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ARTICLE 55.2 : EXCEPTION POUR LE STOCKAGE

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VII. CONSTATATIONS H. M ESURES EN CAUSE

2) ARTICLE 55.2 : EXCEPTION POUR LE STOCKAGE

Por pretender que a arte interfira diretamente na realidade e por excluir os elementos irrealistas da arte, Marcuse critica o realismo soviético e com ele a unidimensionalidade e a administração total da cultura soviética no sexto capítulo de O Marxismo Soviético, intitulado Base e superestrutura Realidade e ideologia (Base and Superstructure Reality and Ideology). Interpretando esse aspecto da filosofia soviética da arte como um conceito

ético e político e não somente estético, o filósofo enfatiza suas conotações de controle social através da submissão cultural e da integração intelectual (REITZ, 2000, p. 157). Marcuse destaca o aspecto negativo da ideologia, aparentemente subestimado por Marx e Engels, que a viam como mera ilusão (Schein). Mas a ideologia, principalmente na religião, na filosofia e na arte, também expressa imagens de esperança, desejos e sofrimentos eternos do ser humano, suas potencialidades não realizadas, as imagens da justiça, felicidade e liberdade. Quanto mais a base domina a ideologia, mais a esfera ideológica que se encontra separada da realidade, como a filosofia e a arte, se converte em último refúgio para a oposição a essa ordem a cultura afirmativa pode ser um exemplo de isolamento preservador.

A luta ideológica do marxismo soviético contra o idealismo burguês nega os elementos de transcendência presentes na filosofia e também na arte, pois eles podem colocar em perigo o sistema político e ideológico. Sobretudo a arte deve ser realista . Mas, ao contrário do realismo proposto pela estética soviética, o realismo em si pode ser muito crítico e progressista:

confrontando a realidade como ela é com suas representações ideológicas e idealizadas, o realismo defende a verdade contra seu ocultamento e falsificação. Nesse sentido o realismo mostra o ideal da liberdade humana em sua negação e traição efetivas e assim preserva a transcendência sem a qual a própria arte é cancelada (MARCUSE, 1969b, p. 129, tradução nossa).

Diferentemente, o realismo soviético serve ao Estado repressivo, pois ele aceita a realidade social estabelecida como estrutura final do conteúdo artístico, sem transcendê-la nem em estilo nem em substância. (MARCUSE, 1969b, p. 129, tradução nossa). A realidade é confrontada com um futuro que não é antagônico ao presente. Não há nenhuma ruptura, nenhuma catástrofe que se interponha entre o agora e o futuro comunista:

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Mas é precisamente o elemento catastrófico, inerente ao conflito entre a essência do homem e sua existência, que constituiu o centro sobre o qual a arte gravitou desde que se separou do ritual. As imagens artísticas preservaram a negação determinada da realidade estabelecida a liberdade final (MARCUSE, 1969b, p. 129-130, tradução nossa).

Ao criticar a noção de antagonismo insuperável entre essência e existência como princípio teórico do formalismo, a estética soviética critica o princípio mesmo da arte. Já o marxismo considera esse antagonismo um fato histórico, que só será resolvido em uma sociedade que proporcione as condições materiais para o livre desenvolvimento das potencialidades humanas. Quando existência e essência humanas forem harmonizadas, a base tradicional da arte será subvertida, seu conteúdo será realizado. Enquanto isso não acontece, a arte conserva sua função cognitiva crítica: representar a verdade não obstante transcendente, preservar a imagem da liberdade contra uma realidade negadora. (MARCUSE, 1969b, p. 130, tradução nossa). Para a teoria marxista, o desenvolvimento das forças produtivas levará à realização da promessa de felicidade que a arte expressa a ação política revolucionária tornará possível essa realidade. Mas como o valor cognitivo da arte está baseado na transcendência, com a realização da liberdade, a arte não será mais um receptáculo da verdade. (MARCUSE, 1969b, p. 130, tradução nossa). Como o marxismo soviético crê que a Revolução bolchevique criou a base para a transformação histórica, para a arte restaria somente a função de refletir a realidade; o real incorpora o ideal. A promessa de felicidade passa de ideal romântico a preocupação política e a arte se torna algo supérfluo: a liberdade realizada recusa a ideologia da liberdade em sua transcendência artística. A estética soviética recusa a idéia de fim da arte e insiste que ela permaneça, mas proíbe sua transcendência; ela quer uma arte que não seja arte, e obtém o que pede. (MARCUSE, 1969b, p. 131, tradução nossa).

