nas técnicas tradicionais, necessárias à manutenção e conservação de património à sua guarda, a DGEMN apoiou o curso e patrocinou o programa pedagógico da EPDRS, tendo inclusive disponibilizado técnicos para dar apoio à implementação desta formação (SANTOS, 2005). Nas suas actividades formativas, a EPDRS socorreu-se, igualmente, dos saberes de um antigo mestre-taipeiro da região, desse modo contribuindo para a transmissão intergeracional de saberes construtivos, nomeadamente ligados à taipa (SANTOS e ROCHA, 2000: 17). Na região de Serpa, nesse período, os saberes construtivos mantinham-se na posse dos tradicionais detentores do ofício de taipeiro, não existindo materiais escritos de apoio pedagógico e conhecimento sistematizado. Por conseguinte, a colaboração de velhos e experientes praticantes da taipa da região foi importante para o projecto de ensino da EPDRS.
A construção em terra ocupava lugar principal nos conteúdos de ensino deste curso. Nas disciplinas de Tecnologias, Equipamentos e Matérias-primas, e de Oficina Tecnológica eram abordados os fundamentos, o conhecimento específico de base, os trabalhos de laboratório e os ensaios tecnológicos associados ao uso construtivo do material terra. Os alunos eram também colocados em contexto real de obra, executando com as suas próprias mãos, sob direcção do docente, vários protótipos construtivos em terra – desde um simples murete de taipa, até um pequeno edifício, conjugando na sua execução várias técnicas. O recinto escolar da EPDRS testemunha o resultado destas actividades práticas de ensino, exibindo várias obras realizadas pelos alunos, espalhadas pelo terreno. Estes trabalhos revelam o potencial das situações de aprendizagem, exploradas para fomentar o interesse por técnicas e conhecimentos em construção em terra, de modo globalizante e inovador, apostando na síntese de técnicas e linguagens tradicionais. A auto-avaliação promovida por esta instituição de educação, bem como a observação permanente que continua a efectuar ao percurso profissional e académico dos seus diplomados (avaliando por ciclo de formação os níveis de empregabilidade), demonstra o seu empenho numa cultura de qualidade no serviço público de educação e na melhoria contínua nas práticas pedagógicas e, consequentemente, nos resultados conseguidos (cf. EPDRS, 2013).
Para além da formação de competências efectivas na construção em terra, o curso tinha também como objectivo a constituição futura de empresas no ramo. Segundo Fernandes (2010), pretendia-se que os alunos se agrupassem em firmas dedicadas à conservação e construção em terra. Contudo, tal não viria a suceder. Não obstante o seu impacto na formação de competências de sucessivos grupos de alunos, nos seus 11 anos de actividade os alunos da EPDRS não desenvolveram empresas nesse domínio. Ainda assim, alguns dos formandos da escola prosseguiram, de facto, actividade profissional na área. É conhecido o caso, por exemplo, de dois ex-alunos da EPDRS que trabalham actualmente na empresa Betão & Taipa, uma das mais produtivas empresas no ramo da construção em terra em Portugal (vd. Capítulo 3); ou,
ainda, o caso de outro ex-aluno que, pelas suas competências, seria contratado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, para desenvolver trabalho como técnico de laboratório. Este curso profissional seria, todavia, encerrado em 2004-05 por, alegadamente, existir falta de procura e pela baixa taxa de empregabilidade dos estudantes após a formação (FERNANDES, 2010).
Mas importa assinalar que o interesse na construção em terra não desapareceu; em Serpa, ainda se vislumbra para este património um significativo futuro na investigação e na formação. O Município de Serpa, em conjunto com a EPDRS, planeava em 2013 o lançamento
de vários “projectos para promover a construção civil sustentável no concelho e que prevêem criar um laboratório de investigação, um ‘ninho’ de empresas do sector, um bairro e uma villa ecológicos”, com o objectivo de “ ‘investigar e promover’ os antigos e os modernos materiais de construção, ‘amiga do ambiente e sustentável’ ” (EPDRS, 2013: 16). No quadro destes
projectos, a construção em terra adquiria relevo, bem como o eventual relançamento do curso de
“Construção Civil Tradicional – Arquitectura de Terra”, na EPDRS. Em 2018, esta intenção
mantinha-se, embora desconheça a autora a sua concretização. O Plano Plurianual de
Actividades da instituição menciona actualmente o interesse em “manter ou aumentar outras
ofertas formativas de formação inicial”, através de protocolos “com Instituições de Ensino
Superior” para o “desenvolvimento de cursos de especialização tecnológicas (CET) de nível IV,
ligados a áreas especializadas no âmbito do desenvolvimento rural (regadio, olivicultura,
equinicultura, construção em terra, ambiente, etc.)”.56