“Le paragraphe oral anglais”
4.3 L’expression de la modalité!: point de vue et modus
4.4.1 Analyse discursive du cadre
Aatif, que recuperou na altura rapidamente das suas convulsões devido ao consumo de álcool e à falta de medicamentos para epilepsia, aproveitou ao máximo as ajudas da “S. C. M. L. “, desde os medicamentos, à vaga concedida no abrigo de São Bento, à nova placa dentária postiça, passando pelo convívio e formação das actividades do festival “Casa de Todos”, onde afirmou que era feliz graças ao apoio recebido. Inclusivamente teve direito a arranjo novo dos dentes. Demonstrava boa vontade em receber as ajudas, fazia o que era acordado e agradecia os apoios, não temendo a sua situação de ilegal em Portugal.
Rui prefere estar em Portugal, apesar de estar ilegal, mas devidamente monitorizado pelo “S. E. F. “ que acompanha a sua situação de imigrante ilegal. Considera-se injustiçado devido ao facto de ter pago “Segurança Social” quando trabalhava, e a polícia, ou outra entidade responsável, não tentarem garantir os seus direitos, de maneira a legalizá-lo, aproveitando o facto de nessa altura ter efectuado os devidos descontos. Pensa que tem de ser ajudado por uma instituição para regularizar os documentos e estar legal em Portugal. Mas reconhece – embora não seja explícito na mensagem – que é difícil ser ajudado dado que já teve tantas recaídas de institucionalizações e, inclusivamente, chegou a enganar a assistente social da “S. C. M. L. “, usando o dinheiro atribuído pela instituição para a renda do quarto e para renovar passaporte para as suas dependências, enganando a assistente ao morar novamente na rua. Mas não acredita que o senhorio ou a instituição não se tivessem apercebido que ele não vivia onde dizia viver.
Afirma que enquanto esteve a trabalhar, sentia-se bem, tinha uma vida confortável e ocupada, via televisão brasileira – o canal tv globo - numa casa que era por ele sustentada. A roupa lavada não faltava, nem comida feita na cozinha no conforto do lar, com a possibilidade de tomar banho quando quisesse. Referindo-se a uma dignidade que ainda hoje procura manter, tenta não ser identificado como sem-abrigo. É dessa vida e dessa possibilidade que tem saudades, e de não estar tão condicionado pelos horários e regras ditados por outros: de não ir tomar banho somente quando o
balneário está aberto, e de não comer somente o que lhe dão e a horas determinadas. É pois a falta de privacidade e descanso, para além de conforto que Rui mais sente falta.
João considera que os abrigos em que esteve eram um “ninho de drogas” e, enquanto ex-toxicodependente, acha insuportável que os seguranças passem drogas para dentro dos abrigos. Não compreende como é que depois de trabalhar e ter uma vida de descontos, não tem direito ao “Rendimento Social de Inserção” (“R. S. I. “) que lhe foi cortado, depois de pedir duas vezes. O que acha injusto, quando imigrantes de leste e de outras nacionalidades têm com facilidade o rendimento sem qualquer tipo de historial de descontos para segurança social, como várias vezes reclamou perante os assistentes sociais do “Centro Social Paroquial de São Jorge de Arroios” que lhe trataram dos pedidos. Recusa tratamento ao alcoolismo e prefere trabalho. Não entende para que quer o centro de emprego a morada dele (João dá a morada do “Centro Social Paroquial de São Jorge de Arroios”) se nunca lhe mandou nenhuma carta de trabalho.
Paulo de Carvalho deparou-se sempre com entraves a ser empregado de forma a prosseguir os programas de apoio nas instituições por onde passou, devido a nunca ter conseguido legalizar-se. Na altura da entrevista estava triste com a dificuldade em legalizar-se, de modo a aproveitar a ajuda dos programas das várias instituições. Estava envolvido de forma voluntária, nas actividades dos movimentos Adventistas, Evangélicos e Jeová, de Lisboa, para criar a rede social que lhe faltava. A falta de saídas profissionais e de possibilidade de aproveitar as ajudas institucionais, faziam-no ponderar voltar ao Brasil, por não querer ficar sem-abrigo por mais tempo.
