A colonização de alguns pontos do litoral de Santa Cata rina é tão antiga quanto algumas capitanias hereditárias do Nordeste brasileiro. Hou ve um fluxo a partir de São Vicente, em São Paulo, e de colonos trazidos diretamen te do arquipélago dos Açores para Laguna, São Francisco do Sul, São Miguel e Flo rianópolis — a antiga Desterro, povoados que se consolidaram nos meados do sécu lo 18. Verificou-se também no mesmo período, incursões de Bandeirantes em busca dos índios das Missões Jesuíticas e, mais especialmente, do gado perdido com a dizi mação dos Sete Povos das Missões. Esse trânsito em direção ao Sul do Brasil passou por Sorocaba, pelos Campos de Castro, no Paraná, e pelo Planalto Serrano em San ta Catarina — através dos Campos de Lages.
A interação interna na Província foi dificultada desde o início devido à configuração topográfica de Santa Catarina. Configuração que asso ciada às reduzidas condições e recursos da Telesc/Embratel nas décadas recentes, e mais os recursos internos da BV, pesaram como variáveis a partir das quais se deu a expansão da empresa, a partir de 1985.
A) Santa Catarina teve um processo de colonização e de ocupação do seu território que só se efetivou em meados deste século. O litoral,
propriamente, entre São Francisco do Sul e Laguna — antigo marco das possessões portuguesas ao Sul, é recortado e nele se fixaram as primeiras migrações, açorianos, oficiais do Reino, escravos e deserdados. Florianópolis tinha o nome de Desterro. A segunda fase da colonização se deu no Planalto Serrano, onde as altitudes médias se situam entre 800m e lOOOm, sem muitas variações entre as mais baixas e as mais altas. Por ali, passavam tropas de animais vindos do Rio Grande do Sul em direção ao cam pos de Curitiba e mercados de Sorocaba. A atividade econômica centra-se na pecuá ria, grandes propriedades. Em meados do século passado, começou a ocupação do Vale do Itajaí — por imigrantes europeus, em conseqüência dos matrimônios e acor dos da família imperial no Brasil. Foram trazidas levas de germânicos. Começou em tom o de 1890 a chegada também de italianos, que se localizaram em alguns pontos do Vale do Itajaí mas; em maior volume, entre o Litoral e o Planalto Serrano, ainda na Serra que separa as duas áreas no Sul do Estado. Neste século, exauridos os recur-
36 sos naturais na Serra do Rio Grande do Sul — madeira, etc., migrantes de origem ita liana começaram a ocupar o Oeste Catarinense. Antes disso, porém, na década de 10, deu-se a Revolução do Contestado, também conhecida como Guerra do Contesta do. índios e outros deserdados que haviam se fixado no Norte catarinense foram dizi mados. A ferrovia de capital inglês chegou a região e à ligou ao porto de São Francis co do Sul, via Joinville, Jaraguá do Sul e Corupá. Por ali escoaram-se as reservas de araucária da região; por alí também se chegou ao Vale do Rio do Peixe. A linha fér rea ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul passou pelo Vale do Rio do Peixe e as pequenas estações e postos de paragem deram lugar com o tempo às cidades atuais. As tentativas de ligar o Planalto Serrano ao Litoral datam do século passado. Cami nhos precários permitiam algum intercâmbio comercial e trocas, mas irregulares por que bastava uma chuvarada mais forte para impedir o trânsito e a circulação. Com a colonização do Meio-Oeste, incluindo-se nele o Vale do Rio do Peixe, e posterior mente a fixação no Oeste e Extre-Oeste de Santa Catarina de migrações internas, de finiu-se a área territorial do Estado. Praticamente, 50% do território catarinense fo ram ocupados neste século. Como conseqüência, serviços públicos, ferrovias e rodo vias, meios de comunicação, ensino e saúde, têm sido implantados recentemente.
B) A infra-estrutura na área de Telecomunicações, em especial para os serviços de radiodifusão de sons e imagens (televisão) atenderam até
1984 apenas às principais cidades de Santa Catarina: Florianópolis, por ser a capital, Blumenau e Joinville —
2?
e 1? maiores parques industriais do Estado, Criciúma ao Sul, Lages no Planalto Serrano e Chapecó. De tal forma que, quando a BV decidiu em 1986 ampliar seu mercado, expandindo o sinal de Florianópolis até o Vale do Rio do Peixe, precisou contar com recursos próprios de aproximadamente 500.000 dóla res para bancar o projeto.8A Rota Oeste foi implantada em etapas, a partir de Flo- rianópolis.9 Da capital o sinal foi levado até Rancho Queimado, Urupema e Lages. De Lages a Curitibanos, Fraiburgo, Videira, Caçador, Campos Novos, Joaçaba e Concórdia. O sinal da BV chegou a Joaçaba em maio de 87 e a Videira em agosto do mesmo ano. Com essa rota, a empresa conseguiu ampliar sua área física de atua ção em torno de 50%, e não teve como contar com as redes da Embratel, inexistentes na região, para essa expansão.