O tratamento soviético dado à arte não é explicado somente pelas exigências de um regime autoritário. As concepções da estética soviética, derivadas da grande importância dada à função cognitiva da arte, revelam um profundo conhecimento da função social da arte. Arte e ciência expressam, de modo similar, a verdade objetiva. A arte revela forças indômitas do ser humano, zonas perigosas que estão além do controle social; a liberdade final se abriga nessas zonas. Arte é protesto, por isso, é assunto político. Por conseguinte, não pode ser considerada e tratada como livre gozo intelectual, emocional ou educativo. O Estado soviético elimina a transcendência da arte, que se transforma em instrumento de controle social daquela última esfera inconformista da existência humana; separada da sua base histórica, assume um

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caráter mágico, como na pré-história. Mas, ao eliminar a transcendência da arte, o Estado soviético elimina o próprio potencial político da arte:

Mas a arte como força política é somente arte enquanto preserva as imagens da libertação; em uma sociedade que é em sua totalidade a negação dessas imagens, a arte pode preservá-las somente através da recusa total, isto é, não sucumbindo aos padrões da realidade sem liberdade, seja em estilo, ou na forma, ou na substância. Quanto mais totalitários esses padrões se tornam e quanto mais a realidade controla toda linguagem e toda comunicação, mais a arte tenderá a ser irrealista e surrealista, mais ela será levada do concreto ao abstrato, da harmonia à dissonância, do conteúdo à forma. A arte é assim a recusa de tudo o que foi feito parte e parcela da realidade. As obras dos grandes burgueses anti-realistas e formalistas são muito mais profundamente comprometidas com a idéia da liberdade do que o realismo socialista e soviético. A irrealidade de sua arte expressa a irrealidade da liberdade: a arte é tão transcendente quanto seu objeto (MARCUSE, 1969b, p. 132-133, tradução nossa).

A arte soviética pode ser caracterizada como magia, pois pretende interferir diretamente na realidade, enquanto arte. Todavia, a arte não pode atuar diretamente na realidade. O máximo que ela pode fazer é mudar a atitude subjetiva diante da realidade, mudar a realidade indiretamente. O seu limitado potencial de transformação se deve justamente aos elementos abstratos e dissonantes (característicos do formalismo ) excluídos da arte pela estética soviética. Tais elementos contêm o caráter progressivo da arte burguesa . Eles representam o objetivo desesperado de romper com a padronização e falsificação sociais que tornaram as estruturas artísticas tradicionais inúteis para expressar o conteúdo artístico. (MARCUSE, 1969b, p. 134, tradução nossa). O realismo soviético, de maneira semelhante aos meios de comunicação de massa do ocidente, vai na contramão das lutas por uma nova linguagem negativa realizada por algumas vanguardas artísticas:

As formas harmoniosas, em seu desenvolvimento tanto realista quanto clássico e romântico, perderam sua força transcendente, crítica; elas não permanecem mais opostas à realidade, mas aparecem como parte e ornamento da mesma instrumento de ajustamento. Comunicadas pelos meios de comunicação de massa, se transformam em agradáveis melodiais que acompanham o trabalho e o ócio cotidianos, em alimento para os períodos de folga e repouso. Nessas circunstâncias, somente sua negação determinada pode restaurar seu conteúdo. De maneira inversa, através do restabelecimento da harmonia por decreto administrativo, a proibição da dissonância, da desarmonia e do atonalismo, a função cognitiva da arte é enquadrada [brought in

line] e o conformismo é imposto à imaginação artística, não-conformista per se

(MARCUSE, 1969b, p. 134, tradução nossa).

A arte parece sofrer da mesma sina nas democracias ocidentais, cujas veladas tendências autoritárias serão exploradas por Marcuse na década de 1960. As modalidades de controle social transitaram para formas menos violentas, que permitem maior grau de

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liberdades individuais em relação aos regimes autoritários. A demanda por maior liberdade artística acompanha essas transformações. Disso resulta que o realismo e o romantismo já não são conceitos opostos, que elementos formalistas e abstratos podem fazer parte de um usufruto conformista: Em sua função social, a arte compartilha da crescente impotência da autonomia e do conhecimento individuais. (MARCUSE, 1969b, p. 135, tradução nossa).

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