A quinta em Abrantes onde Domingos foi internado, apoiada pelo “Instituto Droga e Toxicodependência” e “Segurança Social”, sob gestão na altura pelo Padre José da Graça, responsável pela Igreja de Abrantes, tem como missão a desintoxicação do alcoolismo e drogas. Considera que, no seu caso, não teve resultados práticos, pois teve uma recaída no alcoolismo, assim que saiu da Quinta, na Estação de comboios de Abrantes. A prática terapêutica seguida, prescrevia vitaminas e medicação às horas da refeição e os doentes eram acompanhados durante um ano por médicos, psicólogos, psiquiatras e enfermeiros. Durante esse período de internamento existia apoio aos medicamentos, tabaco, produtos de higiene, e subsídio. A sua experiência da Quinta, tal como o albergue faz-lhe lembrar a tropa, talvez devido ao rigor e disciplina impostos pelo tratamento. Realidade a que já está habituado, a recaída de Domingos deveu-se à forma como acedeu em ir para a Quinta de Abrantes, que partiu de um engano em
relação aos serviços que os técnicos de serviço social lhe prometeram que iria usufruir em Abrantes.
Foram uns gajos com... Os... Os assistentes sociais. Porque eu não fui com esse objectivo.(...) Disseram que não é aquilo que eu encontrei. Porque eu quando fui pa' lá, já tinha o problema Na... Na.... Nas pernas, tinha... Já andava de canadianas. Disseram-me que lá era um sítio bom, era uma clínica, que tinha lá fisioterapia, que tinha tudo. Quando cheguei lá, não era aquilo nada que eu encontrei. Não havia lá fisioterapia, não fiz lá tratamento nenhum. (...) A única coisa que eu fiz lá, foi o tratamento da minha doença do alcoolismo, mais nada. O alcoolismo... e drogas (Entrevista 4: 167).
Não concorda com o modelo de funcionamento dos programas de ajuda, e cujo seguimento é feito pelos técnicos. O seu caso ilustra o caso de muitos sem-abrigo, ao fim de viver um ano internados numa quinta regressam ao albergue sem tratamento médico para o alcoolismo e voltam a beber. Vivendo o seu quotidiano praticamente sem nenhuma ocupação, para além das leituras de jornais e livros em bibliotecas, as visitas às irmãs em Lisboa, médicos e alguns conhecidos de Angola que encontra na rua. No geral, os programas destinados a sem-abrigo só servem, na sua opinião para assegurar que funcionários e técnicos tenham garantido o seu ordenado, porque sabem que existem sempre pessoas a ocupar as vagas criadas nestes programas.
Apesar das regras rígidas que são semelhantes a um funcionamento militar; da degradação física, com paredes com bolor; (não deixa apesar de tudo de ficar satisfeito por ter onde sítio onde dormir), dos roubos de telemóveis que teve no albergue São Bento; afirma ser a má educação no tratamento dos sem-abrigo por parte de funcionários e o seu cheiro a álcool que o fazem ter medo de uma recaída. Queixa-se de não existir dignidade no tratamento dos utentes do abrigo, causando um sentimento de raiva, e sendo frequente a expulsão do abrigo sem ninguém averiguar os motivos para tal acontecer. Refere ainda que as assistentes sociais não fazem praticamente nada! para impedir esta situação.
Sim uma humilhação, porque eles sabem que eles... eles tratam mal muitos deles... Os funcionários tanto como segurança, como funcionário, tratam mal o... O... os utentes porque sabem hoje sai aqui, amanhã vai aquele, o Estado vai pagar sempre p'ra alguém lá 'tar. (…) Até às vezes vão inventar motivos que não de facto não aconteceram, porque eles não não... Nunca chamam, nunca dizem porque é que aconteceu isso de facto, porque é que você foi pa' rua. (Entrevista 4: 143.)
Em São Bento aqueles merdas que lá 'tão à porta são uma cambada de bêbados! Cheiram a álcool da cabeça aos pés meu! Se eu... Se eu já fiz o tratamento. (…) Mas 'tamos num período de abstinência, porque um gajo 'tá sujeito a uma recaída a qualquer altura. E aqueles palhaços ali que 'tão
lá a trabalhar! Tão sempre bêbados, cheiram a álcool da cabeça aos pés. Isso pa' mim dá-me mau estar! (Entrevista 4: 193)
Mas a falta de ocupação resulta num sentimento de não saber o que fazer ao tempo. E é essa falta de alternativa recreativa e profissional à vida de desempregado que leva a recaídas, o facto se encontrarem novamente no albergue, um ano depois de realizarem o internamente para o álcool e drogas, mas sem nenhuma ocupação profissional.
