2. Démarche de définition d’un plan
2.1. Analyse et description d’un système en fin de vie
A sociologia da infância propõe discutir a primeira fase da vida do ser humano livre de interpretações e das representações e imagens historicamente construídas sobre e para as crianças. Trata-se de uma área nova, recém-desbravada por pesquisadores de todo o mundo. Segundo Quinteiro (2002, p. 137), os sociólogos da infância reuniram-se pela primeira vez em 1990, no Congresso Mundial de Sociologia, para debater sobre os vários aspectos que envolvem o processo de socialização da criança e a influência exercida sobre esta pelas instituições e agentes sociais com vistas à sua integração na sociedade contemporânea. A
partir daí, realizou-se um verdadeiro boom na produção estrangeira, mais do que isto, iniciou- se, como disse Sarmento “um olhar caleidoscópico sobre a Sociologia, no sentido de identificar a presença da infância no desenvolvimento do pensamento sociológico e descortinar as razões da sua gritante ausência nas correntes clássicas da sociologia” (SARMENTO, 2002, p. 07).
Para Gondra (2010, p. 2), os sociólogos da infância apresentam um traço comum, concebem a infância não apenas como “um intervalo cronológico natural”, mas sim como “um período da existência humana”, período este com importância social dentro do grupo em que se insere. Simplificando, a infância não é, pura e simplesmente, um fenômeno natural, mas, uma construção social.
Segundo Vasconcelos (2007, p. 8), infância é um conceito socialmente variável no espaço e no tempo. Ela busca a etimologia da palavra latina criança – irmã de criatura, criadora, inovadora, possibilidade constante de reinvenção da vida – para discutir sua concepção de criança enquanto ser que está em permanente e intensa interação com o mundo e com as outras crianças. Vasconcelos compreende que, apesar de estar quase sempre vivenciando situações mediadas por adultos, a criança é capaz de ressignificar a cultura que lhe é apresentada. Ela apropria-se e reinventa o mundo onde vive.
Sarmento (2007) defende a visibilidade social para a criança, uma vez que, para ele, os estudos e pesquisas sobre as crianças e a infância são produzidos pelos adultos. Portanto, trata-se de ciência que tem sido predominantemente produzida a partir de uma perspectiva adultocentrada: “as vivências, culturas e representações das crianças escapam-se ao conhecimento que delas temos.” (p. 26).
Para Sarmento (2007), há uma ausência da consciência da ideia da infância durante a maior parte da história. Segundo ele, o interesse histórico pela infância é relativamente recente. Ele concorda com a visão de Ariès (1981) com relação ao fato de que o “sentimento de infância” apareceu muito tardiamente no mundo ocidental. Assim, os séculos XVII e XVIII constituem o período histórico em que a moderna ideia da infância se cristaliza definitivamente. A partir daí a infância assume um carácter distintivo e constitui-se como referenciadora de um grupo humano que não se caracteriza pela imperfeição, incompletude ou miniaturização do adulto, mas por uma fase própria do desenvolvimento humano.
sociais da infância proposta por James, Jenks e Proutd10 para discutir, posteriormente, sua tese. Os autores distinguem dois períodos fundamentais: o das imagens da criança pré- sociológica e o das imagens da criança sociológica. São cinco subdivisões para o período da criança pré-scociológica:
a - A criança má – baseada na ideia do "pecado original"– a imagem da criança má está associada a toda uma ideia de que elas não são controladas pela razão, mas dominadas pelo instinto, com potencialidade permanente para o mal. A referência filosófica é a teoria de Hobbes sobre a exigência de controle dos "excessos", pelo poder absoluto do Estado sobre os cidadãos e dos pais sobre as crianças, como meio de evitar a anarquia social ou o transbordamento individual.
b - A criança inocente – contrapondo-se à criança má, a criança inocente funda-se no mito romântico da infância como a idade da inocência, da pureza, da beleza e da bondade. Encontra em Rousseau o seu paradigma filosófico. A tese aqui dominante é a de que a natureza é genuinamente boa e só a sociedade a perverte.
c - A criança imanente – trata-se da formulação de John Locke, filósofo inglês do século XVII. Para ele, a criança é uma tábua rasa na qual podem ser inscritos quer o vício quer a virtude, a razão ou a desrazão, sendo missão da sociedade promover o crescimento com vista a uma ordem social coesa. A imanência da criança torna cada ser humano um projeto de futuro, mas que depende sempre da "moldagem" a que seja submetido na infância.
d - A criança naturalmente desenvolvida – a psicologia do desenvolvimento, a partir, especialmente, dos trabalhos de Piaget, constitui-se como o principal referencial de entendimento e interpretação da criança no século XX, com profunda influência na pedagogia, nos cuidados médicos e sociais, nas políticas públicas e na relação quotidiana dos adultos com as crianças. Os autores sinalizam essa imagem em torno de duas ideias centrais: as crianças são seres naturais, antes de serem seres sociais, e a natureza infantil sofre um processo de maturação que se desenvolve por estágios.
e - A criança inconsciente11 – Freud é a sua figura de referência desta imagem social
10 JAMES, Alisson; JENKS, Chris; PROUT, Alan. Theorizing childhood. Cambridge: Polity Press, 1998. 11 Seguimos a ordem apresentada por Sarmento (2007, p. 29 – 32, grifos do autor).Compreendemos que se o
que imputa ao inconsciente o desenvolvimento do comportamento humano, com incidência no conflito relacional na idade infantil, especialmente na relação com as figuras materna e paterna.
