5 Bilan du projet
5.2 Bilan du chef de projet
Orestes de Andrade é natural de Santo Ângelo, nascido em 15 de fevereiro de 1949. Segundo conta, em entrevista ao projeto Vozes do Rádio (2010), o interesse pelo rádio surgiu a partir dos 12 anos, quando, de brincadeira, narrava os jogos dos funcionários da fazenda de seu avô. Com um pedaço de pau e uma caixa de fósforos, fazia de conta que estava segurando um microfone e, de forma lúdica, inventava os nomes dos jogadores. Algum tempo mais tarde, apesar de ter trabalhado como balconista e medidor de ruas em uma empresa de engenharia, seu sonho sempre foi narrar futebol. E foi aos 16 anos que Orestes conseguiu a primeira oportunidade no rádio.
Eu comecei em 1971, na Rádio Santo Ângelo. Eu queria trabalhar, mas era muito jovem ainda, tinha 16 anos, e os caras, “ah, não dá. Menino ainda, não dá para trabalhar”. Mas eu pedi tanto para o meu pai solicitar um emprego para mim, que eu queria trabalhar era na rádio. Aí, meu pai falou com o diretor lá, e eu fiquei fazendo algumas coisas assim, por exemplo, indo de office boy, comecei de office boy na rádio, e fui começando lendo textos. Naquele tempo a gente lia textos, tinha as caixinhas de textos, e lia textos. Passava a tarde inteira lendo textos, tudo fora do ar. A minha voz era muito fininha, então era complicada a situação. Eu comecei em 71 na Rádio Santo Ângelo, trabalhei 10 anos. Depois fui para a Rádio Progresso, de Ijuí. Fiquei quatro anos na rádio Progresso. Depois voltei para a Rádio Sepé Tiaraju, de Santo Ângelo, que estava sendo inaugurada, a convite do diretor. Fizemos uma equipe nova lá. Trabalhei três anos na Rádio Sepé Tiaraju. Aí, depois, fui para a Rádio Imembuí, de Santa Maria, e para a Rádio Caxias. Voltei para a Rádio Águas Claras, de Catuípe, uma cidadezinha que fica perto de Santo Ângelo. E, de Catuípe, eu vim para Campo Bom, na Rádio 1470 (ANDRADE, 2015).
A principal influência de Orestes foi o narrador Cláudio Wilmar Schroeder, seu antigo professor, em Santo Ângelo. Quando Andrade começou, ele era o narrador titular da Rádio Santo Ângelo.
[...] quando eu comecei, e ele perguntou um dia, “quem é que quer narrar?”. Eu digo, “eu gostaria de narrar”. E ele disse, “porque eu quero largar”. Então, seis meses, eu fui todos os domingos no estádio e ficava do lado dele, para tu teres uma ideia. Durante quatro meses, eu só observava. Quando começou lá pelo quinto mês, ele disse assim, “eu vou te dar uma oportunidade, eu vou te fazer narrar cinco minutos, aqui do meu lado. Quando você ver que vai se apertar, eu vou chamar para mim de volta”. E ele avisou os torcedores no estádio, “eu tenho o meu aluno de narração aqui hoje, e eu vou dar uma aula de narração”. E eu, bah, cara, eu suava que era um terror, eu não sabia o que dizer. Aí ele me passava, eu narrava, mas tinha um detalhe. Quando chegava perto da goleira, que afunilava a jogada, que era forte, eu afinava a voz, parecia “wiwiwiwi”, ficava horrível. E aí ele “calma, guri”. E assim eu fui, uns dois ou três meses. (ANDRADE, 2015).
A chegada de Orestes de Andrade na Rádio Guaíba foi curiosa. Conforme conta também no projeto Vozes do Rádio (2010), ele trabalhava em Campo Bom com o repórter Flávio Dal Pizzol, na Rádio 1470. E o grande sonho de Dal Pizzol, era, justamente, um dia trabalhar na Rádio Guaíba. Na época, conta Orestes, Dal Pizzol era muito amigo do Paulo Sérgio Pinto, diretor de esportes da Guaíba, naquele tempo, e trabalhavam profissionais como Luiz Carlos Reche e Haroldo de Souza. Paulo Sérgio Pinto, então, solicitou que Flávio Dal Pizzol lhe enviasse uma fita cassette, para que esta fosse avaliada, conforme o conteúdo das reportagens de campo na 1470.
