4.2 Analyse de l’apprentissage avec le modèle DIAP
4.2.2 Apprendre avec les interfaces
A Antiguidade Clássica, como já mencionado, é representada pela sociedade grega, cuja tradição registra grandes filósofos como Tales, Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles. Embora existam algumas referências a uma possível origem oriental da filosofia grega não se encontram fundamentos para tal afirmação de acordo com Abbagnano (1999, v.1, p.17), notadamente considerando-se o caráter especulativo e científico dos gregos, em contraposição ao caráter prático e religioso da filosofia oriental. A sociedade grega possuía conceitos tão diferentes das civilizações do Oriente no mesmo período histórico, que parece fundir-se numa unidade com o mundo europeu dos tempos modernos (HAGUETTE, 2004).
Segundo Abbagnano (1999, v.1, p.18)
...a filosofia grega é investigação racional, autônoma, que não se assenta numa verdade já manifestada ou revelada mas somente na força da razão e nesta reconhece seu único guia. O seu limite o polêmico é habitualmente a opinião corrente, a tradição, o mito, para além dos quais
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Paradigma no seu sentido amplo pode ser considerado como um conjunto de pressupostos que estruturam e condicionam o pensamento de toda uma época (BOUFLEUER, 2001:11).
intenta prosseguir; e até quando termina por uma confirmação da tradição, o valor desta confirmação deriva unicamente da força racional do discurso filosófico.
Na sociedade grega, ainda de acordo com Abbagnano (1999, v.1), fundamentado no problema em torno do qual gravitou sucessivamente a pesquisa filosófica, podem distinguir-se cinco períodos, - cosmológico, antropológico, ontológico, ético, religioso – que não representam rígidas divisões cronológicas, mas podem dar uma idéia do nascimento, desenvolvimento e decadência da pesquisa na Grécia antiga.
No período cosmológico, que compreende as escolas pré-socráticas, com exceção dos sofistas, predomina o problema de pesquisa da unidade que garante a ordem do mundo e da possibilidade do conhecimento humano. No período antropológico, que compreende os sofistas e Sócrates, o problema de pesquisa consiste em perseguir a unidade do homem em si mesmo e com os outros homens, como fundamento e possibilidade da formação do indivíduo e da harmonia da vida em sociedade. No período ontológico, que compreende Platão e Aristóteles, o problema de pesquisa é o de identificar, na relação entre o homem e o ser, a consideração e a possibilidade do valor do homem como tal e da validade do ser como tal; no período ético, que compreende o estoicismo, o epicurismo, o cepticismo e o eclectismo, o problema de pesquisa concentra-se na conduta do homem, caracterizando-se pela diminuta consciência do valor teórico da pesquisa. O período religioso, compreende as escolas neo- platônicas e suas afins, é dominado pelo problema de encontrar para o homem a via da reunião com Deus, considerada como a única via de salvação.
A educação, princípio por meio do qual a comunidade humana conserva e transmite a sua peculiaridade física e espiritual, na sociedade grega, era compreendida como pertencente por essência à comunidade, resultado da consciência viva de uma norma que rege a comunidade humana, quer se trate de família, de uma classe ou de uma profissão ou mesmo um grupo étnico ou um estado. Assim, a essência da educação consistia na modelagem dos indivíduos pela norma da comunidade.
Somente com a sociedade grega pode-se conscientemente afirmar que passou a existir uma história da cultura, pois esse povo tem uma importância universal como educador, devida à sua nova concepção do lugar do indivíduo na sociedade. Com os gregos, os conhecimentos sobre as formas do pensamento, da oratória e do estilo são uma marca indelével, acrescente-se a matemática, a geometria, a lógica, a música, as artes, a poesia e, por fim, sua maior contribuição, a filosofia.
De acordo com Jaeger (2003, p.3), o princípio educativo da civilização grega considerava que uma educação consciente poderia até mudar a natureza física do homem e suas qualidades, elevando-lhe a capacidade a um nível superior. O conceito principal é a consciência clara dos princípios naturais da vida humana, da natureza significativa, teleológica. Todas as coisas tendem à sua realização, regidas por suas forças corporais e espirituais. O grande pecado é a desmedida, ou seja, buscar algo que não está na sua própria natureza.