8 - C/e. Paulo Veloso, Diretor Comercial da fí V 09- C f e. Mapa
38 *
A partir do momento em que nós ampliamos a capaci
dade de levar a imagem para outras cidades, nós amplia
mos o espaço para poder comercializar. Nós levamos o
sinal onde não tinha o sinal da Manchete. Abrimos su
cursais em algumas praças: a de Lages fo i atendida ini
cia/mente pela de Blumenau, mas posteriormente ga
nhou uma própria. A de Videira atende Caçador, Curi-
tibanos e Fr aiburgo. Abrimos uma sucursal em Joaça-
ba que trabalha Concórdia, Campos Novos e toda aque
la região ali*W
Os maiores problemas enfrentados pela BV na implanta ção da Rota Oeste e no melhoramento das Rotas Sul e Norte foram as intempéries e os atrasos no fornecimento de materiais.
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Eles se comprometem a entregar em 30, 60, 90 dias e
levam 6 meses para entregar. Houve atraso na entrega
dos componentes. A questão tempo é importante*.
11 A localização das torres de retransmissão demandava por vezes negociações prolongadas com as Prefeituras dos Municípios. Elas deviam ser instaladas no topo de morros, com estrada de acesso, e rede elétrica nas proximi dades. Às Prefeituras cabiam algum dispêndio, tipo abrir a estrada, eventualmente comprometer-se a fazer mídia por algum período; à emissora, divulgar o município e suas realizações, por certo o próprio prefeito; e às empresas da região patrocinar eventos e programas da emissora. As articulações eram demoradas e pacientes. Quan do se realizaram em outubro de 1988 os Jogos Abertos de Santa Catarina, a BV já ti nha instalado 18 micro ondas de ida e volta entre Florianópolis e Joaçaba. Gerou ima gens e sons da competição para todo Estado e demais emissoras. Até então, as ima gens de Joaçaba eram geradas numa concessão especial da Telesc — Telecomunica ções de Santa Catarina. O tronco de Embratel mais próximo ficava em Lages.As torres de retransmissão são rastreadas permanente mente por técnicos da BV. Nada mais incômodo para anunciantes ou aiidiência do que não poder assistir a um programa previamente divulgado. A implantação é fácil, o maior problema é a manutenção e a assistência.
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Tem que dar manutenção, senão não tem jeito (...) O
canal tem que estar bem ajustado, antena certinha
*11IV.5-A Competência da Sobrevivência
O interesse dos controladores da Perdigão Agro-Indus- trial por meios de comunicação começou em 1975 quando adquiriram o controle da Rádio Videira. Sede da “ holding” , Videira centralizava também as decisões envolven do comercialização e abate de aves e suínos. Na região, famílias que têm minifúndios aderiram nas últimas décadas ao modo de produção dos grandes frigoríficos, Sadia, Perdigão, Chapecó, por exemplo, na condição de integrados. O integrado recebe o pinto de 1 dia e o cria até o momento do abate. E era através da Rádio Videira que os integrados ficavam sabendo do dia e hora que os caminhões da Perdigão iriam buscar os animais para abate.
10 - Segundo Tarquino Mnrillas de Pádua, diretor da TV R V, c/e. depoim ento. 1! - C onform e depoim ento d e Tarquino M orillos de Pádua.
39 A cidade tinha deficiências de comunicações. Telefones e outras benfeitorias tecnológicas tardavam a chegar. Mas todas famílias tinham pe lo menos um rádio de pilha. Pontualmente às 12h e com repetição às 20h, que são os horários em que o colono está em casa, fazendo refeições, ía ao ar a “ Hora do In tegrado” . Nele, a Perdigão anunciava então o roteiro de coleta de animais, lembra va os últimos cuidados que os integrados deveriam ter com as pocilgas, galinheiros e com os próprios bichos.
Quando Roberto Rogério do Amaral precisou botar a TV Lages no ar e não teve capital suficiente, convidou os controladores da Perdigão Agroindustrial a se associarem a ele. Depois, adquirido o controle acionário da BV de Florianópolis e de algumas rádios nas áreas de influência da Perdigão Agroindus trial, configurou-se em sí uma diversificação e também uma rede de comunicações. Até hoje, os controladores da Perdigão Agroindustrial detêm os mesmos 48% do ca pital social da TV Planalto de Lages, ainda afiliada à TVS e integrantes do SBT. Ro berto Rogério do Amaral, entretanto, têm reduzido suas cotas no capital social da BV, dos 3% de 1984 a um índice impreciso, por não participar mais dos aumentos de capital. Em 1987, os controladores ganharam a outorga de concessão para a BV de Joaçaba, que entrou no ar definitivamente em maio de 1988.
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O principal retorno não-financeiro é o retorno institu
cional para a Perdigão. Toma a empresa mais respeita
da. (...) A rede não fo i constituída a fim de fazer ou de
ser usada como instrumento partidário; os controlado
res não necessitam disso
*!2Os controladores entendem no entanto que a empresa tem de ser do tamanho que o mercado lhe permite. A BV voltou em 1986 a produzir mais telejornalismo, conforme exposto no capítulo anterior, consolidou uma relação estável custo-benefício, de tal forma que, se não dá lucro, prejuízo não tem. E voltou- se à profissionalidade.
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