Observamos que cada tipo da criança pré-sociológica é o resultado da construção de sucessivas representações das crianças ao longo da história. Trata-se de um efeito de inviabilização da realidade social da infância, pois, além de reduzir a sua complexidade, enxerga a criança como uma entidade singular abstrata, tendo em vista que a exclui da sua realidade social. Para Sarmento (2007, p. 32), são normas de constituição do conhecimento científico sobre as crianças, através do recurso a um conjunto sofisticado de escalas e testes de "medição" do "desenvolvimento natural" da criança.
Segundo Sarmento (2007), as imagens da criança pré-sociológica não correspondem a etapas ou estágios históricos estanques, elas coexistiram e em alguns momentos até tiveram uma sobreposição de forma tensa ou de modo sincrético. Para o autor, estas imagens continuam moldando nossas ações cotidianas e o pensamento no mundo ocidental. Ele defende a necessidade, agora, da busca de um conhecimento que desconstrua os estereótipos sedimentados.
Sarmento (2002, p. 3-4) apresenta o conceito de “culturas da infância”, estabelecido pela Sociologia da Infância como um elemento distintivo da categoria geracional. Por esse conceito entende-se a capacidade das crianças em construírem de forma sistematizada modos de significação do mundo e de ação intencional, que são distintos dos modos adultos de significação e ação. Ou seja, a Sociologia da Infância compreende a criança como criadora da sua própria cultura.
Para Sarmento (2002), as culturas da infância são tão antigas quanto à infância. Resultam do processo social de construção da infância, coevo da modernidade. A diferença geracional é, assim, historicamente construída, com efeitos na evolução do estatuto social e das representações sociais sobre as crianças: “as culturas da infância transportam as marcas dos tempos, exprimem a sociedade nas suas contradições, nos seus estratos e na sua complexidade.” (p.04)
O sociólogo apresenta como exemplo de forma cultural produzida pelas crianças as
criança inconsciente, uma vez que as publicações de Piaget foram posteriores às de Freud. Sarmento (2007)
brincadeiras e os jogos infantis, “cuja memória histórica da sua construção se perde no tempo e que são hoje um património preservado e transmitido pelas crianças, numa comunicação intrageracional que escapa em larga medida à intervenção adulta” (SARMENTO, 2002, p. 07).
Mas, o autor ressalta a participação do adulto na concepção de cultura da infância ao dizer que as culturas da infância “constituem-se no mútuo reflexo de uma sobre a outra das produções culturais dos adultos para as crianças e das produções culturais geradas pelas crianças nas suas interacções de pares” (SARMENTO, 2002, p. 7-8).
Para Sarmento, as ideias e representações sociais sobre as crianças, bem como as suas condições de existência, estão a sofrer transformações significativas, em homologia com as mudanças que ocorrem na estruturação do espaço-tempo da vida, nos seus mais diversos espaços. Apesar de não citar o nome de Postman (1999), ele critica certo “medidor de infância” que decreta a “morte da infância” (SARMENTO 2004, p. 01). O autor considera que a 2ª modernidade radicalizou as condições em que vive a infância moderna, mas não a dissolveu na cultura e no mundo dos adultos.
Pontua, ainda, que a revolução industrial trouxe consigo uma mobilização no sentido de inserir as crianças na produção industrial explorando-as nas diversas atividades produtivas. Ele observa que o grupo infantil é sempre o mais afetado pela pobreza, pelas desigualdades sociais e pela ausência de políticas públicas eficientes. Para Sarmento (2007, p. 37), as crianças “permanecem como único grupo social verdadeiramente excluído de direitos políticos expressos”, uma vez que sua voz não tem peso político.
Sarmento (2007) sinaliza que esta restrição de direitos políticos à infância é uma característica da modernidade ocidental e não um caráter universal. Existem sociedades e comunidades no oriente, no hemisfério sul e em alguns grupos étnicos minoritários na Europa que não excluem a criança da vida e das decisões coletivas e assim podem participar de assembleias e de espaços de decisão coletiva, com efetiva participação cívica.
O olhar adultocêntrico sobre a infância registra a ausência, a incompletude ou negação das características de um ser humano completo. Sarmento (2007, p. 36) compreende que a infância é uma categoria social composta por sujeitos ativos, que interpretam e agem no mundo e, assim, estruturam e estabelecem padrões culturais.
A concepção da criança sociológica muda nossa perspectiva com relação à criança. Antes dessas leituras, ela era vista, por nós, como um ser mais frágil e submisso do que na
realidade é. Além disso, agora, enxergamos com mais clareza o papel da criança como construtoras das realidades sociais. Mas, concordamos com Buckingham quando este afirma que na Sociologia da Infância a criança é vista com uma autonomia exagerada.
Paramos aqui registrando um questionamento para reflexão: até que ponto a criança é um ser passivo ao ponto de ter se deixado tornar um ser adultizado – como prevê Postman – e até que ponto é um ser essencialmente ativo e autônomo? David Buckingham vai discutir esses paradoxos.