A educação do homem grego colocou como da mais alta importância a consciência clara dos princípios naturais da vida humana e das leis que regem suas forças corporais e espirituais. Esses conhecimentos foram identificados como força formativa a serviço de uma educação compreendida como um processo de construção consciente, à qual se poderia aplicar com propriedade a palavra formação, tal como a usou Platão. Nessa força formativa, seria possível reconhecer o projeto pedagógico da Antiguidade Clássica: formar verdadeiros homens, numa idéia que não representa o individual, mas essencialmente a norma da comunidade, enxergando o homem político (JAEGER, 2003, p.13-16). Assim, o projeto pedagógico da Antiguidade Clássica, representada pela sociedade grega, poderia ser definido por uma palavra, paidéia, cuja tradução não se resume em um vocábulo, mas consiste nas diretrizes formativas do seu projeto pedagógico.
Segundo Jaeger (2003, p.18), os representantes da paidéia grega são os poetas, músicos, filósofos, retóricos, oradores, ou seja, os homens de estado, pois o principal fator estava na energia, mais importante para a formação do espírito do que para a aquisição de aptidões corporais.
A palavra paidéia tem seus primeiros registros no início do século V, significando a “criação dos meninos” (JAEGER, 2003, p.25). Portanto, ao buscar um entendimento sobre o projeto pedagógico da sociedade grega deve ser abordado, inicialmente, o conceito de arete, que remonta a tempos anteriores, e que concentra o ideal de educação dessa época.
Da mesma forma que em relação à paidéia, não se tem um termo equivalente para a palavra arete na língua portuguesa, aproximando-se, com maior propriedade da palavra virtude, como expressão do mais alto ideal cavalheiresco unido a uma conduta cortês e distinta, e ao heroísmo guerreiro – força, coragem, nobreza e bravura militar; o sentimento do dever, em face do ideal que o indivíduo sempre tem diante de si e a honra estão também intimamente ligados à arete. A ânsia de se distinguir e a aspiração à honra e à aprovação, são vistas como aproximação da pessoa do ideal e tidas como fonte de valor. Afirmava-se que a arete heróica extrema só era obtida com a morte física do herói, mas se perpetuava após a sua morte. A
fonte de inspiração da formação grega nesses primeiros tempos encontrava-se na aristocracia, pois consideravam que o homem comum não possuía arete (JAEGER, 2003, p.27-32).
Com a evolução dos tempos, a arete ou virtude, que compunha o ideal de formação do homem grego foi sofrendo modificações. O desejo de honra e heroísmo já não é tido como meritório nos tempos que se seguiram, passando a ser tido como ambição. Considerava-se que a altivez ou generosidade, como virtude ética, seria o que há de mais difícil de ser alcançado. A altivez provinha da arete: “a honra é o troféu da arete; é o tributo pago à destreza”(JAEGER,2003, p.34). Esse conceito de arete constitui o fundamento do caráter aristocrático do ideal de formação dos gregos.
Segundo Jaeger (2003, p.35), Aristóteles apresenta o esforço humano no aperfeiçoamento da arete como produto de uma auto-estima elevada à sua maior nobreza. Sua elevada apreciação da auto-estima, bem como a valorização do desejo de honra e da altivez, fundamentam-se nas instituições da ética aristocrática. Essas aspirações não se referem ao sujeito físico, mas ao mais alto ideal de homem que o espírito consegue forjar e que todo nobre aspira a realizar em si próprio. Acreditava-se que quem estima a si próprio seria infatigável na defesa dos amigos, em sacrificar-se pela pátria, em abandonar dinheiro, bens e honrarias para fazer sua a beleza, ou seja, não perder nenhuma ocasião de conquistar altivez e generosidade.
Nesses tempos primitivos, quando ainda não existia uma compilação de leis, nem um pensamento ético sistematizado, o significado pedagógico do exemplo tinha uma importância vital como guia da ação, considerando-se o valor educativo dos exemplos criados pelo mito, sob a forma de advertências ou estímulos. A mitologia grega contém um significado normativo pela sua própria natureza, mesmo quando o mito não foi empregado expressamente como modelo ou exemplo. Segundo Jaeger (2003, p.61), Platão destaca na mitologia grega a obra de Homero, como exemplo mais notável e manifestação mais clássica da concepção do poeta como educador do povo grego, pois nela foram concentradas todas as forças estéticas e éticas do homem, enfatizando que toda a educação tem seu ponto de partida na formação de um tipo humano nobre, nascido do cultivo de qualidades próprias dos senhores e dos heróis.
