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Analyse de la variance ` a trois facteurs totalement emboˆıt´ es

Neste ponto, faz-se uma pequena reflexão sobre o trabalho desenvolvido desde 2008, ano de início de atividades, em ambientes digitais com o grupo participante do CAO - Nuclisol/Piaget de Vila Real, e de dissertação de mestrado, até ao ano corrente e final de tese de doutoramento.

Atente-se que não se trabalha apenas com tecnologia, mas também com pessoas, pessoas com necessidades especiais do fórum da perceção cognitiva que têm uma vasta área de habilidades/capacidades; são ensinadas por repetição (assim o ensino do uso das tecnologias deve ser pensado da mesma maneira); conseguem desenvolver a sua própria linguagem, o seu próprio contexto [ZARIN 2009] e os seus próprios modelos mentais; são muito distraídas e revelam curto espaço de atenção; não se dão bem com o inesperado; têm dificuldades de memorização; têm capacidade de aprendizagem, mas o processo é lento [ZARIN 2009].

Naturalmente não se poderia apenas delinear estudo algum e esperar obter resultados válidos, se não se preparasse o grupo com uma realidade que não pensavam ser a sua. Teve-se que correr atrás do sucesso e integrar realmente o grupo com as tecnologias (computador e Internet). Compreender os utilizadores e só depois otimizar os estudos, perceber o que causa ou não transtorno e dificuldades e dar-lhes opções acessíveis para não invalidar os testes apenas porque o utilizador não está motivado ou perdeu o interesse pela tarefa devido ao grau de dificuldade ou à sua deficiência.

Assim sendo, sente-se a necessidade de concretizar este passo visto ser essencial salientar a evolução e definir o ponto de situação da aprendizagem por ser um grupo de pessoas com deficiência intelectual que era completamente excluído dos ambientes digitais, já que não interagia com as tecnologias nem tão pouco usufruía, nos momentos de aprendizagem.

Utilizaram-se diferentes métodos para o esclarecimento da informação dada, desde conversas informais em grupo até entrevistas individuais, experiência das tecnologias em grupo e numa posterior fase individualmente em contexto de sala de aula, onde é dada tarefa e o utilizador com ajuda do observador deve resolvê-la. O tempo é variável considerada não só para medir a eficácia, mas também para favorecer o processo de aprendizagem, se o utilizador com deficiência intelectual não der input, deve ser solicitado ou então passar à próxima tarefa [ZARIN 2009].

O primeiro ponto de trabalho foi a apresentação das ferramentas usuais de trabalho, como o monitor, teclado e rato, onde se deram a experimentar os diferentes dispositivos e mostraram-se as diferentes funções, como ligar e desligar e a visualização da informação no monitor, a escrita de palavras com o teclado e a seleção com o rato. Depois, deu-se uma breve e simples explicação de ambiente digital para despertar não só o interesse, mas também para demonstrar que estão a trabalhar num novo e abrangente ambiente com uma panóplia de serviços disponíveis e uma panóplia de novas oportunidades.

Nesta primeira impressão, mostram grande interesse e grande vontade de começar a manusear os dispositivos.

No segundo ponto, apresenta-se o browser Internet Explorer (IE), sublinhando como devem utilizar os diferentes botões: a seta de retorno à página anterior, página seguinte, maximizar/ minimizar a janela, abertura e fecho da janela, scroll (quando existia) e numa última fase, a hiperligação dos favoritos.

Aqui, além de se permitir o uso do rato, também se incita à navegação numa plataforma de atividades educativas “O LEME” (oleme.com) com o objetivo de identificar hiperligações, reconhecidas visualmente pela alteração da cor (Azul), do sublinhado ou pela modificação do ponteiro do rato (passa de seta para mão).

As primeiras dificuldades observadas foram na utilização do rato, sendo que nenhum apresentou melhorias na primeira atividade. Além disso, mostram pouca paciência, quando uma página demora muito a abrir (mais de 25 segundos).

Desde logo, se observa a pouca apetência pelo texto, sendo as imagens mais percetíveis e motivadoras ao clique.

Note-se que esta fase durou 50 horas, aproximadamente 150 minutos por indivíduo. Numa segunda fase, foi pedido aos utilizadores para ligar o computador, abrir o

browser, clicar no ícone dos “Favoritos”, escolher a página inicial de “O Leme” e um

jogo à escolha.