Figura 22 – Repórter Flávio Dal Pizzol (1996)
Fonte: Fonte: Revista Goool154, Porto Alegre, 1996. p. 11.
Daí ele foi montar a fitinha, e perguntou para mim, “Orestes, eu posso botar os teus gols? Só coloca gols e lances importantes que eu participei”. Aí eu digo, “não, pode botar, pode botar teus lances na fita. Não tem problema”. Aí ele colocou vários gols que eu narrei e lances de jogos, com a participação dele. E ele mandou a fita. E aí o Zé Aldo, o José Aldo que, hoje, está na Rádio Gaúcha (Bandeirantes), o Zé Aldo havia saído da Rádio Guaíba, e eles estavam precisando de um narrador. E o Paulo Sérgio foi ouvir a fita, e gostou do narrador. (Risos). E o Dal Pizzol, “vamos deixar o Dal Pizzol, depois”, (Risos). E aí o seguinte, a gente estava em Campo Bom, um dia tocou o telefone, daí a moça disse assim, “olha, é o Paulo Sério Pinto da Rádio Guaíba”. Aí o Dal Pizzol, “é comigo, mandei uma fita”. Eu nunca esqueço. E daí o Dal Pizzol atendeu o telefone, “Ah, tá, vou passar para ele”. Era, daí era comigo, e eu disse “ô, Paulo Sérgio...”. E ele, “Gostei da tua narração. Vem fazer um teste aqui com a gente”. Então aí eu “vou”. Aí vim aqui, fiz um teste e fui reprovado pelo Evandro, Evandro Dias Gomes. E daí o Evandro (Risos) me reprovou e voltei para lá e, daqui a pouco, o Paulo Sérgio me ligou e “não, o Evandro se enganou, não era nada disso”. Aí voltei e fiquei no lugar do Dal Pizzol, pela fita enviada pelo Dal Pizzol, e o pessoal me chamou. Mas dali dois meses, a gente chamou o Dal Pizzol para cá também. Viemos praticamente juntos. Mas foi através de uma fita cassette que eu vim parar aqui. Foi em 1995, 21 anos já (ANDRADE, 2015).
Ao projeto Vozes do Rádio, Orestes lembrou qual foi a sua primeira transmissão pela Rádio Guaíba. Segundo ele, aconteceu em Venâncio Aires, em um duelo entre Juventude e Guarani de Venâncio. Seus companheiros de jornada eram Edegar Schmidt, Flávio Dal Pizzol, Jose Coutinho e Luiz Fernando Siqueira. O problema, segundo conta, é que não recebeu nenhuma orientação sobre o que deveria fazer ou deixar de fazer.
Era diferente do meu trabalho em Campo Bom. Na Guaíba e em várias rádios é diferente, chama-se o tempo de 15 em 15 minutos. Tempo e placar. 15 minutos chama o tempo, 30 minutos, 40 minutos, três vezes em cada tempo. Eu chamava de 2 em 2 minutos e os caras botavam a vinheta a toda hora. Ficou horrível aquilo, os caras me olhavam e eu narrava uns lances e botava a vinheta de novo para dar o tempo e ninguém me chamava atenção. Tinham que avisar. Para escutar, era simplesmente horroroso. Eu chamava, chamava. Aí, depois do jogo, o Edegar: “mas tu não devias ter chamado a fita daquele troço, o tempo e o placar?”. “Mas Edegar, tu és um cara experiente, poderia ter me chamado a atenção”. Eu estava começando. “Vem cá, tu és um dos meus ídolos, estou trabalhando com meu ídolo, porque não me chamou a atenção”. Esse foi meu primeiro jogo, foi em Venâncio Aires (ANDRADE, 2010).
