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O fenômeno social do “mal-estar docente” configura-se em um feito internacional do mundo ocidental que atinge a qualidade de vida dos professores, sobretudo, em fatores específicos da carreira docente, desde questões relativas a recursos materiais e humanos e, ainda, as modificações do contexto econômico, político e social transcendem sobre a profissão novas exigências do fazer docente (ESTEVE, 1996).

O termo mal-estar docente é caracterizado por ser intencionalmente ambíguo, pois se trata de um fenômeno difícil de localizar e de definir, “quando usamos o termo mal-estar sabemos que algo não vai bem, mas não somos capazes de definir o que não funciona e por quê” (ESTEVE, 1996, p. 12). No entanto, na literatura aparece como um termo que possui maior poder inclusivo e abrangente de fatores e efeitos do ciclo degenerativo da eficácia docente (ESTEVE, 1996, p. 25).

Na bibliografia anglo-saxã, o termo utilizado para o mal-estar docente é o burnout, o qual está associado ao conceito de estresse, a partir da dimensão biológica no que concerne às mudanças fisiológicas do corpo, na aparição de causas prolongadas de tensão (ESTEVE, 1996, p. 56). O termo burnout remonta ao significado literal de sair queimado de situações que levam o professor a ter sentimentos de desistência, atitudes negativas e comportamentais e ao esgotamento mental e emocional decorrentes do intenso envolvimento com pessoas (CODO, 2006).

No contexto brasileiro, a síndrome do esgotamento profissional é reconhecida pelo Ministério da Saúde como doença relacionada ao trabalho e como resposta aos estressores emocionais e interpessoais do ambiente, de tal forma que os profissionais que estão mais sujeitos a síndrome de burnout são: trabalhadores da área da educação, da saúde, policiais, assistentes sociais, agentes penitenciários, bem como trabalhadores de ambientes de trabalho provenientes de mudanças e transformações organizacionais. (MARQUES, 2007)

A incidência do desenvolvimento da síndrome de burnout, em trabalhadores da educação, é “inerente ao conteúdo do seu cargo” (CARLOTTO, 2002, p. 25), pois “trata-se de um problema, uma síndrome que afeta principalmente os trabalhadores encarregados de cuidar

caregivers” (CODO; VASQUES-MENEZES, 2006, p. 237), cujo sofrimento se dá através do

que o trabalhador investe no seu trabalho e na ausência de retorno, reconhecimento deste investimento. Segundo Codo e Vasques-Menezes (2006, p. 238), burnout foi o nome escolhido, para ilustrar em português, a acepção sobre algo como “perder o fogo”, perder a energia ou queimar para fora completamente”, pois o que é intrínseco à síndrome é a perda de entusiasmo,

criatividade, empatia sobre o ambiente de trabalho e, consequentemente, sobre seus usuários, neste caso, o objeto do trabalho docente, os alunos.

A síndrome é entendida a partir de sua multidimensionalidade, pois trata-se de múltiplos aspectos desencadeantes, cujo componentes referem-se à exaustão emocional, derivada do esgotamento das energias emocionais e afetivas; o processo de despersonalização, que leva o trabalhador a desencadear sentimentos e atitudes negativas, endurecimento afetivo e, por fim, à falta de envolvimento pessoal no trabalho, seja com os clientes, usuários, acarretando em problemas na sua realização (CODO; VASQUES-MENEZES, 2006, p. 238).

A exaustão emocional “nada mais é do que a expressão do sofrimento que os trabalhadores sentem quando não conseguem dar mais de si mesmos a nível afetivo” (VASQUES-MENEZES; CODO; MEDEIROS, 2006, p. 258), pois o desgaste e o sofrimento a nível afetivo acarretam na exaustão emocional, de modo que o trabalhador perde o sentido, as forças, a esperança no trabalho.

A despersonalização vem a reforçar a exaustão emocional, visto que o sofrimento se torna tão penoso, exaurido, cuja a ideia de minimizar o afeto no trabalho aparece como uma estratégia de afastar o que causa dor, para lançar mão de atitudes mais frias e distantes. (VASQUES-MENEZES; GAZZOTTI, 2006). Deste modo, o trabalhador tem a “ilusão de que através do endurecimento afetivo-emocional sofreria menos” (VASQUES-MENEZES; CODO; MEDEIROS, 2006, p. 259). A ilusão do distanciamento no trato afetivo interfere não somente nas relações do ambiente, contudo, acarreta na falta de envolvimento pessoal no trabalho, o qual configura-se como o ponto mais elevado da dor, sofrimento, uma vez que leva o trabalhador a desenvolver sentimentos de desistência, em razão da exaustão emocional-afetiva (VASQUES-MENEZES; SORATTO, 2006).

Dentre os possíveis desencadeantes da síndrome de burnout em professores, podemos citar o excesso de tarefas, funções; as relações estabelecidas no ambiente de trabalho; a falta de autonomia; ensino solitário; inadequação da formação; falta de condições físicas e materiais (CARLOTTO, 2002) e para além dos estressores intrínsecos a prática do ensino, as “características do ambiente de trabalho podem desencadear este tipo de sofrimento mental” (CODO; VASQUES-MENEZES, 2006, p. 243).

A síndrome além de se configurar como um indício de exaustão apresenta-se como uma experiência subjetiva, individual do trabalhador, que em seu posto de trabalho, custa a permanecer e a suportar. No entanto, esta “vai avançando com o tempo, corroendo devagar o ânimo do educador, o fogo vai se apagando devagar” (CODO; VASQUES-MENEZES, 2006, p. 254). A síndrome, além de gerar sintomas individuais de desistência, exaustão, perda de

sentido, ocasiona problemas em nível profissional, pois interfere diretamente no desempenho, o qual acarreta em prejuízos na prática docente, na elaboração de aulas, perda da criatividade e do entusiasmo, torna o profissional frustrado e depreciativo diante do trabalho e de seus alunos (CARLOTTO, 2002).

O desgaste como expressão das síndromes de esgotamento profissional, da intensificação do trabalho e da penosidade na atividade laboral, se assenta na vida dos professores, nas experiências que se colocam diante das minúcias do dia a dia, ante o cotidiano e a rotina da prática do trabalho, atravessados pelos sentidos atribuídos e produzidos subjetivamente perante os objetos sociais novos que se apresentam sob forma de estressores e condições de trabalho que minam o fluxo das vivências. A experiência do desgaste ancora-se no vivido, na dimensão e conhecimento que o sujeito tem sobre o mundo e do grupo de pertencimento o qual está inserido, isto é, a escola (MOSCOVICI, 2011).

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