Aqui, as dificuldades observadas foram ao nível de recordar a função dos botões do

browser e a capacidade de clicar na área reduzida dos mesmos. Apresentam também

dificuldades, quando o sítio Web apresenta muitas páginas, denotando fraca noção de posição.

Apesar de se observar uma melhoria no manuseamento do rato por parte dos utilizadores, esta tarefa demonstrou-se muito penosa e árdua de superar, em termos de precisão e manuseamento dos dois botões. O uso do sroll evidenciou-se uma tarefa não compreendida, pois além de a evitarem não compreendiam o uso da funcionalidade. Outro registo importante é que qualquer tarefa que tivesse duração de execução superior a 10 minutos, causava aos utilizadores inquietação e desmotivação.

Esta fase demorou aproximadamente 30 horas no total, 90 minutos por indivíduo. Seguidamente, realizou-se um estudo comparativo entre menus constituídos por hiperligações compostas por imagens e texto. Chegou-se à conclusão que as imagens são mais percetíveis, quando intuitivas, do que o texto animado. Aliadas ao áudio, revelam-se uma ajuda preciosa, especialmente para participantes com dificuldades na leitura [Rocha 2008].

Sublinhe-se que este estudo demorou 20 horas, aproximadamente 60 minutos por indivíduo, o que constituiu um dos maiores constrangimentos do trabalho, devido à contingência da disponibilidade dos participantes.

Passados dois anos, no ano letivo de 2010/2011, voltou-se à instituição com o objetivo de explorar ainda mais o leque de opções acessíveis para melhorar a interação com as tecnologias. Sabendo-se, à partida, que o grupo poderia ter ganho ou perdido elementos e/ ou não utilizado as tecnologias, ao longo deste tempo, preparou-se novamente uma fase de treino.

Nesta fase (2010), descrita no capítulo 3, observaram-se dificuldades, ao nível do manuseamento do rato, que foram ultrapassadas no decurso das tarefas, revelando-se o uso do teclado como dispositivo de input muito difícil, sendo a identificação e replicação dos caracteres as de maior preocupação.

Felizmente, com todo este estudo, os utilizadores do CAO-Nuclisol/Piaget aprenderam a pintar e construir puzzles, a jogar na Internet, a navegar em motores de pesquisa como o Google e o Sapo, divertiram-se com a pesquisa de conteúdos preferidos no Youtube, aprenderam não só a mexer com o teclado, rato e aplicação de voz, mas também montar computadores e divertiram-se no uso e calibração do dispositivo de eye tracker. A taxa de sucesso na conclusão em todas as tarefas é bastante elevada.

Observou-se também que os utilizadores melhoram a sua interação, atendendo aos seguintes fatores/condições: o layout de trabalho deve ser simples (tanto para navegação como pesquisa), não confundir o utilizador com informações extras; preferem resultados em imagens, mormente por vídeos (imagem em movimento); demonstram, mais uma vez, grande atenção e vontade de interagir com imagens; quanto ao campo de pesquisa, pensa-se que deve estar em lugar de destaque para uma rápida identificação; os resultados da pesquisa devem ser apresentados de forma organizada, sem muita informação relacionada; a publicidade parece confundir o utilizador.

Em suma, verificou-se que a metáfora atual de interação, introdução de caracteres/palavra-chave, não é acessível a este público visto que constitui um processo difícil devido às dificuldades que o público apresenta na leitura e escrita o que consubstancia o mote para todo o estudo efetuado posteriormente.

Constata-se que os constrangimentos maiores não se confinam à falta de interesse ou motivação destas pessoas no uso das tecnologias, mas sim ao não aparecimento de conteúdos/ferramentas que as contemplem e as definam também como público-alvo.

Neste quadro, questiona-se: será que o nível de hipocrisia entre os criadores de conteúdo Web é tão grande que pensam mesmo que todas as pessoas têm as mesmas necessidades? Ou que apenas não existem pessoas com necessidades especiais? Ou então, talvez, que os conteúdos não sejam interessantes para este grupo de pessoas. Seja como for, a ignorância não é desculpa.

Claramente foi possível, ao longo dos quatro anos de estudo com este grupo em específico, verificar que se tivessem as mesmas oportunidades de acesso às tecnologias, sejam elas recentes ou não, conseguiriam facilmente atingir um bom nível no uso das mesmas.