Orestes de Andrade (2015) recorda que, além dele e Flávio Dal Pizzol, a Guaíba renovou também a função de plantão esportivo que, até pouco antes, estava sendo feita pelo “lendário” Antônio Augusto. Segundo conta, Rogério Böhlke estreou no mesmo dia que ele, em 10 de fevereiro de 1995. E foi, justamente no seu primeiro ano como narrador da Guaíba, que Orestes de Andrade narrou um dos jogos mais importantes de sua carreira, ou, um dos mais emocionantes, tanto pessoalmente, quanto profissionalmente. No dia 25 de abril de 1995, o Grêmio enfrentava o Club Olimpia, no Estádio Defensores del Chaco, em Assunção, no Paraguai, pela fase oitavas de final da Copa Libertadores, competição que o Grêmio, mais tarde, sagraria o final como bicampeão. O Grêmio venceu o time paraguaio por 3 a 0. Orestes recorda que um dos momentos mais emocionantes para ele foi quando, ao seu lado, o então presidente do Grêmio, Fábio André Koff, o cumprimentou pela narração.
Eu estava começando. Eu estava fazendo o jogo, e o presidente Fábio Koff estava na cabine, do meu lado. Só que eu não tinha amizade nenhuma com ele, estava chegando do interior. Daí ele se apresentou, “ah, sou o Fábio Koff, ah eu sou o Orestes, tudo bem? Tudo bem”. Aí o Grêmio começou a jogar, e estava vencendo por 3 a 0, e ele do meu lado. Eu estava começando na Rádio Guaíba, vindo do interior, bah, eu enlouqueci, né. E aí. O Grêmio fez o terceiro gol, através do Paulo Nunes, mas um gol maravilhoso. E aí extrapolei, né, aí fiz uma gritaria, vibrava, erguia o braço. Como gaúcho, eu estava enlouquecido, né? Eu digo, bah, nunca vou esquecer, o presidente abriu uma sacola que ele tinha, e pegou uma camisa do Grêmio e botou no meu ombro, e disse assim: “essa é tua, meu guri. Tu me emocionou”. Pô, se o gol do
Grêmio me emocionou, eu emocionei o “véio”. Ah, foi um troço maravilhoso, fantástico, né. Pô, do presidente do clube! E eu começando na Rádio Guaíba. Eu voltei com a camiseta e dei para o meu filho, que era “gremistão”, mas digo, foi um troço assim fantástico, maravilhoso. Isso foi uma das melhores coisas que aconteceu no rádio para mim (ANDRADE, 2015).
Orestes de Andrade (2010) recorda também de uma partida que o marcou, quando atuava pela Rádio Sepé Tiaraju, em 1979, que foi o primeiro jogo da decisão do Campeonato Brasileiro, entre Internacional e Vasco, no Maracanã, que, depois, marcou o tri-invicto do Inter. Segundo Orestes, naquele tempo, uma rádio do interior transmitir um jogo daquela magnitude era uma verdadeira epopeia. Recorda que, ao seu lado, estavam as equipes da Rádio Gaúcha e da Guaíba. O fato, segundo ele, repercutiu enormemente em Santo Ângelo e foi marcante em sua trajetória como narrador. Sobre seu estilo, Orestes é enfático, o que realmente lhe importa é a emoção. E isso vale tanto para um jogo da Série C, quanto para a disputa de um título mundial. “Tu tens que fazer o ‘jogo ruim’ ficar bom para o ouvinte, para o ouvinte achar que tu estás num baita de um jogo, entende, porque valoriza a participação do ouvinte e o teu trabalho também” (ANDRADE, 2015). Tecnicamente, Orestes afirma que não é “de muitas palavras”, e que não possui um vocabulário recheado. Acredita que se adaptaria bem numa rádio que use efeitos sonoros, como no Rio de Janeiro, por exemplo, pois lhe agradam as palavras diferentes, brincadeiras e jingles.
Figura 23 – Orestes narra pela Guaíba em 1996
Fonte: Fonte: Jornal Correio do Povo155, Porto Alegre, 8 abr. 1996. p. 24.
Recentemente, na Rádio Guaíba, ainda na chefia de Luiz Carlos Reche, que, em 2014, deixou a emissora, houve a inserção de trilhas características para cada um dos narradores. As trilhas foram produzidas, na época, por Bene Baruke, diretor artístico, que atuou em várias emissoras de rádio e televisão de São Paulo, ao lado
de profissionais como Cléber Machado, atualmente narrador da TV Globo. A trilha do narrador “Orestes de Andradeee, o Galo Missioneirooo”, era reproduzida em todas as jornadas esportivas da emissora. Da mesma forma, foram produzidas trilhas para os narradores Mário Lima, “Mário Limaaa, o amigo da Galeraaa”, e Marcos Coutooo, “O Gigante do Valeee”. Atualmente, as trilhas não são mais utilizadas na programação esportiva da Guaíba.
