Theoretical Perspectives on Trade, Growth and Poverty
3.4 The African experience
Como destacamos anteriormente, o problema na educação capixaba não era econô- mico e sim político, pois o Estado liberava dinheiro para atender aos empresários que, em contrapartida, davam sustentação política ao Governo. Esse “joguinho de favores”, para atender quem o apoiava, fazia do Poder Executivo um balcão de negócios. Nas entrevistas realizadas com os professores, para a realização desse trabalho, quando perguntei se havia influência dos políticos na educação, ficou claro que essa ação
acontecia, por exemplo, na indicação de diretores, monitores e inclusive na oferta feita por políticos em troca de favores eleitorais. A professora de Língua Portuguesa Dulcinéia Rosa de Oliveira3destacou que uma das artimanhas utilizadas pelos políticos ligados à ARENA era “esconder” as cadeiras, no concurso de remoção, só liberando para os professores que rezavam na cartilha do Governo.
De acordo com o advogado Joaquim Silva, havia uma intensa troca de favores, mas como nada era institucionalizado, quem denunciava sofria perseguição política, ameaça de remoção e, no caso dos monitores, a cessação de contrato. Uma dessas situações, a indicação de diretores, foi destacada pela professora Neusa Maria dos Santos4, pois “todo mundo sabia, mas ninguém tinha coragem de denunciar”. Essa ação, contudo, passou a ser questionada pela direção da UPES.
Myrthes Bevilacqua Corradi denunciava em todo Brasil essa situação, exigindo eleição para diretor escolar. Segundo o advogado Joaquim Silva, o questionamento à indicação dos diretores era uma “loucura, pois se havia indicação política para Governador e senador biônico, era o fim do mundo pedir eleição direta, principalmente porque a indicação de algumas pessoas para esse cargo demonstrava o descompromisso dos governantes com a educação pública”.
Várias reportagens, tanto em 1976 quanto em 1977, mostraram que muitas vezes os interesses dos políticos ligados ao governo estavam acima da lei. Porém, a di- ferença desse momento é que essa prática foi denunciada num jornal de grande circulação, mostrando à sociedade capixaba uma ação que, anteriormente, ficava nos ”porões“. Um exemplo de prática politiqueira denunciada por Myrthes foi assunto na edição do jornal A Gazeta, do dia 3 de Março de 1977: “Presidenta da UPES vê demissão de professora como jogo de políticos”.
Na reportagem, Myrthes questiona a recente exoneração de Maria Zuleica Haddad Fafá da gestão da Escola de Primeiro e Segundo Graus Afonso Cláudio, cujo nome é o mesmo do município, e a nomeação de Dalzira Afonso Barbosa para o referido cargo. Ao saber da notícia, a presidente procurou imediatamente o Secretário de Educação, Arabelo do Rosário, para mostrar que tal atitude contrariava não somente o Estatuto do Magistério, mas também a lei federal nº 5692. Essa lei exigia que para o cargo de direção de estabelecimento de ensino o indicado tivesse curso de formação em administração escolar ou possuísse direitos adquiridos por ter ocupado o mesmo posto anteriormente. No entanto, a substituta da professora Maria Zuleica não se enquadrava em nenhuma duas situações, pois era estudante de direito. Um dado que mostra que a indicação política era bastante comum foi verificado na mesma reportagem
3 OLIVEIRA, Dulcinéia Rosa de. Entrevista a professores aposentados da rede estadual de ensino do
Espírito Santo. 2015.
4 SANTOS, Neusa Maria dos.Entrevista a professores aposentados da rede estadual de ensino do
aonde é destacado que o prefeito de Itapemirim, João Bechara, e o deputado estadual Antônio Jacques Soares,ameaçavam de demissão duas professoras caso elas não votassem nos candidatos por eles indicados. Outra reportagem que mostra a influência do jogo de interesses na educação foi publicada no jornal Posição, edição de 14 de setembro de 1977, com título: “A bomba”.
A matéria mostra que no município de Linhares, a diretora Joacy Calmon Mantova- nelli, da Escola de Segundo Grau Emir de Macedo Gomes, , decidiu punir três alunos que soltaram pequenas bombas dentro do colégio. Depois de convocar o Conselho de escola e fazer o registro na delegacia do município, foi concedida transferência aos educandos. De acordo com a reportagem, tais alunos pertenciam a famílias pode- rosas na cidade, sendo um deles filho da autoridade máxima do município, o juiz Judson Gonçalves Aguiar. Os estudantes então, ajuizaram uma ação judicial e conseguiram reverter a situação, obrigando a escola a recebê-los novamente. Porém, depois da decisão judicial, somente um deles voltou a estudar no colégio. O mais es- tranho de todo esse episódio foi a ação e a omissão dos personagens envolvidos na história.
O posicionamento inicialmente firme da diretora acabou se transformando devido aos interesses envolvidos, pelo medo de enfrentar a autoridade máxima do município ou por conveniência política, visto que era candidata na próxima eleição, ela resolveu permanecer no cargo, quando a lógica seria ter pedido exoneração depois da desauto- rização da Justiça. Para justificar sua decisão, a diretora afirma que o questionamento sobre a volta dos alunos deveria ser feito pela Secretaria Estadual de Educação. Neste ponto, destaca-se a omissão do Secretário da Educação, Arabelo do Rosário, como também do aliado político da gestora, o deputado Emir de Macedo Gomes, que não se manifestaram sobre o acontecido. A reportagem mostra também que o episódio ser- viu para abalar ainda mais o prestígio da ARENA no município. Dentre os envolvidos, a única posição que se manteve inalterada durante todo o processo foi a da UPES, que apoiou a decisão do Conselho de Escola. O relato desse episódio demonstra que o jogo político na educação funcionava a todo vapor, visto que, por uma série de conveniências e jogos de interesses, somente a UPES teve coragem de denunciar e enfrentar a situação, enquanto os outros personagens se ajeitavam da forma que mais lhes convinha.
Contudo a posição firme da presidente, e consequentemente da entidade, atraiu para a UPES inimigos poderosos. Denunciando de forma muito firme esse “jogo sujo do poder”, uma mulher, dirigindo uma entidade composta em sua maioria por mulheres, chamou a atenção da sociedade capixaba para a situação de desmando em que se encontrava a educação capixaba.