Numa outra perspectiva, diversa do mundo e da cultura dos nobres, tem-se a obra de Hesíodo, que retrata a vida no campo na metrópole grega no final do século VIII, revelando à sociedade novos valores, notadamente o trabalho e a justiça, como único caminho de alcançar a arete, pois o homem precisa ajustar as suas aspirações à ordem divina que governa o mundo. Assim, a justiça e o trabalho constituem os pilares do projeto pedagógico da educação popular grega, voltada para classes sociais até então excluídas de qualquer projeto de
formação consciente, tornando-se possível que os homens se ajudem a encontrar o caminho para alcançar o ideal por meio de seus ensinamentos (JAEGER, 2003, p.85-105).
A aristocracia e os camponeses estão de certa forma ligados a polis, forma mais firme e acabada de vida social, surgida com a organização do Estado grego, a partir da cidade de Esparta, que passou a ser o centro principal sobre o qual se organiza historicamente o período mais importante da evolução grega. É o marco social da história da formação grega.
Nesse segundo momento o grande problema da educação passou a ser a busca da superação do individualismo para um modelo ideal de formação fundamentado nas normas obrigatórias da comunidade. O Estado espartano, com sua autoridade rigorosa, surgiu como a solução prática desse problema, tendo a paidéia como fim maior do Estado, ou seja, toda a estruturação da vida individual era baseada em princípios e sistematizada de acordo com normas absolutas. Assim, o ideal homérico da arete heróica transforma-se no heroísmo do amor a pátria, considerando-se herói aquele que morre pela pátria, e o ideal seria a formação de um Estado de heróis. Essa é a essência da arete espartana. Surge então a idéia de imortalidade do eu ideal, político, uma vez que o homem político só alcança a perfeição através da perpetuação de sua memória na comunidade pela qual viveu ou morreu.
Com a polis, a justiça converteu-se numa nova força formadora tão importante agora quanto o ideal heróico havia sido para a aristocracia arcaica. A arete modificou-se desde a sua concepção mais antiga, a aristocrática, com seus ideais de beleza e heroísmo até o ideal do homem político vinculado a um Estado jurídico, englobando e satisfazendo todas as exigências do cidadão perfeito. Segundo Platão, toda arete está incluída no ideal do homem justo, distinguindo quatro virtudes fundamentais: a fortaleza, a piedade, a justiça e a prudência. A verdadeira educação é para Platão uma formação geral. Então, a antiga cidade- estado é o primeiro estágio depois da educação nobre, na caminhada do ideal para uma educação ético-política geral e humana (JAEGER, 2003, p.147).
A palavra paidéia, anteriormente mencionada, teve o seu sentido estrito efetivamente utilizado com a sofística, movimento espiritual de grande importância, para a origem da educação, que vem ao encontro da necessidade de uma cultura adaptada à educação política das classes. Segundo Jaeger (2003, p.335), a paidéia grega dos sofistas englobou o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais no sentido de uma formação espiritual consciente. Os sofistas, ou sábios, faziam da sabedoria uma profissão e a ensinavam mediante remuneração. Com o movimento educacional sofista, passou-se a exigir uma arete baseada no saber, com o intelectual surgindo em primeiro plano, fazendo com que o saber e a inteligência fossem difundidos de forma geral, na vida social e política. O objetivo da educação sofista era
a formação do espírito, do homem no seu ser concreto, como membro de um povo ou de um ambiente social, considerado nos seus caracteres específicos e não como um fragmento da natureza, numa visão que se poderia considerar como o início da fase antropológica da filosofia grega. Os sofistas foram considerados os fundadores da ciência da educação, pois estabeleceram fundamentos da pedagogia válidos até hoje. Partem da premissa segundo a qual a natureza humana está normalmente apta para o bem. O mal se constitui em exceção (JAEGER, 2003, p.348, ABBAGNANO, 1999, v.1, p. 64).
De acordo com Jaeger (2003, p.1001), outro marco importante na história da educação grega é a relevância da Medicina, que aparece como uma área de conhecimento especial do mais alto grau metodológico e é, ao mesmo tempo, pela projeção do saber num fim ético de caráter prático, a personificação de uma ética profissional exemplar, invocada para inspirar confiança na fecundidade criadora do saber teórico para a edificação da vida humana. Tornou- se parte integrante da cultura geral. Sua relação com a paidéia dá ao médico uma posição única na Grécia clássica: a decisiva importância do conceito de natureza humana como base para o processo educativo.