Uma das principais características de Orestes é a sua narração rápida, porém, o narrador considera que, com o tempo, foi diminuindo a intensidade, até mesmo pela sua idade e pela necessidade de cuidados com o uso da voz. Orestes é conservador, no sentido de que, segundo entende, cada integrante da jornada deve obedecer suas respectivas funções.
Mas a minha característica sempre foi de velocidade, poucas palavras, mas com um detalhe: eu não opino, não opino se “esse jogador” está bem. Opino, “a partida está boa, o time está jogando pela esquerda, pela direita”. Essas coisas eu não tenho nada a ver. Tem que ser o comentarista que deve fazer. Eu não opino sobre os negócios de lances na área. Foi pênalti, eu digo, foi pênalti, mas dou para o repórter, que é o cara que está mais perto, está do lado da goleira, apesar de que hoje, os caras quase não deixam que se fique mais nas goleiras, né? Mas o meu objetivo é narrar. A opinião eu deixo para o comentarista, os lances complicados na área, eu deixo para os repórteres. Então, o meu negócio é narrar. Eu peço a opinião do comentarista na jogada complicada, num troço assim, para ver quais são os estilos de jogo, quem tem mais posse de bola, etcetera e tal, mas eu não falo. Eu não gosto. Não tem jeito. Assim como eu tenho certeza de que jamais teria tino para ser repórter ou comentarista. Eu não tenho aptidão nenhuma para fazer isso aí. É narrar, no negócio é narrar (ANDRADE, 2015).
Orestes não é dono de bordões, porém, a característica mais marcante de sua narração é o grito de gol intenso e longo.
Um dia, foi num gol do Internacional, um gol maravilhoso, um gol que foi uma decisão, e eu alonguei, entende, eu alonguei, alonguei, alonguei, aí, daqui a pouco e me dei conta, “mas vou parar de falar”. Alonguei, e aí os caras contaram: deu 40 segundos. E eu digo, meu Deus, e daí o pessoal gostou. Tipo, pô, interessante isso, porque, a maiorias dos narradores, cada um tem um chavão (ANDRADE, 2015).
Durante 15 anos, Orestes de Andrade foi o segundo narrador da Rádio Guaíba, até a saída de Haroldo de Souza, em 2010. Nesse ano, participou de uma das suas mais importantes coberturas esportivas da carreira, que foi da participação do
Internacional no Mundial de Clubes da FIFA156, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Na companhia dos repórteres Luiz Carlos Reche e Ernani Campelo, e do técnico de externas Paulo Semensato Filho, cobriu a derrota do Inter para o Mazembe, por 2 a 0, nas semifinais, e a decisão do terceiro lugar, em que o Internacional venceu o Seongnam, da Coreia do Sul, por 4 a 2, no Estádio Zayed Sports City, em 18 de dezembro de 2010.
Figura 24 – Orestes de Andrade (2010)
Fonte: Vozes do Rádio (2010)
Orestes de Andrade, o “Galo Missioneiro”, apelido recebido em função de sua origem, divide o microfone da Rádio Guaíba com os narradores Mário Lima, Marcelo Cardoso e, com o recém contratado, Marco Antônio Pereira. Este trabalho analisa a vibrante narração de Orestes de Andrade em dois jogos, com uma diferença de 20 anos. O primeiro, Olimpia do Paraguai e Grêmio, de 1995. O segundo jogo, Brasil e Venezuela, de 2015, válido pela segunda rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia.
A próxima história trata de um narrador que se consolidou, principalmente, a partir dos anos 1990, e teve o “complicado” papel de substituir Armindo Antônio Ranzolin no microfone principal da Rádio Gaúcha. É Pedro Ernesto Dernardin, dos gramados da reportagem à cabine de rádio.
156 Na final, Internazionale, da Itália, venceu o Mazembe, do Congo, por 3 a 0 e conquistou o título.