Tens lá os técnicos. O acompanhamento é feito lá. Depois quando sais de lá já não... Vens pa' aqui (albergue São Bento). Vens pa' aqui como? Chegas aqui não tens... Mandam-te para um albergue. Se não tiveres uma cabeça forte. Se não tiveres espírito de querer mesmo deixar de consumir. Há muitas pessoas que por exemplo as más companhias é que levam à pessoa ter uma recaída. Porque não há aquele acompanhamento. O Estado gasta milhões de euros no no... No combate ao consumo de álcool de drogas. Por exemplo eu 'tou aqui nessa situação, porque eu tento esforçar muito, fazer uma força psicológica para não consumir. Porque toda a vontade é pouca. (...)Por exemplo eu, 'tar na rua o dia todo, isto não é... não é... não é lógico. Se um gajo não tem nada que fazer, que é isto? Sai das oito às seis da tarde. Isto é algum acompanhamento de alguém que 'teve a fazer um tratamento? Isto é algum acompanhamento? (Entrevista 4:140)
(…) 'Tão o que é que eu fazia. Andava aí a deambular. Ali hoje 'tou aqui. Amanhã 'tou ali. Isso também fatiga. Essa rotina fatiga. Um gajo dá em doido. E pa' uns não darem em doido continuam a consumir, tem recaída. E não há um acompanhamento dessas pessoas. O Estado gasta dinheiro, no tratamento dessas pessoas. Mas não, não, não dá o acompanhamento muito, muito importante na vida dessas pessoas, não faz uma integração sociedade das pessoas. Que é, as pessoas depois são, depois são internadas três, quatro vezes vão para quintas. Porque não há o acompanhamento, das pessoas assim à deriva. A maior parte desses sem-abrigo que estão aqui em Lisboa, a maior parte deles já andaram em comunidades. A maior parte deles já andaram em comunidades, sei eu. Mas muitos continuam a consumir, tanto álcool como droga. Até porque não há acompanhamento (Entrevista 4:140-141).
Domingos defende é preciso ir além os modelos institucionais de internamento, só uma política de empregabilidade dos sem-abrigo por parte do Estado, resultaria como forma de combate ao imenso tempo livre que levam a recaídas no consumo de álcool e drogas.
(...) Por exemplo criou-se a EMEL, a EMEL é uma empresa municipalizada. Porque é que não pegaram nessa maior parte das pessoas que estavam em situação de sem-abrigo e davam trabalho a essa gente? Nós por exemplo vamos para centros, vamos para um centro de recuperação. Não que fizemos o tratamento do álcool com as drogas até o... Isto não somos acompanhados depois. Somos entregues aonde 'távamos. Voltamos outra vez para os albergues, voltamos outra vez na mesma situação. No me'mo ambiente, no me'mo grupo onde a gente 'tava a consumir. E não... não... É um trabalho mal feito... Isto tinha que haver um acompanhamento muito... Muito sério sobre essa situação. O sem-abrigo devia... é
que depois de fazer tratamento de alcoolismo de drogas, ele tinha que ser acompanhado, tinha que arranjar uma... Um emprego, uma casinha, não digo uma casinha. Com o emprego ele logo conseguia pagar uma renda... agora não, eles pegam nas pessoas... pagam o tratamento... Isto tudo é uma questão de negócio para mim, isto tudo é negócio porque cada cabeça do sem-abrigo para o álcool lá para essas comunidades. Eles estão lá a funcionar, ganham dinheiro com isto. Isto tudo é uma questão de dinheiro. Negócio. Eles dali não vêm que a situação social da pessoa, eles ali vêm tá tratado vem outro e 'tá lá a entrar dinheiro. Eles querem é dinheiro não querem resolver o problema social. Eles querem é resolver o problema deles. Não é o problema dos sem-abrigo. Essas instituições que andam aí, que dizem que 'tão a... Combater como é.... Como é que eles dizem... contra os sem-abrigo. Dizem que querem tirar a gente da rua, isso é uma questão de negócio. É mentira não conseguem porque... Eles não dão andamento no processo, mandam um gajo para uma comunidade. Eu tive um ano na comunidade... Vim para aqui, onde é que eu estou, 'tou aqui. Se eu quisesse consumir, voltava a consumir. Porque não quero mesmo.... Né?. Porque vontade não me falta. Mas não quero. Já 'tive em todo o lado. Ora mandaram-me para um albergue onde os funcionários são bêbados. A maior das pessoas que 'tão lá bebem e fumam drogas, se eu quisesse consumir eu tinha agarrado aquilo... (Entrevista 4, página 192-193)