Durante o século V, começam a se deslocar as relações entre a filosofia da natureza e a Medicina. O surgimento da literatura médica é o exemplo mais importante da progressiva tecnicização da vida e da diferenciação em profissões mais especializadas, para as quais se requer uma formação especial com altas exigências espirituais e éticas, mas só acessível a um reduzido número de pessoas. Platão fala da força da saúde e da beleza concretamente como as virtudes do corpo, comparando-as às virtudes éticas da alma. A arete consiste na simetria das partes ou das forças, que em linguagem médica constitui o estado normal. Como a igualdade e harmonia constituem a essência da saúde e de toda a perfeição física em geral, o conceito “são” é ampliado até formar um conceito normativo universal aplicado ao mundo, pois suas bases são a igualdade e a harmonia, forças responsáveis pela criação de tudo o que é bom e justo em todos os níveis da vida. Assim, pode-se afirmar que o ideal grego da cultura humana é o ideal do homem são (JAEGER, 2003, p.1059).
Diante dos recortes apresentados, pode-se concluir que o projeto pedagógico da Antiguidade Clássica, a paidéia, formou um conjunto de diretrizes que objetivaram a formação do homem enquanto indivíduo e num segundo momento enquanto cidadão, deixando presente nessas duas visões características marcantes. O homem deveria ser belo e são, como condição primeira de formação do espírito. Deveria ser justo, corajoso, destemido, honesto, bom e objetivar a morte gloriosa, em combate enquanto indivíduo e pela pátria enquanto cidadão. Os séculos posteriores consideraram sempre a Antiguidade Clássica como
um tesouro inesgotável de saber e de cultura, quer no sentido de uma dependência material e exterior, quer no de um mundo de protótipos ideais.
Vale ressaltar a influência da religião, notadamente do cristianismo, que trouxe uma nova orientação da filosofia, e conseqüentemente da formação do homem, consolidada em um movimento que se denominou Patrística. A partir de uma verdade revelada, aceita pelo homem como proveniente de um testemunho superior, representando uma unidade entre a filosofia e a religião, ganhou força o cristianismo, que se apresentou como a autêntica filosofia que absorve e leva à verdade o saber antigo, do qual pode e deve servir-se para trazer elementos motivadores para sua própria justificação.
Segundo Abbagnano (1999, v.2, p.78), as doutrinas fundamentais do cristianismo são sistematizadas pela Patrística, período de elaboração doutrinal, cujo objetivo era transformar a doutrina eclesiástica num organismo único e coerente, fundado numa sólida base lógica, tendo a contribuição dos escritores cristãos da antiguidade, denominados “Padres da Igreja”, cuja obra foi aceita e absorvida como própria pela igreja. Ainda de acordo com Abbagnano (1999, v.2, p.78), a Patrística pode dividir-se em três períodos: o primeiro, dedicado à defesa do cristianismo, que vai até o ano 200; o segundo, que vai do ano 200 até cerca de 450, dedicado à formulação doutrinal das crenças cristãs; e, o terceiro, que vai até cerca de 750, marcado pela reelaboração das doutrinas já formuladas.
Na Patrística latina destaca-se a contribuição da obra de Santo Agostinho, que viveu entre os anos de 354 e 430, e foi chamado de Platão cristão, pois renovou no cristianismo a investigação platônica, tendo a fé como seu fundamento. Para Agostinho, a busca da verdade envolvia o homem como um todo e não só seu intelecto, pois para ele a verdade é o caminho e a vida. O entusiasmo religioso e o ímpeto místico para a verdade não agem nele como forças contrárias à sua busca, mas a robustecem e dão um valor e um calor vital. Sua personalidade exerceu forte poder de sugestão junto ao pensamento cristão e medieval e também sobre o pensamento moderno e contemporâneo (ABBAGNANO, 1999, v.2, p.122-136).
A contribuição da Antiguidade Clássica foi tão forte que muitas das diretrizes formadoras da antiguidade continuaram plenamente válidas na modernidade, renascidas após um longo período de grande predominância da religiosidade em que mergulhou a humanidade na Idade Média.