Confessa achar menos adequada a vivência em quartos alugados, pois o senhorio controla mais o que se faz, embora admita que muitas vezes os problemas surgem quando não são cumpridas regras básicas que permitam manter a higiene nas áreas comuns da casa, começando em simples actos como lavar a louça. Transmite na entrevista que se sente melhor no abrigo, onde é mais livre de movimentos, onde o senhorio não sabe de tudo o que se faz e onde a distância relativa aos companheiros do abrigo é maior do que se vivesse num quarto partilhado com outros residentes na mesma casa. Por viver agora num abrigo, considera-se não um sem-abrigo mas um
semi-abrigo pois tem um tecto, ainda que seja temporário. Pode-se afirmar que, até
certo ponto, existe um amparo institucional que substitui ausência do lar e de uma família nuclear. Actualmente está a renovar os documentos oficiais, que caducaram. Não tem o “R. S. I. “ e prefere não o ter, por recear que o dinheiro que daí viria lhe pudesse causar uma recaída dos consumos de álcool. Por ter osteoporose, prefere tratar- se em Portugal, nos serviços de saúde públicos, uma vez que afirma que os cuidados de saúde de Angola não estão ao mesmo nível. Mas admite a possibilidade de voltar, um dia, para Angola.
Encara com naturalidade o facto de viver separado das irmãs, resignado e atribuindo a situação actual ao percurso familiar inicial de infância, pelo facto de ter sempre vivido separado das meias-irmãs:
(…) Ah! Assim 'tou melhor! Eu acho que, já, já... Gosto de 'tar assim, já me habituei a esta vida. Vou acabar por viver sempre assim. Afastado delas. Mas também nunca vivi com eles. Nunca vivi com
eles. Somos irmãos, vivemos, nascemos, mas nunca fomos criados juntos. Nunca fomos criados. Nunca vivemos assim, muito tempo no me'mo lado (Entrevista 4, página 174).
Domingos regista com agrado um sentimento de amparo ao ser seguido, de saberem como ele 'tá no que toca à sua participação no projecto “Margens”, que o faz viver no abrigo e não consumir. Contudo, a atitude de aceitação de algum tipo de ajuda emocional, para além da materialidade das ajudas dadas, contrasta com as atitudes intempestivas e revoltadas que tem contra a inacção dos projectos relativos aos sem- abrigo, cujos modelos de assistência empregam técnicos e funcionários mas não prevêem a empregabilidade dos sem-abrigo, mantendo-os por isso sem-abrigo dependentes para toda a vida nas instituições.
Se, antes do projecto “Margens” se realizar em 2014, estava desconfiado e descrente face aos 8 meses de preparação e à pouca recompensa financeira, hoje considera que, apesar de ser uma experiência positiva – uma alternativa ao grande período de desocupação de actividade que conhece – todavia não deixa de representar mão-de-obra gratuita para o festival, recebendo apenas cerca de 50 euros no seu aniversário. Enquanto os organizadores responsáveis formados recebiam ordenados, Domingos não recebia. No mesmo tom zangado que tem em relação aos serviços de assistência social, afirma que não havia razão para dar justificação no projecto, quando tinha que se ausentar para ir ao médico, se não se tratava de um trabalho. Após a realização do festival sentiu que compensou a sua colaboração, pelo prazer que lhe deu entrar numa peça de teatro, o que lhe permitiu também conhecer mais pessoas na cidade de Lisboa.
Enquanto ex-toxicodependente e ex-alcoólico, o controle do aparelho médico institucional, faz-se sentir regularmente sobre Domingos, com a sua aprovação e vontade própria. É acompanhado nos alcoólicos anónimos do Hospital Júlio de Matos, na terapia de grupo, em consultas de rotina com o psiquiatra. O controlo psiquiátrico influencia a admissão de Domingos na possibilidade de receber propostas do centro de emprego. Com efeito, a carta psiquiatra que o acompanha notificou ao assistente social do centro de emprego, que Domingos é considerado uma pessoa irresponsável, devido à sua doença de alcoolismo. Para além da incapacidade de realizar a maioria dos empregos devido à osteoporose, sob o rótulo de patologia, é negado a alguém que vive das ajudas sociais do Estado o acesso ao instituto emprego devido a avaliação psiquiátrica. O discurso a que foi sujeito, de que tem uma doença e que está em constante recuperação do seu vício, faz com que não discuta esta rotulagem negativa.
Porém, admite que nunca criou expectativas negativas, ao ponto de pensar vir a ser sem-abrigo. Pelo contrário, pensou que um dia viria a ter uma vida desafogada com uma casa para morar:
Epá sempre... Olha te digo, vou ser sincero. Nunca pensei chegar no Estado em que eu cheguei. Sempre pensei ter uma vida boa. Não sei. Nunca pensei ter uma vida... Uma vida de uma pessoa por exemplo muito rica. Porque eu nunca cresci assim nessas mordomias... Fui sempre crescendo assim.... Eu também não cresci com muitas dificuldades. Porque eu... A minha família não é uma família pronto, não era uma família da classe média (Entrevista 4, página 195).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os episódios ocasionais de entreajuda e solidariedade de quem vive rua, não fazem esquecer que existe uma grande diversidade entre os sem-abrigo. Na verdade cada um parece viver a sua vida, de maneira bastante individual. Não obstante a existência de grupos de amigos ou conhecidos para passar o dia, pouca união se verifica que permita afirmar que formam uma comunidade, tal é a sua fragmentação. Nos abrigos e nos espaços públicos que frequentam também é assim, existe quem queira partilhar algo da sua vida, outras pessoas não. A maior proximidade ou cisão está organizada entre alcoólicos e ex-alcoólicos, drogados e ex-drogados, nacionalidades, línguas faladas e grupos linguísticos próximos que tornam a comunicação possível.
A falta de recursos sente-se, de forma constante, no quotidiano de alguém que é pobre, sobretudo na esfera do consumo de bens e serviços, limitando possibilidade de uma vida pública na cidade. Este é facto incontornável na vida destas pessoas, invisíveis durante o dia na maioria das vezes, à noite, tornam-se visíveis nos espaços onde dormem, sem privacidade. Esse é um factor que enuncia uma espiral de perda na vida (Susana Silva 2007). Os espaços públicos à excepção de parques e passeios pela cidade, requerem sempre o consumo, sobretudo se forem espaços de diversão. Até os próprios transportes públicos, assim como a participação na vida política e cívica. A falta de dinheiro, impede obviamente de frequentar espaços públicos em que é obrigatório o consumo de bens. Outra situação que advém da falta de posses é o excesso de pessoas em casas, não permitindo espaços para convívio. A maior utilização do espaço público, surge assim como consequência da falta de privacidade e espaço nos quartos arrendados ou nos albergues. É na rua onde se pernoita. Tive a oportunidade de observar que havia
conhecidos que se falavam mais ou menos, mas que era raro uma amizade íntima de
laços fortes e duradouros. Pediam-se favores regularmente, normalmente dinheiro. Estes mesmos favores poderiam dar origem a que mais tarde, quando cobrados, houvesse violência verbal e, em última instância, física. A luta de recursos na rua, seja por lugares de dormida ou por bens, também pode causar situações de conflito.
Contudo, apenas são visíveis ao olhar alheio, de curiosidade ou até de julgamento malicioso, aqueles que assim o deixam. A opção de dormir em abrigos institucionais, retira-os da rua e dos seus riscos, de serem reconhecidos e serem vistos, ora como coitadinhos ora como praga. Porém, até pelas mais variadas razões, ao preferir dormir na rua, existem maneiras de evitar estas situações. A estratégia número um de
quem não quer ser mal visto e consequentemente excluído, consiste em manter a higiene diária em balneários públicos espalhados pela cidade ou no abrigo, se por lá dormem. Frequentemente, as idas às bibliotecas durante o dia e os passeios pelo centro da cidade garantem as vantagens do anonimato. Quase sem excepção, essa manutenção da